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3. Narratividade da emancipação nas entrevistas

3.2. Virtualização e atualização nas entrevistas

3.2.1 Modalizações do ser

3.2.1.3 Narratividade e preconceito

Barreto (2008, pp. 64 – 66), em livro que foi resultado da publicação de sua pesquisa de doutorado, “Múltiplas vozes: racismo e antirracismo na perspectiva dos universitários de São Paulo”, reúne alguns depoimentos de jovens da capital paulista falando sobre esses dois temas. Dentre as reflexões que constam no trabalho, é abordada a questão da presença de alunos negros nas escolas e universidades. Um dos relatos destaca-se por expor o assunto tratado no

tópico anterior, as bolsas em instituições de ensino particulares, proferido pelo estudante Luís, do Instituto de Biologia da USP.

O rapaz conta que, em seu tempo de escola, havia apenas um aluno negro na instituição, e que tal traço o mantinha sempre em destaque. Menciona que o desequilíbrio de representatividade racial não era um tema tratado pelos professores. Quando abordado, em suas palavras, era “tratado da forma mais ‘vaselina’ (...) Politicamente correta, não pode discriminar, não pode isso, não pode aquilo” (p. 64, relato do entrevistado) e, assim a abordagem tornava-se o que ele chama “uma conversa super superficial” (p. 64). A falta de naturalidade no tratamento constatada por Luís, reflexo, talvez, de uma falta de preparo por parte dos profissionais da instituição em questão, é, possivelmente, uma das razões que por vezes tornam pouco “apetecíveis” as oportunidades de ocupação das vagas concedidas nas escolas particulares, às quais JS23 faz menção na entrevista do presente corpus.

Uma das modalidades narrativas que descreve a concessão de vagas é não-dever-não- ser (valor realizável, segundo Barros, 2002, p. 59). No caso, ele refere-se à ação do destinador que, ao transferi-lo ao destinatário, nega uma impossibilidade. Isso pode ser compreendido, em um nível mais factual, como um contraponto diante da inviabilidade de que alunos com poucos recursos financeiros estudem em organizações particulares. Apesar das “boas intenções” do oferecimento de vagas, o estigma que recai sobre o jovem que é incluído no âmbito interno dessas instituições faz com que a proposta lhe soe indesejável. O preconceito racial vigente nas escolas (tema poucas vezes abordado com efetividade no cotidiano de tais locais) incorre na reprodução dos padrões normativos que conferem aos bolsistas um lugar de não pertencimento. Os alunos brancos da escola, ao reproduzirem a discriminação, estariam ocupando, em termos narrativos, o papel de antidestinador manipulador, em um programa no qual o destinatário estaria investido pelo ator “estudante bolsista”.

Indo além desses dois casos, outros resultados obtidos pelo estudo de Barreto (p. 67), apontam que os jovens atribuem a influência do fator econômico na discriminação e na exclusão dos negros no acesso a escolas particulares e de melhor qualidade e, posteriormente, a cursos de maior prestígio na USP. Corroborando essa mesma ideia, e voltando ao depoimento de JS23, vê-se que ele temeria sentir-se excluído caso ingressasse na escola particular como bolsista também por não dispor do padrão de renda dos colegas.

“você está lá no: no âmbito:... escolar e: de repente... seus amigos começam a discutir “pô...

ficou em Parelheiros ou você ficou no Grajaú ou você ficou em x lugar e:... você fala (...) tinha que ouvir isso’...” (Anexo, JS23, p. 11, grifos nossos)

Quando se confrontam a liberdade do sujeito “outros alunos” e o poder-fazer do sujeito “JS23”, a contraditoriedade modal que se dá a partir da comparação entre os dois percursos gera um desconforto. O programa narrativo do segundo parece diminuído diante do alcance “mais potente” do primeiro PN. Ao mesmo tempo, isso faz com que o sujeito investido pelo bolsista entre em conjunção com o valor de querer-não-ser, negando, no nível discursivo, o interesse de estudar na instituição. No plano factual, as dificuldades decorrentes da ocupação desse lugar de alteridade dentro de uma instituição são obstáculos à efetividade de certos tipos de ação social no âmbito da inclusão.

