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CAPÍTULO III – ANÁLISE DOS PROGRAMAS ELEITORAIS DE TELEVISÃO DAS

2. Perfil e análise dos programas de 2000

2.4. O messianismo

Quando entram em cena estratégias para colocar João Paulo como competente, preparado, aquele que vai mudar o Recife, que vai administrar com o povo, que lutou e luta pelas classes pobres, observa-se a adoção, em vários momentos, de um recurso que não é novo na política brasileira: o messianismo. As materialidades verbais e não verbais dos programas compõem um poderoso reforço para situar o petista como o escolhido, o salvador do povo. Generalizando, faz parte do imaginário dos brasileiros a crença de que sempre surgirá um salvador da pátria, seja na política, no esporte, nos serviços de utilidade pública. Essa fé popular que mistura o profano e o religioso tem origem na História do país.

A história do Brasil traz em eu bojo características flagrantes desse imaginário mítico-religioso que tem interferido nos destinos políticos do país. Desde o seu descobrimento, os portugueses já aqui vinham com a esperança de encontrar o Paraíso Terreal. A colonização, portanto, foi feita sob bases de catequização: a Igreja e o Estado caminharam pari passu até a Proclamação da República; no entanto, a República não pôde prescindir totalmente da influência da Igreja e passou-lhe a responsabilidade de manter a hegemonia social de acordo com os cânones políticos. (TAVARES, 1998, p. 13)

Para Foucault, o discurso religioso está circunscrito na base de outros discursos, como se fosse um discurso primeiro ou fundador na sociedade, embora isso não imprima uma ordem fixa, acabada nos discursos. “É certo que esse deslocamento não é estável, nem constante, nem absoluto. Não há, de um lado, a categoria dada uma vez por todas, dos

discursos fundamentais ou criadores(...)”(FOUCAULT, 2006, p. 23). Não é sempre que o discurso político está impregnado pelo discurso religioso, mas pode surgir (e surge) em conceitos éticos, morais, de normas e padrões sociais do que é considerado certo para a sociedade.

Em suma, pode-se supor que há, muito regularmente nas sociedades, uma espécie de desnivelamento entre os discursos: os discursos que ‘se dizem’ no correr dos dias e das trocas, e que passam com o ato mesmo que os pronunciou; e os discursos que estão na origem de certo número de atos novos de fala que os retomam, os transformam ou falam deles, ou seja, os discursos que, indefinidamente, para além de sua formulação, são ditos, permanecem ditos e estão ainda por dizer. Nós os conhecemos em nosso sistema de cultura: são os textos religiosos ou jurídicos, são também esses textos curiosos, quando se considera o seu estatuto, e que chamamos de ‘literários’; em certa medida textos científicos. (FOUCAULT, 2006a, p. 22)

O caráter messiânico, por vezes, está nas filigranas dos discursos e imagens. O fato de João Paulo ter origem humilde, como filho de cobrador de ônibus e dona de casa, trabalhar como operário e chegar a ser o deputado estadual mais votado da Assembléia Legislativa o torna um modelo ideal a ser enquadrado no perfil de ‘o escolhido’. Até porque a ascensão social é algo que emociona e motiva as pessoas. Ainda mais quando esse personagem agora está no segundo turno de uma eleição para Prefeito do Recife e com possibilidades de vitória. Mais: prometendo trabalhar para o povo, para a maioria. Mas, sobretudo, a base religiosa de João Paulo, a sua militância na Juventude Operária Católica e depois na Ação Católica Operária remete a uma familiaridade do político com as questões mais transcendentais.

A idéia de ‘salvação’ está sempre ligada às idéias de renovação, de regeneração cósmica, de um novo tempo total e absoluto, da restauração da pureza e da integridade originais. O ‘messias’, o ‘salvador’ assume, então, o papel de representante de Deus na Terra. A ‘experiência do sagrado’ é o que possibilita aos homens a sua proximidade com o mundo dos deuses, pois esse homem comum tem horror ao caos que o envolve no seu cotidiano quase sempre repetitivo.(TAVARES, 1998, p. 16)

Os cenários e imagens de alguns programas também reforçam a tese do salvador, como no programa do dia 12/10/2000. A música cantada lenta e suavemente por Roberto Carlos serve de fundo musical para imagens que estão em preto e branco e vão ficando coloridas quando a estrela amarela da logomarca de João Paulo vai passando, sobrepondo-se

