5 A EDUCAÇÃO PÚBLICA E POPULAR DA COMUNA
5.1 BLANQUI E PROUDHON: AS PROPOSTAS EDUCACIONAIS E A
5.1.2 Proudhon: o reformista?
Proudhon, em um dos seus textos, o La Capacidad Política de la Clase Obrera
(1978), inicia uma discussão no interior do movimento operário acerca da consciência. O
estudo é despertado pelo fenômeno das lutas do período, do Manifesto dos Sessenta9, das eleições de 1863; eleições em que foram lançadas candidaturas operárias, não tendo sido o resultado capaz de expressar o descontentamento presente nas ruas, nas greves e nas reuniões públicas. Ele mobiliza um debate sobre a capacidade política dos trabalhadores em apresentar suas posições e ganhar a consciência dos demais proletários. Proudhon problematiza a concepção de “capacidade”, recuperando o direito ao sufrágio universal como sendo um ponto de inflexão na construção da ideia de capacidade. Nesse texto, apontou o fato de que antes de 1848, o direito ao voto, ou melhor, a capacidade política de escolha e participação era garantida com uma determinada quantia em dinheiro: duzentos francos era o que o homem francês deveria ter disponível para estar apto e capaz à participação política. A partir desta inflexão, Proudhon reconstrói, com
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Trata-se do manifesto político organizado por sessenta trabalhadores que demandavam representação e se opunham aos setores da burguesia. Tema melhor tratado no capítulo primeiro desta tese.
novas bases, a definição de capacidade política. Segundo ele são três os elementos que a definem:
1. Que o sujeito tenha consciência de si mesmo, de sua dignidade e de seu valor, do lugar que ocupa na sociedade, do papel que desempenha e dos seus direitos, dos interesses que representa e personifica;
2. Que como resultado desta consciência de si mesmo, em todas as suas forças, afirme suas ideias; que seja capaz de representar o entendimento que tem do seu ser, expressá-lo por meio de palavras e explicar pela razão não apenas os princípios, mas as consequências;
3. Que esta ideia, baseada numa profissão e fé, possa, por fim, segundo exigiram as diversas circunstâncias, revelar-se sempre em conclusões práticas. (PROUDHON, 1978, p. 31)10
A partir desta definição conceitual, Proudhon conclui que há debilidades no interior da classe trabalhadora. Afirma que a classe trabalhadora conquistou a consciência de si mesma, fato incontestável pós-insurreições de 1848. Evidencia que a classe dos trabalhadores possui uma ideia clara de quem são, se opondo à política defendida pelas classes médias. Todavia, essa ideia ainda se apresentava de modo incompleto. Tal incompletude afirmava-se pela dificuldade da classe proletária de criar condições políticas sólidas, concretas a partir das suas ideias, fazendo com que algumas candidaturas, por exemplo, não tivessem sido lançadas a partir da independência de classe. Isso ocorreu pelo fato de os trabalhadores ainda nutrirem um romantismo, ou mesmo um idealismo romântico, em relação ao papel do governo e de suas possibilidades, apesar de maioria numericamente, este “caos intelectual”, segundo Proudhon (1978), teria retardado o processo de emancipação da classe. Esta reflexão de Proudhon, presente no início dos
10 “1. Que el sujeto tenga conciencia de si mismo, de su dignidad, de su valor, del puesto que ocupa em la
sociedad, del papel que desempeña, de las funciones a que tiene derecho, de los intereses que representa o personifica.
2. Que, como resultado de esa conciencia de si mismo en todas sus fuerzas, afirme su idea; es decir, que sepa representarse en su entendimiento la ley de su ser, expresarla por medio de la palavra y explicarla por la razón, no ya tan sólo en su principio, sino también en todas sus consecuencias.
3. Que de esta idea, sentada como profesión de fe, pueda, por fin, según lo exijan las diversas circunstancias, deducir siempre conclusiones practicas.”
anos de 1860, identificava os limites da consciência operária, das ditas ilusões no governismo. Em outra obra, Idée générale de la révolution au XIXème siècle (1979), Proudhon, apesar dos limites subjetivos identificados, afirmava a existência de condições objetivas para as revoluções do século XIX, concluindo que os homens se mobilizam na medida em que identificam uma tendência à miséria e à corrupção.
