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Parada do Orgulho LGBTT e Marcha das Vadias

6 RUAS: PROTESTOS EXPRESSIVOS NO BRASIL

6.7 Parada do Orgulho LGBTT e Marcha das Vadias

Marchas LGBTT foram iniciadas no Brasil em 1995, por ocasião da celebração de um congresso internacional na cidade do Rio de Janeiro. Na atualidade, cumprindo o propósito planejado de expandir a ação para centros urbanos de menor porte, disseminaram-se por todo o país, alcançando em 2011 o número de 387 paradas, sendo a manifestação da cidade de São Paulo considerada a maior do mundo, com público estimado em 3,5 milhões, segundo os organizadores (JESÚS, 2013; SILVA, 2011).

Essa forma de atuação nas ruas foi inspirada na experiência dos anos 70 nas cidades de Nova Iorque e São Francisco, quando marchas de teor político denunciavam a violência contra os homossexuais, especialmente após os chamados Distúrbios de Stonewall ocorridos em Nova Iorque a partir de 28 de junho de 1969. Na ocasião, por alguns dias, houve confronto nas ruas entre manifestantes e policiais após abordagem policial repressiva em um bar de mesmo nome, marcando assim o dia internacional do orgulho LGBTT. No Brasil, também a primeira manifestação pública pelos direitos LGBTTs foi uma passeata contra a violência policial ocorrida em junho de 1980 na cidade de São Paulo (JESUS, 2013). Para Silva (SILVA, 2011), as paradas, chamadas também de manifestas, têm cumprido o propósito político de dar visibilidade à agenda dos manifestantes, servindo ainda como local de

conscientização, de compartilhamento de crenças e valores societais, de reforço de identidade coletiva e reivindicação de igualdade de oportunidades e de direitos, além de identificar adversários.

O trajeto escolhido revela os propósitos dos organizadores. Em São Paulo, ela é tradicionalmente realizada ao longo da Avenida Paulista, descendo a Consolação e terminando na Praça da República, locais marcantes da cidade. Em Brasília, tem início em frente ao Congresso Nacional e termina na Rodoviária do Plano Piloto, sugerindo teor político e visibilidade social. Em Goiânia, começa entre dois parques muito frequentados para encontros do gênero e segue em direção à Praça Cívica, palco histórico de manifestações políticas goianas. As paradas constituem, assim, uma estratégia política de ação coletiva cada vez mais coordenada e planejada no plano nacional pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (ABGLT), entidade que congrega mais de 250 associações locais. Porém, as passeatas têm adquirido um repertório carnavalesco não apenas por sua movimentação em desfile, animada por personagens variados, fantasiados ou não, e fundo musical, como também pela linguagem festiva. Constituem, portanto, ritos, ao romperem temporariamente com a rotina e realizarem performances de identidade e papéis sociais, muito comuns na época do Carnaval, em crescente viés que tem sido objeto de reflexão crítica ao desviar-se da dimensão reivindicatória (SILVA, 2011; JESUS, 2013).

Já em abril de 2011, em Toronto, no Canadá, um policial declarou numa palestra sobre segurança no campus da York University que as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias para não sofrerem violência sexual. A declaração motivou um protesto nas ruas intitulado SlutWalk, “caminhada das vagabundas” na língua portuguesa, com o peito nu ou usando apenas sutiãs, contra a crença de culpar as mulheres vítimas de estupro pela violência. Presente em diferentes países desde então, com nomenclatura variando de Marcha das Vagabundas ou Marcha das Vadias, no Brasil; Marcha das Ordinárias ou Marcha das Galdérias em Portugal; Marcha de las Putas em países de língua espanhola (HELENE, 2013), o movimento SlutWalk não tem sede, tampouco é promovido por uma instituição, sendo organizado como um coletivo de voluntárias, horizontalizado, descentralizado e autogerido.

No Brasil, a primeira Marcha das Vadias, como se tornou mais conhecida, aconteceu em São Paulo dois meses após o Canadá, com cerca de 300 pessoas desfilando até o teatro onde uma comédia havia feito piada considerada apologética do estupro. Em 2012, a Marcha foi realizada em 23 cidades após convocação via facebook, twitter, youtube, blogs e e-mails, e no itinerário locais considerados símbolos da violência e do domínio sobre o corpo feminino, como delegacias de polícia e igrejas, alcançando uma presença significativa em Campinas,

devido aos numerosos casos de estupro na cidade. A realização das Marchas, aliás, fez aumentar o número de coletivos feministas, que se estabeleceram para além dos protestos e passaram a realizar outros eventos (MARTINI et al., 2015; HELENE, 2013).

Conforme Helene (2013), o objetivo ao se adotar uma expressão inicialmente pejorativa como “vadia” está relacionado à denúncia do estereótipo de culpa que recai sobre mulheres agredidas, defendendo o direito de autonomia da mulher, o que retoma a pauta do feminismo na década de 1970, dando novo significado ao termo “vadia” para relacioná-lo de modo positivo ao exercício da sexualidade feminina. Nas Marchas, as participantes, então, comparecem com roupas curtas, de lingeries, meias arrastão e com frases escritas nos corpo que questionam o patriarcado: “Meu corpo, minhas regras”, “Nosso corpo nos pertence!”, “Tirem seus rosários dos nossos ovários”, “Sou minha, só minha e não de quem quiser”. Com isso, procuram mostrar que peças de roupas, certos comportamentos ou lugares não deveriam ser utilizados para justificar estupro, abusos e violência, sendo a culpa do agressor. Desse modo, lembrando a queima de sutiãs nas ruas durante a década de 60, as manifestantes enfatizam o caráter político de questões vistas e tratadas anteriormente como específicas do ambiente privado, como o prazer da mulher, a opção sexual e a liberdade, além da legalização do aborto (GALETTI, 2014; HELENE, 2013).

Outra performance ritualizada nas marchas é o “peitaço”, no qual as mulheres se apresentam coletivamente com os seios à mostra, o que já resultou, no Rio de Janeiro, no único conflito registrado, quando uma série de mulheres sem vestimentas se prostraram em frente a uma igreja em missa, entrando em confronto com a Polícia Militar que chegou a usar spray de pimenta para afastá-las do local (HELENE, 2013).