NOTA 18. SEGMENTOS OPERACIONAIS
5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
5.1. RESULTADOS DA PESQUISA
A publicação de relatório por segmentos, de forma compulsória, com base no CPC 22, é um tema recente no Brasil e ainda pouco explorado. Esta pesquisa apresentou como foco de estudos a divulgação de informações contábeis por meio do relatório por segmentos, tendo como base normativa o CPC 22.
A questão orientadora da pesquisa buscou responder se a divulgação de informações contábeis por meio do relatório por segmentos impacta o desempenho das companhias de capital aberto que operam no Brasil.
O objetivo principal foi avaliar se a divulgação de informações por segmentos das companhias de capital aberto no Brasil têm impactos sobre o desempenho das empresas. Para determinar o nível de disclosure praticado foi elaborado o indicador do nível de disclosure de segmentos (IDS).
Os resultados da pesquisa mostram que não se pode rejeitar a hipótese de relacionamento entre o nível de disclosure e o desempenho das companhias. O IDS apresentou relacionamento positivo com o valor de mercado mas não com a rentabilidade das companhias, por outro lado, encontrou-se relacionamento negativo entre a rentabilidade e a estrutura da segmentação adotada nas empresas.
É possível afirmar que a adoção do CPC 22 atingiu seu objetivo em ampliar as informações repassadas aos agentes externos, porém, a partir do levantamento realizado nas demonstrações conclui-se que o número de empresas que publicou o relatório no período estudado foi baixo, em torno de 43% das companhias fizeram a publicação. Esse resultado conduz a duas linhas de observação, a primeira é que as empresas não utilizam informações por segmentos em sua tomada de decisões, o que, de certa forma, contraria teorias que argumentam que a
descentralização de atividades é o caminho natural com o crescimento das empresas e com a complexidade das relações.
A segunda linha de observação é que a agregação dos segmentos, conforme possibilitada pela norma, permite aos gestores utilizarem de sua discricionariedade para agrupar informações de várias atividades em apenas um segmento, com o objetivo de diminuir a quantidade de informações prestadas ao mercado. A agregação dos segmentos foi um dos pontos críticos levantados no estudo de pós-implementação do IFRS 8 realizado pelo IASB, o qual apontou para a possibilidade de revisar a norma, em especial, o termo “natureza econômica da atividade”.
Os resultados da pesquisa mostram que é possível diferenciar as empresas que publicam relatório por segmentos das que não publicam a partir do tamanho, do setor de atuação e do nível de governança corporativa adotado, de acordo com os padrões da BM&FBovespa. Essa situação, no entanto, não significa melhor nível de disclosure, apenas que, empresas com estas características publicam com maior frequência o relatório por segmentos.
Dentre as empresas que publicam relatórios com dois ou mais segmentos foram encontradas grandes diferenças, inclusive em empresas do mesmo ramo. Diferentes formas de segmentação, divergências de itens e quantidade de informações publicadas tornam os relatórios peças únicas, quase incomparáveis. Esta situação, fruto da abordagem gerencial adotada pela norma, ao mesmo tempo que possibilita relatórios, teoricamente, mais informativos, por terem a estrutura gerencial como base, diminuem as possibilidades de comparação entre empresas. O FASB e o IASB argumentam que o objetivo do relatório por segmentos é aumentar o número de informações publicadas não tendo a comparabilidade entre as empresas como premissa. No entanto, a possibilidade de comparar os relatórios é importante para que os analistas possam fazer suas projeções sobre o risco e o retorno do investimento.
Do ponto de vista de itens no relatório, poucos foram amplamente publicados, somente as receitas com clientes externos foram segmentadas por todas as companhias estudadas, o resultado dos segmentos deixou de ser divulgado em algumas companhias enquanto itens como depreciações, receitas e despesas financeiras, passivos foram negligenciados pela maioria das empresas. Estes itens são importantes formadores do resultado e podem influenciar de forma significativa projeções e análises sobre o futuro.
A utilização da abordagem gerencial está explícita na segmentação publicada, no entanto, informações com foco gerencial
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não estão presentes em muitas empresas. Os valores de transações intersegmentos, informação relevante na composição de custos para o setor, não foram publicadas pela maioria das empresas e dentre as que relataram este dado poucas informaram como foram precificadas as transações. As métricas de resultados como EBITDA, EBIT ou outras que incluem opções de ajustes no lucro líquido foram pouco publicadas. As empresas, de maneira geral, preferiram utilizar-se de métricas com orientação normativa.