ás imagens como um cometa. São imagens aéreas do Recife, cenas de trabalhadores, crianças nos bairros, pessoas andando nas pontes do centro do Recife, close de trabalhadores sorrindo, pessoas jogando e se bronzeando na praia de Boa Viagem. A letra da música reforça o tom do discurso:

Letra da música cantada por Roberto Carlos:

“Uma estrela vai brilhar, no meu caminho. O meu dia vai chegar

Com muito amor no coração, eu vou seguindo Tudo então vai clarear

Uma estrela vai brilhar

Uma estrela vai brilhar no meu caminho Uma estrela vai brilhar

Um lindo dia a alegria vai chegar

E uma estrela vai brilhar no meu caminho Uma estrela vai brilhar”

A letra da música tem dois viés: João Paulo falando como ‘messias’ e o povo falando como contemplado pela vinda do ‘messias’. São, então, duas vozes representadas no texto. João Paulo diz: “uma estrela vai brilhar, no meu caminho” e ‘eu vou chegar mais longe do que cheguei sendo eleito para a prefeitura do Recife. Povo diz: “uma estrela vai brilhar no meu caminho. E o meu dia vai chegar”, ‘com a vinda de um ser que vai cuidar da gente, pela primeira vez’. Afinal, segundo a Bíblia, quando Jesus Cristo veio ao mundo uma estrela brilhou nos céus anunciando a sua vinda. E ambos – João Paulo e povo - dizem: “com muito amor no coração, eu vou seguindo”. Apesar das críticas de Roberto Magalhães contra João Paulo no seu programa, do boato espalhado na cidade de que João Paulo iria colocar os sem- teto na Prefeitura, que João Paulo estava incentivando a ocupação, por favelas, das margens do viaduto Joana Bezerra, apesar de tudo, ‘ele tinha muito amor no coração e vai seguir em frente’. E apesar de a população não conhecer nenhuma experiência administrativa de João Paulo, apesar de ele não ter escolaridade de nível superior (crítica dos opositores que também circulava na mídia), o povo iria seguir com ele, também com amor no coração, junto com crianças, adolescentes, idosos, trabalhadores, artistas, intelectuais, enfim, personagens que foram valorizados pelos programas eleitorais. E então, ‘todos juntos vamos participar de um novo tempo’, porque “tudo então vai clarear”, com a estrela que vai brilhar no caminho de

todos, a estrela de João Paulo, a estrela João Paulo. Apesar de a estrela ser o símbolo do PT e estar na logomarca de campanha do candidato petista, é como se a figura de João Paulo tivesse se apossado desse símbolo, dessa imagem, porque ‘ele é maior que o PT’.

Outras cenas de campanha também são exemplares. Quase todas as imagens em tomadas de rua, como atos públicos, carreatas e caminhadas, mostram João Paulo com os braços levantados para cima, olhando para cima, rindo, numa referência bem religiosa, mais do catolicismo, que preconiza “sempre para o alto”, em latim Duc in Altum. O Cristianismo remonta a sua História, revelando que Jesus Cristo sempre subia em montes para fazer as pregações, numa simbologia de estar perto dos céus, do alto, como no Monte das Oliveiras, Monte Sinai. O programa do dia 12/10/2000 retrata bem isso. São colagens de quatro imagens que aparecem em cena simultaneamente: uma menina olhando para um ponto, de lado (canto alto esquerdo). O Sol bem grande, nascendo, logo acima da imagem da cabeça de João Paulo e Lula (canto alto direito); multidão numa caminhada com bandeiras; e no canto esquerdo baixo, João Paulo, Lula e Luciana Santos. Os três olhando para cima, acenando com um braço. O fundo musical é instrumental, lento e dramático. Então o locutor diz:

Locutor (voz masculina):

“Um novo tempo se aproxima. Conduzido pelo povo, chega tão forte que quebrará as barreiras da prepotência. Tão seguro que transformará os diferentes em iguais. Tão concreto que direcionará os sonhos de todos, e todos os sonhos para um só. Se instala com dignidade, transparência e participação popular. O novo tempo chega com João Paulo. É urgente. Não dá mais para esperar.”

A idéia de um “novo tempo” que será inaugurado com a ‘vinda’ de João Paulo é recorrente. ‘Ele vem’, ‘João Paulo vem’. O verbo “conduzir” reforça o sentido religioso: João Paulo vem “conduzido pelo povo’, ‘vem nos braços do povo’. O homem humilde que vai quebrar todas as barreiras pelo e para o povo, inclusive “as barreiras da prepotência” (Roberto Magalhães, que é contra os pobres, os humildes). A expressão “e transformará diferentes em iguais” remonta a um ‘poder supremo’, capaz de um milagre: ninguém se sentirá excluído, todos serão iguais para João Paulo. E ele “direcionará os sonhos de todos, e todos os sonhos para um só”, ou seja, ‘João Paulo, o escolhido, vai unir todo o povo em torno dele’. Os termos “seguro”, “concreto”, “dignidade”, “transparência”, “participação popular” são repetidos em outros trechos dos programas da Frente de Esquerda do Recife.

