A luta pelo poder entre explorado- res e explorados, exige que ele (sobre os mesmos sustentáculos), adquira caracte- rísticas e conteúdo diferentes. No caso dos explorados há um antagonismo pois o seu poder está na continuidade dialética da revolução.
Vamos, para efeito de compreen- são, relacionar algumas características que deve ter o poder da classe explorada, para que possamos situar como ele aparece na sociedade.
1o – Elaboração de idéias e pro-
postas.
As idéias políticas da classe são mais do que intenções e vontades descritas, são revelações e propósitos que convo- cam e convencem as forças políticas e sociais a percorrerem o mesmo trajeto.
As idéias dominantes de uma épo- ca, sempre são as idéias da classe domi- nante, disse Karl Marx. Significa que, as idéias principais que circulam na socie- dade, são as idéias de quem detém o po- der do capital, do Estado e controla as relações sociais.
Estas idéias estão nos livros, nos meios de comunicação, nas escolas, nas religiões, nos princípios, na ética, na mo- ral, nos valores e também nas conversas cotidianas. É através delas que circulam as propostas, as intenções políticas e as decisões tomadas.
As idéias têm muita força na organi- zação e no controle político da sociedade; quem produz idéias comanda as reflexões coletivas e, através delas estabelece o con- senso e a consciência coletiva.
É bem verdade que as idéias não surgem do nada. São as ações que aju- dam a produzi-las. Por esta razão é que uma revolução é fruto da prática de idéi- as e da reflexão sobre a mesma evitar erros e desvios.
A classe explorada precisa produzir as suas próprias idéias. Elas representam o conteúdo da luta de classes que ajuda a organizar as formas para derrotar os ini- migos. Sem idéias próprias a luta pelo poder não tem juízo.
2o – A organização política dos
explorados.
As pessoas se organizam na socie- dade de acordo com seus interesses, mas também coordenadas por interesses alhei- os. Há momentos em que vemos peões de fazendas, empregados e demais tra- balhadores da agricultura comercial, par- ticipando das mobilizações dos fazendei- ros e latifundiários. Isto significa que, embora os interesses não sejam seus pro- priamente, mas foram convencidos a lu- tarem por seus patrões. Assumiram a po- sição de classe de seus dominadores. As- sim ocorre com o voto que leva ao go- verno políticos profissionais que, que embora oriundos da classe trabalhadora, eleitos, assumem a posição de classe dos exploradores..
Há infinitas formas de organização da sociedade, mas na sua grande maio- ria, todas elas subordinadas às leis estabelecidas. Os movimentos sociais são os que mais livremente atuam porque não estão presos às limitações legais e, por estarem apegados a coisas concretas e visíveis, facilmente distinguem quem são aliados e inimigos. Mas como vimos an- teriormente, pouco pode ajudar a luta se não temos claro quem devemos derrotar para construir outro poder com novas relações sociais e de produção.
A classe dominante sabe como é importante a organização política, por isso sempre que pode procura impedir a or- ganização dos trabalhadores. Embora na atualidade os partidos políticos estejam desmoralizados, não significa que esta mesma classe esteja desarticulada. Ela mantém as estruturas políticas e jurídi-
cas muito bem controladas.
Quem se organiza tem poder. Quan- to mais gente mobilizada, mais força tem para alcançar as mudanças. Por isso de- vemos utilizar todas as formas de organi- zação, sejam elas através de categorias, por território ou por necessidades espe- cíficas.
3o – A colocação das forças Poder também é saber colocar as forças para agirem na sociedade. A clas- se dominante coloca suas forças na es- trutura do Estado, como, as polícias, as forças armadas, os meios de comunica- ção, os políticos etc. e na sociedade civil, através de associações, sindicatos, Orga- nizações Não Governamentais ( ONGs) e tantas outras, para enraizar o poder na sociedade civil.
No meio popular há infinitas formas de colocação das forças, mas nem sem- pre estão voltadas para enfrentar as for- ças dominantes de forma articulada. O grande desafio atual é organizar as for- ças sociais para extrair delas a força diri- gente que deverá orientar a construção do poder. Esta força pode ser de uma classe ou um ajuntamento de militantes conscientes e comprometidos com a re- volução.
