2.2 Industrialização e urbanização
2.4.2 O trabalho durante a juventude em São Paulo
A literatura normalmente associa a inserção precoce no mercado de trabalho à pobreza (SPINDEL, 1985; MUNIZ e SOBEL, 2008). Quanto mais pobre se é, mais cedo se dá a entrada no mundo produtivo.
Pochmann (2000: 81), afirma que durante o período áureo da industrialização brasileira (1930-1970), entre o grupo jovem (15-24 anos):
(...) observa-se que a taxa de desemprego aberto era relativamente baixa, ainda que superior a do adulto, assim como os padrões de inserção ocupacional eram estáveis e menos desfavoráveis às faixas etárias inferiores da população. Se o jovem de origem familiar pobre ingressava antes dos 16 anos no mercado de trabalho – o jovem de classe média tinha contato com o mundo do trabalho antes dos 20 anos de idade, tradicionalmente nos postos
16 Pode-se citar como exemplos: 1) Programa Agente Jovem, voltado para jovens de 15 a 17 anos de famílias
de renda familiar per capita de até meio salário mínimo. A preferência é dada aos jovens que já estiveram em conflito com a lei e vivam em áreas pobres com alto índice de violência. O jovem trabalha como agente comunitário por 12 meses e recebe R$ 65,00 por mês; 2) Programa Nossa Primeira Terra, dirigido a jovens de 18-28 anos filhos de agricultores familiares ou sem-terra, ou que sejam estudantes de escolas técnicas. O jovem recebe uma linha de crédito para projetos comunitários e de infra-estrutura; 3) Programa Escola- Fábrica, que atende jovens de 16 a 24 anos que cursam educação básica sem qualificação profissional. O beneficiário do programa recebe treinamento profissional nas empresas parceiras e auxílio de R$ 150,00 enquanto durar o treinamento; 4) Pró-Jovem, dirigido a pessoas de 18 a 24 anos sem carteira profissional assinada que concluíram a 4ª série, mas não a 8ª série do fundamental. O jovem recebe um auxílio de R$ 100,00 ao mês para concluir o supletivo equivalente ao ensino fundamental em 12 meses. 5) Programa Primeiro Emprego, destinado a jovens de 16 a 24 anos desempregados e membros de famílias com renda per capita de até meio salário mínimo. O jovem recebe R$ 150,00 ao mês para freqüentar um curso de capacitação
intermediários da grande indústria e dos serviços, bem como no setor público, enquanto o jovem de família rica só tornava-se ativo depois dos 20 anos, na maioria das vezes nos postos hierárquicos principais.
Na opinião do autor a situação socioeconômica característica do final do século XX, dominada por um cenário mundial mais competitivo, somado ao baixo poder de geração de emprego e renda no plano interno, levaria a “conformação de padrões heterogêneos de integração da juventude ao mundo do trabalho” (POCHMANN, 2002: 82).
Spindel (1985) pondera que segundo o padrão de inserção laboral dos jovens brasileiros muitos começam a trabalhar ainda na adolescência não apenas por razões econômicas, mas também por razões de ordem pessoal. A decisão de trabalhar pode ser uma resposta à pobreza, mas também pode derivar de uma adaptação a um rearranjo da composição do domicílio após a perda de um dos provedores por doença, morte ou divórcio dos pais. Porém, não se pode negligenciar as motivações de ordem pessoal que muito tem a ver com a construção da própria identidade e da autonomia dos sujeitos. O trabalho pode ser uma resposta a outras motivações relacionadas a um projeto de vida como “para poder estudar”, “para ser mais livre”, “para declarar independência em relação aos pais”; e “para poder consumir o que quer” (SPINDEL, 1985; MADEIRA, 1986; MADEIRA, 1999; TOKMAN, CORROCHANO e GOUVÊA, 2003).
Os jovens brasileiros em geral conservam uma visão tradicional na qual:
(...) o trabalho é ao mesmo tempo uma necessidade vital, uma obrigação social e um dever moral, cuja contrapartida é o status social que ele confere e a satisfação pessoal que proporciona. O trabalho tem uma dimensão instrumental (ganhar a vida) mas, apesar de seu caráter penoso, ele comporta também uma forte dimensão expressiva (realizar-se social e pessoalmente) (BAJOIT e FRASSEN, 1997: 79).
