Capítulo IV. Dinâmicas interpessoais da Violência de Género 90
4.1. A vítima e o agressor: o exercício da dominação 90
4.1.1. O namoro: da precocidade do controlo social e do ciúme 92
Quisemos analisar o percurso da relação conjugal violenta que forçou a ida das entrevistadas para as casas-‐abrigo, desde a fase do namoro. Interessava-‐nos perceber se os comportamentos violentos são manifestados desde cedo na relação e, nesse caso, que tipo de comportamentos ou actos violentos ocorreram.
Após uma análise da existência de violência desde o namoro, verificamos que apenas 6 das 30 entrevistadas referiram não ter começado a ser vítimas de violência durante esse período. O indicador de análise “ocorrência de violência durante o namoro” foi registada 71 vezes59, dados que embora não permitam extrapolações, indiciam uma forte possibilidade da maior parte das vítimas de violência de género, ter começado as suas trajectórias de violência durante o namoro60. Esta conclusão, encontra-‐se em consonância com os dados de Barroso (Barroso, 2007) e Lisboa e colegas (Lisboa et al.,2006), indiciando longos ciclos de violência efectiva. O estudo de Barroso retira como uma das suas principais conclusões que as situações de vitimação mais frequentes são aquelas que ocorrem há mais de 10 anos, podendo ter sido iniciadas, nas primeiras fases da relação. Já o estudo sobre os Custos Sociais e Económicos da Violência contra as Mulheres (Lisboa et al.,2006) mostra que entre os 52% de mulheres que descrevem longas trajectórias de violência, 39% desses casos podem ir até 10 anos de violência.
59 Todos os resultados estatísticos que neste capítulo se apresentam, podem ser consultados no anexo II
(da página 339 à página 351).
60 A propósito da violência no namoro, Arriaga and Foshee, num estudo de 2004 a 526 adolescentes
Norte Americanos (alunos do 8º e 9º ano correspondente ao Eight e Nine grade nos Estados Unidos) apresentam os seguintes resultados: «One kind of restrictive definition—one that isolates physical violence for study—yields rates, as noted, from 10 to nearly 40 percent. While high and in a wide range, these rates are still lower than those for psychological/emotional forms of abuse, which are reported to have a prevalence rate as high as 76 percent among dating teens. 21 Sexual violence tends to be reported at lower rates than the other two subtypes, i.e., at 3 to 11 percent» (Arriaga & Foshee, 2004, p. 174).
A recolha de informação realizada no corrente trabalho revela longas trajectórias de vitimação. De acordo com alguns dados já referidos na metodologia, das 30 entrevistadas, 18 delas estiveram juntas ou casadas com violência entre 2 a 10 anos, corroborando o período de 10 anos ao qual os estudos acima supracitados se referem. No entanto 12 delas dividem-‐se entre trajectórias de violência de 11 a 20 anos e de mais de 20 anos. Estes dados, apesar de não pretenderem ser representativos para o universo das mulheres vítimas de violência de género em Portugal, não deixam de coincidir com algumas das conclusões anteriores, nalguns dos casos até com trajectórias de vitimação mais longas que ultrapassam os 10 anos de violência (Lisboa et al.,2006).
A análise dos resultados estatísticos realizados para este trabalho, apresenta uma associação entre a variável “violência no namoro” e as variáveis “violência física” e “violência psicológica”61 (𝑅ij=5,2 e 𝑅ij=3,9, respectivamente62). Desta forma, não é apenas a violência psicológica que se começa a manifestar durante as fases do namoro (Walker, 2009). O que estes resultados acrescentam é que também a violência física começa a ser exercida nas fases iniciais destas relações, ao contrário do afirmado pela autora suprareferida.
Uma das entrevistadas descreve como foi durante o namoro que começou a perceber que o agressor controlava todas as suas actividades e acções. Mas numa atitude de desculpabilização até achou que esse controlo a fazia sentir protegida. No fundo, a entrevista revela uma expressão da incorporação dos estereótipos de género onde o homem é visto como o principal protector das mulheres:
Ana: «Ele perseguia-‐me, ele…era por telefone, era com quem falaste, com quem estiveste, quem viste, com quem…tudo. Tudo, queria sempre pormenores de tudo. E eu comecei a ver que alguma coisa não está bem. Entrevistadora-‐ Mas isto na fase do namoro?
