Do que foi exposto, depreende-se que o requisito básico para alguém ser nomeado perito psiquiatra é sua condição de médico que exerça a psiquiatria, ou seja, que tenha conhecimento técnico específico do tema em exame. Uma vez que deverá fazer a ligação entre dois mundos diferentes – o médico-psiquiátrico e o jurídico –, quanto maior sua proficiência no segundo, melhor. Além disso, sendo um auxiliar do juízo, deverá ser rigorosamente imparcial. Em síntese, constituem requisitos conhecimento psiquiátrico, conhecimento jurídico e imparcialidade. Além disso, a Lei n° 13.105/20152 estabelece em seu Artigo 156, §1°, que
[...] os peritos serão nomeados entre os profissionais legalmente habilitados e os órgãos técnicos ou científicos devidamente inscritos em cadastro mantido pelo tribunal ao qual o juiz está vinculado.
Como se observa, o novo CPC2 estabelece a necessidade de inscrição do profissional
em cadastro mantido pelo tribunal ao qual o juiz está vinculado.
A questão do conhecimento técnico e da eventual necessidade de que a perícia seja exercida por um psiquiatra com superespecialização já foi discutida. Nesse contexto, está incluído o domínio da técnica do exame pericial psiquiátrico.
O conhecimento jurídico, por sua vez, é imprescindível para que o perito consiga estabelecer uma correta conexão entre dois campos tão diferentes. Nesse sentido, espera-se que possa funcionar como espécie de “conversor de linguagem”, colocando em termos jurídicos questões próprias do domínio psiquiátrico, uma vez que, na maior parte das situações, o simples diagnóstico psiquiátrico é insuficiente para gerar uma definição legal. No campo médico, por exemplo, existe a entidade nosológica denominada doença de Alzheimer; no jurídico, o Código Civil brasileiro (CC),5 ao
regulamentar a capacidade, fala em enfermidade ou deficiência mental que afete o necessário discernimento para a prática de atos da vida civil. No caso, seria toda pessoa com demência do tipo Alzheimer um enfermo mental cujo necessário discernimento estaria afetado? Qual a extensão do conceito de discernimento? Quais os seus elementos? E, se a incapacidade estiver presente, em qual extensão deve ser declarada para que se obtenha um adequado equilíbrio entre a proteção da pessoa e o respeito a sua autonomia? Essas e outras questões serão mais bem respondidas quanto mais profundos forem os conhecimentos jurídicos do perito. Só assim, então, será possível estabelecer a necessária ligação entre esses dois mundos tão diversos, convertendo a linguagem de um para a do outro.
O terceiro requisito fundamental do perito é a imparcialidade, visto um auxiliar do juízo ser uma entidade neutra por definição. Essa condição é regulamentada de forma objetiva em lei nos já mencionados artigos do CPC que tratam das causas de impedimento e de suspeição discutidas. O Artigo 52 da Resolução n° 2.056/20136 do
Conselho Federal de Medicina, publicada no ano de 2013, a fim de normatizar procedimentos médicos, estabelece que: “os médicos peritos estão submetidos aos princípios éticos da imparcialidade, do respeito à pessoa, da veracidade, da objetividade e da qualificação profissional”. Em seu parágrafo único, a resolução estabelece que o ato pericial em medicina é privativo de médico, nos termos da Lei n° 12.842/2013.7 O Artigo 53, por sua vez, diz que:
[...] os médicos assistentes técnicos estão submetidos aos mesmos princípios, com ênfase ao da veracidade. Como são profissionais a serviço de uma das partes, não são imparciais.
O dever de isenção do perito não se esgota nos pressupostos legais, havendo outras circunstâncias que devem também ser levadas em consideração para que o relato seja genuinamente imparcial (nos limites, é claro, das possibilidades humanas).
