Parte II – Os conceitos aplicados
5. Síntese intercalar
Partindo da figuração esquemática da hipótese exploratória enunciada na introdução, procedeu-se ao longo destas páginas à análise crítica de cada um dos conceitos que a compõem: a cultura, a representação social e a eficácia.
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A cultura foi abordada sob diversos pontos de vista, enquanto conceito antropológico associado a cultura nacional ou societal e enquanto cultura organizacional, tendo-se procurado estabelecer uma ligação entre ambos os constructos, ainda que o grau de influência de um sobre o outro permaneça indeterminado.
O conceito de cultura foi sobretudo examinado sob três pontos de vista: (1) o da sua natureza «sobreposta» ou «incorporada», tendo-se defendido esta última hipótese com base quer nos trabalhos de Lackoff e Johnson sobre a incorporação dos conceitos metafóricos (Lackoff, 1987), quer na ideia dos marcadores somáticos proposta por António Damásio (1995); (2) o da sua natureza simultaneamente individual e colectiva, tendo-se para isso recorrido sobretudo às teorias de Geertz (1973) e Bradd Shore (1996), sendo que o primeiro autor realça o carácter eminentemente cultural da natureza humana do Homem (o pleonasmo é propositado), e o segundo chama a atenção para a dupla génese da cultura, simultanemanete social e individual e a complexa ligação entre os seus vários níveis; (3) e por fim, o ponto de vista da dinâmica cultural, em que se passaram em revista os vários modos de encarar o movimento das culturas, a sua transformação interna e sobretudo o processo do seu encontro. Neste âmbito, abordou- se com particular interesse a mudança por transferência analógica, igualmente proposta por Bradd Shore (1996) e que explica a evolução e as transformações culturais a partir da capacidade de integração das experiências novas em modelos pré-existentes; a hipótese da creoulização, defendida por Hannertz (1992 e 1996), em que o autor aborda o complexo interagir das culturas em presença no âmbito do processo de globalização, acentuando o carácter recíproco das influências, ainda que inscritas no modelo centro- periferia de Wallerstein, ou seja, não esquecendo a assimetria das mesmas. Foram ainda abordadas as hipóteses da interculturalidade – no seu sentido mais restrito ou mais lato, conforme é encarada enquanto processo só possível em contextos politicamente simétricos (Camilleri e Abdallah-Pretceille, 1994) ou inevitabilidade inerente aos encontros entre indivíduos oriundos de universos culturais diferentes (Ladmiral, Lipiansky, 1989) – e a transculturalidade, que se distingue da primeira na medida em que, ao indivíduo se atribui a capacidade de «navegar» entre códigos culturais, sem que tal implique uma «esquisofrenia social» com o sentido patológico inerente ao termo. A relevância do conceito de representação social na estrutura do modelo surge por via da constatação da importância da relação interpessoal no âmbito do objecto da tese, já que, no contexto africano a qualidade da relação parece ser mais importante do que conteúdo da comunicação. Esta é uma constatação comum a todos os autores estudados,
quer os que analisam o meio empresarial (como a equipe de Philippe D’Iribarne ou Erika Dettmar), quer num âmbito totalmente diferente, os resultados do trabalho de análise literária de Sonja Lehner (1994). Atendendo a isto, considerou-se importante determinar qual a representação social dos moçambicanos para os portugueses e vice- versa, pois partiu-se do princípio que uma representação social positiva, ou não particularmente negativa, facilitaria o estabelecimento de relações interpessoais de boa qualidade.
Para definir o conceito de representação social recorreu-se sobretudo aos trabalhos de Moscovici (1976, 1981, 1986, 1992, 1993) e Willem Doise (1981, 1984, 1993), sendo que os resultados experimentais deste último se revelarão de grande utilidade num posterior confronto com os dados empíricos recolhidos no terreno.