É na colocação correta das forças que saberemos quais são as tarefas que cada qual tem a cumprir. Os capitalistas sabem muito bem quais são as tarefas dos banqueiros, dos latifundiários, dos meios de comunicação, da polícia, dos políticos e das empresas. Ao organizar a luta pelo poder, precisamos estabelecer quais são as tarefas cotidianas de todas
as forças populares e políticas da revolu- ção brasileira.
Quem tem maior capacidade de co- locar as forças leva vantagem na disputa pelo poder.
A classe dominante coloca as suas forças para produzir produtos de exporta- ção, nós precisamos organizar as nossas forças para produzir alimentos. Eles im- põe a tecnologia que modifica as semen- tes; nós precisamos defender as sementes e desenvolver a agricultura orgânica. Eles impõe o que devemos consumir, nós de- vemos protestar e não comprar. E assim são colocadas as forças para disputar o poder tanto no campo quanto na cidade.
4o – Controle da ordem pública. Os capitalistas se apegam a ordem de direito. Significa que eles elaboram as leis para proteger os seus interesses e de- pois usam a força para garantir que as leis sejam respeitadas.
A desobediência civil é uma forma que a sociedade tem para se defender das imposições feitas pelos governantes e pela classe dominante. Na luta contra a or- dem os explorados edificam a sua ordem. Há três aspectos que afirmam a or- dem capitalista:
a) Direito de propriedade.
A classe dominante só é domi- nante porque a ela é garantida o direito de ter a propriedade pri- vada sobre os meios de produ- ção. No dia em que ela perder esta condição, perderá também o poder político e jurídico. Por isso é que, qualquer ameaça con-
tra a propriedade é considerada crime. Em qualquer situação e nível da luta de classes, a demo- cratização da propriedade priva- da deve ser o alvo principal.
b) As leis
O conjunto das leis elaboradas é que garantem a ordem capitalis- ta. Quando falha uma lei, logo é elaborada outra. Assim estrutu- ra-se o poder jurídico. A conse- qüência para quem não respeita a lei, é a punição.
Devido ao dinamismo das lutas sociais, parte das leis rapidamente se tornam ineficientes, então a burguesia precisa manter um grupo, selecionado no parlamen- to, permanentemente para fazer leis contra aqueles que lutam para mudar a ordem.
c) A Moral
A moral também é constituída de normas que estão em acordo com os dois primeiros elemen- tos. Ela induz para se respeitar à propriedade: “Não cobiçar as coisas alheias”. É claro que as “coisas” são as propriedades que cada capitalista pode ter quantas quiser.
Pela moral, a propriedade se tor- na intocável com a concordân- cia pacífica daqueles que não a tem.
A luta social e política devem ir estabelecendo uma nova moral que ajudem a sociedade ser ver-
dadeiramente livre. Através dis- so edifica-se também uma nova cultura, eliminando dela todos os preconceitos e discriminações entre os explorados.
5o- A cultura
Os poderosos acham que existe so- mente a sua cultura. Tudo aquilo que os explorados fazem para elite não é cultu- ra, tanto assim que consideram “culto” somente quem estudou em universidades. A classe trabalhadora precisa derro- tar a cultura de dominação da classe do- minante e desenvolver uma nova cultura. A cultura dominante é um lixo do- minante. Está presa ao consumo, porque para ela tudo passa pelo mercado. Nós acreditamos que a cultura é tudo aquilo que fazemos para aperfeiçoar a vida so- cial e não para gerar lucro. Por isso pre- cisamos lançar mão de todos os recursos culturais para enfrentar e derrotar a clas- se dominante.
As relações sociais e humanas se tornam cultura, assim como o preconcei- to e a discriminação. É na organização popular e política que vamos exercitado maneiras de eliminar o lixo cultural im- posto e criando a verdadeira cultura da igualdade e da democracia participativa.
Então estas são algumas caracterís- ticas do poder. É através dela que o po- der se enraíza na vida da sociedade e mantém os privilégios de grupos minoritários.
Diante disso que vimos, resta a nós algumas tarefas imediatas que precisamos desenvolver para desencadear a luta pelo poder.