Um poema popular, narrado pelo ator pernambucano Cláudio Ferrário, vestido de camisa vermelha, que foi ao ar no programa dos dias 12/10/2000 à noite e 13/10/2000 à tarde, é nuclear para referendar que o tom messiânico passeia por vários gêneros nos programas de João Paulo, reforçando que os signos verbais e não verbais são maleáveis e podem ser reconstruídos, a cada momento e para cada situação.

Poema popular:

“O Recife ganhou uma nova vida E a arrogância deu lugar à alegria A intolerância marcou data pra partida E a ignorância não está na ordem do dia A violência, essa desnecessária vadia com a incompetência fez as malas e partiu Pra onde foi, ninguém sabe, ninguém viu É... brilhou tão forte uma estrela de novo Que a alegria chegou nos olhos do povo E o rio da vida no Recife surgiu”

Aqui novamente se inscreve a idéia de “nova vida”, ‘novo tempo’. E enquanto categoriza e referencia ‘a era Roberto Magalhães (e a ele próprio) de era da “arrogância”, “intolerância”, “ignorância”, “violência”, “incompetência”, João Paulo inaugura uma era de “alegria”, de uma “nova vida”. Mais uma vez a referência à estrela que anunciou a vinda de Jesus Cristo, com o trecho “brilhou tão forte uma estrela de novo”, isto é, “de novo”, dessa vez para João Paulo. O poema é finalizado com o verso “E o rio da vida no Recife surgiu”, a expressão “rio da vida” associa os rios que entrecortam o centro do Recife e “o rio”, as águas, que são símbolos místico-religiosos.

No dia 21/10/2000, a Frente de Esquerda do Recife veiculou outra peça de campanha sob essa atmosfera de referenciar e categorizar João Paulo como ‘o salvador’. Começa a cena com a imagem de uma de uma pipa no céu, vermelha e com o número treze em branco. Aparece João Paulo no meio do povo. Pessoas jogando papel picado pelas janelas e varandas dos prédios, durante a passagem de caminhada. Militantes acompanhando com bandeiras. Clima festivo. João Paulo, sempre rindo, acenando para o povo, sendo abraçado. A câmara foca em João Paulo, em close, e vai se sobrepondo à imagem dele a imagem de uma santa num altar ao ar livre, num local alto. Depois surge um cenário de mar, no horizonte, com o sol

nascendo, um coqueiro, e vai surgindo a estrela da logomarca de João Paulo no horizonte. O fundo musical é um dos jingles de campanha, que tem uma melodia lenta:

Jingle:

“João Paulo é treze de coração O nosso guerreiro

João Paulo é treze de coração A nossa esperança

João Paulo é treze de coração O nosso guerreiro

É treze de coração A nossa esperança”

A repetição do substantivo “coração” também remete ao profano e ao religioso. Coração de quem tem amor para dar ao povo, de quem não tem rancor, não é violento. Coração lembra ainda a cor vermelha, de esquerda, de socialismo. Coração também tem um sentido religioso, basta lembrar amuletos com o nome “coração de Jesus”. A palavra “esperança” também é reproduzida nesse jingle, como em outras peças da campanha. E a palavra “guerreiro” categoriza e referencia João Paulo como o lutador, ‘o homem que pode e vai defender o povo’.

Alguns dos momentos dos programas eleitorais de João Paulo desnudam o messianismo na sua campanha, como na fala de um trabalhador entrevistado. Ele faz referência ao episódio no qual João Paulo quebrou costelas ao ser espancado por policiais militares na comunidade de Sítio Grande, no bairro da Imbiribeira, no Recife, durante um confronto gerado pela tentativa de desapropriação de terra. Na época, João Paulo era deputado estadual e foi defender os moradores.

O programa foi ao ar no dia 12/10/2000, à tarde. Depoimento de trabalhador: “João

Paulo é uma pessoa que lutou e luta pela classe pobre. Aí inclusive quando ele tava ali naquela invasão da Imbiribeira, ajudando aquele povo ali, eu dei em ponto a ele nota dez.”