Acredita-se que resta sempre, depois de cada reforma, um abuso a ser destruído, um vice a ser combatido, tudo a procura do melhor final, de menos problemas, e de trabalho, como uma forma de santificar, os estudos e a moral. As regras de conduta tende ao bem-estar e à virtude: a revolta se inicia quando percebe-se a tendência à miséria e à corrupção. (PROUDHON, 1979, p. 28)10
A corrupção é fruto, segundo Proudhon, do autoritarismo estatal. A concentração de poder nas mãos do governo burguês impede os trabalhadores de conseguir a garantia dos direitos, até então prometidos, pela revolução burguesa. A centralização material e concreta dos poderes políticos acaba por acarretar uma centralização intelectual e moral das forças econômicas. Arquitetura do poder pressupõe, para Proudhon, o Estado democrático de direito, este capaz de produzir a miséria e a corrupção. Em O Sistema de
Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria (2007), Proudhon localiza o problema
gerador da miséria no interior do sistema econômico capitalista a partir das suas contradições. Essas contradições se expressam, ao exemplo da propriedade privada, a partir de uma leitura que identifica o “mal” e o “bem” como partes do mesmo processo, inseparáveis na sociedade produtora da miséria. Como ele aponta, “A solução da miséria consiste então em elevar a uma expressão mais alta a ciência do contável, em preparar as
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“Comme il croit qu’il reste toujours, après chaque reforme, un abus à détruire, un vice à combattre, il se borne à chercher le mieux, le moins mauvais, et travaille à as propre sanctification par le travail., l’étude et les mœurs. As règle de conduite est donc tendance au bien-être et a la vertu: il ne se révolte que lorsqu’il y a pour lui Tendance á la misère et à la corruption.”
escrituras da sociedade e estabelecer ativo e passivo de cada instituição” (GUÉRIN, 1983, p. 29).
Este dualismo presente na leitura proudhoniana da sociedade capitalista fez com que o filósofo não descartasse em absoluto os elementos “positivos” do sistema, o que gerou críticas duras de Marx, que o respondeu em outra obra, intitulada Miséria da
Filosofia, na qual apontava os problemas da leitura metafísica, e mesmo não dialética, dos
elementos que compõem e operam a sociedade capitalista. Como síntese desta concepção de mundo, Proudhon produziu reflexões sobre o problema do poder e da autoridade, estimulando uma reflexão teórico-político sobre a necessidade de criação de espaços de gestão dos trabalhadores, como o cooperativismo e as associações auto- organizadas. Critica o comunismo, centralmente pela defesa da propriedade coletiva, por compreender que este projeto sufocaria o direito individual e a concorrência “saudável” presente na produção.
A solução para Proudhon (2007) é a teoria da mutualidade, “(...) ou do mutuum, isto é, da troca in natura, cuja forma mais simples é o empréstimo de consumo, é, do ponto de vista dos ser coletivo, a síntese das duas ideias de propriedade e de comunidade; síntese tão antiga como os elementos que a constituem” (p. 426). Para Marx, esta teoria evidencia o limite da crítica de Proudhon ao capitalismo. A simples troca primitiva de mercadorias, o escambo, não exclui a exploração e a propriedade privada na sua radicalidade necessária. Segundo Maurice Dommanget (1971), Proudhon, apesar de criticar a pequena burguesia, localizar-se-ia, do mesmo modo que ela, no seio da contradição, podendo tombar para uma das duas classes centrais. Isso faria com que ele compreendesse melhor que ninguém a noção da contradição e do combate.
Apesar de ter morrido antes da Comuna de Paris, em 1865, sua obra influenciou, como foi possível constatar, o movimento operário francês, a AIT e os trabalhos e projetos defendidos no interior da Comuna. Essa concepção de mundo e de projeto de sociedade teve importância significativa no projeto educacional dos communards. Proudhon passou
a ser conhecido, segundo Maurice Dommanget (1971), como o teórico da filosofia do trabalho, base importante para a construção da sua concepção de educação.
O trabalho, já dissemos, é o principio da riqueza, a força que cria, mede e proporciona os valores. Medir e proporcionar é também distribuir; o trabalho traz em si, portanto, um poder de equilíbrio ao mesmo tempo que fecundidade, que parece dever assegurar o homem contra todas as chances de privação. Mas, para se tornar eficaz, o trabalho tem necessidade de se determinar e de se definir, ou seja, de se organizar (...). (PROUDHON, 2007, p. 340)
Segundo Proudhon, o trabalho, digno de uma sociedade superior, deveria lograr a união entre a matéria e o espírito. O menosprezo pelo trabalho manual, presente na sociedade do capital, seria a causa de uma sociedade fundada na desigualdade de condições e no surgimento das duas classes sociais fundamentais. O sistema capitalista, ao desprezar o trabalho manual, acarretaria como consequência a divisão social do trabalho, manual e intelectual, cabendo apenas ao trabalho intelectual o nível de instrução superior na sociedade do capital. A pobreza, segundo Proudhon seria o maior obstáculo para a instrução. A própria manutenção e a perpetuação da pobreza apenas se tornam possível através da educação e do sistema educacional adotado pelos capitalistas. Este sistema social, centralizador e autoritário, revela-se através do sistema escolar,
Assim, mesmo no sistema atual de ensino, a centralização universitária, numa sociedade democrática, é um atentado a autoridade paternal e um confisco dos direitos do instrutor. Mas iremos mais a fundo. A centralização governamental, em matéria de instrução pública é impossível no regime industrial, pela razão obvia de que a instrução e inseparável da aprendizagem, a educação científica da educação profissional (PROUDHON, 1979, p. 230)11.
