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O projeto de educação popular para a Constituinte^’®

A PARTICIPAÇÃO POPULAR NO PROCESSO CONSTITUINTE

2. A MOBILIZAÇÃO POPULAR

2.1 Experiências de participação popular na Constituinte

2.1.3 O projeto de educação popular para a Constituinte^’®

Foi de grande importância o projeto empreendido por uma rede de ONG’s laicas e confessionais (CEDAC, CEDI, CPO, CPT, FASE, IBASE, ISER, PACS/CENPLA e SEP), nomeado Educação Popular na Constituinte, e financiado por uma fundação católica estrangeira, a partir do final de 1985, com o objetivo de promover cursos sobre Constituinte e Constituição junto a segmentos populares, procurando criar uma

“consciência de cidadania” capaz de gerar propostas relativas aos direitos individuais e

™ AZEVEDO, Márcio, op. cit., p. 33-34. ” ’idem, ibidem, p. 35.

"’“^Foi principalm ente dos resultados desse projeto que teve origem o livro C id ad ão C o n stitu in te: a saga das em en d as p o p u lares, já citado, que contou com a colaboração de vários autores, todos ligados intrinsecam ente à batalha dos movimentos sociais pela (e na) Assembléia N acional Constituinte, com destaque para as campanhas de coleta de assinatura para as emendas populares. São eles Carlos M ichiles, coordenador da campanha das emendas populares; Emmanuel Gonçalves Vieira Filho, do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas); Francisco W hitaker Ferreira, um dos fundadores do Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte; João Gilberto Lucas Coelho, ex-deputado federal pelo MDB e PM DB, também membro da Comissão da CNBB de acompanhamento à Constituinte; M aria da G lória da V eiga M oura, pesquisadora da Fundação Nacional Pró-M emória, e Regina de Paula Santos Prado, Secretária N acional dos Plenários Pró-Participação Popular na Constituinte.

sociais, e estabelecer “formas de organização” (em negrito no original) que permitissem uma pressão eficaz em favor da aprovação dessas propostas^” .

A metodologia^^* visava multiplicar as informações iniciais, tanto que eram preparados agentes multiplicadores, por meio de cursos específicos, que deveriam então levar cada um a um número muito maior de pessoas o conhecimento básico, propiciando a criação e a discussão de propostas com uma abrangência incrível. Isto porque

0 movimento social acumulou experiências e conquistas na luta por melhores condições de vida. Hoje ele quer levar essas conquistas e experiências ao campo institucional. Queremos que estas conquistas se reflitam em melhores leis. M as não queremos apenas eleger deputados que farão as leis. Queremos nós mesmos elaborar as nossas propostas para a nova Constituição. E eleger candidatos com prom etidos com nossas propostas (extraído da carta-convite do ISER, datada de 20 de dezem bro de 1985)"™.

Este curso para monitores procurava construir um saber a partir de um ponto de vista de classe, almejando, assim, construir autênticas propostas populares para a Constituinte. Contudo, a rejeição apriorística de idéias “professorais”, não oriundas diretamente da experiência da militância, poderia levar muitas vezes a um corporativismo, mais do que à expressão do ponto de vista das classes populares. Isto não se verificou, todavia, porque também se desmistificou a capacidade da clientela. A maioria dos participantes não tinha noções claras sobre a realidade nacional e a importância de questões como a “organização do Estado” (em negrito no original), o que impedia a implementação plena da metodologia participativa dos cursos, sobrecarregando o coordenador. Como conseqüência dessa ausência de visão global.

"^’CALDEIRA, Cesar. Que “Educação P o p u la r"p a ra a Constituinte? In: P ro p o sta, Rio de Janeiro, n° 37, ano XIII, ago. 1988, p. 42.

"’^Segundo depoim ento de Cláudio Nascimento, então assessor sindical do CEDAC, foi importante para a definição da estratégia comum para a realização dos cursos a utilização do livro de Ferdinand Lassalle, O

que é uma Constituição?, que orientou os rumos do boletim Povo-Constituinte, em que “apresentávamos a

perspectiva de que não é tanto a luta por um a Constituição formal, jurídica, uma nova Carta M agna no Brasil, mas sim a luta pela constituição política do povo brasileiro. Isto é, um povo que se constitui politicam ente dentro de um processo a longo prazo” (op. cit., p. 50).

™CALDEIRA, Cesar, op. cit., p. 43. Isto vem afirmar nossa hipótese de que os movimentos sociais não querem abolir o Estado, mas sim ganhar espaço institucional, para redefini-lo.

tem-se que as propostas populares para a Constituinte não abarcaram aspectos básicos da Constituição, como sistema de governo e forma de Estado^*“.

No primeiro semestre de 1986, o projeto inicia uma articulação política com os plenários Pró-Participação Popular na Constituinte, apoiando-os logística e financeiramente. A trajetória dessa articulação é bastante irregular e variada para cada comitê de bairro, municipal, estadual, tendo, eventualmente, alguns comitês se transformado em Plenário^^'.

