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O que determina a decisão de abandonar os estudos?

O contraste entre as pirâmides etárias de áreas vulneráveis e de áreas não-vulneráveis (Gráficos 17 e 18) revela um perfil mais rejuvenescido no primeiro caso. Deve-se sublinhar que o próprio Índice de Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), que serviu de critério

para a classificação das áreas segundo a vulnerabilidade, considera o ciclo de vida familiar, enquadrando as famílias mais jovens como mais propensas a estar em situação de vulnerabilidade. Portanto, por este prisma, não surpreende que a pirâmide etária de áreas vulneráveis seja mais rejuvenescida. Todavia, o ciclo de vida familiar não é a única variável relevante na construção do IPVS, que leva em conta a combinação de outros fatores como a escolaridade do chefe e a capacidade de geração de renda dos moradores do domicílio. Esses outros fatores considerados poderiam ter atenuado a importância do ciclo familiar mais jovem como determinante da condição de vulnerabilidade, o que não ocorreu. A população mais vulnerável é fundamentalmente mais jovem, a despeito da maior escolaridade da população jovem.

Gráfico 17 – Pirâmide etária de áreas vulneráveis, com destaque para o nível de escolaridade alcançado, São Paulo, 2006

12 8 4 0 4 8 12 0-4 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75-7980+

homens, ensino superior completo mulheres, ensino superior completo homens com ensino médio completo mulheres com ensino médio completo homens

mulheres

Fonte: SEADE, microdados da Pesquisa de Condições de Vida de 2006.

O número médio de anos de estudo da população 15-29 anos é de 9,54 anos, enquanto, quando se considera a população de 15 anos e mais, esta média é de apenas 7,87 anos. Mas há grande heterogeneidade no interior do grupo jovem. Enquanto aqueles que

residem em áreas não-vulneráveis têm em média 10,25 anos de estudo, os residentes em áreas vulneráveis alcançam em média 8,79 anos de estudo.

Baseado nos Gráficos 17 e 18, pelo contraste da proporção de pessoas que completaram o ensino médio em áreas vulneráveis e não-vulneráveis, observa-se que para os grupos etários mais jovens (15-19 e 20-24 anos) o desequilíbrio proporcional entre os que completam o ensino médio, em uma e outra área, é menor do que entre os indivíduos pertencentes a grupos etários maiores. Entretanto, a conquista de um título do ensino superior segue sendo um diferencial importante. Raramente se encontra pessoas com nível superior completo residindo em áreas de maior vulnerabilidade.

Gráfico 18 – Pirâmide etária de áreas não-vulneráveis, com destaque para o nível de escolaridade alcançado, São Paulo, 2006

12 8 4 0 4 8 12 0-4 5-9 10-14 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 50-54 55-59 60-64 65-69 70-74 75-7980+

homens, ensino superior completo mulheres, ensino superior completo homens com ensino médio completo mulheres com ensino médio completo homens

mulheres

Fonte: SEADE, microdados da Pesquisa de Condições de Vida de 2006.

Considerando a população jovem em geral (15-29 anos), sem distinção segundo a exposição à vulnerabilidade, 59,3% deles ocupam a posição de filhos no domicílio e 29,5% conquistaram autonomia residencial, são chefes ou cônjuges do chefe.

Aproximadamente 845 mil jovens freqüentavam um curso superior na época da pesquisa. A maior parte deles (81,3%) ocupa a posição de filho no domicílio de residência.

Apenas 11,4% estão na condição de chefe ou cônjuge em domicílio independente. Pode-se dizer que há uma forte relação entre a permanência na casa dos pais e a continuidade dos estudos, especialmente de nível superior.

