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4.1 HISTÓRIA DE VIDA E TRAJETÓRIA SOCIAL DAS PARTICIPANTES

4.1.2 Mariana: o desejo de aprender cavando oportunidades

4.1.2.1 História familiar

Mariana está com mais de 30 anos, nasceu e viveu sua infância em Londrina Paraná. Ela é a primeira de quatro filhos de um casal com origem social modesta. O pai trabalhava como autônomo e sua mãe cuidava dos filhos. O pai não permitia aos filhos assistir televisão em decorrência de sua escolha religiosa. Por esta razão, Mariana e seus irmãos tinham muito tempo disponível para brincar durante a infância. Como Mariana tinha grande interesse pela leitura, ela brincava de ser professora de seus irmãos menores. Seus pais tinham pouca instrução, ambos estudaram até a 4ª série do Ensino Fundamental (antigo 1º grau). Em razão disso, não ensinaram seus filhos as primeiras noções de escrita. No entanto, Mariana adorava copiar as palavras que via nos rótulos e pedir para sua mãe ler o que estava escrito. Essas experiências com os artefatos culturais da escrita que antecederam sua entrada na escola, fez com que ela não tivesse dificuldades em alfabetizar-se e também gostar muito de sua escola nos dois primeiros anos de escolaridade.

4.1.2.2 História escolar

Mariana estudou pela primeira vez aos 7 (sete) anos de idade em uma escola da Rede Pública de Londrina. Ela recorda que se alfabetizou na escola e suas primeiras noções de leitura e escrita que antecederam a fase escolar ocorreram em decorrência de sua curiosidade e desejo de aprender. Mariana tem poucas lembranças de sua fase de alfabetização. Apenas que gostava de ir para a escola e da professora que era carinhosa. Também recorda que não

foi alfabetizada com textos, e sim com o método silábico, mas ela achava agradável. Até a 2ª série, as impressões que Mariana mantém em relação às professoras é de serem agradáveis e atenciosas. Porém, da professora da 3ª série ficou registrado em suas lembranças como experiência de interação muito negativa.

Mariana não se recorda se em sua turma de alfabetização havia alunos com dificuldades em alfabetizar-se. Mas recorda nitidamente que em sua turma da 4ª série houve três colegas que não aprendiam e ficavam em um grupo separado dos demais, porém sem nenhum trabalho direcionado às suas necessidades de aprendizagens. Para Mariana, as medidas aplicadas com os que não aprendiam em sua fase escolar, restringiam-se a reprovar os que não conseguiam alcançar o que se era exigido. Ela recorda que, a professora da 3ª série utilizava métodos humilhantes e opressores para garantir a disciplina em sua turma como, castigos atrás da porta e ameaças de bater com uma régua. Apesar de nunca ter chegado a bater nos alunos com a régua, ela sempre cumpria as outras ameaças que fazia. Mariana também relata que não era muito obediente e por isso, sua professora brigava com ela e chamava sua mãe para reclamar.

4.1.2.3 História da escolha profissional

O caminho que levou Mariana a trilhar a carreira do magistério não manifesta influência nem familiar, nem de seus professores. Esta escolha se deu por circunstância relacionada a maiores oportunidades de conseguir emprego. Mariana estava cursando outra área de formação e decidiu trocar de curso por influência de colegas que já estavam cursando o magistério. Contudo, em suas brincadeiras infantis, ela era a professora de suas irmãs. E, mesmo antes de ir para a escola sentia um grande entusiasmo pelos conhecimentos escolares.

4.1.2.4 História da atuação profissional docente

A primeira experiência de Mariana na carreira do magistério ocorreu no município de Luziânia GO, através de concurso público. Depois de certo tempo trabalhando nessa localidade, prestou concurso na SEEDF e este é o seu primeiro ano de atuação na Rede Pública do DF.

A trajetória social (familiar e escolar) de Mariana é marcada por padrões disciplinares rígidos que ficaram assimilados por ela como aspectos negativos. Por isso, quando ocupa

posição de exercício da autoridade tanto com seus alunos como com sua filha, procura agir diferente.

