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O quarto momento: a escrita do programa Brasil Sem Homofobia

diferentes da família nuclear heterossexual monogâmica Nesse sentido, ao heterossexismo é

2.2 LANÇAMENTO DO PROGRAMA FEDERAL BRASIL SEM HOMOFOBIA

2.2.4 O quarto momento: a escrita do programa Brasil Sem Homofobia

A ideia de tradução das propostas do documento final do EBGLT para a criação de um programa de governo surgira no próprio encontro, em conversa entre lideranças LGBTTT e Ivair Augusto, então gestor da SEDH e coordenador do Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD). O CNCD foi criado na gestão de FHC, após a Conferência de Durban (Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata), como instrumento de monitoramento e avaliação da ratificação do Brasil à Declaração e Plano de Ação desta conferência. Cláudio Nascimento, titular do CNCD e integrante da delegação brasileira da conferência, possuía, então, posição privilegiada de diálogo na SEDH, especialmente com os gestores-chave daquela agência, Ivair Augusto dos Santos (sociólogo especialista no combate ao racismo, assessor da SEDH), Perly Cipriano (militante contra a ditadura, torturado e condenado a 94 anos de prisão pelo governo militar, é um dos fundadores do PT e está na SEDH desde 2003) e o ministro Nilmário Miranda (militante contra a ditadura, tendo participado de movimentos religiosos; sua primeira eleição como parlamentar foi em 1986, quando se tornou deputado estadual de MG pelo PT).

Segundo Luiz Mello et al.,  “a  elaboração  do  BSH  contou  com  a   intensa participação de muitas lideranças BTLG, desde as primeiras articulações   em   2003,   no   âmbito   do   CNCD”   (2010). Entre essas lideranças, foi Cláudio que esteve à frente do processo de tradução das pautas aprovadas no EBGLT para um programa de governo, sendo ele e Ivair Augusto autores-organizadores do Brasil Sem Homofobia:

Com o fim do evento [EBGLT de Manaus], Cláudio lembra que recebeu uma ligação do [secretário da SEDH] Nilmário Miranda, convocando uma reunião. Nesta reunião estiveram Cláudio, Yone [Lindgreen] e Toni [Reis]. Cláudio me disse que Nilmário estava com uma fala magoada, dizendo-se contra as críticas do movimento ao governo. Esta reunião, segundo Cláudio, foi num dia anterior a uma sessão do CNCD (Conselho Nacional de Combate à Discriminação). Na reunião com Nilmário, o então Secretário   “fez   uma   provocação”   aos   três.   Disse- lhes que, se eles conseguissem aprovar uma

resolução na sessão do CNCD, teriam todo o apoio da SEDH. Cláudio contestou Nilmário, dizendo que a aprovação de uma resolução no CNCD envolve articulação política, preparo, etc. Mas  Nilmário   “continuou  a   nos   incitar”  a  aprovar   uma resolução. Cláudio disse que a resolução foi apresentada e aprovada. A partir da resolução aprovada foi tirada uma coordenação para a criação de um programa de governo voltado para a população GLBT. [Diário de Campo, 13/06/2010]

Nesse sentido, há uma relação direta entre o enfrentamento do movimento LGBTTT ao governo Lula em seu primeiro ano de mandato e a possibilidade de criação do Brasil Sem Homofobia. O movimento LGBTTT,  por  meio  de  três  de  suas  lideranças,  acabou  “virando  a  noite”   na preparação da resolução, posteriormente aprovada, que propunha ao CNCD que este conselho lançasse um programa de combate às violências contra a população LGBTTT. Poucos dias depois do EBGLT de Manaus e da reunião no CNCD, nos dias 07 e 08 de dezembro de 2003, a SEDH organizou uma   reunião   ampliada   da   “Comissão   Provisória  de  Trabalho”  com  24  lideranças  do  movimento  LGBTTT  e  de   direitos  humanos  que  traçaram  os  “eixos  principais”  a  serem  abordados   no programa de governo para LGBTTT, baseados no documento final do EBGLT de Manaus. Cláudio Nascimento e Ivair Augusto, poucos meses após esta reunião, apresentaram às lideranças do movimento LGBTTT e aos gestores da SEDH a proposta do programa.

