DESCRIÇÃO DA UNIDADE FABRIL
O EMPREENDEDOR PROPRIETÁRIO DE UMA EMPRESA NASCENTE , COM POUCOS RECURSOS , TEM NECESSARIAMENTE QUE SER UM BOM GERENTE
2.3. OS IMPACTOS DA EMPRESA NA VIDA PESSOAL DO EMPREENDEDOR
Chegaram as férias de julho, e Luísa, mesmo com a cabeça na Goiabadas Maria Amália, conseguira acompanhar seu curso de odontologia. As notas não eram muito ruins, mas Leninha, sua colega e confidente, sentira a diferença.
— Poxa, Luísa, quem te viu e quem te vê... A melhor aluna, agora com notas beirando a média...
Até aquele momento, à exceção de Fernanda, Luísa nada falara à família sobre a fábrica de goiabada. Na sua percepção, o segredo emprestava maior excitação ao tema. Mantinha o noivo a par de meias-verdades. Um comentário, uma observação sobre os contatos que fazia, os trabalhos. O desinteresse pelo curso de odontologia às vezes era motivo de discussões.
Por seu lado, Delcídio fingia que nada estava acontecendo. Temia perder a noiva. Quando, nervos à flor da pele, procurava disfarçar o descontrole alegando
outros motivos. Sabia que o confronto direto com Luísa era quase suicídio. Em qualquer tema. A teimosia da moça era irremovível. Ultimamente, as idas dele a Belo Horizonte eram temperadas por certa inquietude, porque, nas sua fantasias, a cidade era palco de cenas do “amor proibido” entre Luísa e Paulo. Torturava-se, imaginando encontros furtivos entre os dois, supunha diálogos em que eles faziam juras de amor e em que talvez tecessem comentários maliciosos sobre sua pessoa. Devotava forte aversão ao prédio da Faculdade de Odontologia, que elegera como palco daquele amor. Embora soubesse que Paulo estudava na Federal, algumas vezes espreitara a saída das aulas, buscando infrutiferamente um flagrante. Mas o maior alimento das suas suspeitas não seria fornecido pela Faculdade de Odontologia.
Certa feita, ao voltar para Ponte Nova, logo à saída de Belo Horizonte, à altura do BH Shopping, avistara Luísa com um homem em um carro que saía da cidade. Imediatamente, Delcídio iniciou uma perseguição ostensiva, sem medo de ser reconhecido e sem medir as conseqüências. O carro aumentou a velocidade e tomou a direita, à altura dos motéis. Delcídio, que, mesmo acelerando até o máximo, não alcançara o outro, chegou a ver quando o carro desaparecera após entrar no motel Chalet. Naquele dia, fizera vigília de doze horas à porta do motel, mas não conseguira identificar Luísa em nenhum dos carros que dali saíram.
Acuado, ele só não era dominado pelo desespero porque se apegara a uma nesga de esperança surgida das forças poderosas que estavam se articulando contra os planos de Luísa. Pois, na verdade, a perspicácia de dona Maria Helena registrava a essência das transformações que sua filha vinha sofrendo.
Sem que Luísa fizesse a menor idéia, na família, o assunto motivava serões para discutir o problema. Dona Maria Helena argumentava cora choro e uma reação nervosa. Uma dor de cabeça insuportável começou a ser sua mais constante companheira. Não havia chá ou calmante que pudesse remover a enxaqueca renitente. Em sua ingenuidade, Luísa não imaginava que as frustrações de seu Geraldo e dona Maria Helena e, em menor intensidade, de todos os que esperavam ter uma doutora na família estavam gerando uma grande mobilização, que tomou ares de estratégia com as idéias do primo Flávio. Segundo ele, a tal estratégia consistia em um conjunto de “ações articuladas”.
que se apoiava na seguinte artimanha: o Dr. Luís iria fazer um convite formal a Luísa, já em agosto, para trabalhar na sua clínica. O salário seria elevado, padrão de Belo Horizonte, e vinha acompanhado da promessa de que ela seria sua sucessora, pois seu único filho interrompera os estudos no segundo grau. No íntimo, o Dr. Luís ainda alimentava o sonho de um casamento de seu filho com Luísa. Esse fato, que ele imaginava ser algo de que ninguém sabia, na verdade havia muito despertara a suspeita da família e fora levado em conta nas articulações, de maneira discreta, evidentemente. Era mais ou menos assim: a família fingia que não sabia das pretensões casamenteiras do Dr. Luís, ao mesmo tempo que ele dissimulava essa intenção. E isso facilitava as coisas.
