• Nenhum resultado encontrado

1 CONCEPÇÕES DE ESTADO, POLÍTICAS PÚBLICAS, MERCADOS E SUAS

1.6 Mercados, Cadeias Curtas de Abastecimento alimentar/Redes Alimentares Alternativas

1.6.3 Segurança Alimentar e Nutricional

professor Maluf (2009, p.17), que através de seus estudos e participação em vários fóruns de debate sobre a SAN, realizados nas décadas de 1990 e 2000, fez a seguinte contribuição:

Segurança Alimentar e Nutricional é a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis.

Esta definição, proposta pelo Prof. Maluf, tem como raiz os debates ocorridos durante a II Conferência Nacional de SAN, realizados em 2004 na cidade de Olinda, onde, através dos inúmeros debates ocorridos, seis proposições foram aprovadas, quanto aos princípios da SAN e que devem ser contempladas pelas políticas públicas, sendo:

1) Adotar a ótica da promoção do direito humano à alimentação saudável, colocando a SAN como objetivo estratégico e permanente associado à soberania alimentar. 2) Assegurar o acesso universal e permanente a alimentos de qualidade, prioritariamente, por meio da geração de trabalho e renda e contemplando ações educativas. 3) Buscar a transversalidade das ações por intermédio de planos articulados intersetorialmente e com participação social. 4) Respeitar a equidade de gênero e étnica, reconhecendo a diversidade e valorizando as culturas alimentares. 5) Promover a agricultura familiar baseada na agroecologia, em conexão com o uso sustentável dos recursos naturais e com a proteção do meio ambiente. 6) Reconhecer a água como alimento essencial e patrimônio público (II Conferência Nacional de SAN. Olinda, 2004, p.5).

Deve ser ressaltado, que é uma peculiaridade brasileira o acréscimo do termo

“nutricional” pois internacionalmente se usa apenas o termo “segurança alimentar”, esta característica vem da particularidade do debate brasileiro, que engloba o socioeconômico e a saúde e nutrição, pois não basta comer, este alimento tem que ter qualidade, atendendo as necessidades calóricas e também de saúde (Maluf, 2009). Neste sentido, Maluf (2009, p.18), faz a seguinte contribuição:

A segunda peculiaridade é englobar numa única noção – Segurança Alimentar e Nutricional – duas dimensões, de fato inseparáveis, que são a disponibilidade de alimentos e a qualidade desses bens. Alguns recorrem ao anglicismo para diferenciar a disponibilidade física (food security – segurança alimentar) da qualidade dos alimentos em termos da inocuidade do seu consumo (food safety – segurança dos alimentos).

Quando nos referimos as agroindústrias familiares rurais, que é o objeto de estudo deste trabalho, as mesmas muitas vezes são inibidas pelo food safety (segurança dos alimentos ou alimento seguro), pois o mesmo, está diretamente relacionado ao Codex Alimentarius, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Organização

Mundial da Saúde (OMS), criado em 1963, tendo o “objetivo de estabelecer normas internacionais na área de alimentos, incluindo padrões, diretrizes e guias sobre Boas Práticas e de Avaliação de Segurança e Eficácia [...] proteger a saúde dos consumidores e garantir práticas leais de comércio entre os países” (ANVISA, 2016), porém, as referidas normas estabelecidas pelo Codex Alimentarius, muitas vezes não condizem com a realidade das agroindústrias da agricultura familiar, estando mais alinhado com os padrões das grandes indústrias alimentícias.

Corroborando com estas afirmativas, Maluf (2009, p.51), faz a seguinte contribuição:

As normas que regulamentam a produção e o comércio de alimentos refletem concepções de qualidade ou impõem padrões técnicos não consensuais ou generalizáveis, sendo também de difícil acesso por parte dos produtores de pequeno e médio porte. Além disso, elas constituem arenas de conflitos de interesses de vários tipos opondo consumidores e empresas, empresas concorrentes, entes públicos e agentes privados e, também, países em litígio comercial.

