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5. PRIMEIRA EXPOSIÇÃO DE UMA PINTORA APRENDIZ

5.3. Das Nuances do Planeamento à Realização do Ensino

5.3.3. Pintora Minuciosa: Do Plano de Aula à sua Aplicação

O plano de aula é, sem sombra de dúvidas, o elemento mais próximo do processo de ensino, sendo influenciado, em grande parte, pela capacidade de observar e de intervir de cada docente. Isto é, o plano não passa de um conjunto de exercícios sequenciados e estruturados, que requerem uma intervenção adequada por parte dos professores, para que se possa verificar uma evolução nos alunos. Objetivos, conteúdos, tarefas de aprendizagem, tudo é importante para aprendizagens de qualidade, mas não suficiente. O docente tem sempre um cunho pessoal, uma cor, forma ou textura que pode inserir e que pode potenciar, ou não, o desenvolvimento dos seus pupilos. A verdade é que nada é definitivo, numa aula, fruto da contingência que carateriza o ato de ensino, o plano não passa disso mesmo, de um projeto que se transforma em função do momento concreto. Um simples acontecimento pode alterar o planeado, pelo que o plano de aula não deve ser mais do que um guião para o docente.

No início, sentia que o plano era o mais importante e que devia ser seguido com o máximo de rigor, sem qualquer alteração e com o maior nível de exigência possível, era como se não conseguisse desligar do mundo da perfeição que na minha cabeça existia (Excerto dia 24 de setembro). Atualmente, sinto-me uma pessoa diferente, que reconhece os verdadeiros dilemas da profissão e que não se cinge a um simples papel, a um mero plano, mas que veste a camisola do que é ser professor e que procura transportar os alunos para um outro local, responsabilizando-os pelo processo (Excerto dia 21 de maio).

‘’Sinto que a minha insegurança não me permite relaxar por um único momento.’’ / Espinho, 24 de setembro de 2018 ‘’Todos são capazes de aprender, desde que o professor seja capaz de os transportar para o seu lado, colocando-os no centro do processo. O mundo do ensino e do saber só depende daqueles que o praticam: os docentes.’’ / Espinho, 21 de maio de 2019

Um dos aspetos que considero importante mencionar foi a diferença sentida ao nível da lecionação e do planeamento nos vários ciclos de ensino. Cada turma requer um método distinto para ser capaz de se organizar melhor, tendo-se destacado o 2º ano das restantes turmas que lecionei, pela sua elevada energia e euforia em todas as sessões.

‘’Este dia ficou marcado pela música, pela dança e pela energia contagiante dos alunos do 1º Ciclo. Estes pequenos pintainhos, como eu lhes costumo chamar, transbordam felicidade e alegria, do princípio ao final da aula.’’ / Espinho, 28 de fevereiro de 2019

Procuramos, enquanto NE, manter a mesma estrutura em todas as sessões, por estações, para facilitar os momentos de instrução e de gestão de tempo de aula. De facto, as rotinas, inclusive de planeamento, neste nível de ensino, tornaram-se um ponto marcante e potenciador de aprendizagens, sem as quais o processo ficaria condicionado.

‘’Os alunos já adquiriram todas as rotinas da sessão, facilitando, em grande parte, o meu papel. Permite-me estar mais concentrada nos discentes e nas suas dificuldades, concentrando-me que me centre na tarefa principal da aula: a aprendizagem dos alunos.’’ / Espinho, 14 de novembro de 2019

Além disso, face ao espaço disponível, o planeamento de cada aula teve de ser bastante ponderado, na procura de antecipar modos de evitar tempos de espera e exercícios que permitissem trocas rápidas, para que os alunos tivessem um tempo de empenhamento motor elevado. Tal como enunciam Jr e Filgueiras (2009), os espaços escolares podem ser meios de aprendizagem e, como tal, devem ser projetados e adaptados para que tal possa suceder. Esta situação não se deve verificar apenas no 2º ano, mas também nos restantes níveis de ensino. Todo e qualquer docente deve reconhecer o espaço onde a sua aula decorrerá, planeando-a de forma a não colocar em causa a integridade física dos alunos, com exercícios adaptados ao espaço disponível, de modo a potenciar as possibilidades de aprendizagem dos alunos. Deste modo, importa

que o plano de aula antecipe possíveis situações indesejadas e preveja alternativas que possibilitem o bom desenrolar da sessão.

