Quando Ronaldo Linhares efetuou os primeiros contatos com Zélio de Moraes, indagou sobre a origem do ritual umbandista e ele fez os seguintes esclarecimentos:
O rito nasceu naturalmente, como conseqüência, principalmente, da presença do índio e pela presença do elemento negro, não tanto pela presença física do negro, mas sim pela presença do Preto-Velho incorporado, e, para ser mais preciso, no mesmo dia e pela primeira vez houve a incorporação de Pai Antonio, naquela que haveria de ser a primeira Tenda de Umbanda do Brasil. A Tenda Nossa Senhora da Piedade.
Segundo relato de Zélio de Moraes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas havia avisado que subiria para dar passagem a outra entidade que desejava se manifestar. Assim se manifestou no corpo de Zélio de Moraes, o Espírito do velho ex-escravo, que parecia demonstrar sentir-se pouco à vontade frente a tanta gente e que, se recusando a permanecer na mesa em que se dera a incorporação, procurava passar despercebido, humilde, aparentando muita idade e o corpo curvado, o que dava ao jovem Zélio um aspecto estranho, quase irreal. Essa entidade parecia tão pouco à vontade, que logo despertou profundo sentimento de compaixão e de solidariedade entre os presentes. Questionado então por que não se sentava à mesa, com os demais irmãos encarnados, respondeu: “Negro num senta não, meu sinhô. Negro fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô
branco i negro deve arrespeitá”.
Era a primeira manifestação desse Espírito iluminado, mas a morte não retoca seu escolhido, mudando-o para o bem ou para o mal. Não havia afastado desse injustiçado o medo que ele tantas vezes havia sentido ante a prepotência do branco escravagista e, ante a insistência de seus interlocutores, disse: “Num carece preocupá
não, negro fica nu toco, que é lugá di negro”. Procurava, assim, demonstrar que se contentava em ocupar um
Indagado sobre seu nome, disse que era “Tonho”, “Pai Antonio”. Surgiu, assim, esta forma de chamar os Pretos-Velhos de “Pai”. Ao responder como havia sido sua morte, disse que havia ido à mata apanhar lenha, sentiu alguma coisa estranha, sentou-se e nada mais se lembrava. Sensibilizado com tanta humildade, alguém lhe perguntou respeitosamente: “Vovô; o senhor tem saudade de alguma coisa que deixou ficar aqui na terra?” Este respondeu: “Minha cachimba, negro qué pito que deixou no toco. Manda mureque buscá”.
Grande espanto tomou conta dos presentes. Era a primeira vez que algum Espírito pedia alguma coisa de material, e a surpresa foi logo substituída pelo desejo de atender ao pedido do velhinho. Mas ninguém tinha um cachimbo para ceder-lhe. Na reunião seguinte, muitos pensaram no pedido e uma porção de cachimbos, dos mais diferentes tipos, apareceu nas mãos dos freqüentadores da casa, incluindo-se alguns médiuns que haviam sido afastados de Centros Espíritas Kardecistas, justamente porque haviam permitido a incorporação de índios, pobres ou pretos como aquele e que, solidários, buscavam na nova casa, a Tenda Nossa Senhora da Piedade, a oportunidade que lhes fora negada em seus centros de origem.
A alegria do velhinho em poder pitar novamente o seu cachimbo logo seria repetida quando os outros médiuns já mencionados também passaram livremente a permitir a presença de seus Caboclos, de seus Pretos-Velhos e demais entidades consideradas não doutas pelos kardecistas de então, pobres tolos preconceituosos que confundiam cultura com bondade.
Foi dessa maneira que foi introduzido na “mesa de trabalho” o primeiro rito. Outros lhe seguiram, como, por exemplo, quando houve a informação de que os índios tinham o hábito de fumar e que foram eles que primeiro descobriram as propriedades dessa planta que eles enrolavam num enorme charuto, que era usado coletivamente por todos os participantes de seus cultos religiosos, sendo desta forma uma espécie de planta sagrada.
Desde que haja moderação e cautela, negar o pito ao Preto-Velho seria hoje uma grande maldade. Entretanto, deve-se sempre ter em mente que o seu uso deve ater-se somente ao rito e evitar-se os abusos e as deturpações que testemunhamos constantemente, não raras vezes, tocando as raias do absurdo e do escândalo, para o desprestígio desta religião que nasceu sob o signo da paz e do amor.
Atualmente, sabe-se que o uso do fumo pelas entidades incorporadas tem o efeito purificador quando elas atendem alguma pessoa com problemas espirituais. A fumaça age como um desagregador de maus fluidos, atingindo o perispírito dos Espíritos obsessores. Por extensão destes hábitos incorporados ao Terreiro, passou- se a oferecer doces às crianças incorporadas e, às vezes, a promover festas infantis.
Contudo, o que é usual nestes casos, e naturalmente influindo desta ou daquela forma nas demais maneiras de incorporação, sempre com o objetivo de tratar os incorporantes (Espíritos) como velhos e queridos amigos a quem recebemos com grande satisfação.
Com a “liberdade” trazida pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, as pessoas afugentadas da elitizada doutrina kardecista de então passaram a freqüentar a nova religião. Uma boa parcela dessas pessoas era de raça negra (no Rio de Janeiro). Isso fez com que a Umbanda passasse a contar com uma boa parte de médiuns de raça negra, que se sentiam muito à vontade pela ausência de preconceitos.
Estes médiuns começaram a enriquecer o ritual umbandista e hoje muitos rituais com o nome de Umbanda são praticados, muitos nem são Umbanda; são misturas desconexas de ritos, mas, quando encontramos um verdadeiro Terreiro ou Tenda de Umbanda, algo dentro de nós nos emociona; é como estivéssemos sentindo a presença de Cristo e de N.Sra. na humildade dos Pretos-Velhos; na simplicidade dos índios Caboclos em sua pureza mental e moral e no cheiro bom da arruda... alecrim... alfazema e guiné...