O Serviço Social é uma profissão historicamente situada e socialmente construída (Healy, 2001; C. Santos, 2008), é um produto do seu tempo, isto é, um reflexo da sociedade que o produz (Dominelli, 2004). Amaro (2012) argumenta que as mudanças societais penetram o Serviço Social nos seus princípios e valores, bem como a sua identidade, as suas funções e o seu objecto, e neste sentido, para o compreender é necessário situá-lo no contexto económico, prático e ideológico, o que exige profissionais com capacidade reflexiva que desenvolvam práticas adequadas e fundamentadas.
“(…) o processo de intervenção profissional implica os pressupostos de deciframento analítico da estrutura, da conjuntura e da situação, numa perspectiva relacional e de articulação da participação do sujeito e actuação em redes e vínculos que permitam mediações gerais e particulares de assegurar direitos e que se transformem em estratégias de acção. ” (Faleiros, 2011: 756).
O Serviço Social como profissão é produto das circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais que ocorrem à escala global. Neste contexto, “o Serviço Social pode ser considerado uma profissão da modernidade, uma vez que está fundado sobre alguns dos princípios básicos da modernidade, tais como direitos humanos, justiça social e equidade.” (Branco e Amaro, 2011: 659)
O Serviço Social, na sua verdadeira acepção, com a sua concepção científica, técnica e profissional, é um produto genuíno do século XX, e situa-se na divisão socio-técnica do trabalho24. Possui um carácter de intervenção sobre o social e tem como objectivo máximo o desenvolvimento dos seres humanos.
“O Serviço Social tem uma relação implícita com o processo de democratização das sociedades e com a construção de políticas públicas e uma relação explícita com os direitos humanos, a justiça social e a equidade.” (Carvalho e Pinto, 2014: 3)
O Serviço Social é uma actividade socialmente construída (Payne, 1991; 2002b), e como profissão tal como hoje é entendida, teve início no final do século XIX (Mouro, 2001). Desenvolve a sua acção tanto no controlo, na normalização e disciplina, na adaptação ou na integração, como no sentido da emancipação, da libertação, da capacitação ou da transformação (Carvalho e Pinto, 2014).
Não obstante o Serviço Social intervir sobretudo ao nível micro, ele não pode descartar as influências macro, uma vez que as transformações sociais influenciam a direcção, o conteúdo e as condições da profissão. É neste pressuposto que Albuquerque (2011: 116) sustenta que “o Serviço Social é, hoje mais do que nunca, intimado a acompanhar as
24 Enquanto produto do desenvolvimento capitalista e decorrente da necessidade de responder à acção do Estado sobre a Questão Social (Martins, 1999).
movimentações e lógicas da sociedade, superando os limites de mero intermediário.”, face à densidade problemática cada vez mais complexa que se lhe apresenta (Amaro, 2014).
Não é recente a preocupação do Serviço Social em compreender as mudanças que ocorrem na sociedade. Os problemas económicos e as suas consequências políticas e sociais sempre interessaram ao Serviço Social, bem como as transformações daí advindas. Hoje desenham- se novas configurações sociais e o Serviço Social como profissão não se encontra parado no tempo e no espaço, transformando-se e alterando-se, tal como a sociedade de que é parte integrante, e também agente transformador (Gibelman, 1999).
Para Isabel Vieira (2015: 17)
“Quando reflectimos sobre a função e o papel do Serviço Social nas sociedades actuais, este parece situar-se num cenário, ou num palco de representações, entre luzes e sombras, onde se representa o jogo da regulação versus emancipação e o da normalização versus autonomia.” (itálicos no original).
Desenham-se, na contemporaneidade, ao nível macro, socio-económico, político e cultural, grandes tendências societais da modernidade tardia, nomeadamente a crescente complexidade
“(…) das sociedades (pós-)modernas, a fragmentação das realidades sociais, o desaparecimento do pleno emprego, o aumento da precariedade no mercado de trabalho, em conjunto com o aprofundamento dos «factores de crise» que assinalaram o início da primeira crise do Estado-Providência, formam o pano de fundo a partir do qual toda a política social enfrenta desafios e mudanças. Essas tendências de mudança sofreram uma significativa aceleração com a atmosfera generalizada de crise, incerteza e vulnerabilidade que se instalou em diferentes domínios da realidade (financeira, económica, social, cultural, entre outras).” (Branco e Amaro, 2011: 660)
Nas sociedades complexas, as experiências quotidianas estão integradas num conjunto de dimensões, fluxos, redes e informação complicadas, o que leva Webb (2006) a definir as sociedades modernas como complexas, devido à velocidade de mudança, ao vasto leque de possibilidades de escolha e grande quantidade de informação a ter em conta num ambiente instável.
Partindo das acepções dos diferentes autores estudados de diferentes correntes de pensamento, assim podemos conceptualizar a sociedade contemporânea, designadamente: modernidade tardia, capitalismo pós-industrial, pós-modernidade, modernização reflexiva, globalização, sociedade de risco, sociedade complexa, entre outras (Giddens, 1996; 2006; Bauman, 2001a; Beck, 1998; Webb, 2006; Castells, 2007).
