4 A ANTESSALA DA EDUCAÇÃO NA COMUNA DE PARIS
4.1 DA LEI GUIZOT AO PROGRAMA DA ASSOCIAÇÃO DOS(AS)
4.1.2 A Primavera dos Povos e o debate educacional: a Lei Falloux e o
4.1.2.1 A Lei Falloux
Em junho de 1848, os trabalhadores organizaram uma insurreição para garantir sua representatividade no poder. O Governo Provisório, aos poucos, foi mostrando a real hegemonia que o compunha, expulsando processualmente os trabalhadores dos postos de comando. Os insurgentes de junho foram duramente derrotados pelos até então aliados republicanos. Como bem apontou Marx, esta foi a verdadeira vitória da República Burguesa, a derrota dos trabalhadores de junho. Na tentativa de afastar qualquer caráter social da República, seria necessário restabelecer o controle sobre a educação e a instrução pública. O caráter livre da educação, ou mesmo o afastamento da catequese das instituições escolares, deveria ser revisto.
Os burgueses, que antes da revolução [1848] se permitiam “jogar” com os voltarianos14, uniram-se em grande maioria aos clérigos. Thiers, interviu em 1845 contra o clero, declarando naquele momento que estes rejeitavam os instrutores laicos. A comissão mudou o projeto de lei sobre as escolas, Thiers, de modo fulminante, diz: “Eu prefiro os instrutores que tocam os sinos aos que
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Voltaire, filósofo do século XVIII, iluminista, contribui para a discussão sobre as liberdades civis e o religiosas, tecendo em suas obras críticas ao clero e demais instituições de poder. Para ler mais: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/revista/ edicoes/25/art04_25.pdf.
ensinam matemática (...) O remédio mais eficaz será confiar e assegurar a educação primária ao clero (...). Eu estou pronto a dar ao clero todo o ensino primário” (FROUMOV, 1948, p. 21).15
Para o projeto republicano burguês, proferido neste momento por Thiers16, o clero não era necessariamente um inimigo de classe. Pelo contrário, poderia, através de uma aliança política, garantir o controle dos setores mais populares. O projeto era construir um ensino moderno, com vista a potencializar o desenvolvimento das forças produtivas, mantendo a moral cristã, no sentido de doutrinar estes trabalhadores para manutenção da harmonia social. A Lei Parieu foi decretada em 11 de janeiro de 1850, com o objetivo de castigar os professores que faziam a propaganda de um governo republicano, submetendo-os ao controle do prefeito e da igreja católica (LÉON e ROCHE, 2003). O temor da reação dos trabalhadores, era tamanha, ao ponto de construir formas de perseguir qualquer possibilidade de questionamento da atual ordem social. Qualquer pensamento progressista, não necessariamente socialista ou anticapitalista, era identificado como ameaçador por conter germes de uma crítica à “ditadura” da burguesia.
A Lei Carnot foi então substituída pela Lei Falloux (1850). A Lei Falloux, de 15 de março de 1850, foi a síntese mais elaborada, capaz de expressar pelas lentes da educação o estágio da luta de classes na França em 1848. No mesmo sentido, que evidencia o temor e o papel da burguesia na consolidação e manutenção do status quo. Conhecida como a Lei da Instrução Pública, instituiu a liberdade de ensino secundário e incorporou disposições da Lei Guizot, que obrigava os municípios, cidades, a construírem as escolas primárias, prevendo também a abertura de escolas de adultos e aprendizes. Em locais com mais de 800 habitantes poderiam ser construídas escolas de meninas, caso houvesse
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“Les bourgeois qui, avant la révolution, se permettaient e jouer aux voltairiens, s’unirent pour la plupart aux cléricaux. Thiers, intervenu en 1845 contre le clergé, déclarait à présent qu’il rejetait les instructeurs laïques. À la commission chargée du projet de loi sur les écoles Thiers fulminait: ‘J’aime mieux l’nstructeurs sonner de cloches que l’nstructeurs mathématicien’ (...)’le remède le plus efficace serait assurément de confier l’instruction primaire au clergé’ (...) je suis prêt À donner au clergé tout l’enseignement primaire.”