A primeira dessas circunstâncias refere-se a um tema pouco discutido na literatura forense, o da contratransferência pericial. Assim como a contratransferência pode se manifestar no contexto clínico, poderá estar presente no setting pericial, afetando a objetividade e a precisão do exame e, em consequência, do relatório médico-legal. No contexto forense, consideram-se inclusos no conceito de contratransferência não apenas os sentimentos gerados no examinador pela conduta ou pela história de vida do examinando como também aqueles desenvolvidos na relação com o juiz da causa ou com os advogados das partes. Da mesma forma que no contexto clínico, o psiquiatra deverá estar atento a sinais precoces de que sua isenção poderá estar sendo comprometida. Entre esses sinais, podem ser mencionados: excessiva preocupação com o examinando e com sua situação; intensa identificação com o ponto de vista do examinando ou, contrariamente, intensa repulsa pelo que fez ou pleiteia em juízo; desenvolvimento de quadro de transtorno de estresse pós-traumático secundário, ou seja, a presença, no examinador, de sintomas da síndrome pós-traumática derivados da oitiva de detalhes horrendos de crimes praticados (se a perícia ocorrer no contexto criminal) ou do trauma sofrido (em ações cíveis de indenização por dano psíquico); revivescência de situações sofridas ou traumáticas já experimentadas pelo examinador (p. ex., avaliação de abuso infantil realizada por perito que tenha sido abusado na infância); extrema identificação com o juiz, ou rejeição, conjugada à “adivinhação” do lado para o qual pende sua simpatia; o mesmo sentimento em relação aos advogados das partes; no caso dos assistentes técnicos, “compromisso” com a vitória judicial da parte que o contratou.
Em qualquer dessas situações, o psiquiatra deverá estar mais atento do que o habitual para o risco de que sua isenção e sua objetividade fiquem comprometidas de forma definitiva, o que transformaria seu relatório médico-legal em um instrumento falho e passível de levar a erros judiciários ou, ainda, de ser criticamente demolido pelo assistente técnico da parte prejudicada. Percebendo a impossibilidade de conduzir a bom termo a avaliação, à semelhança do que faria em um contexto clínico, o
psiquiatra deve renunciar ao encargo. Seria hipótese de invocar o já mencionado Artigo 135, parágrafo único, do CPC,1,[NT12] e declarar-se suspeito por motivo íntimo.
Outro fenômeno que interfere na imparcialidade do perito refere-se ao caso dos profissionais que, superidentificados com a função de auxiliar do juízo – sentindo-se “olhos e ouvidos” do juiz para um tema que o magistrado não está habilitado a ver ou a ouvir –, em vez de proferirem uma avaliação isenta, passam a julgar a causa, adequando suas conclusões ao veredito – este, sim, “imparcial” – que fizeram. Essa distorção pode ocorrer porque os peritos, geralmente, mercê de sua experiência, sabem os efeitos que as conclusões do laudo exercerão sobre a decisão do juiz. O princípio de que o juiz não está adstrito ao laudo, embora com frequência lembrado nas discussões doutrinárias, raramente prevalece na prática forense. Ou seja, na maioria das vezes, a decisão judicial é harmônica com as conclusões do laudo pericial. Esquecem-se esses peritos de que o dever de distribuir justiça é atribuição exclusiva e inalienável do magistrado. Mesmo que as conclusões do laudo levem a uma sentença não desejável ou injusta, o dever do perito é relatar friamente o que constatou, deixando com o juiz a árdua tarefa de aplicar a lei ao caso concreto. Exemplos desse tipo de viés podem ocorrer em crimes sexuais, nos quais o examinando, se for enquadrado no parágrafo único do Artigo 26 do Código Penal (CP)8 por alguma perturbação da saúde mental,
poderia receber uma pena de reclusão mitigada. Nesses casos, não são raros os peritos que sugerem a aplicação concomitante do Artigo 98 do CP8 para transformar a pena em
medida de segurança (MS). Visam, com isso, à proteção futura da sociedade, pois sabem que a MS é mais dificilmente revogável em certos casos. Com isso, na prática, estão criando uma espécie de prisão perpétua. Entretanto, esses peritos, quando questionados, não conseguem indicar em que consistiria o especial tratamento curativo (motivação legal prevista no Artigo 98 do CP8 para que a pena seja transformada em
MS) a ser ministrado àquela pessoa.
