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CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1.3. Paradigma Performativo

Em 2006, Haseman publicou um artigo onde examinava as dinâmicas e o significado da Practice-led Research e onde argumentava no sentido de esta ser entendida como uma estratégia de pesquisa dentro de um novo paradigma – a Performative Research (pesquisa performativa), uma vez que os pesquisadores nas áreas das artes, dos média e do design muitas vezes têm dificuldade em encontrar metodologias úteis dentro dos paradigmas da pesquisa quantitativa e da pesquisa qualitativa.

No seu artigo, Haseman explica resumidamente os dois paradigmas tradicionais, onde as categorias de quantitativo e qualitativo assinalam noções operacionais, distintas e opostas relativamente aos objetivos e à conduta de diferentes abordagens da pesquisa. Segundo este autor, a pesquisa quantitativa, ao testar hipóteses, mede e quantifica os fenómenos, construindo-os em termos de frequência, distribuição, causa e efeito. O que se pretende é isolar princípios e formular leis invariáveis. O resultado é uma série de metodologias que se propõe eliminar a perspetiva individual do investigador, e dos sujeitos observados. A pesquisa qualitativa opera de forma diferente ao eleger abordagens indutivas e englobando uma vasta gama de estratégias e métodos de pesquisa que abarca as perspetivas dos investigadores e dos sujeitos estudados. Segundo este autor, são dois tipos de pesquisa que emergem de diferentes formas de ver o mundo e que incorporam interpretações alternativas acerca da forma como o conhecimento é gerado, e que transmitem esse conhecimento de forma bem diferente. Para Haseman (2006), em termos gerais, os investigadores quantitativos não estão muito interessados nos fenómenos da práxis humana (a não ser quando esta pode ser quantificada). De forma similar, os investigadores qualitativos tradicionais estabeleceram estratégias de pesquisa para gerar conhecimento ‘sobre’ a prática. E todos os métodos de observação desenvolvidos para a pesquisa quantitativa e para a pesquisa qualitativa são testemunho deste posicionamento da prática como objeto de estudo, e não como método de pesquisa.

No seu artigo, Haseman (2006) menciona a crescente impaciência de vários investigadores com as restrições metodológicas da pesquisa qualitativa e a sua ênfase na apresentação dos resultados através da escrita, pois acreditam que essa abordagem distorce a

comunicação da prática. E afirma que o que se pretende é, não apenas incorporar a prática no processo de pesquisa, mas sim que a prática conduza a pesquisa e assuma a sua liderança. Originalmente propostas por artistas/pesquisadores, e pesquisadores na comunidade criativa, estas novas estratégias são conhecidas como creative practice as research, performance as research, research through practice, studio research, practice as research ou practice-led research. Haseman (2006) esclarece que os pesquisadores performativos realizam pesquisas conduzidas pela prática. Este tipo de pesquisa conduzida pela prática é intrinsecamente experiencial e emerge quando o investigador cria novas formas artísticas e as expõe, ou projeta jogos online dirigidos pelo usuário, ou, então, cria um serviço de aconselhamento online para jovens, por exemplo.

Haseman (2006) afirma que, tanto na pesquisa quantitativa como na pesquisa qualitativa o design da investigação decorre sempre de uma questão central ou da afirmação de um problema, ou, na Grounded Theory - teoria fundamentada, da experiência e das interpretações dos sujeitos estudados, mas que a maioria dos investigadores que fazem practice-led research não iniciam o seu projeto de pesquisa com um problema, na verdade, são conduzidos pelo entusiasmo da prática: algo que é emocionante, algo que pode ser indisciplinado, ou mesmo algo que pode apenas tornar-se possível com as novas tecnologias ou o trabalho em rede. Estes pesquisadores constroem pontos de partida experienciais a partir dos quais a prática prossegue. Tendem a ‘mergulhar’. Começam a praticar para ver o que emerge, e reconhecem que o que emerge é individualista e idiossincrático. A segunda característica destes investigadores, para este autor, reside na sua insistência de que a comunicação dos resultados da sua pesquisa e transmissão do conhecimento deve ser feita através da linguagem simbólica, e formas, da ‘sua’ prática, mostrando pouco interesse em traduzir as suas conclusões e interpretações para números (quantitativo) ou palavras (qualitativo), preferidos pelos paradigmas tradicionais de pesquisa. O terceiro paradigma emergente, Performative Research, está alinhado com muitos dos valores da pesquisa qualitativa, no entanto, distingue-se pela forma como expressa os resultados da pesquisa.

Reconhecendo a ‘viragem para a performance’ (Performance Turn) na pesquisa qualitativa (Lincoln & Denzin, 2003), Haseman dá um passo à frente, argumentando que as novas práticas e estratégias da Practice-led Research já ultrapassaram os limites da pesquisa qualitativa e que um novo terceiro paradigma está a emergir – O Paradigma Performativo. No entanto, o autor não vê necessidade para uma separação estanque da pesquisa qualitativa e da pesquisa performativa, porque as duas partilham muitas das orientações principais. Afirma que a pesquisa performativa deriva da ontologia relativista e celebra múltiplas realidades construídas. O seu potencial plurivocal opera através de

epistemologias interpretativas onde o conhecedor e o conhecido interagem, e se moldam e interpretam reciprocamente.

A pesquisa performativa vai além das atuais práticas de pesquisa qualitativa pois, para fazer o seu trabalho, tem de inventar novas estratégias e métodos que sejam ditadas pelos fenómenos que estão a ser investigados. Segundo Haseman (2006) para fazer pesquisa performativa, a estratégia necessária e fundamental é a Practice-led Research, definida por Carole Gray como:

Research which is initiated in practice, where questions, problems, challenges are identified and formed by the needs of practice and practitioners; and secondly, that the research strategy is carried out through practice, using predominantly methodologies and specific methods familiar to us as practitioners (Gray, 1996, p.3)

Segundo Haseman (2006), apesar de a estratégia da Practice-led Research de Gray oferecer uma formulação original e distinta, as estratégias da tradição da pesquisa qualitativa também continuarão a ser utilizadas para desenvolver o projeto de pesquisa, mas geralmente serão aplicadas de maneira distinta da sua aplicação qualitativa. Normalmente, os pesquisadores performativos empregam variações como: prática reflexiva; observação participante; etnografia performativa; etnodrama; investigação biográfica, autobiográfica e narrativa; e o ciclo de investigação da pesquisa-ação.

1.4. Processos Coreográficos do Coreógrafo e Bailarino(s)