Além de tudo, havia um apartamento, que seu Geraldo estava comprando, sem o conhecimento de Luísa, e seria presente de casamento, cuja data apontava dezembro, dia 12, três dias depois da última cerimônia da formatura. A lua-de-mel, uma semana no Caribe, seria oferecida pela família, mediante vaquinha de que todos os tios iriam participar.
A única pessoa não convidada para as reuniões era Fernanda. O instinto de conspiração dos demais dizia que ela seria persona non grata em tais articulações.
Luísa, tendo muito a esconder, não notava em suas idas a Ponte Nova, cada vez mais raras, que a atitude de todos havia mudado em relação a ela. Na verdade, temia magoar os pais, o noivo, todo o mundo, enfim.
Nem no Sereia Azul, atrás do balcão ou nas mãos do Lulu-Boneca, ela percebia que conspiravam contra seus planos empresariais, mas sentia que a tratavam com atenção e desvelo maiores do que os de hábito, e deduzia, pois tola não era, que algum motivo havia para isso. Nenhuma pergunta indiscreta, nenhum questionamento. Era como se todos fossem seus cúmplices. Na sua ingenuidade, atribuía o clima ao fato de estar chegando a data da formatura. Apesar de filha da terra, não podia muito contra a matreirice das pessoas mais experientes. Mesmo tendo o dom nas veias, não tinha ainda a sabedoria daqueles matutos que ficavam do outro lado do balcão do Sereia Azul. Era esse o estado de coisas quando Luísa chegou a Ponte Nova na primeira semana de agosto.
Em julho, férias escolares, conseguira forjar uma desculpa para não ir a Ponte Nova, a fim de se dedicar inteiramente ao projeto da GMA. Não fora difícil
convencer as pessoas, que, na verdade, ainda precisavam de tempo e liberdade para conspirar. Portanto, sua ausência tinha sido bem-vinda.
Era sábado, sete e meia da noite, quando o Dr. Luís tocou a campainha da porta da casa de seu Geraldo e dona Maria Helena. A casa era o orgulho da família, com um belo jardim abraçado por majestosa varanda em forma de U. No centro, um lago com peixinhos dourados e uma rã de estimação. Os quintais tinham seis jabuticabeiras fabulosas. Em outubro e novembro, faziam a festa da parentada que vinha da capital para trepar nos pés e chupar frutas loucamente em tremenda algazarra. Voltavam com balaios de bambu forrados com folha de bananeira, cheios de jabuticabas. Faziam parte do pomar ainda goiabeiras, mangueiras e pitangueiras. No calor abrasador de Ponte Nova, as redes que pendiam dos postes da varanda eram o melhor abrigo. Ao fim da tarde, dona Maria Helena trazia sua cadeira de balanço e mais duas cadeiras de espaldar, à espera da presença certa de dona Elisena, que tinha problemas de coluna, e de qualquer outra visita, como Vovó Mes- tra ou dona Marta, que apareciam para prosear e comentar sobre os passantes. Porque a casa de dona Maria Helena ficava na Praça Getúlio Vargas, no Largo da Matriz, palco do footing chique da cidade. A única que jamais aparecia nesse horário era Fernanda, anfitriã do fim de tarde no Sereia Azul, sempre regado a uma boa pinga.
Voltemos ao Dr. Luís, que acabara de entrar. Luísa, em trajes caseiros, sentia- se pouco à vontade para receber tão circunspecta figura.
— Oi, Dr. Luís, que surpresa! Como está dona Zulma? Vamos sentar, por favor. O senhor fique à vontade que vou chamar papai.
Mas não foi necessário. Apareceram a um só tempo, como por milagre, Vovó Mestra, tio Serafim e Flávio, além de seu Geraldo.
