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APORTE TEÓRICO: O FUNCIONALISMO LINGUÍSTICO

2.3 A EMERGÊNCIA DA GRAMÁTICA

2.4.3 OS MECANISMOS E AS TRAJETÓRIAS DE MUDANÇA

Apesar das definições acima destacarem a mudança sintática no conceito de gramaticalização, esse princípio abraça atualmente outros domínios da linguagem, verificando-se a ocorrência desse fenômeno na significação das formas linguísticas, por influência do contexto comunicativo ou da pragmática. Entre os funcionalistas, é difundida a ideia que a mudança semântica por gramaticalização se efetiva por mecanismos de base metafórica e/ou metonímica e está associada aos aspectos estruturais, comunicativos e cognitivos.

A ação da metonímia está relacionada à mudança de sentido pela associação sintática de itens lexicais. Embasados em Lakoff & Johnson (1980), Gonçalves et al (2007) dizem que a metonímia tem uma função referencial que permite usar uma entidade linguística em substituição a outra que funciona como mecanismo de entendimento. Os conceitos metonímicos não são arbitrários. Fazem parte de pensamentos, ações e fala e podem ser entendidos através das relações de substituição “da parte pelo todo”. A metonímia é vista, portanto, como uma categoria de extensão/associação de significados baseados na contiguidade.

De forma diferente, a metáfora envolve a associação de conceitos relacionados à experiência humana. Associada à gramaticalização, a metáfora constitui a abstratização de significados e diz respeito à forma como os seres humanos compreendem e conceituam o mundo que os cerca. Na maioria desses fenômenos, o processo de gramaticalização está relacionado à criatividade humana.

Traugott (1995) salienta que, combinando hipóteses morfossintáticas e semântico- pragmáticas em seus estudos, Bybee (1985), Heine (1984), Traugott (1991, 1993) e outros documentam a perda sucessiva de valores semânticos e de liberdade sintática no desenvolvimento das formas linguísticas, entendendo-os como mudanças por gramaticalização.

Funcionalistas advogam que formas abstratas emergem da experiência humana com o mundo concreto. Heine et alli (1991, p.182), por exemplo, documentaram nas línguas um grau crescente de abstração semântica dos itens lexicais, desenvolvendo-se trajetórias do tipo:

+ concreto > – menos concreto (espaço) > + abstrato (tempo) > texto.

Explicam os autores que quanto mais um elemento avança na sua evolução, maior grau de abstração vai adquirindo, perdendo transparência semântica em relação ao significado de origem. Ou seja, partindo da noção de espaço, às formas, associam-se significados cada vez mais abstratos, podendo passar pela noção de tempo até desembocar na categoria mais abstrata de texto.

Heine et alli (1991 p.182) propõem, então, a seguinte escala para representar a abstratização gradativa das formas linguísticas no percurso de gramaticalização:

Espaço > (Tempo) >Texto.

O conceito de gramaticalização torna-se ampliado, envolvendo, também, a mudança semântica, de caráter progressivo, segundo a qual os sentidos de certos elementos linguísticos vão do mais referencial ao menos referencial, ou seja, migram de conotações mais concretas e

mais dêiticas para as mais abstratas e discursivas, tornando-se cada vez mais opacos no seu conteúdo semântico, isto é, vazio de sentido.

Além desses processos, a mudança semântica pode ocorrer acionada por outros mecanismos, como por exemplo, por pressão da informatividade e pela frequência.

Os estudos funcionalistas ressaltam a importância do princípio de informatividade como forma de explicar a mudança linguística. Relacionado à perspectiva da interação verbal, este princípio focaliza o conhecimento que os interlocutores compartilham, ou supõem que compartilham informções ao interagir uns com os outros. A aplicação desse princípio está orientada para o exame do “status” informacional dos referentes nominais.

Um sintagma nominal pode ser classificado como dado, novo, disponível e inferível. Um referente pode ser dado (velho), se já tiver ocorrido no texto ou se estiver disponível na situação da fala como os próprios participantes do discurso: falante e ouvinte. Um referente é novo quando é introduzido pela primeira vez no discurso. Se já está na mente do ouvinte por ser geralmente um referente único (num dado contexto), é chamado disponível. Um referente é denominado inferível quando é identificado através de um processo de inferência, a partir de outras informações dadas. As entidades inferíveis são codificadas com um artigo definido e está relacionada à metonímia (inferência pragmática). (cf. CUNHA, 2003, p. 166).

