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CAPÍTULO 1 – DO SERTÃO À ESCRITA

1.2 O homem

1.2.1 O homem e o outro

Desde o início, o caráter misturado de Riobaldo, que contagia todos os aspectos de sua narração ou, mais precisamente, forma uma unidade com ela – como vimos, o mundo representado não se distingue desse narrador, antes molda- se a seus estados de ânimo – vai se revelar no próprio modo como ele constrói seu discurso.

Grande sertão: veredas inaugura-se por um travessão que só se fecha com a

última palavra do livro – estritamente falando, ele nem se fecha, já que o último signo do livro não é a palavra “fim”, mas o símbolo matemático do infinito, ou o duplo zero hindu, representando o eterno retorno.

Instaura-se assim desde o primeiro momento uma situação de fala, e de fala com alguém, pois o ex-jagunço tornado fazendeiro dirige-se durante todo o transcorrer do livro a um senhor vindo da cidade.

Em cerca de 70% das mais de 600 páginas do livro, em mais de 700 momentos, essa personagem é explicitamente interpelada com o pronome de tratamento “senhor”, muitas vezes em fórmulas idênticas ou com pequenas variações: “O senhor sabe” (77 ocorrências), “o senhor não sabe” (4 ocorrências), “digo ao senhor” (47 ocorrências), “o senhor vê” (20 ocorrências), “o senhor veja” (9 ocorrências), “o senhor verá” (6 ocorrências), “o senhor vá ver” (3 ocorrências), “o senhor me entende” (5 ocorrências).

Em outros momentos, é implicada no texto com apelos no modo imperativo, como no caso do famoso “Mire e veja” (29 ocorrências) e “Olhe” (20 ocorrências), ou com pronomes oblíquos, “O senhor já que me ouviu até aqui, vá ouvindo. Porque está chegando hora d‟eu ter que lhe contar as coisas muito estranhas” (GS:V, p. 381), ou nele subentendida nas interrogações e exclamações do narrador, que retoma as perguntas do interlocutor ou o questiona: “De demo? Não gloso.”(GS:V, p. 8), “E o demo – que é só assim o significado dum azougue maligno – tem ordem de

seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.” (GS:V, p. 11).

O livro estrutura-se então como um diálogo, diálogo contudo bastante curioso, como já observaram muitos críticos dessa obra6, pois, embora onipresente, o interlocutor de Riobaldo nunca toma a palavra. Só se materializa através das referências feitas a ele no interior do discurso do próprio narrador. Sabemos assim que ele é diplomado,

Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. (GS:V, p. 14)

Se vê que o senhor sabe muito, em idéia firme, além de ter carta de doutor. (GS:V, p. 25)

E as idéias instruídas do senhor me fornecem paz. (GS:V, p. 39)

moço,

Muita religião, seu moço! (GS:V, p. 16)

que veio da cidade,

O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. (GS:V, p. 39)

que já conhece certos lugares e personagens do sertão e gostaria de desvendá-lo,

Ah, o Tabuleiro? Senhor então conhece? (GS:V, p. 34)

Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. (GS:V, p. 25)

Mas estava lá o Vupes, Alemão Vupes, que eu disse – seo Emílio Wusp, que o senhor diz. (GS:V, p. 71)

ri,

O senhor pode rir: seu riso tem siso. (GS:V, p. 170) O senhor ri certas risadas. (GS:V, p. 7)

6 Walnice Nogueira Galvão (1986, p. 69-70) fala de um monólogo que contém um diálogo e Francis

Utéza (1994, p. 111) de “falsa dupla”. Roberto Schwarz (1981, p. 37), por sua vez, fala de “um monólogo que não chega a ser diálogo”.

toma notas,

Travessia de minha vida. Guararavacã – o senhor veja, o senhor escreva. (GS:V, p. 289)

Campos do Tamanduá-tão – o senhor aí escreva: vinte páginas... (GS:V, p. 546)

concorda com a afirmação de que o diabo não existe,

Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! (GS:V, p. 10).