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“Ainsi, même avec le système actuel d’enseignement, la centralisation universitaire, dans une societé démocratique, est une atteinte à l’autorité paternelle et une confiscation des droits de l’instituteur. Mais allons au fond des choses. La centralisation gouvernementale, en matière d’instruction publique, est impossible dans le régime industriel, par la raison décisive que l’instruction est inséparable de l’apprentissage, l’éducation scientifique de l’éducation professionnelle.”
Proudhon tenta provar a contradição presente no sistema educacional mostrando como a educação pública, estatal, não poderia se afastar da indústria e do trabalho fabril. Nesse sentido, a centralização estatal, na tese proudhoniana, atrapalharia o curso natural de uma educação, em que o ensino e a aprendizagem, o trabalho manual e o intelectual, fariam parte do mesmo processo; em que o privado (a indústria) e o público (o Estado) não se unificariam na lógica centralizadora e autoritária do poder burguês. Para além disso, a centralização estatal, em matéria educacional, ingerênciava o poder paternal e a própria autonomia do instrutor/professor. Contudo, a própria separação entre a educação profissional e científica, presente no período estudado em questão, tinha como intenção, segundo Proudhon, reforçar e reproduzir as distinções de classe.
Separar, como nos dias atuais, o ensino da aprendizagem, é ainda mais detestável, pois ao distinguir a educação profissional, do exercício real, útil, sério, do cotidiano da profissão, acaba por reproduzir, sob outra forma, a separação do poder e a distinção das classes, dois instrumentos mais enérgicos da tirana governamental e da subalternização dos trabalhadores. (PROUDHON, 1979, p. 231)12
A indústria, neste momento, local onde se realiza o trabalho, é vista por Proudhon como espaço importante de criação, onde os elementos contraditórios estariam presentes como expressão da propriedade privada e sua dimensão negativa. Todavia, a dimensão positiva se revelaria a partir da dimensão pedagógica presente no trabalho profissional, aqui fortemente associado ao trabalho manual. Segundo Dommanget (1970), para Proudhon, o trabalho assume um caráter divino, uma forte dimensão religiosa e essencialista no socialismo, como uma nova e real religião. Por isso, o autor entende que a
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“Séparer, comme on le fait aujourd’hui, l’enseignement de l’apprentissage, et ce qui est plus détestable encore, distinguer l’éducation professionnelle de l’exercice réel, utile, sérieux, quotidien de la profession, c’est reproduire, sous une autre forme, la séparation des pouvoir et la distinction des classes, les deux instruments les plus énergiques de la tyrannie gouvernementale et de la subalternisation des travailleurs. ”
revolução, acerca do verdadeiro papel do trabalho, seria ela mesma uma revolução pedagógica.
Essa leitura, que apresenta os perigos para a classe trabalhadora de um estado centralizador e autoritário, faz com que Proudhon chegue a uma conclusão, nos anos de 1860, diferente de acúmulos anteriores, sobre a instrução pública e o papel do estado em garanti-la. Em 1848, Proudhon defendeu como princípio transitório a gratuidade de ensino e sua obrigatoriedade, contudo, em 1864, tem como palavra de ordem a oposição a esta política, argumentando que a defesa de gratuidade seria “ridícula e utópica”, fruto de uma charlatanearia populista (PROUDHON, apud DOMMANGET, 251, p. 170). Ou seja, não acreditava que a educação pública e gratuita, sob o jugo capitalista, poderia ser favorável aos trabalhadores.
