Teorias e argumentos para compreender os contextos
G ESTÃO DE D ESIGN
3.1 D E QUE TRATA A GESTÃO DE DESIGN
Para alguns autores, a gestão de design trata da gestão de projetos de design, em geral atribuída a um designer, grupo de designers ou até mesmo a uma consultoria de design para atender a necessidade de um cliente, um negócio ou mesmo uma organização. Para outros autores, a gestão de design vai além da gestão do projeto de design; estes consideram que a atuação de design tem uma abordagem mais ampla, transcendendo o âmbito do produto, dos processos, e sobretudo influenciam no conceito do próprio negócio.
Não é de estranhar a dificuldade de conceituação, pois a natureza da atividade garante à palavra design um significado de ação quanto se refere ao ato de projetar e de um nome quando identifica o resultado do projeto. Se observadas as origens da atividade, desde as transformações das corporações de ofício em manufaturas à atuação de Peter Behrens junto a Allegemeinen Elektriziatats Gesellscharft – AEG, quando atua como diretor- artístico, coordenando os projetos arquitetônicos (fábrica e habitação dos funcionários), desenhando produtos ou criando as primeiras iniciativas de identidade corporativa, é evidente a evolução do campo de atuação da atividade e em um curto espaço de tempo.
A atuação de Behrens facilitou a aproximação do design às indústrias, e outras iniciativas subsequentes marcam a consolidação do design, com ações focadas na sua promoção, exemplificada na criação em 1915 da Design and Industries Association; na formação, como a fundação em 1919 da Bauhaus, escola de design que encarou o desafio de configurar objetos para a produção em massa; e posteriormente a constituição do The Council of Industrial Design – CID, em 1944, importante iniciativa para o aumento de desenvolvimento de produtos nas indústrias britânicas, cuja repercussão
propiciou a sua transformação no reconhecido Design Council do Reino Unido.
É importante ressaltar que os exemplos pontuados estão emoldurados no contexto de uma sociedade industrial, entre guerras mundiais, e servem apenas como referência de tempo, uma vez que outras iniciativas realizadas por indivíduos ou instituições, inclusive na América, foram igualmente importantes. A título de curiosidade, citamos a série de programas
intitulados de Design in Everyday Things, produzida por Anthony Betram e divulgados pela BBC, em 1937, como um exemplo que muito contribuiu para popularizar o design na sociedade britânica em geral.
Entretanto, é somente em 1965, com a publicação de Farr (1965), que surge o entendimento de uma nova função: o gerenciamento pelo design,
impulsionada pela necessidade de assegurar uma condução eficaz dos projetos e, ao mesmo tempo, estabelecer uma boa comunicação entre o escritório de design e seus clientes, como afirma MARTINS (2008:26). A contribuição do Design Management Institute, iniciado em Boston em 1975 e transformado em associação em 1986, tem tido um papel relevante, sendo responsável, em parceria com a Harvard University, pelo primeiro projeto de pesquisa internacional sobre a gestão de design.
A trajetória da formação do conceito de gestão em design vem sendo formulada com a participação de designers, mas sobretudo de
administradores que acreditam no significativo valor do design para que empresas e instituições atinjam seus objetivos.
Peter Gorb, chefe de Departamento de Design da London Bussiness of School define a gestão do design como a “distribuição eficaz, pelos
gerentes, dos recursos de design disponíveis à empresa a fim de ajudá-la a atingir seus objetivos” (GORB, apud Mozota, 2011 pág. 92).