Luísa, que nos últimos tempos andava meio desligada, pesquisou na memória as efemérides do dia. Talvez fosse algum aniversário que tivesse esquecido. Do jeito que estava sua cabeça, pensou, poderia até ser o dela...
— Uai, gente! — exclamou, enquanto fazia as visitas entrarem. — Até parece festa... Ei, tio; ei, tia!
Todos simulavam uma grande coincidência. Estavam ali por acaso, para uma prosa rápida. Luísa foi direto para a cozinha preparar algo que pudesse salvar a mãe
do incômodo de não ter o que servir. Mas o forno de microondas já estava com uma bandeja cheia das famosas empadas de dona Maria Helena. Sem entender, Luísa foi para o quarto colocar um vestido.
Mas não teria muito tempo. Era Vovó Mestra batendo à porta para comunicar, em tom de segredo, cheio de notas musicais:
— Delcídio chegou.
Só faltava isso, pensou Luísa. Uma leve irritação assaltou-a. Não eram ainda sete horas. Havia combinado um encontro às nove, quando ambos iriam ao Lá em Casa, bar da moda. Enquanto se vestia, Luísa imaginava que, se não estivesse em Ponte Nova, onde nada acontece, até que aquela noite prenunciava coisas diferentes...
Quando ela entrou na sala, vestido elegante, pés firmes sobre sapatos de salto alto, Delcídio não conteve um suspiro de ingênua sensualidade. Como por encanto, todos ficaram silenciosos, olhando-a de cima a baixo. Luísa procurou uma cadeira ao lado do noivo e discretamente deu-lhe um beijo na face. Nos bons tempos, seria um apaixonado beijo na boca. Sentou-se como as demais senhoras, pernas juntas, mãos descansando no colo. O longo silêncio que se seguiu à sua entrada aumentou as suspeitas. Desviou para o chão o olhar quando percebeu que era o centro das atenções.
Algo inusitado fazia com que aquelas matronas, incansáveis falastronas, se mantivessem mudas. O mais estranho era que não se juntavam a um canto, separadas dos homens, que, habitualmente, ficariam em outro. Luísa olhou suplicante para o noivo, que, no entanto, fitava atentamente o Dr. Luís, como se esperasse que dali viesse alguma palavra. Vovó Mestra, cuja imponente figura sobressaía entre as demais, olhou com autoridade para o dentista e, com um movimento de cabeça, forneceu a senha prevista para o momento.
O Dr. Luís, arranhando um pigarro, começou:
— Pois é, Luísa, aproveitando que eu estava de passagem, queria retomar uma conversa que tive com você tempos atrás. Você se forma em dezembro, já é praticamente uma dentista. Gostaria muito que fosse trabalhar na clínica.
Luísa olhou de soslaio para a mãe, que, esfregando as mãos, assumia a circunspecção de um grande momento. Todos estavam silenciosos, atentos às
palavras do Dr. Luís.
— Como você sabe, o Luís Júnior, meu filho, que, aliás, é muito inteligente, preferiu seguir a profissão de fazendeiro. No que, na verdade, vai indo muito bem. Imagine que já aumentou o número de pés de café em 40% em apenas dois anos. Começou também uma criação de porcos, dentro da mais moderna tecnologia. Você sabe, é um rapaz de muito futuro.
Impaciente, Vovó Mestra limpou com estridência a garganta, chamando a atenção, e franziu os olhos quando estes cruzaram com os do Dr. Luís. Percebendo a advertência, o dentista interrompeu a contragosto os elogios ao filho, que tinham endereço certo, e voltou ao cerne do assunto, tantas vezes combinado e ensaiado.
— Mas o Luisinho, meu único filho, não quis ser dentista. É uma pena não ter ninguém a quem passar minha experiência, clientela, décadas de trabalho. Mas, devido à nossa amizade, gostaria muito de que você fosse trabalhar na clínica, para assumir a direção depois que eu me aposentar. Não posso pagar muito no início, mas acho que dificilmente você encontrará salário igual em outra praça. Era isso que eu tinha a lhe dizer.
