O abate de animais para o consumo é algo natural uma vez que a carne de alguns animais é um dos principais alimentos da dieta alimentar do homem, bem como de outros animais.
Questiona-se, no entanto, quanto à forma de abate desses animais, para que não sejam praticados atos de crueldade que levem o animal ao sofrimento.
Nesse sentido podemos citar a Declaração Universal dos Direitos dos animais, proclamada em 27 de janeiro de 1978, em Assembléia da UNESCO realizada em Bruxelas (Bélgica) que em seu artigo 3º, 2 prevê que “se a supressão de um animal é necessária, deve ser instantânea, sem dor nem angústia” e em seu artigo 9º preceitua: “no caso de criação para alimentação, o animal deve ser nutrido, alojado, transportado e morto sem que disto resulte para ele ansiedade ou dor.”196
Em nosso ordenamento jurídico podemos citar o Decreto 2.244/97 que modificou o Decreto 30.691/52 que aprova o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal, estabelecendo em seu artigo 135 e parágrafos, as seguintes regras:
Art. 135 - Só é permitido o sacrifício de animais de açougue por métodos humanitários, utilizando-se de prévia insensibilização baseada em princípios científicos, seguida de imediata sangria. § 1º Os métodos empregados para cada espécie de animal de açougue deverão ser aprovados pelo órgão oficial competente, cujas especificações e procedimentos serão disciplinados em regulamento técnico.
§ 2º É facultado o sacrifício de bovinos de acordo com preceitos religiosos (jugulação cruenta), desde que sejam destinados ao consumo por comunidade religiosa que os requeira ou ao comércio internacional com países que façam essa exigência.197
196 BECHARA, Erika. op. cit. p.96.
No Estado de São Paulo já tínhamos a Lei Estadual 7.705/92, alterada pela lei 10.471/99 que estabelece em seu artigo 1º e parágrafos:
Artigo 1º - É obrigatório em todos os matadouros, matadouros-frigoríficos e abatedouros, estabelecidos no Estado de São Paulo, o emprego de métodos científicos e modernos de insensibilização aplicados antes da sangria por instrumento de percussão mecânica, por processamento químico ("gás CO2"), choque elétrico (eletronarcose), ou ainda, por outros métodos modernos que impeçam o abate cruel de qualquer tipo de animal destinado ao consumo, com exceção dos abates regidos por preceitos religiosos (jugulação cruenta), direcionados ao consumo pelas comunidades a que se destinam, mediante solicitação dos matadouros, matadouros-frigoríficos ou abatedouros aos órgãos oficiais, sem prejuízo da observância ao que dispõem os artigos 6º, 7º e 8º da presente lei (redação dada pela Lei Estadual 10.470, de 20 de dezembro de 1.999). § 1º É vedado o uso de marreta e da picada do bulbo (choupa), bem como ferir ou mutilar os animais antes da insensibilização, com exceção dos abates regidos por preceitos religiosos e direcionados ao consumo pelas comunidades a que se destinam, desde que as atividades de insensibilização e abate sejam previamente normatizadas quanto às formas e efetuadas por profissionais competentes para o exercício da função, devidamente credenciados pelas entidades oficiais e religiosas específicas. (redação dada pela Lei estadual 10.470, de 20 de dezembro de 1.999).
§ 2º Nos casos em que se utilizar tanque de escaldagem, a velocidade no trilho aéreo será regulada de forma a impedir a queda de animais ainda vivos nestes recipientes.198
Tais normas têm como objetivo disciplinar o abate dos animais de modo que eles sofram o menos possível, sendo este denominado pela doutrina de “abate humanitário”.
Percebe-se pela leitura dos dispositivos acima que, embora o legislador tenha se preocupado com o sofrimento do animal no momento do abate para o consumo, não agiu da mesma forma quanto ao abate do animal para rituais religiosos, uma vez que permitiu sua prática.
Segundo Edna Cardozo Dias, o abate humanitário é aquele “que torna inconsciente os animais, é realizado previamente à sangria e cuja sensibilização é instantânea e eficaz.”199
198 Disponível em: <http://www.sosfauna.braslink.com/leis_770592.htm>. Acesso em: 2 set. 2007.
Para Erika Bechara, o abate do animal é necessário para o consumo humano, porém devem ser aplicados métodos os menos cruéis possíveis para a extirpação da vida dos animais destinados ao consumo.200
No seu entendimento o que caracteriza a crueldade contra o animal não é matá-lo para o consumo, mas sim submetê-lo a sofrimentos desnecessários no momento do abate, e em muitos casos, também quando da sua criação:
Produtores gananciosos em busca de lucros pouco se importam se os animais, confinados em cubículos ínfimos para que não criem músculos e mantenham, assim, a carne macia (bezerros, frangos, etc) ou mantidos sob iluminação artificial vinte e quatro horas por dia para botar mais ovos (galinhas), estão sendo vítima de maus-tratos. Isso tudo se justifica desde que seja bom para os negócios.201
Questão interessante é levantada por Laerte Fernando Levai sobre o abate de animais, não para o consumo, mas para serem utilizados em rituais religiosos.