‘’É necessário escolher de forma cuidada os exercícios, ajustar o número de alunos envolvido e ainda o grau de dificuldade. Tudo aquilo que realizamos terá influência na vida destes jovens, a forma como fazemos as equipas, se homogéneas ou heterogéneas, se os deixamos escolher ou não... Assim, é fácil perceber que o planeamento terá um papel fulcral para evitarmos, ao máximo, situações inesperadas.’’ / Espinho, 10 de setembro de 2018

Não tenho qualquer dúvida de que a gestão é um elemento fulcral para o bom desenrolar das sessões, sobretudo ao nível do controlo da indisciplina e dos comportamentos inapropriados. O melhor exemplo desta situação foi com a turma do 6º4, que suscitou elevadas dificuldades no controlo dos seus 30 alunos, em espaços reduzidos, com todas as conversas paralelas e faltas de atenção, caraterísticas dos discentes em questão. Procurei utilizar várias metodologias distintas para combater e ultrapassar esta adversidade, mas nada parecia resultar. A melhor opção foi, sem qualquer dúvida, a divisão da turma em dois grupos distintos, estando cada um deles com uma das EE.

‘’A verdade é que uma das dificuldades sentidas durante toda a sessão foi neste campo de gestão e de organização do espaço, em função do elevado número de estudantes presentes, mas que será combatida na próxima semana, através da divisão em dois grupos de trabalho. Enquanto uns efetuam treino funcional, os restantes estarão a realizar várias situações de competição 1x1, colocando os resultados obtidos numa cartolina, por nós efetuada. Esta estratégia possibilitará mais espaço de jogo, facilitando e propiciando uma melhor prestação de todos. O essencial não pode, em momento algum, ser esquecido: a aprendizagem. Não existem dúvidas que, turmas reduzidas permitem maior tempo efetivo de aprendizagem, maior e melhor participação, um ensino mais individualizado, maior inclusão, incremento da autoestima, desenvolvimento cognitivo... Como tal, é fulcral encontrar estratégias que

permitam lidar com todos os alunos, neste contexto tão único, não descurando o processo de ensino e indo de encontro às suas necessidades.’’ / Espinho, 13 de março de 2019

Contudo, esta opção só foi possível aplicar pela presença de duas estudantes no NE, trabalhando de forma colaborativa na lecionação das aulas da respetiva turma. De acordo com Vale e Mouraz (2014), esta estratégia é denominada de monodocência coadjuvada, já que um docente lidera o processo de ensino-aprendizagem e o outro se limita a ‘’ajudar’’, em todos os aspetos que forem necessários. Tendo em conta o atual número mínimo e máximo de alunos por turma, que varia entre 26 e 30 alunos, considero que esta é uma ótima solução para melhorar, indiscutivelmente, as aprendizagens dos envolvidos. No meu entender, permite uma abordagem com maior proximidade entre professor- aluno e um número de feedbacks superior. Acrescente-se que os dois professores, presentes na sala de aula, poderiam estar a abordar os mesmos conteúdos ou outros, completamente distintos, em espaços contíguos, algo que se verificou junto da turma das várias turmas à responsabilidade do NE.

Importa perceber que todos estes benefícios caem por terra se os professores não tiverem boas práticas docentes. As vantagens são inúmeras, mas a qualidade do ensino é essencial para as atingir. Os docentes devem ter formação adequada, ser qualificados e procurar, em todos os momentos, estratégias e práticas pertinentes para todos e cada um dos seus alunos, considerando as suas necessidades e capacidades, bem como o contexto em que estão inseridos. Vale e Mouraz (2014) indicam que a qualidade desta coadjuvação depende sempre da maior ou menor adesão dos professores ao trabalho colaborativo, algo que funcionou na perfeição neste núcleo de estágio, que partilhou, continuamente, as cores do saber para evoluir.

