I. ASPECTOS FUNDAMENTAIS SOBRE O INTERESSE PÚBLICO NO ANTIDUMPING
1.3 A INDETERMINAÇÃO DA NOÇÃO DE INTERESSE PÚBLICO
1.3.5 A indeterminação do interesse público e protecionismo
1.3.5.1 O interesse protecionista no comércio internacional
Um país pode decidir proteger um determinado setor por várias razões. Estes motivos podem estar ligados ao interesse público, mas também podem estar relacionados a pressões individualistas, que representam tão-somente a vontade de um pequeno grupo. Esta proteção pode se dar de várias formas, como pela imposição de quotas para importação, de licenças, ou de medidas antidumping.
Para que se possa entender adequadamente o protecionismo no comércio internacional, um rápido resgate histórico é necessário.
Na Conferência de Bretton Woods, em 1944, foram traçadas as linhas dos três pilares da nova ordem econômica internacional, segundo a qual o liberalismo, entendido sob três aspectos, era essencial. O primeiro pilar a ser construído era o Fundo Monetário Internacional, capaz de promover o equilíbrio macroeconômico esperado à nova ordem. O segundo pilar, o Banco Mundial, tinha como principais desafios conseguir recursos para as nações em desenvolvimento, para que estas pudessem se tornar parte do contexto liberal. Por fim, restou o comércio internacional como terceiro pilar, a expectativa de que o aumento das trocas entre as nações seria a solução para evitar conflitos entre elas. Após o fracasso da Organização Internacional do Comércio, coube ao GATT a dura tarefa de encabeçar a negociação de concessões entre os países, tarefa que durou oito rodadas até que fosse criada a OMC.
O protecionismo que interessa a este trabalho começou no momento em que os países passaram a negociar estas concessões. Bhagwati defende que as nações dominantes perseguem acesso aos mercados mundiais enxergando nas políticas
126 de comércio, a serem adotadas multilateralmente, o seu próprio interesse nacional.286 Contudo, o crescimento do comércio revelou seu instinto, que é a conquista de mercados de outros países. A reação era prevista: pressões protecionistas aumentaram significativamente.287 O autor se apóia na doutrina Darwiniana para defender que, psicologicamente, o comércio é a idéia e a preferência política de um país quando ele está forte, quando há uma crença firme de que o país irá sobreviver ao combate com outros países. Assim, os surtos de apoio e repulsa ao desenvolvimento do comércio – e, conseqüentemente, protecionismo – alternam-se em momentos de força e fraqueza do próprio país.
O aumento do comércio entre os países foi substancial nos primeiros anos de negociação, gerando maior riqueza, arrecadação e bem-estar. Bem-estar, arrecadação e riqueza motivaram, por sua vez, mais cortes tarifários, formando um círculo de prosperidade observado nos anos 50 e 60. Em 1970, o surto positivo foi severamente golpeado288 pelo surgimento das barreiras não-tarifárias ao comércio289, a proteção administrativa, já que tais barreiras não necessitam de um longo processo legislativo para aplicação e podem encobrir mais facilmente a ação de grupos de interesse.290 Observou-se uma diminuição moderada na expansão do comércio entre 1973 e 1983.
Mesmo com a difusão dos mecanismos de proteção, grande crescimento do comércio foi observado. A explicação de Baldwin para este cenário é que a proteção é sempre menor do que ela sugere, pois os exportadores sempre encontrarão uma forma de continuar aumentando seus ganhos em exportação, seja
286 Este argumento individualista foi construído com a observação de que a liberalização do comércio mundial seguiu o crescimento da Grã-Bretanha, no século XIX, e dos Estados Unidos, no século XX. 287 BHAGWATI, Jagdish. Protectionism. Massachusetts: The MIT Press, 1988, p. 25-38.
288 Este golpe pode ser explicado pela crise financeira atravessada por vários países, nesta época, relacionada à crise do petróleo da década de 70. O déficit da oferta do petróleo causou a recessão nos Estados Unidos e na Europa e grande instabilidade ao redor do mundo.
289 As barreiras não-tarifárias são restrições de quantidades, composição e destino dos produtos no comércio internacional, podendo ser citadas as quotas, contingenciamentos, as licenças de importação, as medidas sanitárias e fitossanitárias, entre outras. (VIEGAS, Isabel; JANK, Marcos; MIRANDA, Silvia. Barreiras não-tarifárias dos Estados Unidos e União Européia sobre as exportações agrícolas brasileiras. Informações Econômicas, v. 37, n. 3, março 2007, p. 27.) Barreiras não-tarifárias são definidas como qualquer restrição, despesas ou política que não seja uma tarifa, que limite o acesso dos produtos importados, como quotas, sistemas de licenciamentos, regulamentos sanitários, proibições. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO, Glossário, disponível em WWW.wto.org).