“na organização, a gestão do design consiste no gerenciamento de todos os aspectos do design em dois níveis distintos: o nível corporativo e o nível do projeto". Topolian acredita que “ para o desenvolvimento do
gerenciamento de design é preciso ampliar experiências e participação nos problemas de design, ampliar leques de projetos e das circunstâncias corporativas nas quais precisam ser resolvidos” (TOPOLIAN, 2003, apud BEST, 2006, pag 12) . 48
Rachel Cooper, professora do Design Management da Universidade de Lancaster, define gestão de design como
"[….] Gestão de design é uma disciplina em constante movimento, mudando, respondendo e adaptando a dinâmica crescente das transformações dos negócios e sociais. Seu valor como força de mudança e pensamento está crescendo em relevância além dos domínios
industrial e comercial, com forte presença nos setores públicos em instituições e organizações não
governamentais.” (COOPER apud Hands, 2009, pág. 10) 49
Brigitte Mozota, considerando a gestão de design sob uma perspectiva econômica, afirma que a
Tradução livre de: "within an organization, design managment consists of managing all
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aspects of design at two diferente levels: the corporate level and the project level”. Topalian acredita que “design management development needs to broaden the participant’s experience of design problems and the range of project and cooporate circunstances within which they have to be solved” (TOPOLIAN, 2003, apud Best, 2006, pág. 12)
Tradução livre de:[….] is a discipline in continual motion, changing, responding and adapting
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to ever-increasing dymanics of social and business transformation. Its value as force for changes and thinking is growing in proeminence reaching far beyond the realm of industrial and commerce, forging a strong presense within public sector institutions and non-profit organizations. COOPER apud Hands, 2009, pág. 10)
[....] gestão de design está diretamente relacionada ao processo de mudança de um modelo de administração taylorista, hierárquico, para um modelo organizacional plano e flexível, que incentiva a iniciativa individual, a independência e a tomada de riscos. (MOZOTA, 2011 pág. 91)
Mozota (2011) reforça a relação entre o conceito de design e de gestão, mesmo reconhecendo que, em regra geral, os modelos de gestão estejam mais focados no controle e planejamento, em detrimento da criatividade. No entanto, na construção de uma convergência entre os paradigmas de gestão e design, a autora afirma que “a abordagem administrativa envolve a promoção do design pela acomodação de conceitos administrativos de gestão” (MOZOTA, 2011, 103). Utilizando conceitos de qualidade total, a autora apresenta um modelo de convergência que relaciona as abordagens de gestão de design, os objetivos da gestão de design e suas aplicações na gestão da qualidade. O entendimento da relação design e gestão da
qualidade também é compartilhado com outros autores, como pode ser observado no gráfico a seguir:
! Figura 08 Gestão da qualidade e design Fonte: Adaptado de Santos, 2002 (apud Martins, 2011,p. 143)
Best (2006), considerando as diferentes possibilidades de entendimento do tema, a complexidade do contexto de atuação, bem como o papel do design na sociedade e suas responsabilidades frente a questões econômicas, sociais e ambientais, apresenta uma série de depoimentos de designers, gerentes e professores, que expõem seus pontos de vista em relação à gestão de design. De uma maneira geral, alguns depoimentos enfatizam a importância do papel de liderança e o compromisso do designer em fazer acontecer; outros ressaltam a importância dos aspectos criativos, portanto apontam a ação de líderes criativos que se preocupam com as pessoas, para atender com integridade as necessidades da sociedade. Outros, considerando que as necessidades de habilidades gerenciais são
semelhantes para o designer e o gestor de design, veem pouca distinção entre design e gestão de design. As necessidades de mudança, a
construção de visão de futuro e a inovação são aspectos essenciais na gestão de design, afirmam outros depoentes. E complementam afirmando que a gestão de design deve estar associada a posição de liderança, no contexto de um posicionamento estratégico, para que haja a
sustentabilidade e sucesso da empresa ou organização.
Muito embora existam experiências que apontam o sucesso, a gestão de design ainda é pouco utilizada, e alguns autores apontam como causa a dificuldade de comunicação entre designers e gerentes. Farr (1965), Gorb (2001) e Mozota (2011) afirmam a necessidade dos designers aprenderem a linguagem dos outros setores, como: financeiro, marketing, engenharia e produção, e, do mesmo modo, de os gerentes aprenderem a linguagem do design.
No Brasil, especificamente, o tema gestão do design ainda representa algo novo, muito embora iniciativas governamentais tenham investido na 50
elaboração e divulgação de programas que apresentam o design e a gestão do design como um fator de competitividade.
O Programa Brasileiro de Design é um exemplo, criado em 1995, para promover e
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