Numa democracia real, em cada um deve ter sob suas mãos, à disposição, o ensino superior e o de base, esta hierarquia escolar não seria admitida. Isso nada mais é do que uma contradição ao princípio de sociedade. Portanto, a educação deve se misturar e confundir com a aprendizagem (...), ela não dependa mais do Estado e do Governo. (PROUDHON, 1979, p. 231)13
Sob a influência de Proudhon, já em 1860, grupos iniciam um questionamento sobre o Estado ser responsável pela educação pública, pois compreendia que no capitalismo o ensino para as massas populares era impossível. A educação gratuita sob o controle do Estado, ou seja, do Estado burguês, determinaria o tipo de educação que os trabalhadores poderiam ter dentro desta sociedade. Para ele, seriam os próprios jovens que trabalhariam e não receberiam salários em troca da instrução e da formação. Para além desta vantagem, para a burguesia, o autor aponta outra que seria um grande
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Dans une démocratie réelle, où chacun doit avoir sous la main, à domicilie, e haut et le bas enseignement, cette hiérarchie scolaire ne saurait s’admettre. C’est ne contradiction au principe de la société. Dès lors que l’éducations se confond avec l’apprentissage; qu’elle consiste, pour la théorie dans la classification des idées, comme pour la pratiqué dans la séparation des travaux; qu’elle est devenue tout à la fois chose de spéculation, de travaille et de ménage: elle ne peut plus dépendre de l’Etat, elle est incompatible avec le Gouvernement.
número de mão de obra qualificada para a grande indústria (progresso). A educação dos jovens pobres ficaria a mercê de estudos elementares, do mínimo para manter a dominação, enquanto que somente os jovens ricos seriam verdadeiramente ensinados. Proudhon constatou e caracterizou o dualismo na educação. Reforçou a tese de que a instrução da juventude seria um sonho da filantropia. Na verdade Dommanget (1970) apresenta elementos de uma visão reprodutivista de educação de Proudhon. Para ele, no capitalismo, não existe nenhuma possibilidade além da educação servil, o que reforça a necessidade dos trabalhadores em criar seus próprios espaços de trabalho e formação.
Como programa educacional e a partir da sua concepção filosófica, Proudhon apresentou como elemento central a politécnica de aprendizagem e o ateliê-escola. A combinação do ensino com a aprendizagem, do ensino literário e científico com a instrução industrial, ou seja, a junção do trabalho manual e intelectual. A grande tarefa para um programa de educação de novo tipo seria a de superar o problema do trabalho parcelar e fragmentado (DOMMANGET, 1970). Para ele, a família é sagrada, logo, o trabalhador do futuro deveria se inserir primeiro na família, assim, a primeira educação seria a doméstica. A educação pública deveria garantir o desenvolvimento da educação doméstica (DOMMANGET, 1970). Aqui há uma diferença substancial com a Société des
Amis de l’Enseignement, que defende que a criança, já no berçário, deve ser educada
pelos princípios socialistas, sem misticismo. Depois da inserção da família na educação doméstica, viria a educação primária pública, em que deveriam aprender e frequentar os espaços agrícolas e industrial, assim como higiene. Já no ensino secundário critica o seriamento e o ensino por disciplinas, assim como a forma hierárquica de ensinar e a postura do professor.
Ao que tudo indica, para Proudhon, apenas a construção de uma nova sociedade, mutualista talvez pudesse, de fato, trabalhar outra perspectiva de escola pública, independe do Estado e dos governos, todavia, a construção deste processo não fica claro mesmo no interior da sua concepção educativa ou mesmo dentro da sua concepção de revolução, sem grandes levantes violentos e enfrentamento, o que acaba por reforçar a
apresentação de Dommagent sobre seu caráter reformista. Uma certa crença no processo gradual de transformações, a partir do trabalho e, sobretudo, do trabalho profissional, a negação do comunismo como uma possibilidade de sistema social capaz de superar a sociedade capitalista, assim como a crítica dura e intransigente à centralização do poder e à autoridade, aproximou-o de leituras e teóricos anarquistas.
Nesse sentido, as posições de Proudhon se chocam diretamente com as posições de Blanqui em relação à educação pública e gratuita, assim como a socialização das crianças. Se para Blanqui era necessário socializar as crianças desde o berçário, para Proudhon esta era tarefa da família e não da coletividade. Para ambos, a educação não deveria ser tarefa do Estado, a autonomia seria condição para construir e formular uma proposta educacional de fato proletária, no entanto, os blanquistas entendiam que a gratuidade do ensino era uma forma de mediar este processo e de garantir que os trabalhadores e seus filhos ocupassem os bancos escolares. Já para Proudhon, a educação paga pelo Estado impediria qualquer tipo de autonomia dos trabalhadores. Esse debate se fez presente nos congressos da AIT que antecederam a experiência da Comuna, onde as posições blanquistas, defendidas por Vaillant, dentre outros, lograram êxito. A educação integral, a junção entre trabalho manual e intelectual sob as formas do ensino profissional também aparecem no interior de ambas a teorias, com maior ênfase na teoria proudhoniana. Sem dúvida, ambos influenciaram as concepções de educação apresentada na Comuna de Paris. De maneira mais ou menos central, os projetos educacionais existentes dialogaram com estas duas vertentes que disputavam os rumos dos
communards.