Palavras-chave: Remorso, reparação, identifi cação projetiva, violência contra a mulher.
REMORSO, REPARAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA
Decidimos seguir duas dentre as três possibilidades, ambas amparadas em dois textos de M. Klein. A leitura do livro ecoou as sensações de mal estar causadas pela leitura dos textos kleinianos, na disciplina de psicopatologia do Curso de Especialização em Teoria Psicanalítica (CETEP-UFMG), ofertada pela professora Riva Satovschi Schwartzman, em 2011.
Surgem na primeira infância ansiedades, características das psicoses, que forçam o ego a desen- volver mecanismos de defesa específi cos. É nesse período que se encontram os pontos de fi xação de todos os distúrbios psicóticos. Essa hipótese levou algumas pessoas a acreditar que eu consi- derava todos como psicóticos; mas já tratei sufi cientemente desse mal-entendido em outras ocasiões. As ansiedades, mecanismos e defesas de ego, de tipo psicótico, da infância, tem uma
59 infl uência profunda sobre todos os aspectos de desenvolvimento, inclusive sobre o desenvolvi- mento do ego, do superego e das relações de objeto. (Klein, 1946/1991a, pp. 20 -21).
Ainda sobre a escolha de M. Klein para auxiliar na leitura do remorso em baltazar serapião encon- tramos o seguinte trecho que esclarece sobre o estilo dessa importante psicanalista:
Sensível à dimensão do excesso e ao caráter insaciável e ingovernável das paixões, Melanie Klein possuía um talento inquestionável para dar corpo, tornando-os visíveis e nomeando-os, aos aspectos mais arcaicos da fantasia. Essa é sua maior contribuição ao leitor interessado em contato com a estranheza das formações do inconsciente, que desafi am todas as medidas de bom senso. (Cintra & Figueiredo, 2004, p. 56).
O mérito de Valter Hugo Mãe, nesse livro desagradável, desprazeroso, indigesto, nauseante, é também este, de dar forma a essas coisas arcaicas dos seres humanos. Essas que o bom senso exige que mantenhamos encobertas.
O Sarga, baltazar, tem como única possibilidade identifi catória de amor a vaca, a vaca-mãe, objeto para onde o precário ego sarga pode identifi car-se projetivamente em algo que seja bom e a partir disso consegue enxergar algo de si em tudo que havia destruído. Mas isso ele vislumbra apenas no fi nal. (Ou somos nós que vislumbramos?)
Uma possibilidade de abordar o remorso pode vir auxiliada pelo conceito de identifi cação (proje- tiva), a partir da teoria kleiniana, sobre o lugar ocupado pela vaca nas relações de objeto iniciais de baltazar.
A partir do texto de 1955, “Sobre a identifi cação”, veremos alguns pontos fundamentais da teoria kleiniana e de como essa autora nos ajuda a decifrar o que está em jogo na história de baltazar.
Os objetos primários internalizados formam a base de complexos processos de identifi cação. . . a mãe – e antes de tudo seu seio – é o objeto primário tanto para os processos introjetivos como para os processos projetivos do bebê. Desde o começo, o amor e o ódio são projetados sobre ela e, simultaneamente, ela é internalizada com essas duas emoções primordiais contras- tantes, o que fundamenta o sentimento do bebê de que existe uma mãe (seio) boa e outra má. Quanto mais a mãe e seu seio são investidos – e a extensão depende de uma combinação de fatores internos e externos, entre os quais a capacidade inerente de amar é da maior impor- tância -, maus seguramente o seio bom internalizado, protótipo dos objetos internos bons, será estabelecido na mente do bebê. Isso, por sua vez, infl uencia tanto a força como a natureza das projeções; em particular, determina o que irá predominar nelas, se sentimos amor ou impulsos destrutivos. (Klein, 1955/1991b, p. 302)
Nessa etapa da vida do bebê, em que se confunde em pedaços seus e de seus objetos parciais, são originados os complexos processos de identifi cação. A partir desse período inicial e dependendo do modo como ocorre o equilíbrio entre projeções e introjeções o bebê será então capaz de relacionar-se com um objeto externo e inteiro.