Para ele, embora os dispositivos constitucionais presentes no artigo 5º, assegurem a liberdade de cultos e de liturgias (inciso VI), o direito ao exercício de crença religiosa (inciso VIII), o livre exercício de quaisquer trabalhos, ofícios e profissões (inciso XIII) e os princípios gerais da atividade econômica (art. 170), a tutela dos animais também é protegida constitucionalmente, vedando-se práticas agressivas contra eles.202
Argumenta que embora a liberdade religiosa deva ser garantida, há limites morais para o seu exercício, não podendo tais práticas serem truculentas.203
No seu entendimento, os abates para fins religiosos, submetem os animais a uma crueldade ainda maior que a causada no abate humanitário, devendo a
200 BECHARA, Erika. op. cit. p.96. 201 Ibidem. p.99.
202 LEVAI, Laerte Fernando. op. cit. p.86. 203 Ibidem. p.87.
jugulação cruenta (secção das artérias carótidas e das veias jugulares com uma faca), feita sem sensibilização prévia do animal, ser banida de nossa legislação.204
Nesse sentido, cita a decisão da magistrada paulista, Dra. Elaine Cristina Pazzini que julgou parcialmente procedente a ação civil pública ambiental movida pela promotoria de São José dos Campos contra um matadouro que perfazia abate cruel de bovinos e suínos, com o ritual muçulmano inclusive. Para ele, o ponto mais relevante da respeitável sentença foi a declaração incidental da inconstitucionalidade da lei nº 10.470/99, reconhecendo-se a crueldade implícita na jugulação cruenta:
É bem verdade que a assim chamada jugulação cruenta, consiste na degolação do bovino mediante secção do couro, do músculo, do esôfago, da traquéia, das artérias carótidas e das veias jugulares com faca, manualmente, tem por pano de fundo motivação religiosa. Mas menos verdade não é que essa prática, objetivamente considerada, abarca crueldade, porquanto impinge ao animal – qualquer leigo o sabe – dor e sofrimento. Por isso e porque tanto a Constituição Federal quanto a Constituição Estadual referem-se de forma genérica a práticas que submetam os animais a crueldade, vedando-as, sem excepcionar ou fazer distinção a qualquer hipótese – e, como se sabe, onde a lei não distingue não é dado ao intérprete distinguir -, é que a superveniente Lei Estadual que veio a autorizar a jugulação cruenta afigura-se mesmo inconstitucional.205
Conclui a Juíza que:
Destarte, declaro no âmbito da presente demanda a inconstitucionalidade da Lei Estadual nº 10.470 de 20 de dezembro de 1999, e, por conseguinte, conforme postulado pelo autor imponho à ré obrigação de não fazer consistente em não realizar o abate muçulmano tradicional, denominado jugulação cruenta, sem insensibilização prévia do animal a ser sacrificado, assim como não realizar qualquer outra forma de abate ritual que abarque crueldade ao animal, sem proceder à sua prévia insensibilização”(autos nº 2.144/03, 7ª Vara Cível de São José dos Campos).206
204 LEVAI, Laerte Fernando. op. cit. p.87. 205 Apud. LEVAI, Laerte Fernando. op. cit. 88.
Finaliza o autor parabenizando a decisão da Juíza, já transitada em julgado, fazendo votos que ela inspire medidas semelhantes em todos os cantos do país, porque a chacina de animais que ocorre dentro dos matadouros, tão cruel quanto injusta, está a reclamar urgentes providências judiciais.207
Realmente merece aplausos a decisão da MMª Juíza. Embora a liberdade para o exercício de cultos religiosos seja garantido constitucionalmente, ele não pode conflitar com outros dispositivos legais constitucionais como a vedação da crueldade de animais previsto no artigo 225, § 1º, inciso VII. No caso em questão, embora seja uma tradição religiosa e cultural a jugulação cruenta, ela não pode ser feita com o sofrimento do animal como permite a Lei 10.470/99 já que não exige a prévia insensibilização do animal para o ato. Assim, agiu certo a magistrada em considerá-la inconstitucional e em exigir a prévia insensibilização dos animais quando submetidos a tais rituais.