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Mais adiante será Thiers o líder de Versalhes responsável por dirigir a Semana Sangrenta, que derrotou a Comuna de Paris.
recurso financeiro (FRANÇA, 1850). Concedeu o ensino primário aos congregacionistas, os quais se tornavam instrutores e influenciavam diretamente as autoridades administrativas, levando a revogação das licenças de uma série de instrutores laicos. A universidade se manteve como um sistema mais complexo, orientado pela Igreja. Segundo Duveau (1948), Falloux era o homem responsável por “reorganizar a casa”, salvar a ordem e reforçar a autoridade das igrejas nas cidades. A própria escolha dos instrutores, passou a ser submetida ao poder central das comunas. Segundo Maurice Agulhon,
A favor do clericalismo, uma peça mestre do sistema conservador, uniram-se [Estado e Igreja] para se contrapor de modo extremamente sólida a defesa da laicidade da escola e do Estado ao programa democrático. (AGULHON, apud BATAILLE e CORDILLOT, 2010, p. 72)17
Esta lei assumiu um caráter retrógrado ao se aliar com os setores mais conservadores da sociedade para afastar o “eminente” perigo de uma revolução por parte dos trabalhadores e camponeses. Entendiam que a educação seria o espaço estratégico para “arrumarem a casa”, no sentido de restabelecer a suposta “ordem”. Nesse período, centenas de escolas congregacionistas foram abertas. Segundo Froumov (1958), entre 1850 e 1863, o número de escolas aumentou de 10.312 para 17.206, fazendo com quem em 1.863, 40% das escolas primárias, estivessem sob o controle dos congregacionistas. Trabalhou-se na lógica de que para defender a França dos franceses trabalhadores, para que a propriedade privada se mantivesse intacta, era legítimo entregar a França na mão dos seus antigos “inimigos”, o clero e o Partido da Ordem, “... o Partido da Ordem proclamava que a inconsciência e o abrutamento da França são condição de sua existência” (FROUMOV, 1958, 23)18.
17 “En faisant du cléricalisme une pièce maîtresse du système conservateur, unissait par contrecoup de façon
extrêmement solide la défense de la laïcité de l’école et de l’État au programme démocratique.”
18 “le parti de l’ordre proclamait que l’inconscience et l’abrutissement e la France par la force sont la
É importante contextualizar o momento histórico em que a Lei Falloux assumiu, de modo claro, a reação conservadora da burguesia frente à classe trabalhadora. Em 1850 ocorrem as eleições legislativas, como já visto no primeiro capítulo desta tese, em que os trabalhadores, sobretudo os de influência socialista, foram eleitos, mostrando que o movimento, ainda que mais fragilizado, não se findou diante da postura reacionária da burguesia ao destruir a insurreição de julho de 1848. Ainda segundo Bataille e Cordillot (2010), de fevereiro de 1848 até julho havia um consenso sobre as questões educacionais no sentido de definir as bases para uma educação condizente com a construção de uma nova República. A partir de julho de 1848 a vitória do setor conservador e moderado obrigou a esquerda a definir um programa alternativo, no qual a questão educacional assumia um lugar privilegiado. A percepção dos limites impostos por um governo de coalizão classista auxiliou os trabalhadores, sobretudo a vanguarda, a identificar a necessidade de construção de um projeto educacional, autônomo e independente destes setores da hegemonia burguesa. “É um momento em que a reflexão de conjunto deve ser feita de modo mais aprofundado e global, a imagem do programa redigido pela Associação fraternal dos instrutores, instrutoras e professores socialistas”19 (BATAILLE e CORDILLOT, 2010, p. 73), estes passam a ser uma referência importante para o conjunto dos trabalhadores franceses. Esta Associação, mais tarde, deu origem ao movimento sindical da educação.
Este Programa da Associação expressou a concepção destes mesmos trabalhadores a respeito de a educação ser ensinada na nova sociedade. Esta nova configuração, necessária para garantir a aplicação dos preceitos da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, era apresentada como sendo a verdadeira república, na qual o socialismo e seu caráter social se confundiam. O consenso a partir deste Programa era de que o que se vivenciava não expressava a construção ideal de uma sociedade republicana. Por fim, no que se refere a Lei Falloux, a extensão do sucesso que ganharam os
19 “le moment est venue où la réflexion d’ensemble doit se faire plus profonde et plus globale, à l’image du
congregacionistas provocou reações. A Lei Falloux explicou a violência do contra-ataque laico sobre o Segundo Império (DUVEAU, 1938, p. 37).