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O conceito kleiniano de identifi cação projetiva traz em si esse duplo caminho identifi catório inerente aos processos iniciais das relações de objeto e presentes naquilo que pretendemos enfatizar na relação de serapião e ermesinda, sua incapacidade de perceber sua identifi cação nela. Esse duplo caminho, como num espelho refl etido ao infi nito (mise-en-abime) confunde o sujeito, que não percebe que se identifi ca por aquilo que em si há do outro, e que aquilo que vê no outro é na realidade um pedaço extraído e projetado de si. O sujeito se agarra vorazmente àquilo que considera seu, como certeza delirante de sua identifi cação como homem ou mulher, certeza essa que tem suas origens nesse tempo difuso em que qualquer coisa que pudesse mesmo que precariamente ser atribuída ao ego arcaico, era na verdade uns pedaços de outros.
Leio um trecho que apresenta um lampejo do que poderíamos considerar a partir da teoria klei- niana como uma mudança de posição em relação ao objeto, mudança essa proporcionada pela passagem da posição esquizo-paranóide para a posição depressiva.
apercebi-me de se levantarem já tão ágeis pelo hábito
quanto pela perda progressiva da razão. apercebi-me do mugido súbito da sarga por coisa que na noite rondou a sua calma. uma qualquer presença incómoda que a pôs em sobressalto. e eu nem me levantava, nem me acusava de atitude al- guma. ergui a cabeça lentamente e ao pé da fogueira estavam o aldegundes e o dagoberto uma vez mais torcendo a minha ermesinda. e mais a sarga se inquietava, mais a ermesinda
bulia debaixo deles, esticada por um e por outro para corresponder em formas às entradas que eles queriam fazer. e ela
atrapalhava-se respirando com maior difi culdade. coisa que dava à sarga era proporcional à coisa que lhe dava também. mas eu demorei a decidir ideia válida de fazer. ali estava, em nova permissão. abdicando de tudo, já nem por manter a sensatez da educação da minha mulher, senão para permitir que,
com mais dois, fôssemos quatro como casal de deus. eu sentiria
até ali o remorso dos bons homens. como havia pensado,
remorso duro de tão dignamente administrar a educação da minha ermesinda. mas até ali, pensei, até ali, porque na-
quele momento, mais do que a condenação de restarmos os
quatro encurralados para todos os avios, ocorreu-me a falha
61 que, por piedade ou compreensão com os meus companheiros,
e talvez por ausência da voz da minha mulher, passara
para lá do limite. o remorso dos bons homens já não me as- sistia, senão só a burrice e ignorância de quem abdicara da
sua mulher. (Mãe, 2010, p. 193, grifos nossos)1
Apenas nesse fi nal que aparece esse lampejo de remorso, de uma constatação de que baltazar ignorava uma parte essencial de si mesmo, que o impediu até seu último suspiro de perceber o que lhe faltava. Ele percebe que passou para lá do limite e que o remorso dos bons homens já não lhe assistia, mas a burrice e a ignorância.
Aqui supomos que ele tenha vislumbrado, apenas pra lá do limite, algo essencial para que ele pudesse ser capaz, fi nalmente, de enxergar a mulher que havia perdido, apontando para uma capaci- dade, mesmo que ainda precária, de vislumbrar um objeto inteiro. Apenas quando já havia destruído o objeto, sem perceber que dessa forma estava aniquilando a si mesmo.
Para M. Klein a capacidade de sentir culpa e a partir disso realizar alguma reparação em relação ao objeto danifi cado pelo ódio a ele dirigido é necessário que haja antes a identifi cação. Para a autora, “ser realmente atencioso implica se colocar no lugar dos outros: nós nos “identifi camos” com eles. Essa capacidade de identifi cação com outra pessoa é um elemento extremamente importante das relações humanas em geral, além de ser uma condição básica para sentimentos de amor fortes e verdadeiros.” (Klein, 1946/1991a, p. 352) Para a autora o ato de fazer reparação é um elemento fundamental do amor e de todas as relações humanas e isso implica uma capacidade de se identifi car com o objeto danifi cado na fantasia.
O processo de deslocar amor (e ódio) pela mãe para outras coisas e pessoas, distribuindo essas emoções pelo mundo, é acompanhado por uma outra maneira de lidar com impulsos arcaicos.” Os sentimentos parciais dirigidos à mãe vão se transformando ao longo de processos psíquicos em um amor por ela como uma pessoa inteira. Essa mudança coloca o ego em uma nova posição,
onde consegue se identifi car com seu objeto. (Cintra & Figueiredo, 2004, p. 79, grifo nosso).