A verdade é que desde cedo me apercebi que, neste ano de EP, seria fulcral o trabalho de equipa, dentro do núcleo NE (excerto dia 13 de setembro), tendo culminado em momentos de prática coadjuvada até ao final do ano letivo (excerto dia 29 de março), algo único e de valorizar para todos os envolvidos.

‘’Acima de tudo, neste ano de mudança e de aprendizagem, o trabalho colaborativo será algo fulcral para o desenvolvimento de todos, em múltiplos aspetos.’’ / Espinho, dia 13 de setembro de 2019 ‘’Uma das situações que tem vindo a ser mais recorrente é o trabalho colaborativo com a minha colega de núcleo, a Catarina, funcionando de forma integrada na lecionação das várias sessões do 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico.’’ / Espinho, dia 29 de março de 2019

Voltando ao planeamento de cada aula propriamente dito, considero deveras importante mencionar ainda que as sessões nunca chegam a ter a sua totalidade de tempo útil, face à utilização dos minutos iniciais para equipar e dos finais em prol da promoção de hábitos de vida saudáveis, como a troca de roupa ou o banho. Como tal, as alterações efetuadas em cada um dos níveis são naturais, procurando maximizar o tempo disponível para a prática. É essencial, tal como supracitado, que o professor ajuste os exercícios para que o tempo de empenhamento motor seja elevado (excerto dia 26 de setembro). Contudo, tal como advoga Mesquita (2014), nem sempre mais tempo de aprendizagem significa uma melhor aprendizagem, é o docente que deve desempenhar esse papel (excerto dia 9 de outubro).

‘’Acrescente-se que os exercícios devem potenciar o maior tempo de empenhamento motor possível, possibilitando o tempo potencial de aprendizagem e um ensino de qualidade. Se tivermos, em metade de um campo de basquetebol, um jogo de 6x6, nem todos jogarão, tal como sucedeu. Além disso, as tarefas devem ser adaptadas em caso de necessidade, incluindo um joker ou apoios e, em momento algum, deixar alunos de fora da prática. ‘’ / Espinho, 26 de setembro de 2018 ‘’Cabe-me a mim, docente, possibilitar a melhor aprendizagem possível, dando o melhor do mim, transcendendo-me.’’ / Espinho, 9 de outubro de 2019

Os professores devem manter a sua atenção no essencial: os alunos e as suas aprendizagens. Nada mais importa. Um exemplo prático desta situação

foram as melhorias notórias sempre que foi utilizado o AfL, colocando os alunos no centro do processo, responsáveis pela sua evolução, de acordo com os objetivos e com os critérios definidos. Esta foi uma das estratégias utilizadas com a turma do 11º ano e que, no meu entender, deveria ser utilizada em todos os níveis de ensino, mas sobretudo no secundário. O planeamento destas sessões baseou-se na definição dos objetivos para cada uma delas, dando asas, orientadas, para os alunos tomarem as suas próprias decisões quanto ao tempo a utilizar para cada tarefa. O bom desenrolar do processo dependia, em grande parte, do empenho e da dedicação dos alunos, que, tal como é possível observar no excerto que se segue, permitiram que o mesmo decorresse na perfeição.

‘’A prova desta sua verdadeira entrega ao processo é simples de exemplificar através do tempo utilizado face ao previsto para cada tarefa. Estava planeado começarem apenas às 11h05 a construção dos vários esquemas, mas acabaram por os iniciar às 10h58, demonstrando a sua vontade de ir mais além. Enquanto docente, nem sequer tive necessidade de gerir a troca entre tarefas, os discentes sabiam quais eram os objetivos para a sessão e efetuaram, autonomamente, a transição das tarefas de pares, para trios e, consequentemente, para a elaboração do mini esquema gímnico.’’ / Espinho, 1 de março de 2019