A concessão de bolsas de estudo pensada apenas como acesso é insuficiente para garantir a permanência dos beneficiários nas instituições de ensino. Existe uma indisposição por parte de certos indivíduos de frequentar escolas privadas ou as universidades, que é decorrente das práticas de discriminação infelizmente ainda vigentes em alguns dos ambientes de ensino do país, assim como existem problemas decorrentes de outros tipos de carência que os jovens por vezes sofrem24. A falta de vontade de ocupar o lugar de não concomitância com um “padrão”

étnico (ou econômico) no perfil de certas escolas ou universidades, pode ter sido o que levou Barreto a verificar que o tema do “temor da mistura” foi um dos assuntos mais tratados por seus entrevistados (p. 160). Uma educação para a valorização do diferente no âmbito social é uma conquista ainda a ser transposta pela educação brasileira.

O preconceito foi um tema bastante abordado pelas entrevistas concedidas ao presente estudo. Com o intuito de observar o modo como as práticas de racismo constroem-se em cada um dos níveis de significação dos textos coletados, parte das perguntas feitas aos jovens durante a etapa de coleta do corpus foi dirigida a esse tema e, a partir delas, foi possível extrair uma quantidade considerável de relatos. Essa relativa “facilidade” de conseguir falas sobre o racismo também se fez notar em Barreto, em ocasião na qual aponta igualmente a visibilidade do fenômeno no contexto atual (p. 159).

24 Barreto (p. 159) constata que a existência do racismo no Brasil é uma unanimidade entre seus

3.2.1.4 Imagens de si

As modalidades virtuais querer e dever-ser (e suas derivações categoriais) fornecem um instrumental funcional para a análise da temática do preconceito e da discriminação racial. Quando se analisa, por exemplo, o percurso que vai da construção de uma desvalorização de si (não-querer-ser) a uma revalorização do próprio corpo e de suas características (querer-ser), tal como no discurso de SM28 (transcrito abaixo), vê-se que praticamente todas as posições do quadrado semiótico do querer-ser são utilizadas pelo discurso da narradora.

“eu... gosTAva... do / do meu cabelo (...) mas:... eu entendia que eu não era aceita: no grupo ou não era aceita: no contexto por conta do meu cabelo aí eu passei a: aliSAR o cabelo... e esse processo foi violento para mim primeiro porque eu não gostava do jeito que ficava o meu cabelo... e segundo... porque:... era um / uma:... normatização né?... eu fazia aquilo

para me encaixar... e ãn / a prime / eu lembro: / é muito CLAro assim a primeira vez que eu

fiz ((risos)) relaxamento que o cabelo balançava eu saía na rua com aquele cabelo balançando e balançava para lá e para cá e pô eu fiquei uma semana assim super- empolga:da... aí de repente quando eu: / quando eu olhei no espelho e tipo: ‘que / quem é essa pessoa aí né?’ e aí foi vã / muitos anos até eu / eu parar... sei lá acho... que com QUINze... quaTORze quinze Anos (...)” (Anexo, SM28, p. 17, grifos nossos)

Inicialmente, regido por uma manipulação sincrética, o sujeito via como desejável a conjunção com o objeto (“o próprio cabelo”, tal como ele era naturalmente). Mas o aparecimento de um outro destinador, transitivo e actorializado pelo “grupo” ou pelo “contexto social” (no qual o ator do sujeito também se insere), faz com que deixe de querer estar em conjunção com o objeto. O contrato fiduciário entre o sujeito e o último destinador goza de relativo vigor, de modo que a transferência de valores acontece com sucesso. Nesse momento, o sujeito partilha do sistema de valores do destinador, investido discursivamente pelo ator “grupo" e o objeto de valor “cabelo” é considerado indesejável. Em outras palavras, é um traço que deve ser renunciado para que a protagonista possa fazer parte do grupo ou contexto com o qual se identificava.

