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Os constituintes do léxico e suas características

Parte I: Em volta do léxico: teorizações

Capítulo 1. Problematização das conceptualizações acerca do léxico e

1.2 O léxico mental: o léxico ou os léxicos?

1.2.1 Os constituintes do léxico e suas características

Do exposto em cima advêm muitos problemas para a compreensão das unidades que cabem no léxico. Se é pacífica a decisão de integrar no léxico itens não construídos, já a integração, ou não, de itens construídos tem sido motivo de grande polémica e de nutrição de muita teorização linguística, como analisaremos nos capítulos 2 e 3 do presente volume.

Dentro dos itens não construídos, há ainda a decidir se apenas as palavras fazem parte do léxico ou se também os morfemas afixais se inserem naquele domínio. Em algumas propostas da morfologia lexicalista, que discutiremos nas secções 2.2.2 e 3.1.2, palavras e afixos têm lugar no léxico como entradas lexicais autónomas. É esta a posição de autores como Halle (1973), Lieber (1980) e Selkirk (1982). Os argumentos que fundamentam esta posição condensam-se a seguir:

a) Os afixos ostentam entre si as mesmas relações semânticas que são tecidas entre as palavras, tais como a sinonímia (e.g. os sufixos -ment- e -ção em relaxamento e

relaxação, a antonímia (e.g. os prefixos sub- e super- em substrato e superstrato ou en-

e es- em empalhar e espalhar), a hiponímia/hiperonímia (e.g. os próprios elementos

hiper- e hipo- nos lexemas aqui usados) ou a polissemia (e.g. o afixo -ão que gera

nomes agentivos, como saltão, e nomes eventivos, como abanão) (Lehrer 2000).

b) Tanto as palavras como os afixos possuem uma categoria lexical (e.g. o sufixo -idade possui a categoria lexical N, uma vez que a sua anexação a bases adjetivais gera nomes) e quadros de subcategorização responsáveis por constrangimentos na atualização co-textual (e.g. o sufixo -idade marca os nomes como de género feminino) (Lieber 1980, 1992; Williams 1981; Selkirk 1982).

c) Tanto as palavras como os afixos participam das estruturas X-barra. Selkirk (1982) aponta que os sufixos assumem propriedades de núcleos sintáticos em estruturas núcleo-complemento (e.g. avaliador de exames, em que de exames é o complemento do agentivo protagonizado pelo sufixo -dor).

Posição contrária, defendendo que apenas as palavras têm entrada no léxico, é sustentada por autores como Aronoff (1976) e por todos aqueles que se situam na esteira da word-based morphology (cf. secção 3.1.2). Neste caso, os afixos são

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operadores das Regras de Formação de Palavras. Os argumentos a favor desta posição enunciam-se a seguir:

a) Muitos processos morfológicos não são explicáveis concatenativamente, como é o caso da alomorfia ou do umlaut. Neste caso estamos perantes um processo fonológico através do qual uma vogal ou um ditongo posteriores são realizados como anteriores devido à existência de um segmento anterior ou de um constituinte morfológico. São exemplo disso a metafonia ocorrente no inglês foot/feet ou

strong/strenght e a apofonia ocorrente em latim facio/perfectus.

b) Existe uma distinção entre afixação e composição que só pode ser explicada se se tiver em conta o diferente comportamento de afixos e palavras (Corbin 1987), pelo que os afixos não correspondem a entradas lexicais. Essa distinção apoia-se

i) na autonomia semântica dos elementos de composição (e.g. hidro ‘água’ em hidromassagem, piro- ‘fogo’ em pirobalística) por oposição à não autonomia dos elementos afixais (es-, -vel não sustêm significação referencial);

ii) na possibilidade de os elementos de composição se poderem agregar mutuamente (hidro+logia), enquanto os afixos não apontam tal possibilidade (re+ler; rebenta+ção vs. *re+ção);

iii) na possibilidade de os elementos de composição ocorrerem à esquerda (potamografia) ou à direita (hipopótamo), enquanto os afixos têm posição predeterminada (branc+ura vs. *ura+branco, in+moral vs.

*moral+in).

Uma visão diversa é aquela preconizada pela Morfologia Distribuída. Para este programa, não existe um léxico, mas uma enciclopédia, onde se reservam todas as unidades idiossincráticas, independentemente de se tratar de palavras, de morfemas ou de fraseologias. A enciclopédia não tem, contudo, um caráter linguístico.

Mais uma vez, a questão que se levanta e que modela os conteúdos do léxico relaciona-se com o tipo de entidades que podem encerrar-se naquele.

