Baseados na concepção de que planejar é refletir sobre a aprendizagem dos educandos e como ela pode ocorrer, elaboramos um projeto de leitura com diferentes objetivos: I) Despertar o prazer da leitura e aguçar o potencial cognitivo e criativo do aluno criando necessidades; II) Promover o desenvolvimento do vocabulário, favorecendo a estabilização de formas ortográficas; III) Possibilitar o acesso aos diversos tipos de leitura na escola, buscando efetivar enquanto processo a leitura e a escrita. IV) Estimular o desejo de novas leituras; V) Possibilitar a vivência de emoções, o exercício da fantasia e da imaginação; VI) Possibilitar produções orais, escritas e em outras linguagens; VII) Proporcionar ao indivíduo por meio da leitura, a oportunidade de alargamento dos horizontes pessoais e culturais, garantindo a sua formação crítica e emancipadora.
No ano de 2017 daríamos maior ênfase ao projeto de leitura da escola, cujo objetivo didático de leitura era despertar no leitor desafios, que criam necessidades de querer conhecer, apoderar-se de bens culturais ainda guardados pela escrita, descobrir outros mundos, perceber e buscar outras leituras que “conversem” com sua leitura – a intertextualidade – conversem com o leitor. No intento de alcançar esse objetivo, decidimos dedicar um olhar mais aguçado para o projeto de leitura realizado na Escola de Educação Básica Orides Rovani de Bom Sucesso, Ipumirim - Santa Catarina intitulado “Emília, Reinando na Orides: Contar-te-ei!!”.
É uma escola do campo que atende filhos de agricultores, que tem acesso a livros somente os fornecidos pela biblioteca da escola, pelo empréstimo de livros particulares de professores. A realização do projeto deu-se com as turmas do ensino fundamental, com o intuito de melhorar diversas dificuldades encontradas durante as aulas como concentração, melhoria na escrita, oralidade, interpretação de textos nas diversas disciplinas, entonação de voz, dicção e apresentação
em público, bem como a expressão corporal. O projeto, ainda, oportunizou aos alunos criar hipóteses sobre a estrutura da leitura/interpretação e aprendizagem, já que a compreensão do texto é uma tarefa difícil, se tratando da sala de aula.
Emília reinando na Orides Rovani, contar-te-ei, assim o elegemos, primeiramente porque a biblioteca da escola está registrada como “Monteiro Lobato”, e uma pesquisa feita pela professora com os alunos, Emília, foi a personagem que os alunos mais associaram às narrativas. “Todas as palavras ajudam-se umas às outras e, desse modo, os homens conseguem exprimir todas as ideias que lhes passam pela cabeça” - Monteiro Lobato (1993), em Emília no país da Gramática. Frase do verbo “Ser”, para a Emília. As aulas de leitura aconteceram semanalmente, com duração de vinte minutos em dias intercalados, para não prejudicar as mesmas disciplinas. Toda a escola participaria, professores, funcionários, direção, assistente técnica pedagógica e alunos.
Percebemos uma notável aceitação por parte dos educandos, que nos retribuíram com o seu esforço para lograr êxito no próprio aprendizado. Cada turma tinha um livro para ler adequado à sua idade, todos da turma liam o mesmo e cada professor, levava os livros para sala de aula e realizava a leitura que era coletiva ou individual, em voz alta, observando para que a entonação de voz, a pontuação e acentuação fossem feitas de forma correta, bem como o uso do dicionário de língua portuguesa, para esclarecer possíveis dúvidas que viessem a surgir sobre o vocabulário exposto no livro.
O projeto teve várias atividades planejadas durante o ano letivo. A Gincana de leitura, foi a primeira, na qual os alunos foram divididos em grupos com membros de todas as turmas do ensino fundamental ao médio, o livro trabalhado dessa vez foi, “Nos Bastidores do Cotidiano” do cronista e teatrólogo Laé de Souza. Os educandos construíram uma bandeira para identificar cada grupo; responderam atividades sobre o livro elaboradas por eles mesmos nos grupos de leitura, reorganizadas pelos professores previamente e redistribuídas aos grupos; produziram textos sobre os personagens. O término da etapa do projeto foi marcado com uma gincana “torta na cara” de perguntas e respostas referentes ao livro.
