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Jornadas de Junho e o surgimento da APH-BH

Não há como falar da articulação entre os ativismos de Belo Horizonte sem tocar em ju- nho de 20137, momento amplamente recordado pelos entrevistados como emblemático

na constituição de redes. As Jornadas de Junho, como alguns autores denominam a série de protestos que eclodiram em todo o país durante a Copa das Confederações em 2013, foi, e é ainda hoje, um assunto amplamente explorado desde diversas abordagens, inclu- sive aquelas que aqui interessam: as articulações que dela emergem e a sobreposição entre o espaço físico e o digital na configuração dos protestos. Tal período tem complexidade suficiente para toda uma dissertação, porém irei restringir-me à compreensão de suas contribuições às formas de ação e organização dos ativismos urbanos de Belo Horizonte. Uma das entrevistadas sintetiza junho da seguinte maneira: “O que eu sinto é que pegou um monte de gente de BH, botou num liquidificador e bateu! Agora um monte de gente se conhece e constrói coisas juntas e eram coisas que estavam acontecendo paralelamente.”(T.P., 2015). Se com a Praia da Estação algum contato entre grupos distintos começou a estabele- cer-se, junho foi capaz de ampliar esse universo, colocando-os lado a lado, ainda que temporariamente, o que veremos adiante. Intensifica-se ainda a relação entre articulações no meio virtual e no espaço físico e a ênfase em ambos para dar visibilidade e vazão às inúmeras demandas apresentadas.

A complexidade dos atores reunidos durante as jornadas transparece nas pautas anuncia- das pelos cartazes empunhados pela multidão. Era possível identificar reivindicações tão diversas como o fim da corrupção, tarifa zero, o fim dos meios de comunicação de massa, educação de qualidade, contra a PEC37 e pela reforma política8. Talvez o que melhor

descreva o vínculo entre esses manifestantes seja o que Castells (2013, p.163) denominou togetherness9. O autor utiliza tal conceito para nomear os laços estabelecidos durante as

movimentações que se espalharam pelo mundo desde a Primavera Árabe em 2011. Dis-

6 L.T. 2011

7 L.T. 2013[2] 2013[3] 8 L.T. 2013[2]-2013[3]

9 Na versão em língua portuguesa o termo é traduzido como companheirismo, o que, entretanto, não transmite seu sentido original. Pela falta de um termo mais adequado, optei, então por mantê-lo em inglês.

tinto do que se estabelece em uma comunidade, em que a definição de valores comuns é um imperativo, togetherness seria a junção de indivíduos por denominadores comuns, sem a supressão de seus pontos de vista, objetivos, motivações e ideologias particulares. A Assembleia Popular Horizontal de Belo Horizonte10 (APH-BH) surge como uma

tentativa de construção de diálogo entre os diferentes atores mobilizados pelos protestos. Sugerida por grupos anarquistas e autonomistas – daí a ênfase no horizontal – a APH -BH surgiu logo após o primeiro protesto em Belo Horizonte ocorrido no dia 15 de junho de 2013 e propunha-se, conforme a descrição em sua fanpage, ser um:

[...] fórum de diálogo horizontal e autônomo para formulação de pautas e propostas para próximas mobilizações. [...] um espaço comum a todos os mobilizados na web e na rua. Um espaço comum para organizados e independentes. Convocação coletiva, geral e irrestrita para TODOS (in- divíduos, grupos, coletivos, organizações, partidos e outros) interessados em DISCUTIR sobre nossas futuras ações e manifestações. (APH-BH, 2013, on-line, grifo do autor).

A chamada deu-se via facebook que, a essa altura,já se estabelecia como uma ferramenta para os ativismos devido à sua permeabilidade na sociedade brasileira. Apesar da percep- ção de que a configuração dos protestos era a somatória do espaço concreto ao digital, percebe-se na descrição do grupo a centralidade das ações espaciais e da apropriação da cidade: “[...] essa página continua sendo um espaço de TROCA. Mas é fundamental que ocu- pemos um espaço público para decidir sobre a vida pública.” (APH-BH, 2013, on-line, grifo do autor).