ASSISTENTE TÉCNICO
Assistente técnico é a denominação que a lei dá ao profissional especializado em determinado tema, contratado e indicado exclusivamente por qualquer das partes, para que a auxilie durante a elaboração da prova pericial. Sua denominação e suas atribuições têm sido modificadas em larga escala ao longo das últimas décadas. Na sistemática do CPC9 de 1939, a prova pericial era produzida apenas por peritos
o magistrado não conseguisse se definir, é que seria nomeado pelo juiz seu próprio expert, denominado perito desempatador.9
Com o advento do CPC de 1973,1 os peritos da parte passaram a ser chamados de
assistentes técnicos, e o perito desempatador, apenas de perito. Os assistentes técnicos mantiveram, porém, o status e os privilégios dos peritos nomeados pelos magistrados, eis que estavam sujeitos aos mesmos impedimentos e suspeições e prestavam também compromisso “de conscienciosamente cumprir o encargo”. Além disso, compartilhavam com o perito o poder de investigar a matéria em discussão de maneira ampla. No fim dos procedimentos periciais, que poderiam ser executados em conjunto ou de forma isolada, deveriam conferenciar de modo reservado e, se houvesse acordo, lavrariam um relatório médico-legal que seria assinado por todos. Somente em caso de divergência é que produziriam documentos paralelos, para cuja apresentação tanto peritos quanto assistentes técnicos teriam o mesmo prazo.
A Lei n° 8.455/1992,10 entretanto, trouxe importantes alterações ao CPC no que
tange à produção da prova pericial e às atribuições dos assistentes técnicos. Estes claramente perderam seu status de peritos, passando de auxiliares do juízo a auxiliares das partes. O melhor indicativo dessa nova condição encontra-se no Artigo 422 do vigente CPC, que esclarece que os assistentes técnicos são “de confiança da parte, não sujeitos a impedimento ou suspeição”.[NT13] Essas modificações, porém, não têm sido
bem compreendidas por alguns peritos e mesmo pelos tribunais, o que tem levado a um inegável cerceamento do direito da parte de produzir sua prova e fiscalizar e criticar a prova carreada aos autos. Essa importante questão – a restrição do âmbito de atuação dos assistentes técnicos –, a depender da natureza da perícia, poderá representar um prejuízo incalculável para a parte. É o que ocorre com as perícias psiquiátricas, como será abordado mais adiante.
A ideia norteadora da reforma do CPC10 de 1992 foi a simplificação da produção da
prova pericial. Aboliram-se as prestações de compromisso formais e a necessidade de que perito e assistentes técnicos conferenciassem reservadamente e emitissem laudo unânime. O artigo que previa a averiguação conjunta também foi revogado. De modo formal, todavia, o CPC,1 em seu Artigo 429,[NT14] atribui aos peritos e assistentes
técnicos os mesmos poderes, ou seja, utilizar-se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos, que estejam em poder de parte ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com plantas, desenhos, fotografias e outras quaisquer peças.
Na prática, porém, essa igualdade de poderes inexiste, uma vez que o prazo de entrega do parecer do assistente técnico é de apenas 10 dias após a entrega do laudo pericial, o qual foi ampliado para 15 dias no novo CPC.[NT15] Ou seja, se o perito
promover uma investigação singela, descuidada e rápida, faltará ao assistente técnico tempo suficiente para concluir a sua. Ademais, não é raro que pessoas vinculadas à parte contrária e que teriam informações relevantes a fornecer se recusem a ser entrevistadas pelo assistente técnico. O mesmo acontece com a liberação de documentos por repartições ou empresas, facilmente fornecidos ao perito, mas nem tanto aos assistentes técnicos. Qual o sentido, então, de a lei processual continuar a prever a existência de assistentes técnicos?
Por um lado, depreende-se da reforma de 1992 a clara intenção do legislador de suprimir do assistente técnico a função de produzir prova pericial. Esse encargo é agora atribuição exclusiva do perito judicial, entendimento corroborado pelo novo CPC.2 Por outro, a melhor hermenêutica considera que, na lei, não existem palavras ou
disposições supérfluas. Assim, se as velhas atribuições do assistente técnico lhe foram retiradas, mas sua figura subsiste intacta no CPC, quais seriam, então, seus novos encargos? Ao que tudo indica, em primeiro lugar, cabe ao assistente técnico a relevante missão de fiscalizar a produção da prova pericial, verificando se os diversos procedimentos tomados pelo perito o foram de acordo com as normas técnicas vigentes, se não omitiu detalhes relevantes, se viu corretamente o que havia para ser visto e se o reportou de forma acurada em seu relato. Além disso, deverá fazer a crítica das conclusões do perito, apontando se há discrepâncias entre asserção e razão, entre o que foi visto e relatado e o que foi concluído. Secundariamente, poderá também o assistente técnico fornecer suas próprias conclusões sobre o fato em exame, as quais deverão ser recebidas em juízo com muita reserva, dada sua condição de auxiliar da parte. Por fim, há outra inovação na legislação de 1992 que reforça a ideia de que a principal função do assistente técnico é a de fiscalizar o perito, em vez de com ele colaborar na produção da prova pericial. Trata-se da alteração do prazo para a entrega do parecer. Antes, o prazo concedido tanto a perito quanto a assistente técnico era o mesmo, visto que ambos haviam exercido seus misteres em pé de igualdade e visando às mesmas finalidades. Agora, o assistente técnico se manifesta apenas após a entrega em cartório do laudo pericial, tendo esse como documento orientador de seu parecer crítico. A sistemática de entrega do parecer do assistente técnico após a entrega do laudo pericial pelo perito foi reproduzida na Lei n° 13.105/2015,2 por meio do Artigo 477.