Por visão tradicional sobre o trabalho (MARTINS, 2001), entende-se aquela que subordina a realização pessoal ao trabalho. Uma nova tendência atual, mas que ainda é minoritária entre nós, consiste em inverter esta ordem, e subordinar o trabalho à realização pessoal. A mudança parece sutil, mas não é. Pois, quando o trabalho é subordinado à realização pessoal, ele se torna incompatível com o caráter penoso próprio da visão tradicional de trabalho. Passa-se a exigir dele que seja prazeroso, dotado de sentido e que permita ao indivíduo ter tempo livre para se dedicar a outras atividades desvinculadas de sua vida produtiva.
Madeira (1986) relaciona o crescimento da participação dos jovens no mercado de trabalho durante os anos do milagre econômico ao surgimento, no país, de uma identidade jovem. Isso seria ainda mais patente em São Paulo. O trabalho funcionou para muitos como a única maneira de se enquadrar a um estilo de vida mais moderno, pois lhes permitia consumir determinados símbolos de juventude como o jeans, o tênis e os programas com a turma. O novo estilo de vida mais moderno e característico de uma sociedade de consumo passava a marcar o meio urbano. Os novos postos de trabalho, quase todos derivados direta ou indiretamente da industrialização, também eram ofertados na área urbana. Por isso, neste período, São Paulo apresentava níveis mais altos de trabalhadores adolescentes e jovens do que Estados que conservavam um modo de vida mais característico do meio rural. Na sociedade paulista de finais dos anos 1960 e princípios dos anos 1970, os jovens já se seduziam pelos novos padrões de consumo e estilos de vida. Além, é claro, de encontrarem vagas de trabalho disponíveis que lhes convertia em trabalhadores-consumidores.
O cenário sócio-econômico do Estado no final do século XX era bastante diferente. São Paulo continua sendo o principal pólo industrial do país, mas foi palco de forte reestruturação produtiva17 e teve sua realidade também transformada pelo processo de descentralização produtiva (SABÓIA, 2001), que ao longo da década de 1990 alterou a geografia econômica e o equilíbrio de poder capital-interior paulista, bem como entre os Estados da Federação. Esses processos macroeconômicos tiveram impacto sobre a trajetória individual, quer aumentando o desemprego Pochmann (2000), ou contribuindo para aumentar o tempo de inatividade. Neste segundo caso, a decisão de se manter fora da população economicamente ativa (PEA), pode vir acompanhada da estratégia de dar continuidade aos estudos, no caso de jovens que podem ser mantidos pela família, ou simplesmente é um artifício para evitar o rótulo de desempregado.
Em uma pesquisa comparativa sobre o desemprego entre jovens na Região Metropolitana de São Paulo, Paris e Tóquio (LEITE, 2002) foram entrevistados indivíduos de ambos os sexos de 16 a 21 anos com ensino fundamental completo ou ensino médio
17 A reestruturação produtiva costuma ser descrita como um processo caracterizado pela flexibilização das
relações trabalhistas, crescente instabilidade no emprego, aumento dos contratos temporários, desvalorização dos salários, necessidade de maior nível de escolaridade e qualificação para competir pelo emprego (MARTINS, 2001; PIMENTA, 2007).