O nível médio do disclosure das informações por segmentos, medido pelo IDS, foi baixo, porém a dispersão encontrada no indicador mostra que há empresas que publicaram relatórios com maior nível informativo e atendendo ao previsto na norma, por outro lado, em algumas empresas o relatório publicado teve o único objetivo de atender à norma, no quesito apresentar o relatório por segmento, pois as informações que foram divulgadas não agregaram valor na avaliação da empresa. No aspecto normativo, qualquer que seja o relatório apresentado é válido, pois o texto da norma é ambíguo, ao mesmo tempo em que exige a publicação deixa lacunas que possibilitam que a empresa não publique nada sob o argumento de não usar informações segmentadas no processo decisório.
Com base no IDS não foi possível atribuir um padrão às empresas que praticam melhor disclosure de informações por segmentos. O estudo mostrou indícios de que nas grandes empresas, nos setores regulados, com maiores barreiras de entrada e menor concorrência, o nível médio do disclosure dos relatórios por segmentos foi melhor. Nestes casos, as empresas publicaram relatórios onde as informações relatadas foram dispostas com mais clareza e com mais detalhes. Entretanto, no grupo de empresas menores e de outros setores também houve relatórios com bom nível de informações.
De maneira geral, não foi possível identificar relacionamento entre a quantidade e a qualidade das informações publicadas, medidas pelo IDS, com as variáveis de desempenho das empresas. No entanto, no ano de 2012, nas empresas com o q de Tobin entre 0,2 e 1,0 a relação foi relevante e signficante, demonstrando que para empresas com esse perfil as melhores práticas de disclosure foram positivas, isto é, o estudo mostrou que há uma tendência de melhorar a avaliação destas empresas ao publicarem relatórios com maior teor informativo. Este resultado é significante pois nesta faixa do q de Tobin concentram-se mais de 60% das empresas da amostra.
Por outro lado, a relação da divulgação de informações por segmento com o indicador de desempenho empresarial foi negativa e significante com o número de segmentos publicados pelas companhias, nos ano de 2010 e 2012. Esse resultado indica que quando a empresa atua em muitas atividades, por vezes, bastante distintas, ela pode comprometer o seu desempenho. Para alguns analistas essa situação ocorre porque a empresa dispersa seu foco em diversas atividades e a gestão neste contexto torna-se mais complexa.
Conclui-se, portanto, que a divulgação de informações segmentadas, da maneira como as empresas fizeram, pode ser positiva e contribuir para aumentar a precisão dos usuários ao avaliarem os riscos e retornos inerentes às empresas. Os resultados desta pesquisa não permitem atribuir à divulgação de segmentos, prejuízos ou desvantagens para as empresas que melhor evidenciaram suas operações. Pelo contrário, empresas que apresentam o q de Tobin entre 0,2 e 1,0 mostram-se beneficiadas por adotarem melhor padrão de disclosure.
Nesse sentido, confirma-se a proposição inicial desta tese ao demonstrar que, quando avaliado por um indicador de disclosure, que contemple as informações publicadas no relatório e não apenas fatores ligados ao número de segmentos, empresas com melhores indicadores de disclosure podem ser beneficiadas em sua avaliação no mercado.
Por outro lado, ao avaliar a relação da rentabilidade, os resultados conduzem a achados semelhantes aos estudos anteriores de Garrod (2000), Talha, Sallehhuddin e Mohammad (2006) e Talha, Sallehhuddin e Mohammad (2007), com relação negativa entre a rentabilidade e a maior segmentação.
Frente às teorias e estudos que mostraram que o melhor disclosure diminui custos de capital, aumenta a liquidez e diminui a volatilidade e que a elaboração do relatório por segmentos não atribui custos extras relevantes na prática das empresas, os argumentos contra o aumento da divulgação das informações por segmento residem apenas no receio de gestores e, talvez, em uma cultura de baixa informação ao mercado que ocorre com o mercado brasileiro, onde sem prescrições normativas, pouco se publica.