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1 – PARA UMA CLARIFICAÇÃO DO CONCEITO DE COMPETÊNCIA

Etimologicamente, a palavra “competência” significa um elemento com direito ou qualidade legal para avaliar uma questão; capacidade de resolver qualquer assunto.

Conforme Guimarães e Brandão (2001), o conceito de competência vem do fim da idade média. Inicialmente restrito à linguagem jurídica, significava que determinada corte, tribunal ou indivíduo era “competente” para realizar um dado julgamento, ou seja tinha uma competência legal. Posteriormente, o termo passou a ser utilizado também para designar alguém capaz de pronunciar-se sobre certos assuntos. Com o tempo, começou-se a utilizar a expressão para qualificar pessoas capazes de realizar um trabalho bem feito.

Nisembaum (2000), é da opinião que competência é uma interacção sinérgica dos conhecimentos, habilidades e comportamentos, que se manifesta no alto desempenho da pessoa, contribuindo para os resultados organizacionais. Este conceito aproxima-se da corrente norte- americana, que coloca a competência como sendo um conjunto de qualificações, que a pessoa possui para exercer determinado trabalho com um nível superior de desempenho. Porém, este significado de competência foi contestado pela corrente francesa, representada, entre outros, por Le Boterf (2003), Zarifian (2000) e Perrenoud (1999).

Conforme Le Bortef (2003), a competência está situada numa encruzilhada, onde se encontram três eixos formados pela pessoa, experiência profissional e a formação educacional. É na convergência destes elementos em uma determinada situação que ocorre a competência. Para este autor a competência manifesta-se num actor em acção, ela emerge no decorrer de um contexto. Nesta perspectiva, a competência não é, como julgam os norte-americanos, um conjunto de conhecimentos e habilidades, mas a sua mobilização em determinada situação.

No entanto, Le Bortef é contestado dentro da corrente francesa por considerar a competência um saber mobilizar conhecimentos e habilidades, sendo que, para Perrenoud, (1999), a competência pressupõe um saber mobilizar recursos, mas não se confunde com eles. Então, nenhum recurso pertence exclusivamente a uma competência, pois pode ser mobilizado por outras. Segundo este autor, a mobilização, não só de conhecimentos, mas também de métodos, informações e regras, dependem de esquemas mentais simples e/ou complexos formados pela

48 prática, podendo ser apoiados numa teoria. Perrenoud defende que as competências não podem ser confundidas com os esquemas mentais.

Contudo, como refere Weinert (2001), no estudo “Concept of competence : a conceptual clarification “, o uso lato do termo “competência” sofre daquilo a que ele apelida de “inflação conceptual”, onde a falta de uma definição exacta é acompanhada por um excesso de significado.

Para Pires (2005), o conceito de competência desponta na época moderna a partir do campo da psicolinguística, a partir do trabalho desenvolvido por Chomsky, na década de 1960, tendo vindo a ser utilizado em diversos domínios disciplinares. A psicologia, a ergonomia, as ciências da educação e a sociologia do trabalho são os principais domínios em que este conceito tem sido analisado. Segundo esta perspectiva, o conceito de competência surge assim, no cruzamento de vários campos disciplinares, o que leva autores como Sá-Chaves (2002), a referir que a este conceito está inerente alguma imprecisão conceptual.

Também Rychen e Salganik, (2001) consideram que não existe uma definição do conceito de competência globalmente aceite, tal como também não existe qualquer teoria dominante e abrangente.

Na psicologia identificam-se alguns conceitos vizinhos da noção de competência, com a qual se encontram directamente interligados, tais como: capacidade – capacité na língua francesa e ability, skill, competence, em língua inglesa – e aptidão – aptitude em língua francesa e ability em língua inglesa –.

O conceito de capacidade (capacity) na língua inglesa é definido como a possibilidade de executar com êxito uma tarefa determinada, sendo uma das condições deste êxito a posse pelo sujeito de uma determinada aptidão.