Desta maneira, podemos afirmar, que através destas instituições internacionais, os Impérios Alimentares podem exercer sua influência, podendo assim, limitar o funcionamento destas agroindústrias familiares rurais, em favor de um discurso higienista pelo food safety, se tornando uma armadilha a produção local e tradicional, em favor dos grandes conglomerados alimentícios (com suas grandes plantas industriais e produtos padronizados). Sendo assim, podemos concluir que esta noção de SAN, que englobam estas duas dimensões (disponibilidade e qualidade de alimentos), nos leva a uma maior reflexão quanto aos sistemas de produção, processamento, distribuição e comercialização das cadeias agroalimentares convencionais, pois se supormos o atendimento das necessidades de disponibilidade de alimentos, e adentrarmos a qualidade dos mesmos, iremos enveredar em uma miríade de contradições. O uso de adubos químicos, agrotóxicos, conservantes, estabilizantes, corantes e a produção de ultraprocessados, além das longas distancias percorridas até o local de consumo dos mesmos, resulta em produtos alimentícios que geram grandes impactos ambientais, e inúmeros problemas de saúde na população, a exemplo as epidemias de obesidade e diabetes, presente entre ricos e pobres.

Neste sentido, Maluf (2009) destaca que, para termos a promoção da SAN através de políticas públicas, é necessário a concepção de soberania alimentar, para que se possa superar a lógica mercantil do capitalismo e dos Impérios Alimentares, que trabalham dentro da lógica do lucro máximo, independentemente de suas consequências socioculturais. Desta maneira,

Maluf (2009, p.23), através dos debates do Fórum Mundial sobre Soberania Alimentar de Havana (Cuba) em 2001, fez a seguinte definição:

Soberania alimentar é o direito dos povos definirem suas próprias políticas e estratégias sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos que garantam o direito à alimentação para toda a população, com base na pequena e média produção, respeitando suas próprias culturas e a diversidade dos modos camponeses, pesqueiros e indígenas de produção agropecuária, de comercialização e gestão dos espaços rurais, nos quais a mulher desempenha um papel fundamental [...]. A soberania alimentar é a via para erradicar a fome e a desnutrição e garantir a segurança alimentar duradoura e sustentável para todos os povos.

A partir desta, podemos concluir que a SAN, quando conduzida pelos países de forma séria e soberana, através de políticas públicas (construídas de forma participativa), que contemplem as parcelas da sociedade mais vulneráveis, podem gerar uma relação positiva entre a alimentação e a equidade social, promovendo um desenvolvimento sustentável do país. Sendo que estas relações, estão diretamente relacionadas à onde, como e quem está produzindo estes alimentos, a maneira como os mesmos estão sendo processados, distribuídos e comercializados, e se todo este percurso que este alimento percorreu, está em confluência com os aspectos sociais, ambientais e culturais daquela região onde o alimento está sendo consumido.

Porém, devemos nos atentar a algumas particularidades, quanto a estas políticas públicas, pois, quando as mesmas são orquestradas sem a participação da sociedade civil, pode se ter a intervenção de grupos privados com interesses próprios (muitas vezes a quem da SAN), a exemplo disto, podemos citar os discursos que sustentaram a “Revolução Verde/Modernização Conservadora” no Brasil (políticas estas que favoreceram os latifúndios e o capital internacional). Segundo Maluf, Menezes e Valente (1996, p.74), esse aparente

“sucesso” da “Revolução Verde/Modernização Conservadora”, com seus altos índices produtivos, “ficou um rastro de destruição ambiental, deterioração da qualidade dos alimentos e exclusão de parcelas significativas da população rural, colocando em risco a possibilidade de continuidade do desenvolvimento agrícola no futuro”, gerando mais fome (pois os mesmos produz commodities para exportação), concentração fundiária, êxodo rural e desigualdades sociais, assunto este abordado anteriormente neste capítulo. Outro exemplo importante apresentado por Maluf (2009, p.87), foi através da contextualização da fundação na década de 1990, da Associação Brasileira de Agribusiness (ABAG) e a publicação em 1995 de um livro, onde os mesmos propõem

[...] uma “abordagem de agribusiness da segurança alimentar”. Esta era considerada a maior responsabilidade social dos agentes envolvidos no agronegócio, os quais seriam, no entender daquela associação, os principais promotores da segurança alimentar. Com base num enfoque enviesado pelos interesses econômicos e pela autovalorização das atividades do setor que representa, a Abag atribuía à segurança alimentar a capacidade de “imprimir dinâmica ao processo de desenvolvimento de uma sociedade organizada”.