Durante algum tempo, a APH-BH conseguiu mobilizar e colocar em diálogo, e também em conflito, diferentes grupos de Belo Horizonte, sobretudo aqueles de esquerda. Mem- bros de partidos, antigos ativismos, anarquistas, grupos ligados às ocupações e (várias) pessoas avulsas foram ali reunidas. No primeiro momento, os próprios protestos agrega- ram esses atores. Mais tarde, houve a tentativa de estabelecer uma articulação contínua para a defesa de determinadas pautas através da construção de propostas e de estratégias de luta. No entanto, foi curta sobrevida da APH-BH como um fórum amplo após o fim das manifestações. Ela foi se dissolvendo aos poucos até tornar-se uma rede em suspenso. Apesar de inativa, não deixou de existir, avivando-se em momentos de necessidade como o atual período de crise política, seguido pela abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Alguns entrevistados atribuem o arrefecimento da APH-BH às movimentações em função das eleições gerais em 2014, quando partidos e ativismos atrelados às candidaturas saíram das ruas para atuar nessas campanhas eleitorais.

[...] o grande problema é que nesse rescaldo de junho em que teve um

engajamento e uma mobilização muito grandes, grande parte dos movi- mentos que toparam fazer parte disso voltaram na medida em que veio uma outra eleição, vindo a eleição é nítido como as pessoas saíram das ruas e aí a direita tomou as ruas.(P.A., 2015)

A APH-BH demonstra a potência da união das esquerdas ao emergir como um ator temido pelo poder público e também por outros ativismos, sobretudo os tradicionais. Um fato que ilustra muito bem a relação estabelecida com os demais atores foi a já citada etapa municipal da Conferência Nacional das Cidades em agosto de 2013, na qual pude estar presente.

Nessa circunstância, parte da APH-BH, sobretudo os participantes ligados aos grupos de trabalho sobre a questão urbana e à mobilidade, decidiu envolver-se na Conferência, apesar de reconhecerem as contradições e críticas que perpassam esses tipos de processo. Some-se a isso o desconhecimento da dinâmica e práticas que formatam esses momen- tos de participação institucionalizadas - já consagradas para participantes veteranos, mas apenas evidente para os novos participantes no momento da Conferência, ou seja: mais do que ter as propostas aprovadas nessa etapa, o importante era conseguir eleger dele- gados que as defendessem nas fases estadual e nacional. Nesse sentido, a participação de ativistas de grupos tradicionais nas assembleias11 (atores com um acúmulo de conhe-

cimento sobre as práticas nesses espaços participativos) foi fundamental para a inserção da APH-BH na dinâmica de escolha dos delegados. Eles foram responsáveis por fazer o diálogo entre os novos ativistas - muitos recém ingressados no universo das lutas após ju- nho - e os antigos, garantindo à APH-BH duas vagas de delegado na etapa estadual. Tal acordo só foi possível devido ao imaginário em relação ao poder e dimensão do grupo, que, para o poder público e os ativismos tradicionais, evocava a lembrança da magnitude dos protestos de junho e da Ocupação da Câmara Municipal.

A mobilização em torno da APH-BH potencializou ainda duas outras articulações, a Ocupação da Câmara Municipal12 - entre os dias 29 de junho a 7 de julho de 2013 - e a

Ocupação da Prefeitura13, nos dias 29 a 31 de julho do mesmo ano. A primeira protago-

nizada pela própria APH-BH, a segunda pelos ativismos ligados às Ocupações Urbanas (Camilo Torres, Irmã Doroty, Eliana Silva, Vila Cafezal/São Lucas, Zilah Spósito, Rosa Leão e Dandara).

Apesar do pouco tempo em que conseguiu agregar de maneira ampla diferentes atores da cidade (hoje a APH-BH consegue agregar, em sua maioria, jovens libertários), a experi- ência teve impacto na cena ativista da cidade. Primeiro pela configuração de novas arti-

11Membros da Pastoral Metropolitana dos Sem Casa e do Movimento de Vilas e Favelas (MLB) esti- veram bastante presentes no início da APH-BH.

12 L.T. 2013[4] 13 L.T. 2014[3]

culações que até hoje perduram, segundo pela influência direta na emergência de novos ativismos como o Tarifa Zero BH e o MPL-BH, e, finalmente, pelos encontros com a diferença. Desses saem substrato para que os grupos se repensem, resultando em trans- formações, ou ao menos questionamentos, de suas formas de organização, métodos de ação e de tomada de decisão etc. É cada vez mais comum, por exemplo, discursos como horizontalidade e autogestão entre os ativismos, após junho de 2013 e as experiências das assembleias horizontais. É necessário salientar que discurso e prática nem sempre são equivalentes e que hierarquias e relações de dominação podem reproduzir-se mesmo nos grupos que se dizem horizontais e autogestionados.