Repita-se, dada a relevância deste ponto: a função precípua do assistente técnico é a de fiscalizar o trabalho do perito. Deve-se ter em mente que, apesar da excelência de seus conhecimentos técnicos, peritos podem fazer apreciações erradas, tanto pela singela razão de que errar faz parte da natureza humana quanto pela remota hipótese de venalidade. Se não houver, então, a rígida fiscalização do trabalho pericial, conclusões errôneas poderão servir de base à decisão judicial, com prejuízo a uma das partes e ao sistema de distribuição de justiça. Reforça-se também o seguinte: na sistemática anterior, a atribuição de fiscalizar era apenas secundária, uma vez que o assistente técnico dispunha das mesmas condições do perito, e suas conclusões proviriam de um auxiliar do juízo (pago e escolhido pela parte, mas, ainda assim, auxiliar do juízo). Pela sistemática de 1992, reproduzida na Lei n° 13.105/2015,2 se houver equívoco nas
observações do perito, as do assistente técnico poderão corrigi-las.
Correta a assertiva de que ao assistente técnico cabe principalmente a fiscalização dos procedimentos periciais, quais as repercussões desse entendimento na prática da psiquiatria forense? Diferindo de perícias de outra natureza – contábeis, de engenharia civil, de avaliação de imóveis, por exemplo –, nas quais os elementos disponíveis aos técnicos são extremamente objetivos, em psiquiatria há o predomínio de elementos imateriais que devem ser transformados em achados concretos, para que, a partir desses dados objetivados, o perito possa atingir conclusões de magnitude probatória. Essa é uma operação complexa, que demanda rigor técnico e precisão. A possibilidade de erros e falhas de interpretação é enorme, tanto quanto na clínica psiquiátrica. A diferença é que, nesta, a própria sequência do tratamento fornecerá a chave para as correções de rumo, enquanto naquela uma apreciação equivocada levará a uma cristalização do erro. Dessa forma, é imprescindível que o assistente técnico observe todos os procedimentos adotados pelo perito, pois só assim poderá verificar suas incorreções, acertos e omissões. Essa observação poderá ser feita presencialmente na sala de entrevista ou por meio de espelho unidirecional ou, então, pela análise de gravações em áudio ou audiovisuais. (A questão da presença de terceiros no setting pericial ou do uso de instrumentos de gravação será mais desenvolvida ao serem abordados os aspectos técnicos do exame psiquiátrico forense.)
Ressalte-se, por fim, que é dever do perito facilitar o acesso do assistente técnico aos procedimentos que realiza, e a esse respeito o Artigo 466, § 2°,[NT16] da Lei n°
13.105/2015,2 não deixa qualquer dúvida, além de ser uma norma de cortesia entre dois
colegas de profissão. Esse tipo de conduta é invariavelmente seguido por todos os psiquiatras forenses experientes e de bom nível técnico, pois com frequência estão se
deparando uns com os outros em papéis trocados nos diversos processos. Nesse sentido, o Artigo 54 da Resolução CFM n° 2.0566 (texto também abordado na
Resolução CFM 2.057/2013,11 específica para a área da psiquiatria) também assim o
diz: “Peritos e médicos assistentes técnicos devem se tratar com respeito e consideração, cabendo ao perito informar aos assistentes técnicos, previamente, todos os passos de sua investigação e franquear-lhes o acesso a todas as etapas do procedimento”.