2 POLÍCIA: INSTITUCIONALIZAÇÃO E ESTUDOS ANTECEDENTES
2.2 Polícia Militar do Rio Grande do Norte: origem e contexto atual
No Rio Grande do Norte, a força de segurança pública, com a denominação de Corpo Policial da Província, foi criada em 27 de junho de 1834, com um efetivo inicial de 50 (cinquenta) Praças, que segundo o seu propositor, o Presidente da Província, João José Ferreira Aguiar, deveria ser de 60 (sessenta) militares, em face das questões sociais locais, que ficavam a cargo das tropas da Província de Pernambuco e, também, das Guardas Nacionais, contudo, em função de demandas orçamentárias isso não se configurou (WANDERLEY, 1969, p. 3-4); (CASCUDO, 2010, p. 426).
O período de institucionalização, bem como as características de tropas de segunda linha, em relação às forças militares do Império e as funções a que se destinavam, em especial, o controle revoltas e a recaptura de escravos são, bastante, análogas em muitas províncias, pois a maioria dos Corpos Policiais do Brasil foram criadas em meados do século XIX, seguindo basicamente a mesma estrutura organizacional (DANTAS, 2009).
Curiosamente, até os anos 2010, o dia de criação da PMRN foi comemorada aos 4 de novembro de 1836. Após pesquisas realizadas por Dantas (2009), oficialmente, esta data foi considerada como a da reorganização da instituição policial-militar potiguar e a do ano de 1934 a da criação36.
O contexto histórico no qual uma instituição surge, representa, certamente, muito de suas características. Nesse sentido, as principais participações da PMRN fora em favor da defesa do Estado e não da segurança pública, ratificando, assim, como ocorreu a institucionalização da Polícia Militar no país. Onde quer que estivesse instalado algum levante ou indício de acontecê-lo, os corpos policiais da época era convocados.
Recebendo várias denominações até, efetivamente, tornar-se Polícia Militar do Rio Grande do Norte, em 1947, foi identificada como Corpo de Polícia da Província, Corpo Policial do Rio Grande do Norte, Companhia de Polícia, Meia Companhia de Polícia, Corpo Militar de Segurança, Batalhão de Segurança37; Batalhão da Polícia Militar, Regimento Policial Militar e Força Pública Militar38.
O então Corpo Policial, na segunda metade do século XIX, atuou na Guerra do Paraguai e, em território nacional, auxiliou as forças federais contra o povoado de Antônio Conselheiro, na intitulada “Guerra de Canudos”.
Na mesma perspectiva de defesa da soberania nacional, em 1925, o Batalhão de Segurança, também, atuou contra a Coluna Prestes, no Maranhão, e contra a Revolução Constitucionalista, em 1932, em São Paulo (DANTAS, 2009).
Uma das participações mais controversas da PMRN em movimentos sociais foi a que ocorreu na Intentona Comunista, em 1935, pois é dela que surge seu principal mártir, o Soldado Luiz Gonzaga, que segundo os registros oficiais, resistiu, bravamente, quando um grupo de comunista tenta tomar a então sede do Comando Geral da Polícia, o Quartel da Salgadeira, atual Casa do Estudante, em 23 de novembro daquele ano, tendo o movimento durado até o dia 27, inclusive criando um governo comunista em Natal, quando foram destituídos
36 De acordo com o Decreto Estadual Nº 21.705, de 21 de junho de 2010. Disponível em: http://adcon.rn.gov.br/ACERVO/gac/DOC/DOC000000000063984.PDF. Acesso em 08 Ago 2017.
37 Este, também, é o nome do primeiro livro escrito, oficialmente, acerca da História da PMRN (WANDERLEY, 1969)
38 Dados disponíveis no site oficial da PMRN em:
http://www.pm.rn.gov.br/Conteudo.asp?TRAN=ITEM&TARG=2400&ACT=null&PAGE=0& PARM=null&LBL=Hist%C3%B3ria. Acesso: 24 jul 2015.