Dentre os jovens de 15 a 29 anos, 50,9% concluíram o ensino médio; 5,9% cursam o ensino fundamental e outros 17,9% freqüentam o ensino médio. Entretanto, cerca de 2,5 milhões abandonaram os estudos sem completar o ensino médio, ou seja, 25,3% do total de jovens do Estado. Dentre estes últimos, 42,6% haviam concluído o ensino fundamental, mas não deram continuidade à formação escolar. Os jovens que abandonaram os estudos após a conclusão do ensino fundamental o fizeram principalmente devido à dificuldade de conciliar o trabalho e os estudos (33,5% dos casos) e pela falta de interesse em prosseguir os estudos (27,2%).

Os motivos pelos quais os jovens abandonam os estudos, seja no ensino fundamental ou médio, variam de acordo com o sexo e a idade do jovem (Gráfico 19). Na faixa etária de 15 a 19 anos, a principal razão que os leva a sair da escola é a falta de interesse nos estudos. A falta de interesse foi apontada por 43,3% dos garotos e por 37,7% das garotas dessa faixa etária. A dificuldade para conciliar estudo e trabalho aparece em segundo lugar entre os rapazes (23%) e em terceiro lugar entre as moças (11,8%). As garotas mencionam uma gravidez/casamento como segunda principal razão pela qual abandonaram os estudos (25,3%). Entre os rapazes, a terceira principal razão mencionada é por querer trabalhar/querer ter seu próprio dinheiro (8,8%), seguida muito de perto pela falta de vaga na escola (7,8%). Percebe-se aqui, logo na adolescência, importantes diferenciais de gênero que marcarão a tônica da transição para a vida adulta. As garotas apontam para certa centralidade das transições familiares como fator de abandono escolar e aceleração da entrada na vida adulta, enquanto entre os garotos, os interesses estão mais centrados no trabalho e na obtenção de renda, mesmo que isto implique sacrificar os estudos.

Mas, sem dúvida, é a falta de interesse nos estudos a razão que ainda merece maior atenção dos formuladores de políticas públicas para a juventude. É válido destacar que 63,6% dos adolescentes (sem distinção de sexo) que abandonaram os estudos por falta de interesse são de áreas vulneráveis; e neste caso, é praticamente certo que freqüentavam escolas públicas. Isso vem ressaltar a necessidade de construir um vínculo mais forte entre a

escola e os adolescentes e principalmente desenvolver metodologias que estimulem o interesse e a vontade de permanecer no sistema educacional.

Gráfico 19 – Motivações do abandono escolar mencionadas por jovens paulistas, segundo o sexo e a faixa etária (em %), 2006 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Motivos masculinos

15-19 anos 20-24 anos 25-29 anos todos (15-29 anos)

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Motivos femininos

15-19 anos 20-24 anos 25-29 anos todas (15-29 anos)

1. Falta de interesse nos estudos

2. Dificuldade para conciliar o trabalho e o estudo

3. Não conseguia vaga na escola

4. Não havia escola perto de casa ou do trabalho

5. Gravidez/casamento

6. Precisou cuidar da casa e/ou dos filhos ou irmãos

7. O pai ou o marido/companheiro não deixava estudar

Fonte: SEADE, microdados da PCV de 2006. Tabulação própria.

8. Para trabalhar/queria ter o próprio dinheiro

9. Dificuldades financeiras da família

10. Discriminação por sexo, aparência física, deficiência física, cor, etc.

11. Violência na escola ou no percurso da escola

12. Problemas de saúde que dificultavam a aprendizagem

Entre os que afirmam não ter conseguido conciliar escola e trabalho 62,4% são de áreas vulneráveis. Já entre as adolescentes que alegam haver abandonado os estudos em virtude de uma gravidez ou de um casamento, 83,4% são moradoras de áreas vulneráveis. Como vimos anteriormente, a proporção de mães adolescentes em áreas vulneráveis é três vezes superior àquela de áreas não-vulneráveis. Este é um claro indicativo da necessidade de políticas focalizadas de saúde reprodutiva adolescente nessas áreas específicas. Seja porque são melhor informadas, porque exercem maior controle sobre sua fecundidade via métodos anticoncepcionais ou aborto, ou mesmo, hipoteticamente, porque são mais policiadas por suas famílias, o fato é que as garotas de áreas não-vulneráveis são menos propensas a deixar os estudos em função de uma gravidez/casamento.