O projeto esteve nos Estados de Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina, estimulando a criação de comitês populares. Estes eram de nível local e se articulavam em nível estadual através das plenárias estaduais. Por exemplo, em Santa Catarina, havia comitês locais em Lages, Chapecó, Blumenau, Joinville^^l

O principal problema do projeto foi não ter considerado adequadamente a fundamental importância dos partidos políticos e dos políticos profissionais para a conquista de seus objetivos. Havia um grande preconceito contra eles, tendo sido a Igreja (católica) escolhida como um meio “puro” para a expressão das reivindicações. Tanto foi assim que só os membros do PT “igrejeiro” tinham participação no projeto, justamente por serem igreja antes de serem partido^*^ O Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte lançou antes das eleições uma “plataforma mínima suprapartidária de propostas populares para a nova Constituição brasileira”, mas a adesão por parte de candidatos á ANC foi pequena e aqueles que aderiram tiveram pouco sucesso eleitoraP*''. Enfim, não se conseguiram resultados eleitorais à altura de toda a movimentação realizada, já que “o resultado em termos de representação popular foi evidente: os representantes da esquerda popular não chegam a 5% da composição do Congresso

"*“idem, ibidem, p. 45. "'*'idem, ibidem, p. 47.

"'^"NASCIMENTO, Cláudio, op. cit., p. 51.

"*’Cfe. CALDEIRA, Cesar. Op. cit., p. 47. Cláudio Nascimento, referindo-se ao mesmo fato, apresenta ponto de vista um pouco diverso. Não relata que tenha havido preconceito contra os partidos, m as que estes (e os sindicatos), sim, tiveram uma certa resistência quanto às possibilidades abertas por aquele processo. Disto conclui que foram os movimentos populares, por sua dimensão local, e no sentido da construção da cidadania, que deram o contorno da luta pela participação popular na Constituinte, e não os partidos de esquerda e os sindicatos combativos (op. cit., p. 52).

Constituinte”'*^ Somente após as eleições aumentou a presença de políticos e partidos nos plenários

2.1.4 IBASE

O IBASE (Instituto Brasileiro de Análise Sócio-Econômica), além de sua participação no referido projeto Educação Popular na Constituinte e do apoio a emendas populares (Reforma Agrária, Mulheres, Menores), desenvolveu outros trabalhos de grande importância para a participação popular no processo de fazimento da nova Constituição. Já em maio de 1986, foi criado um arquivo, como vistas a aglutinar as sugestões populares, para que pudessem ser conhecidas por quem tivesse interesse, e que serviram de fonte para um programa mínimo a ser apresentado aos candidatos, como um compromisso de campanha. Dentre estas propostas, as de maior peso eram as referentes à criação de mecanismos de participação popular na Constituinte'*^ Outra iniciativa de destaque, que visava ao acompanhamento da Constituinte, foi a produção de um perfil do Congresso, que estabelecia 30% de liberais e progressistas, 40% de conservadores e 40% de indefínidos'*^ Estes dados poderiam ter servido como referência à esquerda para tentar modificar a seu favor esta composição e evitar a formação do Centrão. Este erro da esquerda, que não tentou capitanear os indefinidos, foi, segundo Herbert de Souza, o que acabou levando á formação do bloco conservador, por força do poder de atração de nomes como Amaral Neto e Roberto Cardoso Alves: “ela [a esquerda] confundiu a correlação de forças da Comissão de Sistematização, que era mais progressista, com a do Congresso, que era mais conservador - e os nossos estudos mostravam isso”'*®.

2*‘'Cfe. CALDEIRA, Cesar, op. cit., p. 48. ''^NASCIM ENTO, Cláudio, op. cit., p. 53. "**Cfe. CALDEIRA, Cesar, op. cit., p. 48.

"*’Cfe. VIEIRA FILHO, Emmanuel. Arquivo Constituinte Popular - IBASE. In: P ro p o sta, Rio de Janeiro, n° 37, ano XIII, ago. 1988, p. 85.

"**Uma outra pesquisa, realizada por Leôncio Martins Rodrigues (op. cit.) entre os deputados, aponta núm eros diferentes: 53% seriam de centro-esquerda (referido em prim eira mão por O E stad o de São P aulo, 20.6.87). Esta m aioria que, entretanto, contrasta com a pesquisa do IBASE, é devida prim eiram ente ao universo reduzido dos entrevistados - os senadores não entraram no cômputo - e ainda por terem sido os próprios deputados - e não o pesquisador, por critérios da atuação política de cada um - que definiram sua classificação político-ideológica.

"*^SOUZA, Herbert de. Constituinte: Retrato do Brasil? In; P ro p o sta, Rio de Janeiro, n° 37, ano X lII, ago. 1988, p. 58.