A etapa a seguir foi poetando no Orides, com o objetivo de resgatar a produção poética e sensibilizá-los como seres humanos. Os educandos criaram seus próprios poemas, baseados nas obras do autor Monteiro Lobato e demais temas escolhidos. A atividade contou com um Sarau literário, houve a classificação dos melhores para posterior premiação com livros para os vencedores, dos quais a Associação de Pais patrocinou. O corpo de jurados foi composto por pessoas da comunidade que são professores aposentados e ex-membros do Conselho Deliberativo da escola.
Necessitando melhorar a produção textual, criamos a Farmácia da leitura, com slogan “remédio ou veneno para o espírito e a alma”. Tendo como foco a aprendizagem e a pesquisa, os alunos desenvolveram novas indicações, posologias e modo de usar, para estes “novos medicamentos”, utilizando como fontes de estudo e manipulação, livros literários disponíveis no acervo da biblioteca da escola, que estão expostos em todas as salas de aula da escola, dentro de sacolinhas de tecido colorido produzidas com a ajuda das mães dos alunos e pessoas da comunidade, escolhidos livremente por eles em cada sala. A partir da leitura realizada, os alunos produziram seu próprio remédio, com indicações de uso, benefícios e consequências para a vida ao ler determina do livro.
158 VI Congresso Regional de Docência e Educação Básica | Anais Eletrônicos Eixo 3 - Relato de experiências
Encerramos nosso projeto realizando o, Teatrando na Orides, com apresentações de peças teatrais à comunidade em geral. Baseadas nos clássicos da literatura, de Monteiro Lobato com os fragmentos de sua grande obra “Sítio do Pica-pau Amarelo”, criado em 1920 que conta com a adaptação de contos de fadas, e através deles nos deu a oportunidade de proporcionar aos nossos alunos o melhor na literatura universal, bem como outras peças teatrais cômicas ou dramáticas. Esta atividade foi fundamental porque conseguimos trabalhar mais a questão de falar em público, apresentar-se para os colegas ou comunidade, oralidade e expressão em nossos alunos, a grande maioria participou dos teatros, mesmo de maneira sutil. Salientando que as atividades diferenciadas de leitura, interpretação e produção textual tiveram melhor participação devido à familiaridade dos alunos com estes gêneros, contudo, a participação nas atividades de expressão e oralidade como teatro e poesias tiveram maior resistência.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desde os tempos antigos as primeiras formas de educação são gestadas no seio familiar, baseadas nesta teoria do educador Paulo Freire, salientamos que o autor traz elementos provocadores e desafiadores, reafirmando a educação do campo como possibilidade para desencadear um processo de construção do conhecimento, respeitando as peculiaridades e o compromisso da transformação social, tomamos a liberdade de compartilhar, a título de reflexão “[...] ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou sua construção.” (FREIRE, 2000, p. 52).
As pessoas se (des) humanizam ou, se (des) educam, por meio do trabalho e das relações sociais que estabelecem entre si no processo de produção material de sua existência, cabe destacar que o trabalho como expressão das necessidades humanas é concebido como um princípio educativo pela Educação do Campo.
A formação de leitores inicia-se no âmbito escolar e se processa em longo prazo, tendo como mediador o professor, protagonista, em quem encontramos a possibilidade de diversificarmos o conhecimento. “Quem escreve um livro cria um castelo, quem o lê mora nele.” (MONTEIRO LOBATO, 1993).
REFERÊNCIAS
FREIRE, P. A importância do ato de ler. 41. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
GADOTTI, M. Educação e Poder: introdução à pedagogia do conflito. São Paulo: Cortez, 1980. GERALDI, J. W. O texto na sala de aula: prática da leitura de textos na escola. 2. ed. Cascavel: [s.n.], 1984.
KLEIMAN, C. Oficina de Leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
OLIVEIRA, D. de A. Gestão Democrática da Educação: Desafios Contemporâneos. 7. ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2007.
LOBATO, M. A Menina do Narizinho Arrebitado. São Paulo: Brasiliense, 1982. Fac-símile da 1ª edição de 1920 da Monteiro Lobato & Cia.
LOBATO, M. Reinações de Narizinho. 48. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.
LÜCK, G. Página à página: faça seus alunos se interessarem pela leitura. Curitiba: Profissão Mestre, 2000.