Demonstrando assim as contradições presentes dentro do debate público brasileiro, quando se refere a SAN, porém, devemos nos atentar, pois existiram duas “janelas de oportunidades”, que foram importantes para o avanço deste debate. Sendo a primeira, presente a partir dos anos de 1990, através do arranjo institucional brasileiro (federalismo), em que alguns municípios e estados tiveram protagonismo neste sentido, principalmente através das políticas locais de abastecimento alimentar, visando a SAN, com desdobramentos relacionados a produção local, processamento, comercialização e práticas alimentares, tendo uma maior aproximação entre quem produz e quem consome, promovendo de forma incipiente a intersetorialidade das ações de SAN, porém, trabalhando através de parcerias, com a sociedade civil organizada, ONGs, movimentos sociais e produtores (MALUF, 1999 e 2009 e MALUF, MENEZES E VALENTE, 1996).

Já a segunda, obteve se impactos a nível federal, sendo considerado os maiores saltos referentes a este debate, pois ocorreu a criação e viabilização de políticas públicas nacionais para SAN, se estruturando em todo o país a partir de 2003, com a eleição do bloco democrático popular representado por Luiz Inácio Lula da Silva. Alguns exemplos de políticas públicas para a promoção da SAN durante este período, foi a recriação do Consea (2003); a implementação do Programa Fome Zero (O Projeto Fome Zero –foi lançado pelo Instituto Cidadania, em 2001, sendo uma inciativa da sociedade civil organizada), que trabalhava com três tipos de ações, sendo estas estruturais, específicas e locais (através das prefeituras e sociedade civil), contemplando uma série de outras políticas públicas, a exemplo o Cartão Alimentação, sendo incorporado posteriormente ao bolsa família (conglomerado de programas sociais, a exemplo:

Bolsa Alimentação, Bolsa Escola, Vale Gás), além de diversas ações relacionadas a alimentação, como o abastecimento alimentar, agricultura urbana e rural em pequena escala, gestão de restaurantes populares, bancos de alimentos, cozinhas comunitárias, sendo que estes esforços se aglutinaram em quatro grandes eixos, que contemplaram a ampliação do acesso aos alimentos, o fortalecimento da agricultura familiar (temos como exemplo as políticas públicas

específicas para essa classe, que foram externadas anteriormente neste trabalho), geração de emprego e renda e mobilização e controle social (MALUF, 2009).

A criação do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA), e a nomeação do Prof. Graziano da Silva, como primeiro e único ministro (o mesmo foi extinto posteriormente, suas competências passaram para o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome); a realização da II Conferência Nacional de SAN em Olinda (2004);

porém, um dos grandes marcos desse período, foi aprovação da Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006 (BRASIL, 2006), e sua regulamentação através do Decreto nº 7.272, de 25 de agosto de 2010 (BRASIL, 2010), que “cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN com vistas a assegurar o direito humano à alimentação adequada, institui a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - PNSAN, estabelece os parâmetros para a elaboração do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional” e no ano de 2011 foi lançado o plano Brasil sem Miséria, com o intuito de acabar com extrema pobreza até 2014, sendo que no referido ano, o Brasil saiu do mapa mundial da fome elaborado pela FAO (GAZOLLA, 2014).

