6 RUAS: PROTESTOS EXPRESSIVOS NO BRASIL
6.9 Jornadas de 2015: “Queremos o impeachment da Presidenta e ”
Em 19 de março de 1964, no dia de São José padroeiro da família, uma marcha com cerca de trezentos mil manifestantes, presentes o presidente do Senado e o Governador do então Estado da Guanabara, com apoio do Governador do Estado de São Paulo, chegou ao destino, a Praça da Sé no centro da capital paulista, onde foi celebrada uma missa pela salvação da democracia e distribuídos panfletos convocando a população a reagir contra o Presidente da República. Era o movimento Tradição, Família e Propriedade (TFP), liderado por setores do Clero e por entidades tradicionais de mulheres em resposta ao comício da Central do Brasil no Rio de Janeiro, quando foram anunciadas as reformas de base. Do movimento, participam segmentos da classe média alarmados com o perigo comunista e favoráveis à interrupção do mandado presidencial. A iniciativa se repetiu em outras capitais após o golpe militar, quando passaram a ser chamadas "marchas da vitória”. Em 02 de abril, por exemplo, um cortejo na cidade do Rio de Janeiro contou com cerca de um milhão de manifestantes (LAMARÃO, 2015).
Mais de cinquenta anos depois, em 15 de março de 2015, milhares de pessoas se reuniram na Avenida Paulista em São Paulo, com cálculos variando de 1 milhão a 210 mil manifestantes, grande parte vestida de verde e amarelo. Com ampla cobertura de veículos da imprensa tradicional, inclusive ao vivo, o protesto foi repetido em dezenas de cidades, em maior ou menor proporção. O elevado número de manifestantes, alvo de polêmica pela divergência quanto à precisão, causou surpresa, alcançando 30 mil em Belém, 11 mil em Salvador, 15 mil no Rio de Janeiro, 60 mil em Goiânia, 45 mil em Brasília e 80 mil em Curitiba. Segundo pesquisa do Datafolha, 74% das pessoas que foram às ruas em São Paulo, por exemplo, nunca tinham participado de uma manifestação. Na pauta: defesa do impeachment da Presidenta. Os protestos ocorreram com tranquilidade e a PM, que não interveio nas manifestações, foi celebrada, com manifestantes até posando para fotos em selfie ao lado dos militares (MENDONÇA, 2015; ROSSI et al., 2015).
Na Avenida Paulista, um carro de som defendia a intervenção militar, com faixas e cartazes; outro chegou a tocar a música “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. O Hino Nacional também foi tocado repetidas vezes e a mensagem traduzia parte da reivindicação: "Vai para Cuba". A quantidade de carros de som, em número de três, refletia, então, a divisão entre os organizadores dos protestos, a despeito da motivação comum de descontentamento com o governo federal e com o partido político da Presidenta, além da pauta contra a corrupção, estimulada pela Operação Lava-Jato. Um grupo anti-impeachment identificado com o movimento Vem pra Rua, criado em setembro de 2013 e organizador de protestos pós-eleições de 2014 reunindo até 10 mil manifestantes, invocava a condição de suprapartidário e contra a intervenção militar, usando o slogan “basta”, divulgado nas redes sociais por artistas de televisão. O outro grupo, o Movimento Brasil Livre (MBL), dizendo-se apartidário, favorável ao impeachmento e ao liberalismo econômico e contra a ditadura, também já havia participado da organização de manifestações anteriores contra o governo federal, quando ainda não defendia o impeachment. Um terceiro grupo, o “Revoltados On Line”, surgiu defendendo de logo a intervenção militar, evocando os tempos da Ditadura de 64 e usando redes sociais para divulgar a agenda, além de vender kits antigoverno federal, sendo emblemática uma camisa com a estampa “Deus, Família e Liberdade” (BEDINELLI et al., 2015).
Os grupos voltaram às ruas em agosto de 2015, mantendo como pauta central a defesa do impeachment, com alguns manifestantes insistindo em intervenção militar. Novamente milhares de pessoas saíram às ruas do país, em dimensões semelhantes às manifestações de abril, em número menor do que os protestos de março, porém. Assim, segundo dados estimativos da PM, em São Paulo foram 350 mil manifestantes, em Brasília 25 mil, em Goiânia 70 mil, em Curitiba 60 mil, em Vitória 40 mil, em Florianópolis 26 mil, em Porto Alegre 30 mil, em Cuiabá 14 mil, em Maceió 12 mil, em Salvador 5 mil, em Belo Horizonte 6 mil, em Belém e Natal 5 mil, Manaus 4 mil, Aracaju 3 mil. No Rio de Janeiro, cujo número de manifestantes não foi divulgado, havia cinco carros de som conforme os grupos: Vem Pra Rua, MBL, Revoltados On line, Extermínio do Foro de SP e União Contra a Corrupção. Ainda em agosto, convocadas por movimentos sociais e sindicatos, foram realizadas manifestações em 17 Estados contra o impeachment, contra projetos de redução de direitos trabalhistas e contra o plano de cortes orçamentários do governo federal. Em dezembro, embora protestos tenham ocorrido em 22 Estados, o número de manifestantes pró- impeachment nas ruas foi bem menor (BBC BRASIL, 2015; BARIFOUSE, 2015; RIBEIRO, 2015).
Para o Artigo 19 (2015), o alto número de participantes nesses protestos decorre da intensa polarização pós-eleitoral, que passou também para as ruas, fazendo emergir ou consolidar grupos e movimentos que se reivindicam como conservadores ou de direita, contrários ao governo federal reeleito, ampliando-se de tal forma que em 15 de março de 2015 atos públicos atingiram dimensões comparáveis à maior manifestação das Jornadas de Junho de 2013, não havendo registro de atuação policial violenta, com dispersão de manifestantes.
Já para Tatagiba e Trindade (2015) o início das manifestações pode ser situado em 2007 com o Movimento Cansei, coincidindo com o processo do Mensalão, passando pelas Jornadas de Junho de 2013 (quando em certo momento grupos foram refratários à participação de militantes partidários), pelo contexto eleitoral de 2014 até chegar em 2015. Segundo os autores, esses atos têm se caracterizado, a despeito do grau difuso e heterogêneo, por um conjunto de pautas relativamente coerente: combate à corrupção, redução de impostos, defesa do livre mercado, contra programas sociais e programas de cota e favor da, redução da maioridade penal, da “cura gay" e intervenção militar nos moldes de 1964. Porém, em 2015, foi a primeira vez que o movimento social com espectro político conservador convocou com êxito grandes manifestações de rua após o restabelecimento da democracia.