127 exportando os componentes, não o produto pronto, seja encontrando substitutos para a demanda dos importadores.291
Em 1970, outro fator elevou a preocupação das nações: a entrada, no comércio mundial, de países como Japão e os tigres asiáticos (já assim chamados, Singapura, Hong Kong, Coréia do Sul e Taiwan). Tal fato causou um efeito psicológico relevante, sobretudo nos Estados Unidos, onde propagandas protecionistas passaram a incomodar os norte-americanos com a idéia de que seus filhos trabalhariam, no futuro, em fábricas dos japoneses. Criou-se a falsa idéia de que o sucesso dos japoneses seria explicado pela prática do comércio desleal. Esta preocupação acelerou a ação das estruturas de pressão, dos grupos de lobby, que passaram a atuar diretamente perante as instituições na busca de socorro.
Lafay enumera dois tipos de proteção. A primeira é a proteção ofensiva, que tem como escopo obter vantagens comparativas e melhorar sensivelmente a competitividade de um setor determinado. Ela atua para sanar uma deficiência temporária da indústria doméstica. Ela é justificada para proteger indústrias nascentes, por exemplo, em países em desenvolvimento. Este tipo de protecionismo deve decrescer com o tempo. Ela deve fixar objetivos concretos e realistas ao país. O segundo tipo é o protecionismo defensivo, que age para defender uma posição ameaçada. É menos ambicioso do que o protecionismo ofensivo, mas é mais perigoso porque pode facilmente se generalizar, atingindo diversos setores sem explicação lógica.292
Corden cita três importantes razões para que um país decida proteger: a defesa do emprego; o que ele chama de “pauper labor”; e a lealdade.293
A primeira razão nasce da incompleta noção de que a proteção preserva empregos. Em primeiro lugar, a proteção pode beneficiar um setor, mas provocar efeitos adversos em outro: a proteção à indústria do aço, nos Estados Unidos, causou o desemprego na indústria automobilística norte-americana. Em segundo lugar, nem sempre o desemprego é causado pelo dano gerado pelo dumping: a remuneração
291 BALDWIN, Robert. Inefficacy of protection in promoting social goals. World Economy, v. 8, p. 110. 292 LAFAY, Gérard. Peut-on se proteger de la crise? Le protectionnisme. Paris: Economica. 1985, p. 148-149.
293 CORDEN. W. The revival of protectionism. Occasional papers. New York: Group of Thirty. 1984, p.17 – 19.
128 dos empregados (fruto da proteção aos direitos sociais) pode ser tão alta que leva ao desemprego, por exemplo.
Sob o argumento chamado “pauper labor”, alguns países protegem sua indústria contra mercadorias originárias de países em que a remuneração é baixa ou não há respeito aos direitos sociais, com o intuito de boicotar tais importações e, assim, provocar a reflexão dos países exportadores. Com base nesta teoria, algumas uniões de trabalhadores norte-americanos pediram ao governo que impusesse barreiras à importação de mercadorias de Hong Kong. Contudo, a queda das importações pelos Estados Unidos fez com que os produtores de Hong Kong abaixassem ainda mais seus preços, ou investir em outros mercados, demitindo um grande número de empregados, sem qualquer conseqüência positiva para os empregados de Hong Kong.
Por fim, alguns países defendem que, se os exportadores conseguem vender em terceiros mercados por um preço muito baixo, seja por meio de corte nos custos ou pagamento de salários menores a seus empregados, esta prática é desleal e autoriza qualquer ação protecionista.
O problema do protecionismo está na avaliação dos seus efeitos pelos governos. Para Long, o escopo da liberalização do comércio internacional depende da capacidade dos governos nacionais de se informar e prever, antecipadamente, os futuros efeitos de suas decisões sobre proteção. Em momentos de crise, esta previsão não é tão fácil, e, por isso, deve ser feita antes mesmo que ela seja realmente necessária. Em segundo lugar, as políticas nacionais para promover setores domésticos e, com isso, mudanças no ambiente econômico, não podem ser postas em prática sem a concordância da comunidade.294