Contudo, considero importante destacar que, na aplicação prática do plano de aula e na lecionação da respetiva sessão, são muitos os docentes que priorizam a socialização com o intuito de manter a confiança dos alunos, já que a disciplina não requer rendimento. Isto é, tal como advoga Graça (2014b), a preocupação de determinados professores é mais direcionada para a gestão do que para a instrução, deixando os alunos contentes e diminuindo o número de problemas existentes no contexto de sala de aula. Todavia, quais serão as aprendizagens obtidas em função desta perspetiva do que é o ensino, a educação e a EF? Será este o caminho para a construção de um aluno que

cumpre o perfil à saída da escolaridade3? Será esta a postura adequada para um professor que lida, diariamente, com os futuros cidadãos da sociedade atual? Deverá ser o planeamento efetuado neste sentido? Deverei eu, enquanto elemento formador da sociedade em que me insiro, enveredar por esta postura? Não me identifico, de todo, com esta atitude no mundo do ensino. Eu vim para ficar neste mundo vivo e constituído por pessoas, devendo contribuir para que o mesmo seja o melhor possível, planeando e lecionando com consciência e com rigor.

De acordo com Jr e Filgueiras (2009), a maior complexidade e riqueza ao nível da gestão da aula de EF é a capacidade de observação, reflexão e flexibilidade que o docente deve possuir, testando múltiplas estratégias durante os primeiros anos na profissão. Neste sentido, depois de tantas tentativas falhadas durantes este EP, posso dizer que o plano de aula e as preocupações que me assaltaram ao longo do estágio foram, gradualmente, sendo ultrapassadas. Confesso que não foi fácil, mas a evolução foi constante evolução, tanto de período para período, como de unidade para unidade.

‘’... é necessário escolher de forma cuidada os exercícios, ajustar o número de alunos envolvido e o grau de dificuldade. Tudo o que realizamos terá influência na vida destes jovens, a forma como fazemos as equipas, se homogéneas ou heterogéneas, se os deixamos escolher ou não... Assim, é fácil perceber que o planeamento terá um papel fulcral para evitarmos situações inesperadas. Tudo importa quando pretendemos atingir um determinado objetivo. Temos de conciliar a parte motora, a parte cognitiva, os materiais, os espaços, o perfil dos alunos. Nada pode ficar ao acaso.’’ / Espinho, 10 de setembro de 2018

De facto, o planeamento da sessão é imprescindível, permitindo um processo de ensino articulado e organizado, de acordo com as necessidades da turma. No entanto, mais do que efetuar um plano de aula com rigor e com os respetivos ‘’Planos B e C’’ para que a sua aplicação seja potenciadora de

3 In Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, Ministério da Educação (Martins et al., 2017).

aprendizagens, é essencial que o docente se mantenha flexível e atento às mais variadas situações inesperadas que possam surgir, no decorrer da sessão, pois como é sabido o ensino é contingencial e imprevisível.

As adaptações constantes fazem parte do que é ser professor, sobretudo na disciplina de Educação Física, devendo ser o docente capaz de se ajustar e de contornar as distintas adversidades com que se depara (excerto dia 3 de maio). Tal como menciona Bento (2014), o ensino é um palco de constantes tomadas de decisões imediatas, muitas delas nem sequer chegam a ser anteriormente pensadas. Este foi um verdadeiro desafio que tive de ser capaz de, continuamente, superar para elevar o meu desenvolvimento profissional e aprendizagem. No início do ano letivo não me sentia preparada para as mais variadas adversidades que surgiram (excerto dia 19 de março). Todavia, neste momento final de EP, sinto que o sucesso foi alcançado e que me possibilita, num futuro próximo, continuar a colorir as cores dos estudantes, lidando com todos os imprevistos e imprevisibilidades da docência (excerto dia 14 de maio).

‘’Ser professor é mesmo isto. É adaptar. É ajustar. É ir de encontro às necessidades dos estudantes em todo e qualquer momento. Sem esta mudança e adaptação, a aula teria ‘’apenas corrido’’, colocando em causa as aprendizagens destes jovens aprendizes.’’ / Espinho, 3 de maio de 2019 ‘’No início do ano letivo, alterar um plano de aula e/ou um momento de avaliação era, para mim, algo aterrorizador.’’ / Espinho, 19 de março de 2019

‘’Penso que esta competência, não só durante este ano letivo como também pela prática enquanto treinadora, se tem vindo a desenvolver e sinto-me, atualmente, capaz de ultrapassar as contrariedades que possam surgir antes ou durante o processo de ensino-aprendizagem.’’ / Espinho, 14 de maio de 2019