Para agudizar a problemática da delimitação do léxico, há ainda a considerar as lexicalizações ou fórmulas, de que as idiomatizações são o extremo (cf. capítulo 7). Propositadamente, utilizaremos aqui o termo fórmula (Wray 2002; 2008) por

lexicalização, enquanto constructo multilexical, uma vez que já observámos a

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Se as fórmulas são unidades multilexicais armazenadas na memória de longo prazo, então devem estar no léxico, se o léxico consistir num acervo localizado na memória de longo prazo. Afinal, trata-se de unidades linguísticas, ainda que de extensão maior do que a palavra. Uma hipótese de resolução consistirá em conceber que a memória de longo prazo onde se guardam as fórmulas não é a mesma onde se guardam os lexemas. Para que assim se possa considerar, é necessário que haja evidências psico- e neurolinguísticas que o demonstrem (Wray 2002; 2008).

A gramática generativa standard obviou-se ao tratamento das fórmulas. Chomsky (1965) designa por léxico o acervo das palavras com propriedades não predizíveis. Contudo, deixa de lado unidades multilexicais igualmente não composicionais, presumivelmente devido aos problemas que estas acarretam para a elegância do modelo teórico. Entre a marginalidade a que as fórmulas foram devotadas pela gramática generativa standard e o seu real e frequente uso pelos falantes existe um hiato imenso. Os falantes usam as fórmulas frequentemente e com propriedade, denotando o conhecimento implícito acerca da sua utilização que caracteriza qualquer item linguístico. Não podem, por isso, relegar-se ao domínio da marginalidade descritiva.

Assim, fórmulas como aforismos (a galinha da minha vizinha é mais gorda que

a minha), idiomatismos (ter a pulga atrás da orelha) ou colocações (ideia peregrina)

levantam muitas questões sobre o entendimento do seu lugar na linguagem. Jackendoff (2002: 167-177) apresenta uma súmula dessas questões, que sintetizamos em seguida.

Numa primeira abordagem, parece haver mais razões para se considerarem as fórmulas como pertencentes ao léxico e não à gramática:

a) As fórmulas encontram-se inscritas na memória de longo prazo, não sendo construídas em linha.

b) O seu significado não é composicional, pelo que não é predizível por regras. c) Não admitem transformações sintáticas, como a passivização (O homem

esticou o pernil. vs. *O pernil foi esticado pelo homem.).

No entanto, outra razão apontaria as fórmulas como integráveis na gramática: a) Algumas fórmulas apresentam variações (Fechar a porta na cara./ Bater com

a porta na cara./ Dar com a porta na cara.).

As mesmas motivações, apreciadas sob outros prismas, levariam à exclusão das fórmulas quer do léxico, quer da gramática:

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a) Não estão sujeitas aos procedimentos de inserção lexical dos itens lexicais normais. Na gramática de Chomsky, as palavras são inseridas na sintaxe sob categorias lexicais (N, V, Det, etc.) que pressupõem a geração de sintagmas que dominam essas categorias (SN, SV, SDet, etc.). Após essa geração, os itens lexicais particulares são inseridos sob N, V, Det, etc. A interpretação semântica advém da combinação dos itens inseridos na sintaxe. Dois problemas advêm desta conceção:

i) a semântica das fórmulas, não sendo composicional, não pode ser construída na sintaxe, mas tem, antes, que provir do léxico;

ii) se, pretendendo estender-se o mecanismo de inserção lexical de Chomsky, é possível descrever-se uma fórmula como esticar o pernil como um V (Chomsky (1981: 146, nota 94) explica o idiomatismo kick the bucket como um verbo lexical, pois pode ser inserido como um todo como V na sintaxe e assim se obvia o problema da interpretação semântica.), o mesmo não é factível em relação a fórmulas descontínuas (give SN the boot ‘despedir alguém do emprego) ou a fórmulas como o gato comeu-lhe a língua e sic transit gloria

mundi, que não têm a formatação própria de uma categoria lexical.

b) Algumas fórmulas são descontínuas, pelo que acarretam o problema mencionado no parágrafo anterior, não se coadunando com as características dos itens lexicais quer em si mesmos, quer na sua relação com a sintaxe.

Neste momento, pretendemos apenas questionar a noção de léxico fazendo intervir nesta problematização o caso das fórmulas. No capítulo 7 deste volume trataremos destes objetos linguísticos com mais atenção.

De todas estas considerações, é necessário revisitar as várias conceções de léxico e de gramática para observarmos qual ou quais delas poderão permitir uma análise dos fenómenos linguísticos, mesmo na sua heteróclise, com maior acuidade. Uma boa súmula destas questões encontra-se nos vários capítulos que constituem Cruse et alii (2002).

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