Para Abromovay (2008), a fome no século XXI, não tem mais aquela condição avassaladora, apresentada no século XX, por Josué de Castro, em seu livro Geografia da Fome (1946), porém, o mesmo ressalta, que a fome e a desnutrição continuam presentes, no Brasil, América Latina e principalmente países da África (principalmente aqueles ao sul do Sahara), Bangladesh e em menor quantidade na Índia e Paquistão. Sendo que boa parte destes que passam fome, estão presentes em regiões rurais vulneráveis e grandes centros urbanos, sendo que boa parte das soluções para estes problemas, se passa por soluções estruturais (criação de políticas públicas que promovam a SAN) e locais, desde "valorizar os conhecimentos locais e utilizar melhor a biodiversidade, fazer modelos referentes à decisão dos agricultores e estimular formas de inovação que se apoiem no conhecimento do mundo natural e não apenas na gestão de insumos de origem industrial" (ABROMOVAY, p.2707), sendo que o Brasil até então tem sido uma referência a estruturação da SAN, desde soluções para as cidades mas também para o campo.

Segundo Gazolla (2014, p.528)

Parte do êxito das políticas de SAN no Brasil tem sido atribuída ao papel da agricultura familiar, segmento social dominante no meio rural (85% dos estabelecimentos e 75% da população ocupada na agricultura) e relevante na produção de alimentos para os brasileiros (em torno de 25% da renda gasta pelos consumidores é com a compra de alimentos da agricultura familiar). No universo da agricultura familiar, as agroindústrias destacam-se em várias regiões do país como uma das estratégias de reprodução social desta agricultura, mas também responsáveis pela SAN e abastecimento local/regional de pequenos municípios.

Para Gazolla (2014), a presença dessas agroindústrias familiares rurais nos interiores brasileiros, são importantes para a SAN, pois estas experiencias de agregação de valor, nestas pequenas e médias cidades, proporcionam a disponibilidade de alimentos processados de altíssima qualidade as populações locais, sendo as vendas realizadas de forma direta, a preços mais acessíveis que alimentos ultraprocessados, além das vantagens relacionadas ao fornecimento de alimentos que estão ligados aos hábitos de consumo locais da população, reduzir impactos ao meio ambiente, gerando ocupação e renda para estas regiões.

Porém, algumas políticas públicas (PRONAF-Agroindústria, SIM e SUASA), tem deixado a desejar, exemplo este, é os altos índices de informalidade destas agroindústrias, ficando estas excluídas dos mercados formais, inclusive dos mercados institucionais (PAA e PNAE) (GAZOLLA, 2014), sendo que estes entraves, geram um efeito cascata, a exemplo da inoperância do SIM nos municípios, além da produção destes alimentos não estarem sendo acompanhados, para a garantia do controle de qualidade e inocuidade dos mesmos (uma forma de garantir a SAN é food safety), uma série de outras políticas públicas são prejudicadas, pois dependem das primeiras (SIM e SUASA), para serem operacionalizadas (PAA e PNAE), obstruindo assim a efetiva geração da SAN, proposta pelas referidas políticas, quando pensamos em produtos processados e que exigem inspeção por parte de órgão fiscalizadores (SIM e VS).

Para Maluf (2009, p.12), nos últimos anos “a sociedade brasileira vem sendo sensibilizada para a condição dos que não tem acesso aos alimentos”, tendo um avanço muito importante na SAN, obtendo se reduções importantes nos índices de pobreza extrema no país.

Entre as áreas mais importantes para o avanço deste processo, foi a “agricultura familiar, o abastecimento alimentar, as políticas sociais, a alimentação escolar e as ações de nutrição e saúde” (MALUF, 2009, p.161). Sendo que, neste universo social, as agroindústrias familiares rurais, têm tido um papel destacado na geração da SAN, especialmente local/regional, já que a

produção e comercialização de seus alimentos diferenciados em relação as cadeias agroalimentares convencionais, tem se dado através de cadeias curtas de abastecimento alimentar (Gazolla, 2014), com alimentos seguros e com preços acessíveis, além do atendimento aos mercados institucionais (PAA e PNAE). Contribuindo fortemente para a estruturação da soberania e segurança alimentar e nutricional de nosso país.

CAPÍTULO II

2 CONTEXTO HISTÓRICO DA PRODUÇÃO E PROCESSAMENTO DE