Ele é, no entanto, essencial à narrativa, que se estrutura inteiramente em torno dele. É sua vontade de conhecer o sertão que permite ao ex-jagunço começar a comentar o que é a região, tanto em seu sentido geográfico quanto em seu sentido humano e espiritual:

O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. (GS:V, p. 7-8).

Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! (GS:V, p. 19).

Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. (GS:V, p. 31).

Permite também que ele discorra sobre a questão metafísica que o atormenta: o diabo existe ou não? O pacto com ele teria sido fechado? Essa discussão é colocada logo no início do livro na forma de uma frase interrogativa:

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. (GS:V, p. 8).

É igualmente a presença desse outro que possibilita que Riobaldo conte sua estória de ex-jagunço, a partir dos lugares que esse seu convidado pretende conhecer ou que ele indica:

Dali vindo, visitar convém ao senhor o povoado dos pretos: esses bateavam em faisqueiras – no recesso brenho do Vargem-da-Cria – donde ouro já se

tirou. Acho, de baixo quilate. Uns pretos que ainda sabem cantar gabos em sua língua da Costa. E em andemos: jagunço era que perpassava ligeiro; no chapadão, os legítimos coitados todos vivem é demais devagar, pasmacez. (GS:V, p. 32-33).

Graças a essa personagem ele pode tecer comentários sobre uma coisa e outra:

Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso? (GS:V, p. 35). Moço: toda saudade é uma espécie de velhice. (GS:V, p. 40).

Mas, principalmente, é esse interlocutor que lhe dá a oportunidade de realizar uma nova travessia do sertão, agora através das palavras.

Sua primeira viagem através desse universo foi determinada pelo acaso – seu encontro com Diadorim menino e depois moço, o fato de ter sido professor de Zé Bebelo, e mesmo a morte da mãe no início de sua adolescência, que determinou sua ida à fazenda do padrinho, foram obra dele:

Ao que, digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa idéia me põe susto. (GS:V, p. 126).

Tais acasos, porém, parecem responder aos desígnios de sua fortuna, que lhe impõe o objetivo de combater o mal, personificado na figura de Hermógenes.

O Hermógenes: mal sem razão... Para poder matar o Hermógenes era que eu tinha conhecido Diadorim, e gostado dele, e seguido essas malaventuranças, por toda a parte? (GS:V, p. 541).

Tal finalidade, naturalmente, só se delineia para Riobaldo quase ao término de sua jornada, quando já de posse de grande parte de seu percurso. A primeira travessia é a da ação cega, da submissão ao jogo da própria sina, o que não deixa de lembrar, sob esse aspecto, a tragédia de Édipo. Mas, ao contrário do herói grego, que ao final de sua estória descobre a verdade clara e certa sobre si mesmo, Riobaldo, ao final da sua, permanece envolto em dúvidas: teria ou não firmado o

pacto demoníaco, como pôde não perceber que Diadorim era na realidade uma mulher e qual enigma envolve a estória do amigo morto?

A angústia, provocada pela ausência de uma linha divisória entre o bem e o mal, o leva à reflexão, habilidade desenvolvida apenas secundariamente no momento da ação.

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp‟ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. (GS:V, p. 10).

A chegada do estranho à sua fazenda, atraído pelos tiros ouvidos, dará a ele a oportunidade de refazer toda a sua trajetória, em busca de um sentido com o qual não atinou enquanto estava vivendo.

Riobaldo inicia o diálogo não contando a própria estória, mas respondendo à pergunta do visitante sobre os tiros ouvidos e, consequentemente, falando-lhe sobre o aparecimento do bezerro monstruoso, assimilado pelos habitantes das redondezas ao demônio. Desse modo, a questão da existência ou não do diabo e a subsequente introdução do problema da coexistência do bem e do mal nas coisas e nas pessoas surgem como o desenvolvimento de uma conversa, um assunto puxando outro.