Quanto à turma do 3º ano do BIA com a qual Mariana trabalha atualmente, não foi escolhida por ela. Ao apresentar-se na Regional de Ensino de Santa Maria DF, já recebeu o encaminhamento com a turma que iria assumir definida. Trata-se de uma turma com 14 (quatorze) alunos, por se tratar de uma turma de inclusão (com alunos diagnosticados como portadores de necessidades especiais). Ao chegar à escola, Mariana não foi informada da situação da turma. Como ficou alguns dias na escola aguardando para começar o trabalho, um profissional lhe apresentou o aluno F (aluno diagnosticado) com quem iria trabalhar. O primeiro sentimento de Mariana foi de não querer a turma por não se sentir preparada para lidar com F. então foi para casa nesse dia muito angustiada e insegura. Outro problema com o que Mariana se deparou em relação à turma foi ter que lidar com uma heterogeneidade muito grande, sendo que havia alunos no processo inicial de alfabetização e outros já alfabetizados. Os alunos são 8 (oito) meninos e 6 (seis) meninas. Com exceção de F. que tem 9 (nove) anos, os demais estão dentro da faixa etária regulamentar (oito anos). Ao assumir o trabalho frente à turma, Mariana sentiu que seria um grande desafio e sua angústia permanecia, pois não conseguia perceber que estava havendo progresso nas aprendizagens. Somente após analisar os testes que identificam os níveis psicogenéticos em relação à escrita, foi que ela começou a se sentir um pouco mais aliviada.

Quanto ao processo de aprendizagem, a professora avalia já ter alcançado um progresso significativo e os próprios alunos já estão exigindo atividades mais avançadas. Porém, mesmo havendo progresso de forma geral há três alunos que não se alfabetizaram. Dentre eles, encontra-se, o F., que tem laudo de deficiência física, mas Mariana acredita que há também deficiência intelectual; um outro caso, que ela percebe certa imaturidade e desinteresse; e, uma aluna com problemas de faltas.

Para promover as aprendizagens na turma, Mariana foca muito na leitura por se tratar da maior necessidade dos alunos. Quanto aos três alunos com maiores problemas em relação à leitura e escrita, Mariana diz que no início, eles ficavam separados dos demais fazendo atividades diferenciadas. Agora eles ficam juntos com os outros colegas, trabalham com o mesmo tema, porém com adaptação das atividades conforme seus níveis de aprendizagem. Os outros colegas são incentivados a ajudá-los e o nível de cobrança de Mariana para com eles é menor do que para com os outros. Em se tratando da interação entre os colegas, Mariana percebeu que no inicio a turma apresentou certa rejeição em relação à F., mas a partir de sua

intervenção, a resistência diminuiu. No entanto, o próprio aluno evita a convivência com os colegas e se isola.

4.1.2.5 Concepções sobre as dificuldades de aprendizagens

A característica que Mariana identifica em todos os três alunos com maiores dificuldades de aprendizagem é a timidez que os fazem sofrer, o que acaba por deixá-la muito angustiada. Para ela, o principal aspecto que compromete as aprendizagens está relacionado à falta de incentivo da família que mantém uma cultura de despreocupação com os estudos dos filhos. Ela considera que o contexto social desfavorável não é determinante em relação às dificuldades de aprendizagem. Ao contrário, deveria servir de incentivo para buscar mudar a realidade.

Mariana considera que, sua formação para a carreira do magistério não a preparou para ser professora, assim como há cursos de formação que nada acrescentam. Todavia, reconhece que o curso de formação em alfabetização que está fazendo atualmente, está contribuindo para a melhoria de sua prática docente. Ela defende que o enfrentamento dos problemas de aprendizagem deve ser um trabalho coletivo com o envolvimento de toda a escola.

4.1.3 Joice: a vergonhosa e comportada

4.1.3.1 História familiar

Joice está com 31 (trinta e um) anos, nasceu no Distrito Federal e desde seu nascimento mora em uma cidade do entorno do DF no Estado de Goiás. É a segunda de três filhos. Tem uma irmã mais velha e um irmão mais novo. Diz pertencer a uma família de origem simples na qual viveu sem grandes luxos. Seu pai sempre foi trabalhador autônomo e sua mãe dona de casa, que posteriormente passou a trabalhar em uma escola na área de limpeza. Segundo Joice, ela e seus dois irmãos sempre tiveram como referencial a figura materna, já que seu pai era alcóolatra e ausente. Em decorrência desta problemática, Joice cresceu em meio a discussões, pois sua mãe não aceitava o estilo de vida do esposo. Recentemente, a mãe de Joice faleceu deixando um grande vazio por se tratar do referencial