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O processo de tomada de decisão que diz respeito às atividades de risco

CAPÍTULO II – O LICENCIAMENTO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE

1.2 O processo de tomada de decisão que diz respeito às atividades de risco

A intensificação de riscos na atualidade decorre, em grande parte, do mau uso do conhecimento científico feito pelo poder público, que o manipula a fim de que ele expresse exatamente os interesses econômicos de grandes empresas ou os interesses da classe política. Portanto, o complexo processo de tomada de decisões que implicam riscos ambientais envolve não apenas aspectos técnicos, mas principalmente aspectos éticos em relação à responsabilidade social de cientistas, de especialistas em riscos e das instituições políticas e sociais que dele participam.

Em outras palavras, as decisões sobre a implementação ou não de projetos que acarretam riscos ambientais são decisões fundamentalmente políticas que podem trazer à tona a existência de opiniões científicas divergentes sobre um mesmo projeto e a manipulação ou ocultação das informações. Por isso, na sociedade de risco, argumentos técnicos não podem ser considerados suficientes para justificar decisões potencialmente danosas ao meio ambiente.

De fato, a credibilidade e os limites da perícia científica no processo decisório político-administrativo, no que respeita à proteção da saúde e do meio ambiente, são questões centrais da atualidade em razão da proliferação dos riscos sócio-ambientais111.

As decisões sobre a concessão de licenças ambientais podem envolver, por um lado, danos potenciais ao meio ambiente e, por outro, vantagens econômicas e sociais. Nesse contexto, as questões éticas relativas às partes que integram o processo de decisão se referem ao fato dos benefícios do empreendimento estarem restritos a indivíduos determinados, e os riscos ambientais incidirem sobre toda a coletividade.

Segundo Adelaide Cássia Nardocci, o processo de tomada de decisões implica:

111 MORAND – DEVILLER, Jacqueline. O sistema pericial – Perícia científica e gestão do meio ambiente. In:

(a) a insuficiência das metodologias científicas de avaliação, que não consideram dados subjetivos e incertezas; (b) a distribuição social dos riscos e benefícios; (c) a legitimação científica, ideológica e social dos métodos de avaliação e gerenciamento; (d) a voluntariedade dos riscos, ou seja, a sua aceitação voluntária por parte da população112.

a) Os especialistas de áreas técnicas consideram a avaliação de riscos apenas do ponto de vista objetivo, ou seja, para eles, são riscos apenas aqueles estimados a partir de cálculos estatísticos e metodologias quantitativas. No entanto, as avaliações de risco carregam incertezas que impõem aos cientistas julgamentos e escolhas que são essencialmente políticos. A avaliação é importante, pois representa o melhor conhecimento técnico e científico de que se dispõe sobre a questão em estudo, apesar das incertezas que carrega. Porém, pelo próprio fato – cientificamente irrefutável – de haver incertezas, a conclusão científica apresentada não pode ser tomada de imediato como absoluta e determinante de decisões.

Nesse sentido, pode-se dizer que os riscos desafiam o paradigma da ciência moderna, pois, primeiramente, requerem um enfoque interdisciplinar para serem compreendidos (e a ciência moderna se pautou na especialização). Em segundo lugar, diante deles nenhuma forma específica de conhecimento é privilegiada. O conhecimento técnico é importante, mas a amplitude do risco, que leva à sua aceitabilidade, ou não, depende da percepção social e cultural que se tem sobre ele. Por isso, o risco impõe a ruptura do monopólio da racionalidade científica e a adoção de novos processos de decisão que levem em conta a percepção da sociedade sobre a definição e a valoração das atividades potencialmente causadoras de impactos ambientais.

b) O processo de tomada de decisão costuma estar relacionado com um balanço custo-benefício, ou seja, para todo risco há um benefício compensatório. A tomada de decisão sobre as medidas de controle a serem adotadas em situações de risco também depende de um cálculo que analisa seus custos em relação aos seus efeitos. Tendo em conta que o balanço entre riscos e benefícios é um critério importante na tomada de decisão, Nardocci propõe as seguintes questões: “O que são benefícios? A todo risco necessariamente corresponde um benefício, ou existe um nível acima do qual não há benefícios aceitáveis? Os riscos e os benefícios devem ser eqüitativamente distribuídos?”113.

Os benefícios são as vantagens, os proveitos ou ganhos de determinada

112 NARDOCCI, 2002, p. 65-71. 113 NARDOCCI, 2002, p. 68.

atividade. A questão que se coloca é saber se um benefício imediato compensa um risco de longo prazo, ou se um risco imediato poderá ser compensado com benefícios de longo prazo; ou, ainda, se benefícios individuais compensam riscos sociais e vice-versa. Essas questões não envolvem apenas aspectos técnicos; ao contrário, envolvem essencialmente aspectos éticos. Atualmente, os riscos e custos são sempre socializados, enquanto os maiores benefícios de atividades potencialmente danosas são privados. As pessoas que estão expostas aos níveis mais altos de risco não são, em geral, as que recebem os maiores benefícios.

c) Em razão do exposto, a utilização de métodos científicos de avaliação e gerenciamento não é suficiente para a legitimação social dos processos de tomada de decisão que acarretam riscos. O fato de se estar exposto a um risco calculado não significa que ele é aceitável, que não pode ser reduzido e que a distribuição dos riscos e benefícios está adequada.

d) A voluntariedade é um fator importante para a aceitabilidade de riscos e, conseqüentemente, para a legitimação deles. Ela pode se manifestar com o direito de participação dos cidadãos nas decisões que afetam as suas vidas ou valores cuja preservação eles consideram importante. No entanto, vale ressaltar que o direito de participação é usado, muitas vezes, com o único fim de legitimar determinadas decisões, sem que a população afetada tenha voz efetiva durante o processo de decisão.

As considerações de Adelaide Cássia Nardocci, expostas acima, sobre o processo de tomada de decisão que pode acarretar riscos para a sociedade, demonstram que, na atualidade, em razão da dimensão das ameaças ecológicas, bem como da insuficiência do conhecimento científico para controlá-las, os argumentos técnicos não deveriam ter uma primazia imediata em relação aos argumentos leigos. As informações técnicas são importantes, pois expressam o conhecimento disponível sobre o risco, porém, carregam dúvidas e incertezas que só podem ser aceitas ou refutadas a partir do diálogo aberto entre todos os atores interessados na decisão.