O que chegamos a refl etir em termos de baltazar é que apenas quando se livra do “remorso dos bons homens” e passa a se reconhecer em relação ao que ele próprio fez. Apenas aí parece ser capaz de juntar, mesmo que precariamente, o amor e o ódio, o bom e o mal, o pai e a mãe, seus pedaços estraça- lhados. Poderia a partir disso se dar conta que, refl exivamente, operou em sua mulher toda a destruição que até então não era capaz de reunir dentro de si. Defensivamente projetou em sua ermesinda toda a aniquilação, sendo incapaz de se identifi car minimamente a ela.
A morte do irmão, da mulher, do amigo, a terra queimada, um colapso total e absoluto. Um rebaixamento de qualquer traço que houvesse de moralidade ou de afeto. Tudo foi rebaixado ao mais extremo que nem se podia imaginar e sem recalque, sem limite.
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CONCLUSÕES
A escrita deste trabalho passou por diversas etapas, nenhum delas foi agradável. Pois todas implicaram na leitura e releitura do remorso de baltazar serapião. Livro que por diversos motivos pode ser defi nido como desagradável, intragável, deplorável. Não há sequer um traço de esperança que não seja destroçada a cada página. A violência perpetrada sobre as mulheres sem o menor sinal do tão falado remorso que dá título ao livro faz com que a leitura seja adiada na medida do possível.
Talvez porque não haja mesmo possibilidade de apostar num processo civilizatório bem sucedido que seja complacente com a quantidade de violência contra sua própria humanidade.
Enquanto as mulheres forem tratadas como seres inferiores, misteriosos, indecifráveis, sem humanidade, enquanto seguirem sendo violentadas, violadas em seus direitos e tratadas como seres de segunda categoria é da falência humana que se trata.
Não há possibilidade sublimatória, científi ca, civilizatória que não passe por uma ressignifi cação de tantos buracos atribuídos ao feminino. É completamente devastador constatar que em 2016 ainda haja a quantidade de violência contra a mulher capaz de tornar óbvia a semelhança com tantos casos expressos no livro relativos à essa mesma violência contra o sexo/gênero feminino.
Imprescindível destacar que não se trata da violência de um baltazar contra sua amada erme- sinda, mas da violência de todos os homens, da humanidade, com a sua própria raiz precária, imatura, indefesa e fragmentada.
Impressiona pensar na exaltação da pobreza simbólica atribuída aos homens em termos de iden- tifi cação e isso, além de incitar a violência opressiva que recai sobre o feminino, empobrece os próprios homens. Como disse Lattanzio & Barbosa (2014), não é por altruísmo que os homens se esforçarão por se tornarem menos violentos com suas amadas, mas por egoísmo, por encontrarem possibilidades menos empobrecedoras de simbolização.
Lembrei-me da dissertação da Larissa Bacelete (2013) sobre repetição e perversão, cujo último capítulo é uma análise do caso Dexter, um assassino de serial killers. Aí veio a impertinência de tratar do tema pelo da perversão, pois um dos pontos de incômodo do livro é exatamente o fato de não haver constrangimento para a violência de serapião contra as mulheres, pois isso não se confi gura um crime. É quando baltazar deixa de se servir do remorso dos bons homens, esses bons homens comuns assim como ele, é apenas aí que ele pode se identifi car e sentir algum remorso de si mesmo.
É apenas aí que ele parece se dar conta daquilo que antes era apresentado a ele de maneira partida, bifurcada, e traduzido falsamente como feminino. É do feitiço do feminino que ele parece se livrar, de chamar todo buraco de mulher e não perceber que esburacado é um homem incapaz de se identifi car com seu objeto de ódio e amor.
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REFERÊNCIAS
Bacelete, L. (2013). Repetição e angústia: origens da perversão. Petrópolis: KBR Carvalho, A.C. (2006). O ofício do psicanalista. Percurso, 19(37), 17-26.
Cintra, E.M., & Figueiredo, L.C. (2004). Melanie Klein. Estilo e pensamento. São Paulo: Escuta. Houaiss, A. (2001). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva.
Klein, M. (1991a) Notas sobre alguns mecanismos esquizóides. In Obras Completas de Melanie Klein (Vol. 3, pp. 20-43). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1946).
Klein, M. (1991b). Sobre a Identifi cação. In Obras Completas de Melanie Klein (Vol. 3, pp. 169-205). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1955).
Lattanzio, F. F., & Barbosa, R. R. (2013). Grupos de gênero nas intervenções com as violências masculinas: paradoxos da identidade, ressignifi cação e linhas de abertura. In: Atendimento a homens autores de violência doméstica: desafi os à política pública. Rio de Janeiro: Iser.
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