— Ora, Dr. Luís, fico muito honrada... Mas Luísa foi interrompida por seu pai. — Temos uma surpresa para você.
Era a hora da fala do acanhado seu Geraldo. Haviam planejado apresentar o “pacote” em bloco, apostando na força do seu impacto.
— Já que o Delcídio está aqui, acho que este é o momento para lhe dizer. Eu comprei um apartamento em Palmeiras para vocês. Fica pronto em novembro. Três quartos, com vista para a praça. Acabamento de primeira.
Luísa estremeceu. Seu pai não era homem de dar boa vida às filhas, pelo contrário. Jamais imaginara que compraria um apartamento para ela, ainda mais em Palmeiras, o bairro elegante da cidade. O anúncio do presente de casamento foi seguido de muitos “huns”, “ohs” e palmas de aprovação e admiração. “Que começo de vida!” “Hoje em dia, isso é muito difícil”,”Que pai é o seu Geraldo. Não mede esforços...” ouvia-se entre o burburinho geral.
Após seu Geraldo, era a vez de Flávio. Camisa “volta ao mundo” esticada na barriga proeminente, o último botão quase expulso da casa, calça de tergal, adorava
um momento desses. Falou com solenidade:
— Você sabe a importância da família. Nós temos sempre que combater a desunião, que a nada leva, e lutar pela harmonia, sem medir esforços. A nossa família é como um jardim florido, e você é a nossa rosa mais bela. Entre tantas jóias, você é a pérola mais reluzente.
Vovó Mestra se limitara a torcer o canto da boca. Por mais preparada que estivesse para as inevitáveis metáforas de Flávio, sempre de gosto duvidoso, estas a surpreenderam por sua vulgaridade e despropósito. Mas ele continuou.
— Por isso, como prova do nosso amor, e também como sinal de nossa aprovação ao seu casamento com Delcídio, unimo-nos para oferecer-lhes uma viagem de lua-de-mel no Caribe.
Olhou em redor para medir o impacto do seu discurso, sorriso imponente escancarando sua boca, e finalizou.
— Esse será o presente dos tios para vocês.
Luísa metralhou todos os presentes com o olhar. O sorriso nos lábios dissimulava uma raiva que lhe comia as entranhas. Mas sem reação. Caíra numa armadilha e não se perdoava por ter sido tão ingênua. “Ingênua nada. Estúpida mesmo. Então estavam tramando há tempos”, pensou, “e eu achando que não sabiam de nada”. Amadureceu uma vida inteira ali, naquele momento. Aprendeu o que era ser mineira, a dissimulação, o fingir não saber para ocultar um ardil pacífico. E caiu nessa... Ali só havia cobra criada. Sentiu-se presa fácil do estratagema familiar. Ofereciam-lhe de repente tudo com que sonhara até algum tempo atrás. Apartamento em Palmeiras, o emprego desejado, uma viagem ao Caribe, casamento. Agora, nada disso fazia seu coração palpitar. Apesar de reconhecer que era alvo do amor exa- cerbado da família e do noivo, julgava-se traída. Sem saída, sentindo-se só e triste, por mais impróprio que fosse a solidão brotar em ambiente de tanto amor, não se esforçou para impedir que os olhos se umedecessem.
Levantou-se e disse, com disfarçado fingimento: — Estou tão emocionada!
E correu para seu quarto, lágrimas nos olhos. Vovó Mestra olhou para as comadres com ar de vitória. Dona Maria Helena, também chorando, dizia que a emoção fora demais para a menina. Todos se sentiam satisfeitos, orgulhosos. As
lágrimas de Luísa eram a prova do impacto causado, do sucesso da empreitada. A partir daí, o papo rolou solto, as mulheres de um lado, os homens do outro. Delcídio não continha a alegria.
Luísa trancara-se no quarto e só deu as caras para o almoço no domingo, quando dona Maria Helena fizera menção ao enxoval. Iria comprá-lo em São Paulo, onde os preços eram melhores e a variedade maior. Queria marcar uma data com Luísa, que desconversou e pretextou uma forte enxaqueca para evitar o assunto. Às quatro horas da tarde, pegou uma carona para Belo Horizonte.