Após a conjunção com os valores desse destinador (“grupo”), o sujeito avalia a sua ação, no episódio do espelho. O que acontece então é uma sanção narrativa, na qual reconhece o que vinha fazendo. Ao tomar consciência das consequências que existiam por trás dos valores

assumidos, o sujeito “SM28” efetua uma ruptura no contrato fiduciário que havia estabelecido. Os valores do primeiro programa pautavam-se no enquadramento do ator do sujeito em um padrão estético que exigia um constante esforço e que, muitas vezes, mostrava-se inalcançável.

Indo além da manipulação pela modalidade volitiva, descrita acima, há também na manipulação travada entre o destinador transitivo e o destinatário a presença da categoria do dever-ser (alética). Se, em um primeiro momento, a amizade que havia entre o ator discursivo “SM28” e “o grupo de amigas” parecia bem estabelecida (dever-ser), em dada passagem essa relação é questionada (não-dever-ser). Há um descompasso entre a aparência “ideal”, estabelecida pelo grupo, e a “real”, que era a do ator do sujeito. Em suma, a passagem trata de um episódio de racismo, segundo se depreende a partir do relato. Com o aprofundamento desse impasse e o estabelecimento do não pertencimento do ator “SM28” na coletividade, surge o valor narrativo do dever-não-ser. Vê-se, aqui, um sujeito virtualizado nas modalidades do dever- não-ser, não-querer-ser e querer-não-ser. O quadro abaixo ilustra esquematicamente a passagem.

Manipulação Destinador

Não-querer-ser Querer-não-ser

Dever-não-ser

Destinatário Virtualização Sujeito de estado

Nível discursivo Figuras Não gostar do próprio cabelo Desejo de apagamento dos traços africanos do próprio corpo Não pertencimento

Quadro 2 - Virtualização do programa narrativo de SM28

Durante a etapa de manipulação depreendida no trecho transcrito, o sujeito encontrava-se ainda sob influência do destinador (“grupo”), mas não tinha encontrado a “força interna” necessária para interromper o fluxo desse programa narrativo. Este lhe destinava valores que faziam ver o objeto (“cabelo”) como algo não desejável, gerando uma tensão crescente e demandando constantes e abundantes esforços para a transformação de sua natureza, como se pode depreender com a leitura do trecho a seguir.

eu usei química até os vinte e três... quase dez / dez Anos de / de / de uma:... roTina de / de

/ de ir para o cabeleireiro de esticar do cabelo cair de quebrar daí faz o jeito para... {E: você

fazia:... diariamente? {S: era o m / mã / não era diariamente né? sei lá eu ia para o salÃO...

raizinha a crescer e já tinha que alisar né?... (...) então até:... e para EU... toMAR: a atitude de: / de deixar de usar química foi isso eu... estava em um processo de usar química usar química aí de repente eu fui mudar de um produto para ver se ele ficava MEnos artificial... e aí o cabelo caiu... caiu que ficou... muito curto / muito quebrado aí eu falei: “chega”... aí corTEI... o que dava para cortar... e falei: “a partir de agora eu não vou mais fazer isso”... e aí foi uma descoberta inCRÍvel de descobrir como é que ele / de relemBRAR como é que era o meu caBElo de texTUra de ver ele cresCER de v / de ver... várias descobertas assim e foi / foi be:m... legal...” (Anexo, SM28, p. 17, grifos nossos)

O texto acima ilustra, sobretudo, a passagem do primeiro para o segundo programa narrativo. O valor dever-não-ser, transmitido pela coletividade em questão (“o grupo de amigas”) - e também pelo ator “SM28”, que aderia a esse sistema de valores, converte-se em não-dever-não-ser. Isso corresponde à possibilidade de realização (poder-ser), do ponto de vista do sujeito, discursivizada pelo “cabelo natural crescendo” e pela “negação da inviabilidade do pertencimento” a alguma identidade, ainda que não mais a que primeiro se havia instalado. A ação, a partir daí, vê-se regida pela manipulação de um novo destinador. SM28 perpassa, com esse trecho de fala, um dos pontos de contato entre modalidades narrativas que Greimas descreve, ao confrontar as categorias do poder e dever-ser, no âmbito da homologação da compatibilidade e conformidade (2014, pp. 94 - 95).

