• Nenhum resultado encontrado

4 O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL

4.3 O PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDÁTICO (PNLD)

O ensino de Língua Portuguesa sofreu inúmeras mudanças ao longo dos anos e essas também ocorreram com a reformulação de programas, como o Programa Nacional do Livro Didático. Esse projeto foi criado com o intuito de auxiliar o trabalho do professor ao realizar a distribuição de “livros de português para os alunos de todos os anos do ensino fundamental” (FARACO, 2008, p. 197), alcançando o Ensino Médio.

A partir de 1995, o MEC começou a participar diretamente na elaboração e distribuição dos Livros Didáticos. Com isso, passou a efetuar um conjunto de medidas a fim de “avaliar sistemática e continuamente o livro didático brasileiro e para debater, com os diferentes setores envolvidos em sua produção e consumo, um horizonte de expectativas em relação a suas características, funções e qualidade” (BATISTA, 2001, p. 11).

Até o momento, o MEC vinha participando na elaboração e distribuição dos Livros Didáticos através “da Fundação de Assistência ao Estudante (FAE) - executor

do Programa Nacional do Livro Didático até a extinção do órgão, em 1997” (BATISTA, 2001, p. 11). Nesse período, não se levava em consideração a qualidade do Livro Didático, propostas e metodologias de ensino inovadoras, trabalhadas sob o viés da linguagem. Com isso, foram surgindo críticas às propostas de ensino apresentadas até então nos Livros Didáticos. Compreendeu-se que o Livro Didático era o único material de apoio do professor e, por isso, a importância de se modificar as metodologias de ensino apresentadas nesses exemplares, a fim de contribuir e auxiliar no trabalho do professor.

Os primeiros movimentos de mudança ocorreram no início dos anos 90, quando o MEC começou a participar diretamente das discussões sobre a qualidade dos Livros Didáticos. Inicialmente, a intervenção ocorreu em 1993, por meio do Plano Decenal de Educação para Todos, que valorizava a capacitação dos professores para o processo de escolha dos materiais didáticos. Em um segundo momento, também em 1993, o Ministério criou uma comissão de pesquisadores, para avaliar a qualidade dos Livros Didáticos e estabelecer critérios para a avaliação desses exemplares. Em 1994, são apresentados os resultados das pesquisas realizadas pela comissão, apontando para uma inadequação editorial, conceitual e metodológica dos Livros Didáticos (BATISTA, 2001, p. 12).

Os resultados da avaliação realizada pelo grupo de pesquisadores são divulgados em 1995, quando é universalizada a distribuição de Livros Didáticos pelo PNLD, bem como instituído pelo Ministério o processo de análise e de avaliação dos Livros Didáticos distribuídos às escolas. A partir desse período, foram definidos alguns critérios para a avaliação dos Livros Didáticos. Os livros “não poderiam expressar preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação; não poderiam induzir ao erro ou conter erros graves relativos ao conteúdo da área, como, por exemplo, erros conceituais” (BATISTA, 2001, p. 13).

Ao longo desse processo, foram surgindo mudanças e avanços na distribuição e avaliação de Livros Didáticos pelo PNLD, a fim de favorecer a escolha dos livros e contribuir para o trabalho do professor. Até o PNLD/98, as avaliações dos Livros Didáticos eram realizadas de 1ª a 4ª série. Pela primeira vez, no PNLD/99, são realizadas avaliações dos livros designados para as séries finais do ensino fundamental, de 5ª a 8ª série.

A partir da avaliação do PNLD/99, são realizadas novas modificações no processo de avaliação dos Livros Didáticos. Passou-se a valorizar a escolha “de livros cuja abordagem metodológica favorecesse apropriadamente o desenvolvimento das competências cognitivas básicas (como a compreensão, a memorização, a análise, a síntese, a formulação de hipóteses e o planejamento)” (BATISTA, 2001, p. 16).

As informações acima mencionadas demonstram as primeiras mudanças e inovações no processo de universalização do PNLD. Entretanto, houve a necessidade de mais reformulações, oriundas da atual realidade social e dos paradigmas sociais enfrentados no período contemporâneo. As novas mudanças encontram-se respaldadas na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº 9394/96, nas novas Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental, criadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (BATISTA, 2001, p. 25).

A LDB passa a promover mudanças no cenário educacional, de um ensino tecnicista, para uma educação voltada para as práticas sociais. No ensino fundamental, essa lei tem

o objetivo de promover a formação básica do cidadão (Art. 32); o desenvolvimento da capacidade de aprender, visando à aquisição de conhecimentos e habilidades e à formação de valores e atitudes (Art. 32, Inciso III); a flexibilidade que permite sua organização em ciclos (Art. 32; § 1) e a possibilidade de progressão continuada nas séries/ciclos (Art. 32, § 2o) (BATISTA, 2001, p. 26).

As Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental, criadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em 07 de abril de 1998, orientam as propostas pedagógicas desenvolvidas nas escolas, valorizando o trabalho coletivo, a fim de contribuir para a aprendizagem dos alunos (BATISTA, 2001, p. 26).