O denominador comum de todas estas designações é a constatação de paradoxos, tensões, riscos e incertezas que atravessam, de forma indelével, a sociedade contemporânea, dominada pela tecnologia e informação assistindo-se ao aprofundamento das desigualdades
sociais (por um lado a concentração da riqueza e por outro o agravamento da pobreza; o elevado índice de desemprego e a precariedade dos vínculos e condições laborais, entre outras). Nunes (2010: 61) argumenta que
“o social aparece cada vez mais como um campo em que se densifica a complexidade das manifestações das desigualdades (sociais, económicas e culturais), nomeadamente sob formas de pobreza (manifesta e oculta) e de exclusões sociais”.
Estas persistentes desigualdades sociais têm um carácter estrutural e multidimensional expresso nos níveis de pobreza e exclusão social, e constituem-se cada vez mais como uma ameaça aos direitos sociais, o que se arroga como um desafio ao Serviço Social, questionando-o e aumentando as exigências à sua acção tendo em conta as crescentes indeterminações e paradoxos das sociedades modernas.
Desenham-se, desta forma, na contemporaneidade, ao nível macro, socio-económico, político e cultural, grandes tendências societais da modernidade tardia, nomeadamente processos de globalização ou planetarização. Tendo em conta a diluição das fronteiras geográficas e simbólicas, os problemas sociais deixam de ser locais e passam a ser “glocais”, uma expressão local das dinâmicas globalizadas (Faleiros, 2001; Fook, 2002; Mouro, 2009). Por outro lado, os sistemas tradicionais de governação e de protecção social, locais por excelência, vêem diminuída cada vez mais a sua margem de actuação para resolver esses problemas planetarizados.
Verifica-se, por outro lado, uma redução da responsabilidade efectiva do Estado e das suas funções na garantia dos direitos sociais (Estado mínimo) com fortes tendências para a descentralização/delegação de funções sociais (Gibelman, 1999), ou mesmo para a privatização, como adverte Fook (2002) – Estado enquanto comprador e pagador de serviços aos privados com e sem fins lucrativos. Esta redução da intervenção do Estado origina um enfraquecimento das estruturas de protecção social, colocando em risco a universalidade dos direitos. Esta tendência para a redução nos recursos afectos ao social, ao mesmo tempo que são cada vez mais as solicitações, conduz ao que Faleiros (2001) designa por tendência de desmantelamento dos direitos sociais, através do maior peso da privatização do bem-estar social.
O Serviço Social opera neste contexto balizado pela política social, tendo a desigualdade social, a incerteza, a diversidade e a contingência no centro (Nunes, 2010). Efectivamente, a política social fornece uma significativa parte das condições institucionais (política, jurídico- normativa e financeira) por onde se realiza, através da agência de assistentes sociais, o campo do Serviço Social (ibidem). Também Branco e Amaro (2011: 665) reforçam essa
ideia, ao considerarem que “os propósitos, procedimentos e objectivos do Serviço Social não são imunes aos ventos de mudança da política social contemporânea.”
Vários autores têm estabelecido um paralelismo do desenvolvimento e consolidação da profissão de Serviço Social com a evolução do Estado-Providência (e.g. Autès, 2004; Castel, 2005), e com a modernidade e suas continuidades, sejam elas pós-modernidade, modernidade tardia (Giddens, 2002), modernidade líquida (Bauman, 2001a), ou sociedade de risco (Beck, 1998) entre outras designações (Mouro, 2006; Parton, 1994).
Este vínculo do Serviço Social e do Estado Social envoltos numa dinâmica comum (Castel, 2005) origina que quando o Estado Social passa por convulsões, como na actualidade, também o Serviço Social seja interpelado, tendo ambos que responder a consecutivos novos desafios e a novas condições (Autès, 2004).
É devido a estas dinâmicas que Mouro (2009) argumenta que temos que considerar o Serviço Social no plural e o Serviço Social no singular, sendo que o primeiro se refere à caracterização macro da profissão e a segunda acepção se refere aos padrões culturais do exercício profissional contextualizado no espaço-tempo.
Advoga esta autora que
“(…) é simplesmente falacioso falar de um Serviço Social ao nível da sociedade contemporânea; deve-se sim falar de modelos contemporâneos de Serviço Social. Estes, por sua vez, diferenciam-se de acordo com a sua expressão cultural e identitária” (ibidem: 32).
O Serviço Social desenvolve práticas profissionais na interacção dinâmica de vários factores, nomeadamente as forças de evolução do próprio Serviço Social, em particular as dinâmicas de evolução da profissão, mas igualmente a influência das políticas sociais “glocais” (Mouro, 2009). Isto significa que o Serviço Social não tem apenas uma só face, mas apresenta diferentes configurações e particularidades, tantas quantas as sociedades nas quais opera, sendo por isso mesmo uma prática profissional profundamente heterogénea.
Desta forma, com as alterações da modernidade à data da emergência do Serviço Social, a profissão terá de acompanhar de forma sistemática essas alterações, tendo de se reinventar enquanto pensamento e acção (Mouro, 2001; 2006). Daí que seja fundamental compreender quais os aspectos fundamentais dos novos contextos societais onde o Serviço Social desenvolve a sua acção, analisando-o “através das lentes teóricas da sociedade de risco, do neoliberalismo e da modernidade tardia.” (Webb, 2006: 4).