Cláudio foi o principal redator do programa Brasil Sem Homofobia e, durante os meses de sua elaboração, houve duas tarefas principais. A primeira foi a organização do conteúdo do programa, basicamente   a   “tradução”   da  pauta   homossexual   levantada   no   EBGLT   de Manaus.41 A segunda foi uma adequação da proposta de programa à

41 O antropólogo britânico Edward Evans -Pritchard (1969), em seu clássico Os Nuer,

apresentou   o   problema   da   antropologia   como   o   problema   da   “tradução   cultural”.   A   tarefa   do   pesquisador  dessa  disciplina  deveria  ser  adquirir  elementos  suficientes  do  “estranho/distante”,   traduzindo-os para a sua língua mãe. Presumo que a questão da tradução pode ser pensada de duas   maneiras:   1)   por   meio   daquela   que   se   refere   a   pensar   ou   fazer   “coisas   diferentes”   intelig íveis para o Outro (o que Evans -Pritchard afirmou ser o papel do antropólogo); e 2) por intermédio daquela que se refere à articulação de duas   “visões  de   mundo”.   É   nesse  segundo   sentido que novos atores têm ocupado papéis como facilitadores ou mediadores, articulando possíveis   “interações”   entre   dois   (ou   mais)   atores   (ou   grupos)   sociais,   med iadores   que   comu mente transitam entre dois diferentes modos de ação, perspectivas ou visões de mundo. Esses   atores   criam   abordagens   de   inteligibilidade   entre   duas   “comunidades   morais”   num   sentido durkheimin iano (DURKHEIM, 1995), que informam a mesma agenda (e sociedade), mas que podem não co mpartilhar os mes mos  objetivos  ou  “visões  de  mundo”.  A  Homofobia,  

identidade do governo Lula. No que tange à identidade do governo Lula, esta fora concebida, no plano das agendas sociais, mediante programas de governo com títulos fáceis de serem incorporados no léxico popular, como   “Fome   Zero”,   “Primeiro   Emprego”,   “Mulher   e   Ciência”,   “Territórios   da   Cidadania”   e   “Brasil   Alfabetizado”.   Esta   marca   identitária do governo Lula foi, portanto, uma exigência da agência de comunicação imposta aos autores do Brasil Sem Homofobia. Nesse sentido, Cláudio me relatou dois aspectos que marcaram a escrita do programa. O primeiro momento foi de escolha da categoria “homofobia”,  cuja  decisão  ele  classificou  como  “solitária”,  pois  teve  que   decidir sozinho sobre o título do programa. Perguntado sobre a escolha da categoria Homofobia, Cláudio disse que conheceu a categoria nas listas LGBTTT de língua espanhola, e em outras listas do movimento internacional. Também lembrou uma viagem que fez no final dos anos 1990 (ele não estava certo disso) a San Diego/EUA, em que todos falavam em homofobia, e que neste evento ganhou de Daniel Borrillo seu livro, e que foi o livro que o fez propor a categoria para a agência de comunicação do governo.42

O segundo momento foi de adequação do Brasil Sem Homofobia à identidade dos programas sociais do governo federal:

Perguntei-lhe quais os debates existentes à época sobre o conceito homofobia, uma vez que predominava nos documentos do movimento “discriminação   por   orientação   sexual”   e   não   “homofobia”.   Cláudio   me   disse   que   a   comissão   provisória estava preocupada com o conceito de orientação sexual.   “Os   conceitos   não   estavam   claros”,   disse-me.   “Tinha   uma   crítica   muito   forte   ao conceito de orientação sexual, pois ele é conteudista, muito ligado à educação sexual e é focado   na  temática  e  não   na  população”.  Uma  das   preocupações da comissão provisória, agora em diálogo   com   a   “comunicação   do   governo”,   era   a   criação de um nome que abarcaria todas as identidades sexuais. Segundo Cláudio, foi-lhes informado   pela   comunicação   que   “tudo   no   governo   tem   um   carimbo,   por   exemplo   o   ‘Fome   Zero’   e   que   a   perspectiva   de um programa tinha