A confrontação do não-dever-não-ser com o poder-ser (ambos os termos designados pelo termo “possibilidade”, destacada no quadro), mostra como o sujeito, indo além da influência do primeiro destinador, estabelece outro contrato, desta vez com um destinador reflexivo. Este novo laço é suficientemente forte para assegurar a troca de direção da ação. Há aqui a presença de um actante sincrético, que reúne os papéis de destinador, destinatário e sujeito de estado e ação em um único ator (“SM28”). A impossibilidade de continuação do primeiro programa narrativo, representada pelo episódio da queda de cabelos (que também significa a extenuação do valor do objeto), marca a mudança no sentido da adesão do sujeito.

A ida aos níveis tensivo e aspectual presta-se, nesse momento, para localizar alguns elementos que identificam os detalhes da passagem, auxiliando a compreender a motivação de SM28 em seu caminho de libertação das pressões sociais vindas do grupo de amigas (manipulações aléticas e volitivas propostas pelo antidestinador). Inicialmente, chama a atenção a duratividade descontínua e iterativa no uso dos produtos químicos e a presteza (aceleração) com a qual a narradora lidava com o aparecimento dos fios novos, tal como se vê na frase a seguir: “era o cabelo cresCER... começar um raizinha a crescer e já tinha que alisar né?” (Anexo, SM28, p. 17). O breve intervalo entre o nascer e o alisamento dos fios e a rapidez com a qual utilizam-se os produtos capilares remete a uma aceleração do andamento, no eixo da intensidade.

Para explicar a forma como o efeito de intensificação se constrói, é pertinente a utilização do modelo das quantificações subjetivas, formulado por Zilberberg (2011, pp. 55 – 58). Essa proposta teórica estabelece como os dois incrementos mínimos da significação tensiva, o mais e o menos, os quais podem, por sua vez, ser articulados nos regimes intransitivo (valendo por si mesmos); transitivo, no qual há mais menos ou menos mais; ou ainda reflexivo, onde há

menos menos e mais mais.

Na passagem analisada, verifica-se a ocorrência de um recrudescimento (mais mais), expressa, entre outros elementos, pela “super-empolgação” do ator “SM28” diante da novidade dos cabelos lisos (vide trecho transcrito acima). Quando os efeitos dos exageros da química começam a se fazer visíveis, ele vê o procedimento com desconfiança (menos mais, atenuação). Então, o ator procura uma saída, agindo de modo diferente (“mudança de produto”), mas esse ato agrava o estrago (mais menos, minimização), pois faz com que os fios se quebrem e caiam. Recorrendo a termos do nível narrativo, pode-se dizer que isso acaba com o valor do objeto para o sujeito (somente menos). O que resta para o ator discursivo, a partir de então, é suspender o uso dos produtos e cortar o que restava dos cabelos. A partir daí, aos poucos, restabelece-se a

sua aparência com o crescimento dos fios novos (em terminologia tensiva, esse fenômeno pode ser expressado pelo menos menos, restabelecimento, p. 60).

Voltando às reflexões feitas quanto ao nível narrativo da significação, vê-se que o sujeito está, ao final do trecho transcrito, novamente virtualizado com a modalidade do querer-ser, mas também mais convicto de seu programa por meio do valor de dever-ser, que lhe é transmitido pelo destinador e pelo qual se pauta a partir de então. A conjunção com o valor de não-dever- não-ser, mencionada acima, foi uma das configurações que permitiu a constituição dessa identidade afirmativa (querer e dever-ser), uma nova disposição do sujeito diante do PN. No nível discursivo, a figura dos traços étnicos passa da disforia à euforia.