É desse mesmo modo casual que surgem alguns lugares e personagens importantes da vida de Riobaldo como jagunço, as Veredas-Mortas, o Paredão, Hermógenes, Medeiro Vaz, Zé Bebelo, Diadorim, sem que saibamos em que estória tais lugares e personagens estão inseridos.

A conversa prossegue assim, ritmada pela eclosão das lembranças de Riobaldo, e só seguirá um fio cronológico a partir do encontro com o Menino, já na página cem do livro.

Francis Utéza comenta que, no momento da eclosão das lembranças, Riobaldo parece não poder impedir que aflorem, dominado pela emoção ou pela angústia. Percebe a falta de ordem de sua exposição e a justifica tanto “porque é seu jeito de contar” (GS:V, p. 98), quanto em razão de os fatos, na memória de cada um, terem pesos e medidas diversos, não se apresentando na ordem em que efetivamente aconteceram, mas em função de seu significado para quem os viveu.

O que vale são outras coisas. A lembrança da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe. (GS:V, p. 98-99).

O mesmo autor aponta o logro contido nessa explicação: se Riobaldo realmente priorizasse, em sua narração, os momentos que mais o marcaram, teria logo de início contado o pacto nas Veredas-Mortas, o combate no Paredão, a verdadeira identidade de Diadorim. E não teria a preocupação, como faz a seguir, em começar a contar sua estória em ordem cronológica (UTÉZA, 1994, p. 119-120).

Trata-se, pois, o tempo todo, de uma astúcia de narrador: mineiramente, ele vai suscitando a curiosidade do desconhecido que, a essa altura – estamos na página cem do livro –, já deve estar para lá de intrigado e se perguntando pela ligação entre tantas informações soltas; e, não menos mineiramente, vai expondo ao longo dessas cem páginas a nós, leitores, que o que temos diante dos olhos “não é uma vida de sertanejo, seja se for de jagunço, mas a matéria vertente” (GS:V, p. 100), ou seja, mesmo que, daqui por diante, a narração seja feita, em suas linhas gerais, de maneira cronológica, será sempre realizada não de um ponto de vista “objetivo”, mas única e exclusivamente da perspectiva das dúvidas e da angústia de Riobaldo.

Da perspectiva da relação entre o narrador e o narratário, este último também pode ser visto como parte da astúcia do narrador: nunca dar a palavra ao interlocutor e, ao mesmo tempo, incluí-lo no próprio discurso, materializando-o conforme a necessidade da narrativa, é um meio de forjar um discurso em que se tem o controle total da narração.

Nessa segunda travessia do sertão, Riobaldo age como demiurgo da própria estória: já de posse de sua finalidade, reconfigura todos os acontecimentos em função dela.

Assim, o fato de Riobaldo privilegiar os acontecimentos mais significativos de sua vida em sua narração é falso de certo ponto de vista, mas muito verdadeiro de outro: não lhe interessa contar o que é a vida do jagunço e do sertanejo, ou seja, fazer história e sociologia, interessa-lhe unicamente refazer o sentido de suas próprias ações passadas, como em um romance de formação.

O narratário serve-lhe de âncora pois, na presença dele, Riobaldo precisa contar sua estória de modo a se fazer entender, não se limitando a remoer suas dúvidas, como poderia fazer se estivesse falando apenas consigo próprio. É esse esforço de narração que lhe permite reconfigurar toda a sua estória de acordo com o sentido que atribui a ela.

A presença do outro funciona como a estátua do juiz supremo: motivado pelas qualidades que ele projeta a priori no ouvinte, o narrador fixa obrigações, principalmente a de organizar seu discurso, de modo a não ruminar somente as lembranças num monólogo interior sem consistência. Embora fantasmático, o “doutor” acaba por assumir uma função alquímica ambivalente: é para ele que Riobaldo analisa – dissolve – e recompõe –

coagula – o caos do passado. (UTÉZA, 1994, p. 115-116).