Para as faixas etárias imediatamente superiores (20-24 anos e 25-29 anos), a decisão de deixar a escola passa a ser cada vez mais influenciada por motivações relacionadas ao trabalho e à obtenção de renda para ambos os sexos. Grosso modo, as três principais motivações para abandonar os estudos seguem sendo fundamentalmente as mesmas. Falta de interesse nos estudos, dificuldade para conciliar o trabalho e o estudo e trabalhar/ter o próprio dinheiro, no caso dos homens; falta de interesse nos estudos, gravidez/casamento e dificuldade de conciliar o trabalho e o estudo, no caso das mulheres.

A falta de interesse nos estudos é a principal causa de abandono escolar feminino em todas as idades. Motivações relacionadas aos papéis de gênero seguem sendo decisivas em todas as idades como explicação para as diferenças observadas entre homens e mulheres. Embora em menor medida do que na adolescência, as mulheres seguem abandonando os estudos em função da gravidez/casamento, sendo esta a segunda principal causa de abandono escolar entre as jovens de 20-24 anos e a terceira entre aquelas de 25-29 anos. Para o grupo feminino de 25-29 anos, a segunda principal razão para deixar a escola é a dificuldade de conciliar o trabalho e o estudo. Vale lembrar que a necessidade de cuidar da casa e/ou dos filhos e irmãos é a quarta principal razão mencionada pelas mulheres de 15- 29 anos para interromper os estudos, sendo este motivo incipiente entre os homens. Aliás, como todas as motivações relacionadas à família.

Entre os homens, a falta de interesse é a primeira causa do abandono escolar apenas entre os adolescentes. A partir dos 20 anos, as razões mais mencionadas para justificar a

saída da escola são a dificuldade de conciliar o trabalho e o estudo e o desejo de conquista de autonomia financeira.

Chama a atenção que a dificuldade financeira da família – que era uma motivação praticamente residual para o abandono escolar entre as idades de 15 a 24 anos – passa a ser a quarta mais freqüentemente citada tanto entre os homens quanto entre as mulheres de 25 a 29 anos. Como não sabemos a idade em que abandonaram a escola, pode ser que exista maior re-elaboração sobre as motivações do abandono escolar entre as pessoas de 25-29 anos. Pois, muito provavelmente, entre elas o tempo transcorrido entre o abandono e a realização da entrevista deve ter sido maior. Isso nos faz pensar que ao menos uma parcela dos jovens de 15-24 anos que alegam dificuldade de conciliar o trabalho e a escola podem na verdade vivenciar o trabalho como uma necessidade imperativa, ou seja, uma necessidade de complementar o rendimento familiar. É certo que os jovens que justificam a interrupção dos estudos baseada na dificuldade de conciliar o trabalho e o estudo (optando pelo trabalho em detrimento da escola), o fazem por diferentes motivos: desejo de assumir responsabilidade; satisfação pessoal; ter o próprio dinheiro e, portanto, maior independência financeira; mas também em alguma medida por dificuldades financeiras da família. No tópico 5.4 será explorado em mais detalhe a dimensão e o potencial do aporte financeiro dos jovens trabalhadores às suas famílias.

Em síntese, as evidências mostram que os motivos pelos quais os jovens abandonam os estudos variam de acordo com o sexo, a faixa etária e a exposição à vulnerabilidade social. A ausência de interesse nos estudo é de longe o aspecto que mais merece atenção. Entretanto, os papéis de gênero também assumem uma função preponderante na decisão de sair do sistema educacional. A divisão sexual do trabalho, que delega aos homens o papel de provedor e às mulheres o papel de cuidadora/reprodutora, dá sinais de estar em pleno vigor, sendo um dos aspectos fundamentais do processo decisório do abandono escolar.