Trantando-se aqui de cultura num contexto empresarial, seria impossível passar por cima quer do trabalho de Geert Hofstede, quer de Phillipe D’Iribarne. Defende-se não a incompatibilidade, mas antes a complementaridade entre as abordagens de análise cultural dos dois autores, enveredando pela metodologia quantitativa e análise estatística o primeiro; procurando o segundo a contextualização histórica das manifestações culturais. Ainda no âmbito da cultura na empresa, foi abordado o conceito de cultura organizacional nas suas várias perspectivas – integracionista, diferenciadora e fragmentária – sendo que se conclui que o socalco de estabilidade indispensável ao funcionamento da organização se transmite mais através do conceito de identidade de empresa (Lopes, 1990; Parker, 1998), que é de carácter afectivo, do que cultura de empresa, cujo carácter político implica uma renegociação constante.
A questão da cultura na empresa e/ou da cultura de empresa aparece sempre associada quer à liderança, quer à questão da eficácia, pois tanto a ideia de gestão da cultura, ou gestão pela cultura267 têm por base o objectivo da eficácia. Este conceito é aqui tratado conforme o define Esther Morin (1996), ou seja enquanto julgamento do desempenho de uma organização, emitido pelos avaliadores internos e externos relevantes, tendo em conta os seus valores e interesses. A ligação entre os conceitos de cultura e o de eficácia é realizada por autores como Denison (1990) ou Quinn (1991), através de modelos em que esta surge como resultante do equilíbrio ou reconciliação de exigências contraditórias. Embora este seja o ponto de vista também defendido neste trabalho, considera-se que o equilíbrio instável entre valores contrastantes revela um desvio
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Não se trata do mesmo. Gestão da cultura implica uma concepção de cultura gerível, manipulável; enquanto gestão pela cultura pressupõe adaptação pro- activa e criativa à cultura ou culturas.
constante determinado pela cultura societal, o qual deve ser tido em consideração no delineamento das políticas de gestão e na aplicação dos respectivos instrumentos.
Se os conceitos que surgem nos extremos do modelo da hipótese exploratória268 são fundamentalmente teóricos, já a relação que se estabelece no seu cerne entre afecto regra e eficácia, são empíricos, ou seja, estão profundamente inseridos no contexto do objecto de estudo, tanto pelo significado que assume o afecto, que vai para além de condição da comunicação (Parsons, 1982), e está intrinsecamento ligado à questão da liderança, como pela relação aparentemente paradoxal que se estabelece entre ele e a regra, transformando-se este par em base, ou ponto de partida de uma gestão eficaz e da introdução efectiva de elementos inovadores.
Na abordagem do contexto procurou-se determinar uma tipologia das empresas em África, e detectar as linhas de força fundamentais da gestão destas empresas e também da gestão das empresas portuguesas. São sobretudo os trabalhos de Phillipe D’Iribarne, Alain Henry, Jean- Pierre Warnier e Laurent Bazin que servem de base quer à proposta de tipologia, quer à determinação das linhas de força da gestão em África. No entanto, é a formulação apresentada por Mamadou Dia, de «reconciliação entre o local e o transplantado» que acaba por guiar todo o trabalho de inquirição dos dados empíricos. A análise dos dados recolhidos no terreno visa, por conseguinte, três objectivos: (1) detectar o desvio cultural, cuja estabilidade se pressupõe; (2) determinar o modelo de equilíbrio dos valores contrastantes nas empresas portuguesas em Moçambique, tendo em conta o referido desvio; (3) determinar as linhas de força que conduzem e qualificam a gestão destas empresas, através da análise dos significados atribuídos aos elementos- chave abstraídos do discurso.
Mantém-se a hipótese exploratória inicial acrescentando, no entanto, que ela poderá constituír uma variante específica da hipótese mais vasta enunciada por Mamadou Dia, de reconciliação entre o local e o transplantado, como forma de promover a eficácia na gestão das empresas em África.
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Parte IV – O Campo
«I see the researcher as the number one research instrument. I feel a liberty to use myself and my experience as evidence»
Evert Gummeson