completo em situação de desemprego aberto ou oculto por trabalho precário. A decisão dos pesquisadores foi de excluir da investigação os extremos da pirâmide social e focalizar pessoas provenientes dos estratos médios, porque foram considerados mais representativos para comparações internacionais de cunho qualitativo. Entre os principais achados deste estudo estão:
• Há forte relação entre encontrar trabalho e dar continuidade aos estudos. São justamente os que não têm nenhum trabalho que não conseguem fazer um curso técnico ou faculdade;
• Todos os que desempenham ou desempenharam algum trabalho, isto se deu no contexto familiar, negócios de família ou, ainda, em pequenas empresas cujo contato foi mediado por familiares, amigos, conhecidos (parentes e o círculo da igreja se destacam);
• As trajetórias femininas são mais precárias (fazem mais “bicos”);
• Planos de formar a própria família e casar são expressos espontaneamente apenas por mulheres. Embora este aspecto não tenha sido muito explorado, poderíamos cogitar que possivelmente as mulheres valorizam mais as transições familiares porque não estão vislumbrando nesta inserção precária no mundo produtivo uma forma de conquistar e afirmar seu status adulto;
• Os principais obstáculos à inserção no mercado de trabalho mencionados pelos jovens são: a falta de experiência registrada em carteira; a menoridade e, no caso dos meninos, não ter cumprido o serviço militar. São também identificadas práticas discriminatórias por parte dos empregadores que fundamentariam a decisão pela contratação em critérios subjetivos ou claramente preconceituosos. Certos empregadores baseariam suas escolhas na boa aparência – muitas vezes um eufemismo para rejeitar candidatos não-brancos, obesos ou que se afastam do padrão de beleza hegemônico na sociedade – e no local de residência do jovem. Considerando a geografia urbana, ao enquadrar o candidato como morador da periferia da cidade, optariam por rechaçá-lo;
• Creditam a dificuldade em arranjar trabalho à “crise geral” e à insensibilidade de empresários e do governo (falta de uma chance);
• A restrição de recursos econômicos causada pelo desemprego atinge em cheio o consumo chamado supérfluo, o lazer e os estudos em níveis mais avançados. Há também perdas sociais e afetivas (fim de namoro por não poder bancar os passeios; convívio restrito com os amigos por não participar de atividades que envolvem gastos);
• Os jovens começam a procurar trabalho logo que atingem a idade mínima permitida. Considerando a idade de 16 anos como marco e o tempo transcorrido entre os 16 anos e a idade atual, identificou-se que o tempo efetivamente trabalhado não ultrapassa 40% do que seria esperado se a inserção no trabalho fosse imediata e as trajetórias contínuas. A única exceção a esta regra fica por conta dos homens brancos, que costumam se ocupar por 50% do tempo que poderiam ter trabalhado.
Tomás, Oliveira e Rios-Neto (2008) calculam a idade média de entrada no mercado de trabalho dos jovens residentes nas áreas metropolitanas brasileiras (São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Salvador) utilizando os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) para os anos de 1983 e 2001. Entretanto, os autores não desagregam os dados segundo a área metropolitana, optando por considerá-los conjuntamente. Eles descobriram que houve um adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho. Em 2001, havia menos jovens começando a trabalhar com idades inferiores a 17 anos, se comparado a 1983. Em 1983, a idade média de entrada no mercado de trabalho era de 16,67 anos para os homens e 18,11 anos para as mulheres. Em 2003, passa a se registrar respectivamente, 18,76 e 19,63 anos. Todavia os autores alertam que este aumento da idade média de inserção no mercado de trabalho pode ser em parte resultante de uma subdeclaração do desemprego juvenil. Isto porque, jovens que nunca trabalharam e que estão buscando o seu primeiro emprego podem tender a se declarar como inativos, principalmente quando estudam, já que podem considerar os estudos como sua principal ocupação.
Contudo, a estratégia de permanecer na inatividade e seguir investindo nos estudos não é uma opção factível para todos. Martins (2001) realizou pesquisa sobre jovens de 18 a 25 anos da classe trabalhadora do município de Osasco, na Grande São Paulo, e percebeu que ao menos no que se refere ao trabalho, união conjugal e maternidade/paternidade, a tendência desses jovens é a de realização e não de adiamento da transição para a vida adulta.
O desemprego ou a baixa renda obtida através do trabalho pode fazer com que os jovens optem por formar família ainda residindo com os pais ou outros familiares. A prática de viver cada qual com seus pais, ainda que tenham filhos pequenos e uma união estável – visitando-se mutuamente aos finais de semana – está longe de ser uma regra, mas tampouco é um arranjo descartado. Começamos então a nos confrontar com o tema central do nosso próximo tópico: os aspectos da transição para a vida adulta ligados à família.