Parte II – Os conceitos aplicados
1. A irrupção da cultura no mundo empresarial
1.2. A cultura nacional no contexto empresarial
1.2.3. Philippe D’Iribarne: a cultura como contexto de interpretação
Geert Hofstede, o projecto GLOBE, Trompenaars (1994), Skinner e Winckler ou Harrison (Pheysey, 1993:5-18), Quinn (1991) e muitos outros, apresentam modelos de cultura, nacional ou organizacional ou a conjunção interactiva das duas. Philippe D’Iribarne prefere não falar de modelos, mas de contextos de interpretação (D’Iribarne, 1998: 256). A diferença é substancial, embora possa perfeitamente ser considerada não antagónica. Enquanto um modelo consiste na exposição gráfica de interconexões possíveis entre variáveis, um contexto de interpretação pressupõe um vasto e complexo cenário no âmbito do qual os fenómenos adquirem significado. Uma mesma realidade pode ter interpretações múltiplas conforme o contexto, daí que é indispensável apreendê-lo para perceber a lógica dos conceitos.
«Quand on cherche à comprendre finement chaque culture, les manières usuelles de les caractériser, en leur attribuant des scores différents selon des dimensions supposées avoir un sens indépendant des temps et des lieux paraissent fort questionnables. (…) Pour tenter de catégoriser les cultures, il paraît plus fécond de s’intéresser aux différences entre les réalités que recouvre une même notion (justice, égalité, liberté ou dignité) dans des contextes différents et aux effets de ces différences sur les institutions et les pratiques.
(D’Iribarne, 2000 :72)
Daí que o título da obra charneira de Philippe D’Iribarne seja precisamente La logique
de l’honneur (1989), pois nela o autor explana a lógica interna de três culturas, a sua
continuidade baseada em infinitas ramificações em torno de «referentes últimos», dotados de uma persistência histórica fundamental (D’Iribarne, 1998: 259). São estes «referentes últimos» que determinam simultaneamente a unidade de uma cultura e a sua incrível diversidade, e são eles também que possibilitam a sua inteligibilidade. Na obra já referida, este investigador francês e a sua equipe detectam, através de análise de conteúdo de entrevistas individuais semi-estruturadas, as constantes históricas108 que condicionam as interpretações e as práticas de gestão nas organizações em França, nos Estados Unidos e na Holanda. Não será tanto o «referente último» determinado para cada um destes países o que mais importa, mas a forma como este é sucessivamente reinterpretado, de modo a absorver as inovações, quer no âmbito da gestão, quer no
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Constante histórica é um paradoxo do mesmo tipo de estrutura fluida, ele procura transmitir a ideia da repetição (constante) que está na base e na origem da mudança (história).
âmbito das tecnologias. Assim, em França persistiria a noção de «honra» claramente associada ao seu significado feudal, quase de casta, em que os diversos níveis (rang) profissionais se encontram fortemente estratificados e são descontínuos, o que prejudica a polivalência e a flexibilidade, mas permite o desenvolvimento de orgulhos profissionais muito fortes, a honra própria do rang.
Já a cultura norte-americana estaria até hoje eivada do «espírito do Mayflower», o navio que transportou para o continente americano o primeiro grupo de colonos europeus, pioneiros puritanos, homens iguais entre si, cuja desigualdade só é aceite em termos momentâneos e limitados pelo contrato justamente aceite pelas partes envolvidas, mas cuja quebra pode dar lugar a reacções brutais dos “ofendidos”. Daí que, se a «honra» é o «referente último» da cultura francesa, a «justiça» (fairness) é-o da norte-americana, e o «consenso», já presente no forçoso entendimento entre as «sete repúblicas» fundadoras da União de Utrech (1579) constituiria a base da cultura holandesa (D’Iribarne, 1991: 398). É evidente que esta “redução” radical da complexidade cultural a um único conceito, ainda que apreendido na abrangência máxima dos seus significados contextuais, só pode ser entendida em termos simbólicos, ou seja, eles significam o «pacto social» básico de cada sociedade, ou seja, a forma como cada uma regula as suas inevitáveis divergências e desigualdades, o equilíbrio constantemente instável entre ordem e liberdade.
«Toute société construit, tant bien que mal, un compromis subtil et toujours plus ou moins en chantier entre, d’une part, l’impossibilité de vivre sans règles et sans moyens de pressions capables de faire que ces règles soient un minimum respectées, et d’autre part, le désir des humains de vivre leur vie sans trop d’entraves. Il n’est pas de société sans ordre et aucune société humaine n’est une fourmilière. Chacune d’elle s’appuie sur un vaste édifice de représentations pour légitimer la forme d’ordre qu’elle s’est donnée.» (D’Iribarne, 2000 : 71)
É este «pacto social» que permite também estabelecer a íntima ligação que D’Iribarne defende entre a cultura nacional, ou societal e as culturas organizacionais, pois é ele que fornece «o esquema de interpretação» das práticas das organizações e do seu significado local, assegurando simultaneamente uma inteligibilidade abrangente e um máximo de diversidade. A persistência sistematicamente modificada destes «pactos sociais», as suas múltiplas e sucessivas reinterpretações são asseguradas pela socialização primária dos indivíduos (Matheu,1990:45). Quanto às práticas das empresas, elas só são
consideradas legítimas se interpretadas em consonância com os significados atribuídos localmente aos conceitos fundamentais. E aqui retoma-se a ideia de contexto de interpretação para definir cultura, na medida em que só a abrangência do meio, na interligação das suas várias vertentes, permite compreender os significados.
Pode-se exemplificar isto por meio dos conceitos de dignidade e fidelidade, apresentados pelo próprio D’Iribarne, numa comparação entre as sociedades ocidentais e não-ocidentais. Nas primeiras, só é digno e plenamente humano o homem livre e autónomo e, toda a relação assimétrica implica necessariamente a redução de uma das partes à condição de escravo, desprovido de humanidade e, por conseguinte, de dignidade. Uma relação de apadrinhamento é considerada apenas como uma variante da relação senhor- escravo. Numa sociedade não-ocidental, este tipo de relação pode ser encarado de forma completamente diferente, pois o apadrinhamento é interpretado em termos de filiação, em que se distingue a dignidade do filho da indignidade do escravo. (D’Iribarne, 2000: 73) Do mesmo modo, em termos éticos, a fidelidade pode ser entendida preponderantemente como uma atitude individual, de comprometimento pessoal face aos deveres próprios e para com o Outro ou o Próximo universal; como pode ser interpretada enquanto conjunto de deveres face à família109, que nestas circunstâncias surge como destinatária exclusiva da dedicação do indivíduo, salvo se outro grupo ou outra instituição for equiparada a esta. D’Iribarne atribui uma importância determinante a estas diferenças no âmbito das organizações, uma vez que delas depende a própria estruturação hierárquica das empresas, o tipo de liderança considerada legítima e a organização dos recursos humanos. (Idem:74)