Este episódio fora registrado em diversas imagens, em especial, na emblemática fotografia do Batalhão Policial Militar, o “Quartel da Salgadeira” (Figura 1), com várias marcas de tiros na fachada principal, que dá conta de um intenso tiroteio, no qual o Soldado Luiz Gonzaga, juntamente com quarenta e seis outros policiais militares, entraram para história potiguar e, também, nacional, como defensores do ideal nacionalista contra o regime comunista que tentava se instaurar no país (MEDEIROS FILHO, 1980, p.26-7).
Figura 1 – Quartel da Salgadeira após a Intentona Comunista (1935)
Fonte: Silva (2017, p. 52)
De acordo com Furtado (1976), Costa (1991); e Silva (2017) há controvérsias acerca de como de fato o evento tenha ocorrido, inclusive, este último autor, buscando registros em fontes primárias em documentos oficiais na PMRN, não conseguiu encontrar evidências que possam fornecer subsídios da fidedignidade do registro que fora feito, oficialmente.
Acerca da participação de Soldado Luiz Gonzaga na Intentona Comunista há duas versões. A corrente defendida por Medeiros Filho (1980), que era Chefe de Polícia de Natal, à época, que inclusive foi preso pelos membros da Intentona no Quartel 21º BC, juntamente com outras autoridades, este autor se reporta à sua obra “Meu depoimento”, de 1937, na qual defende que o Soldado Luiz Gonzaga deve ser considerado como um herói, um bravo que morreu em combate, pois
Era ele um dos municiadores da metralhadora a cargo do Tenente Pedro Vicente. Seu comportamento nessa função chamou tanto a atenção dos presentes, que o Coronel Pinto Soares, Comandante do 21º BC, reunindo as forças da Polícia Militar, disse: “Esse rapaz é valente, mas muito desbocado”. É que Luiz Gonzaga, toda vez que a metralhadora disparava, gritava para o inimigo, chamando-o de “galinha verde”, de “filho dessa e filho daquela” (MEDEIROS FILHO, 1980, p.51).
Por outro lado, a versão defendida por Furtado (1976) é que, de fato, Luiz Gonzaga não era policial militar e que fora alistado no Batalhão Policial, após a Intentona, sobretudo buscando menosprezar aquele movimento social, que estes autor denomina de revolucionário.
Segundo Furtado (1971, p. 128-9), os fatos teriam ocorrido de outra maneira, os quais foram contados por um membro da Intentona Comunista, que segundo o autor, são corroborados por outras pessoas que teriam testemunhado os acontecimentos no dia 23 de novembro de 1935:
Sizenando Filgueira e Ramiro Magalhães, o primeiro ainda hoje vivo, me relataram que, após haver a Polícia Militar cessado fogo, eles, armados como estavam, desceram uma das ladeiras que conduzem ao quartel e, precavidamente de longe, estavam observando se havia nele algum movimento, quando, num capinzal próximo dele, avistaram o paisano “Doidinho”, parece que, em sua insanidade, brincando com um fuzil e ao avistá-los na esquina ainda bem distante, fez menção de atirar sendo então alvejado por Sizenando que relata um pormenor: “Doidinho” ao ser atingido, deu um grande pulo para cima e caiu, estirado no capim e o fuzil que empunhava também caiu para um lado (FURTADO, 1976, p. 128).
De acordo com Furtado a pessoa de Luiz Gonzaga, conhecida como “Doidinho”, alcunha, também, corroborada por Medeiros Filho (1980, p. 50), de fato estava presente no momento do corrido, “entretanto, o major Luiz Júlio resolveu “alistar” depois de morto Luiz Gonzaga, por alcunha “Doidinho”, como soldado da Polícia que, assim, teve na morte um herói” (FURTADO, 1976, p. 50).