O grau de êxito pode ser avaliado, o que define a capacidade do sujeito, tanto directamente num contexto escolar como profissional, como indirectamente através de diversos testes. A partir da capacidade também é possível estimar a aptidão.

O termo skill reveste-se de uma ampla gama de significados, associados a uma conotação positivista de competência. No campo da formação, o foco desloca-se para resultados observáveis da aprendizagem e o processo de aprendizagem é valorizado na sua relação com a avaliação

No domínio da educação, o termo skill possui um significado múltiplo, envolvendo vários domínios da aprendizagem (domínio psicomotor, cognitivo, afectivo, emotivo, perceptual, etc.).

O conceito de aptidão reenvia para aspectos constitucionais do sujeito, determinados em parte por factores hereditários. O conceito de aptidão também pode ser definido como uma dimensão que permite diferenciar a conduta dos indivíduos, e estas diferenças residem não nas características observáveis mas em características subjacentes, tais como os aspectos cognitivos responsáveis pelo tratamento e aquisição de informação (Pires, 2005).

Entretanto o termo “competência” goza hoje de grande aceitação e é alvo de grande atenção e interesse de diversos públicos dos mais variados quadrantes, surgindo em contextos extremamente variados, sobretudo no que toca a organizações laborais, formação profissional e educação em geral.

Existem vários factores que contribuem para explicar o interesse por este conceito em vários domínios, e alguns, indubitavelmente, estão relacionados com as importantes alterações que têm ocorrido na sociedade e nas organizações laborais.

A sociedade e as economias estão a mudar a um ritmo muito elevado, afectando aspectos diferentes da vida humana. Estas transformações são particularmente notórias no local de trabalho. A forma tradicional de organizar o trabalho e os serviços fornecidos é substituída por novos métodos, sobretudo através da introdução e aplicação intensiva das novas tecnologias. Além disso, as empresas modernas estão organizadas segundo formas que as diferenciam largamente das metodologias tradicionais. Nesse contexto, todos os agentes de produção precisam de desenvolver novas aptidões e, ao mesmo tempo, adaptarem-se a novos ambientes. Esta necessidade de adaptação é traduzida em novos conceitos, como é o caso das “competências”.

Uma competência num dado campo é o que faz com que as pessoas pensem, ajam e aprendam de forma independente, transferindo esse conhecimento para novos domínios e, em simultâneo, permitindo-lhes procurar soluções para novos problemas. Esta é a razão pela qual o

49 termo “competência” é usado extensivamente nos domínios da economia e da sociologia (Tiana, 2005).

O conceito de ”competência” na área da educação também tem estado em evidência. O despertar deste súbito interesse neste conceito tão vasto pode ser justificado pelas rápidas mudanças tecnológicas, a globalização, a diversidade, a desigualdade de oportunidades e as assimetrias sociais.

É por esta razão que os currículos estão actualmente em discussão a nível político e educacional, em todo o mundo. Existe uma crescente preocupação em todas as sociedades actuais relativamente à adequação e à qualidade da educação, bem como o retorno económico e social decorrente das despesas educacionais.

Analisando os vários estudos sobre competências realizados no contexto da OCDE: o Cross- Curricular Competencies Project, o International Adult Literacy Survey, o Human Capital Indicators Project, e o Projecto DeSeCo, constata-se que um dos temas centrais que sobressaí nestes estudos diz respeito ao facto de que os resultados educacionais desejados são mais amplos do que a própria aquisição de conhecimentos eminentemente alicerçado nas disciplinas, algo que é tipicamente ensinado na escola. Por outro lado, a ideia de que as competências ultrapassam o próprio contexto escolar, e a noção de que a educação não é um fim em si própria, mas antes uma forma de tornar os alunos mais aptos para a vida, são também outros dos resultados destes estudos (Rychen, 2005).

Na realidade, os sistemas educativos enfrentam actualmente novos e grandes desafios, entre os quais se destaca a orientação para o desenvolvimento e a aquisição de competências, em detrimento da definição e selecção de conteúdos educacionais.

2 – CONTRIBUTOS PARA A COMPREENSÃO DO CONCEITO DE