Já os PCNs, organizados a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e das Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental, promovem a criação de novas metodologias para o ensino fundamental. Nesse contexto, o PNLD exerce a função de avaliar as propostas didáticas apresentadas nos PCNs e “selecionar e organizar os objetos de ensino” (BUNZEN, 2011, p. 905). Esse programa orienta-se a partir de práticas didáticas que enfoquem o texto como

unidade de ensino e os gêneros como objeto de ensino, tal como sugerem os PCNs (BUNZEN, 2011, p. 905).

De acordo com Batista (2001), um dos momentos mais significativos no processo de criação do PNLD foi a instauração do

Decreto-Lei n° 91.542, de 1985, que estabeleceu e fixou parte das características atuais do PNLD: adoção de livros reutilizáveis (exceto para a 1ª série), escolha do livro pelo conjunto de professores, sua distribuição gratuita às escolas e sua aquisição com recursos do Governo Federal (BATISTA, 2001, p. 11).

Sendo assim, a distribuição dos Livros Didáticos é realizada com base na “escolha dos professores e das escolas, a partir do universo definido pela avaliação” (BATISTA; ROJO; ZÚÑIGA, 2005, p. 49). O processo de solicitação e de avaliação dos Livros Didáticos segue um determinado cronograma, “cada atendimento é identificado por meio do ano em que o livro escolhido passa a ser utilizado nas escolas” (BATISTA; ROJO; ZÚÑIGA, 2005, p. 51). O mesmo Livro Didático é utilizado por três anos. No último ano de uso, é realizado um novo processo de escolha.

Conforme o PNLD de 2017, as coleções didáticas que compõem esse guia centram-se em um ensino voltado para o trabalho reflexivo e para práticas de linguagens relacionadas aos seguintes eixos de ensino: leitura, oralidade, produção textual e conhecimentos linguísticos. Parte-se do ensino de Língua Portuguesa voltado para a leitura de textos dos mais diversos gêneros textuais, enfocando tanto os textos escritos como orais.

De acordo com esse guia, os materiais didáticos devem apresentar uma coletânea de materiais textuais que possam favorecer a leitura e a aprendizagem dos alunos. Do mesmo modo, as atividades de leitura, de compreensão e interpretação de um texto, devem propiciar a formação do leitor através da interação entre o leitor/texto/autor. A produção textual é concebida como um processo em que se valorizam os fatores de planejamento e revisão do texto. A valorização da linguagem oral ocorre por meio de interações estabelecidas entre professor e aluno, bem como o desenvolvimento de habilidades relacionadas aos gêneros orais. Por último, é explicitado o trabalho com os conhecimentos linguísticos, em que se objetiva desenvolver competências acerca da linguagem e dos elementos que organizam e constituem os textos orais e escritos (BRASIL, 2016, p. 19-20).

Na edição do PNLD de 2017, 21 coleções foram aprovadas para o ensino de Língua Portuguesa. O guia prevê que todas as coleções organizem as suas unidades e capítulos a partir de temáticas sociais. São abordadas diversas problemáticas sociais que condizem com a realidade dos alunos e com as situações que são vivenciadas no contexto social, “tais como questões ambientais, a corrupção e o bullying na esfera escolar e no ciberespaço” (BRASIL, 2016, p. 23). Por sua vez, essas questões de ordem social são trabalhadas sob o viés da leitura, da compreensão e interpretação de diversos textos que discutem e conduzem a possíveis reflexões.

Conforme o mesmo documento didático, algumas coleções apresentam como objeto de ensino os gêneros textuais. “Desta forma, o aluno é levado a ler, ouvir, discutir e produzir textos escritos e orais de diferentes gêneros” (BRASIL, 2016, p. 24). São apresentados diversos gêneros textuais e o professor tem a oportunidade de desenvolver práticas de ensino que levem o aluno a construir e ampliar as capacidades de linguagem.

Ainda, segundo o guia, os conhecimentos linguísticos são desenvolvidos de diversas formas. Em grande parte das coleções, há uma seção separada que trata dos aspectos linguísticos, com ênfase na gramática e na ortografia. Geralmente, essa seção de conhecimentos linguísticos não está relacionada com uma temática social ou com o gênero da unidade. Ainda, o documento ressalta que algumas coleções preocupam-se com o ensino de aspectos linguísticos articulados à leitura e à produção de textos e os conhecimentos linguísticos são trabalhados a partir de fragmentos textuais.

De modo geral, as coleções apresentadas no PNLD são compostas por três abordagens metodológicas, sendo elas: uma abordagem transmissiva, uma abordagem processual e uma abordagem discursiva (BRASIL, 2016, p. 25). A abordagem transmissiva diz respeito à transmissão de informações, seja de aspectos gramaticais ou textuais. A abordagem processual centra-se na reflexão sobre aspectos linguísticos e na forma de usar a linguagem em ambientes distintos. Já a abordagem discursiva condiz com uma perspectiva sociointeracionista, em que o texto e os elementos linguísticos são trabalhados sob o viés da interação, levando- se em consideração os elementos externos. Conforme o guia didático, todas as coleções se organizam a partir dessas três abordagens metodológicas.