61
Em relação à violência sexual, não se encontrou associação nem no cálculo dos resíduos estandardizados ajustados nem no χ2.
62
Os cálculos do χ2 revelam associação entre a variável “violência psicológica” e “violência física” na fase do namoro. Em relação à associação entre “violência física” e a “fase do namoro” expressa-‐se por: χ2(1)=27,539; p<0,001. Quanto à variável “violência psicológica” e “fase do namoro” a associação
Ana-‐ Também na fase do namoro. Também.
Entrevistadora-‐ E na fase do namoro houve violência…quer dizer houve… Ana-‐ Física…Houve nesse sentido. Mas eu também pensei é porque ele se preocupa comigo, isto é porque ele gosta mesmo de mim, ou seja na fase do namoro a gente justifica. Eu arranjava justificação para aquilo que ele fazia. Ou seja, ele de uma certa maneira estava-‐me a controlar e eu achava que era sinal que ele gostava de mim.»
(Ana, 27 anos)
A situação acima descrita coincide com os primeiros sinais de uma relação violenta que muitas vezes passam sem o reconhecimento da vítima: «Uncontrollable jealousy by the batterer was reported by almost all of the battered women, suggesting this is another critical risk factor. Again, enjoyment of the extra attention and flattery masked these early warning signs for many women» (Walker, 2009, p. 18)
Consideremos o exemplo de Rosinha: casada durante 20 anos, período antecedido por 4 anos de namoro. Ela descreve-‐nos que o controlo social por parte do seu parceiro começou logo no namoro e tinha como objectivo afastar a mãe da entrevistada:
Rosinha: «Perdi o contacto com a minha mãe. Ele ficou diferente, já dizia o que eu tinha que fazer. “Tu não podes ir ali”, a mandar. “Não quero que tenhas contacto com essa amiga”, começou logo tudo. Aí eu disse: “Mas o que é isto?” Por exemplo, eu não podia ter amigos homens, amigos rapazes, amigos rapazes. E, e ele não aceitava isso. Estava eu, parece de quatro meses (ainda namorados pouco depois de nos juntarmos), quando eu disse: “Vou lá até a baixo beber um café com uns amigos”. Oh, e pronto. Ele disse: “Mas tu não vais.”, eu alevanto-‐me, finjo que ia abrir a porta, ele vai logo, dá-‐me um grande estalo na cara, e disse: “Tu não vais.” E eu aí vi o que é que se passava. Eu tentei ter contacto com a minha mãe, e ela depois já fechou as portas. Já não deixou. Eu vi o que é que se passava, e vi que estava sozinha.»
Mas a manifestação de violência e do controlo social não é apenas apanágio das relações conjugais violentas mais longas. Cristina, por exemplo viveu com o seu companheiro durante 2 anos. Logo no início do namoro, foi vítima da primeira agressão física:
Cristina: «Logo no primeiro mês de namoro, no mês de namoro ele numa discoteca mostrou-‐me agressividade porque deu-‐me…bebeu e chateou-‐se, via coisas que não se estava a passar, via coisas e com…não sei. Chegou-‐me ao pé e toma com o telemóvel…uma chapada com o telefone, porque dizia que eu estava a dançar muito ou que o amigo estava a olhar muito para mim e não estava a gostar, pronto, ciúmes.
Entrevistadora: Ele era possessivo? Cristina: Muito. Mas pronto…»
(Cristina, 28 anos)
O aparecimento do ciúme é precoce nas relações violentas, tal como a violência psicológica e física. O controlo social é rapidamente exercido e torna-‐se permanente, instigado por uma coercividade sobre todas as acções, interacções e movimentos das mulheres. O controlo social é motivado pela necessidade do agressor em manter as mulheres sob o seu domínio sem que ninguém, exterior à relação, o possa questionar mas principalmente, impedir que alguém possa fazer com que a mulher o questione. A acumulação dessas situações vai contribuindo para que as mulheres se afastem cada vez mais dos seus amigos e/ou família. É por isso relevante explorar o exercício do controlo social.