Heine et al. (1991, p. 76) consideram importante observar o processo pragmático conhecido como pressão de informatividade ou “força expressiva ou informativa das expressões envolvendo o falante”. Um significado é especificado em termos de outro que está presente, mesmo que encoberto, no contexto, o qual induz a uma reinterpretação mediante implicaturas conversacionais que podem vir a se convencionalizar, pela pressão de informatividade, regulando a interação falante-ouvinte, envolvendo um processo sintagmático de reanálise.

Para Traugott e Köing, (1991, p. 190), trata-se de um processo em que por implicaturas conversacionais, o elemento linguístico passa a assumir um novo valor, que emerge de determinados contextos, em que esse sentido novo pode ser inferido do sentido primeiro, independente do valor textual das sentenças envolvidas no processo. Os autores ressaltam o caso, por exemplo, em situações de desenvolvimento de valores contrastivos (concessivo ou adversativo).

A metonímia também pode ser explicada por esse princípio. Pressionada pela informatividade, a metonímia ocorre em consequência de uma relação associativa ou de

contiguidade em contextos específicos. Trata-se de um processo estrutural de mudança de sentido, desencadeada pela contigüidade posicional ou sintática dos itens (magis - lat. Adv. de inclusão > mas conj. adversativa). Em função do contexto linguístico (pragmático), o item é ressemantizado, não guardando relações com o sentido anterior.

Bybee et al. (1994) também se referem à pressão de informatividade como fator desencadeador da gramaticalização que se apresenta através de diferentes mecanismos: da extensão metafórica, inferência, generalização, harmonia e absorção.

A extensão metafórica caracteriza-se por meio de duas propriedades:

i) mudança de um domínio mais concreto para um domínio mais abstrato (metonímia) ii) preservação de algum traço da estrutura relacional original.

A inferência remete à implicatura, pois enquanto o falante obedece ao princípio da informatividade e da economia, o ouvinte extrai todos os significados necessários à compreensão da asserção.

A generalização diz respeito à perda de traços específicos de significado, com a conseqüente expansão de contextos apropriados para o uso.

A harmonia é aplicável a estágios mais avançados da gramaticalização referindo-se a elementos gramaticais que se encontram desprovidos da maior parte do seu conteúdo semântico.

A absorção corresponde à completa gramaticalização do item observado. Segundo Bybee (1984), esses mecanismos operam em diferentes estágios do processo de gramaticalização.

A frequência é também considerada um aspecto muito importante no processo de gramaticalização, uma vez que se constitui o fator primordial na geração de uma mudança. É ela que fixa o uso e cria estabilidade no sistema, via repetição. Segundo os funcionalistas, a repetição constitui fator responsável pela automatização das formas, fazendo com que sequências de palavras ou construções freqüentemente usadas, sejam processadas como uma única unidade.

A frequência de uso, segundo Bybee (1984), leva ao enfraquecimento da força semântica de uma forma pelo hábito, ou seja, as formas tornam-se mais gerais, mais abstratas no significado, provocando o emprego da construção em outros contextos com novas associações, estabelecendo uma mudança semântica.

Como se observa, a mesma trajetória unidirecional que ocorre com as formas linguísticas do ponto de vista sintático, também, no âmbito da significação das palavras. As formas podem cristalizar-se na evolução, assumindo outras conotações e funções discursivas, ou até mesmo, desaparecer.

Pelo exposto, duas tendências de gramaticalização caracterizam as mudanças linguísticas: i) uma que acentua os aspectos sintáticos e semânticos desse fenômeno por influência da pragmática; ii) outro que deixa evidente a preocupação com o entendimento desse fenômeno como algo que se manifesta no discurso e se desdobra no tempo, sugerindo uma ideia diacrônica e unidirecional (Æ). Portanto, apresentam a gramaticalização como um fenômeno estrutural e abrangente que se manifesta no discurso e se propaga, de forma unidirecional, gradual e progressivamente no tempo. Na próxima seção esclareço melhor o assunto.