Conforme os eixos que fazem parte do PNLD 2017, a leitura é trabalhada a partir de diversos gêneros textuais, que compõem as esferas literárias, jornalísticas, publicitárias da oralidade, das artes gráficas e de divulgação científica. Assim, as coleções propõem o trabalho com textos clássicos, que fazem parte da esfera literária, e também com textos de autores contemporâneos, que, supostamente, fazem parte da realidade dos alunos. Com essa abordagem, busca-se desenvolver diversas capacidades de leitura, valorizar os conhecimentos prévios dos alunos e contribuir para a construção de conhecimentos linguísticos e textuais.

Segundo o mesmo documento, na produção textual são desenvolvidas habilidades de escrita a partir de diversos gêneros textuais. Com isso, espera-se que os alunos produzam os seus textos pensando em uma situação comunicativa, nos interlocutores e no contexto ao qual o texto está vinculado. Do mesmo modo, a escrita será produzida conforme as características de um gênero textual, o que resultará na compreensão dos elementos de produção e circulação desse determinado gênero5.

A oralidade é a proposta menos difundida nas coleções didáticas, conforme o PNLD. As coleções apresentam uma proposta centrada na produção de textos orais do cotidiano, da esfera escolar e de situações públicas formais: causos, anedotas, contos de assombração; seminários, discussões orais, júri simulado, discurso de formatura; entrevista, telejornal - respectivamente (BRASIL, 2016, p. 32). Entretanto, a compreensão e a escuta desses textos não são desenvolvidas. Somado a isso, usualmente, as produções desses gêneros orais são propostas no decorrer das atividades e não ao final.

Por fim, o trabalho com os conhecimentos linguísticos é proposto nas coleções didáticas sob duas perspectivas metodológicas: a reflexiva e a transmissiva (BRASIL, 2016, p. 33). A perspectiva reflexiva centra-se em um trabalho a partir de diversos textos, com o intuito de desenvolver capacidades de leitura e escrita. Os diversos elementos linguísticos, como “recursos coesivos, uso dos verbos, recursos de humor, duplo sentido e aspectos da pontuação relacionados à textualidade” (BRASIL, 2016, p. 33), são desenvolvidos sob o viés da perspectiva reflexiva, que

5

Destacamos que algumas coleções apresentam uma proposta de revisão, em que o próprio aluno exerce a função de leitor e revisor de seu texto, contribuindo para a compreensão desse processo de produção escrita.

leva em consideração o texto e os elementos que fazem parte desse processo. Já a perspectiva transmissiva centra-se em uma abordagem que leva em consideração o trabalho com a gramática tradicional, com a transmissão de conceitos, de elementos linguísticos que compõe o ensino de Língua Portuguesa. Nesse processo, não há uma relação com o texto, com os diversos gêneros textuais que auxiliam na construção de habilidade de leitura e escrita e tampouco na interação entre os sujeitos. Conforme o guia, algumas coleções apresentam textos curtos a fim de trabalhar com os aspectos linguísticos. No entanto, o foco é na gramática, não na compreensão e interpretação do texto.

Finalizada esse capítulo, passamos, neste momento, para a descrição dos aspectos metodológicos que compõem este trabalho. Na metodologia, apresentamos o contexto de pesquisa, os procedimentos de coleta e os procedimentos de análise dos dados.

5 METODOLOGIA

Neste capítulo, temos o objetivo de descrever o contexto de pesquisa, os procedimentos de coleta e de análise dos dados. Sendo assim, inicialmente apresentamos o contexto de pesquisa, descrevendo o universo de pesquisa e os sujeitos envolvidos nesse processo. Na sequência, descrevemos o procedimento de coleta de dados, feito através de entrevistas. Por fim, apresentamos os procedimentos de análise, que compreendem o contexto de produção e os três níveis: organizacional, enunciativo e semântico.

A análise dos dados será de ordem qualitativa e quantitativa. A análise qualitativa “envolve a redução dos dados, a categorização desses dados, sua interpretação e a redação do relatório” (GIL, 2002, p. 133). Essa atividade possibilita que o pesquisador construa possíveis indagações e resultados para as informações apresentadas no texto, pois “o pesquisador participa, compreende e interpreta” (CHIZZOTTI, s/d, p. 51).

Já a análise quantitativa envolve a apresentação de dados numéricos que comprovam determinada ação. De acordo com Chizzotti (s/d), identificam-se determinadas informações, conforme a frequência de incidências apresentadas ao longo do texto, e “o pesquisador descreve, explica e prediz” (CHIZZOTTI, s/d, p. 51) as informações apresentadas no texto.

Em síntese, a análise contribuirá para possíveis compreensões e interpretações sobre o agir do professor a partir do uso do Livro Didático.