Conforme a pesquisa realizada por Silva (2017) não foi possível encontrar fontes primárias nos registros oficiais da PMRN, do alistamento de Luiz Gonzaga, sendo tal assentamento encontrado, apenas, em Medeiros Filho (1980), que traz
como anexo a transcrição, segundo este autor, do Boletim Regimental Nº 3 da PM, que registrou o alistamento do Soldado Luiz Gonzaga e mais oito civis e um reservista, sendo “Doidinho” o último da lista, conforme a seguir:
Comando do Batalhão Policial Militar do Estado do Rio Grande do Norte em Natal, 31 de outubro de 1935. [...] XV – Ainda Alistamentos De acordo com o art. 4º do Regulamento em vigor, nesta data, alistaram-se para servir neste Btl. os civis e reservista abaixo: [...] Civil – Luiz Gonzaga, filho de Manoel Gonzaga, nasceu em 1917, natural de Sant’Anna do Mattos, solteiro, côr morena, cabellos castanhos, olhos castanhos, nariz afilado, boca regular, imberbe, rosto oval, analphabeto, vaccinado, sem sinaes particulares, sem officio, não sabe nadar, com 1 m. e 55 cts de altura, o qual fica agg. á Cia. de Mtrs, com o nº 1075. (sic.) (MEDEIROS FILHO, 1980, p.73-5)
Contemporaneamente, com um efetivo previsto de 10.276 policiais, militares, em 2004, a PMRN contava em seus quadros com 8.222 integrantes. No entanto, quando o efetivo é especificado por cargos, difere, totalmente, do primeiro quantitativo, apresentando, pois apenas 7.547 policiais militares estavam disponíveis para a atividade fim, ou seja, o policiamento ostensivo. Os demais estavam de acordo com o referido censo estavam inseridos em questões administrativas, licenças e afastamentos diversos (FNSP, 2007, p. 24-8).
De acordo com Borges e Silva (2017) constata-se uma ausência, praticamente regular, ao longo de quase duas décadas de uma política de ingresso na PMRN. Segundo este estudo, a partir de dados estatísticos do IBGE a população norte-rio-grandense aumentou, de 2 milhões e setecentos mil para 3.500 milhões de habitantes e, que nesse mesmo período, o efetivo policial-militar que tinha 6.469, chegando a ter 9.780, no ano de 2010.
Atualmente, de acordo com o último levantamento institucional, a corporação conta apenas com 8.330 policiais militares para realização do policiamento ostensivo, constatando-se, a partir do estudo desses autores, um déficit superior a 5 mil policiais, conforme o Quadro 3, abaixo:
Quadro 03 – Inclusão/desligamento da PMRN versus população no RN
ANO Incluídos Excluídos Efetivo População RN Policial/1.000Habitante
2000 1.098 171 6.469 2.776.782 2,8 2001 991 248 - - - 2002 140 - - - 2003 25 156 - - - 2004 679 143 - - - 2005 191 - - - 2006 886 196 - - - 2007 39 210 - - - 2008 03 212 - - - 2009 776 222 - - - 2010 904 201 9.780 3.168.027 3,1 2011 17 242 - - - 2012 05 264 - - - 2013 330 - - - 2014 01 289 - - - 2015 01 247 - - - 2016 313 8.330 3.474.998 2,4 TOTAL 5.425 3.775 - - - Fonte: Borges; Silva (2017, p. 74-5)
Do total dos integrantes da corporação, os policiais militares que participaram da pesquisa, os vinte e três Cabos e os trinta e quatro Segundos- Sargentos representam, respectivamente, o percentual de 0.58% e 7.92, conforme efetivo de Praças, que estão representados em números absolutos no Quadro 4.
Quadro 04 – Quantitativo e idade da tropa de Praças da PMRN, em 2017
Soldados Cabos 3º Sargento 2º Sargento 1º Sargento Subtenente
Idade Quanti
dade Idade Quantidade Idade Quantidade Idade Quantidade Idade Quantidade Idade Quantidade
20-30 126 20-30 36 20-30 1 20-30 0 20-30 0 20-30 0 31-40 1.766 31-40 2.096 31-40 225 31-40 72 31-40 9 31-40 0 41-45 150 41-45 1.261 41-45 218 41-45 111 41-45 131 41-45 34 46-50 19 46-50 554 46-50 170 46-50 200 46-50 239 46-50 145 51-55 4 51-55 21 51-55 59 51-55 46 51-55 33 51-55 28 56-60 0 56-60 0 56-60 0 56-60 0 56-60 0 56-60 1
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