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CAPÍTULO 3. MANDADOS DE CRIMINALIZAÇÃO

3.3. Mandados de criminalização expressos (ou explícitos)

3.3.1. O cumprimento dos mandados expressos de criminalização pelo legislador

3.3.1.2. Crimes hediondos e assemelhados

3.3.1.2.4. Terrorismo

Infelizmente, este pode ser apontado como exemplo típico de mandado de criminalização completamente ignorado pelo legislador. Embora a Constituição de 1988 tenha previsto expressamente que o terrorismo é crime equiparado aos hediondos (art. 5º, XLIII), e arrolado entre os princípios que regem o Brasil nas suas relações internacionais o repúdio ao terrorismo (art. 4º, VIII), o fato é que, não há no nosso país, até agora, qualquer lei cuidando de assunto de tamanha preocupação em todo o mundo.

Apesar da Lei de Segurança Nacional - Lei n. 7.170/83 – falar em “atos de

terrorismo”, no seu artigo 20258, não há nesta lei definição do que é terrorismo e, tampouco quais são esses atos que o definiriam259.

Outras leis esparsas também citam o terrorismo como se já houvesse descrição típica do mesmo, como a Lei n. 8.078/90, no seu artigo 2º, caput260, e a Lei n. 9.613/98, que no seu artigo 1º, inciso II, prevê como um dos crimes primários à lavagem de dinheiro o terrorismo e seu financiamento. Entretanto, os dois casos não passam de menção ao terrorismo sem qualquer detalhamento a respeito do que consiste tal conduta.

258 “Art. 20, Lei n. 7.170/83. Devastar, saquear, extorquir, roubar, seqüestrar, manter em cárcere

privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas.

Pena – reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos.

Parágrafo único. Se do fato resulta lesão corporal grave, a pena aumenta-se até o dobro; se resulta morte, aumenta-se até o triplo”.

259 Nesse sentido, PONTE, Antonio Carlos da. (Op. cit., p. 154). Interessante a observação feita por Luiz

Carlos dos Santos Gonçalves em relação ao artigo 15 da Lei n. 7.170/83: “O artigo 15, por sua vez,

embora descrevendo a conduta de ‘sabotagem’, traz comportamentos que podem ser considerados terroristas” (Op. cit., p. 243). “Art. 15. Praticar sabotagem contra instalações militares, meios de

comunicações, meios e vias de transporte, estaleiros, portos, aeroportos, fábricas, usinas, barragem, depósitos outras instalações congêneres. Pena – reclusão, de 3 a 10 anos. § 1º Se do fato resulta; a) lesão corporal grave, a pena aumenta-se até a metade; b) dano, destruição ou neutralização de meios de defesa ou de segurança; paralisação, total ou parcial, de atividade ou serviços públicos reputados essenciais para a defesa, a segurança ou a economia do País, a pena aumenta-se até o dobro; c) morte, a pena aumenta-se até o triplo.§ 2º Punem-se os atos preparatórios de sabotagem com a pena deste artigo reduzida de dois terços, se o fato não constitui crime mais grave”.

260 “Art. 2º, caput: Os crimes hediondos, a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas

Cabe lembrar, ainda, que o Brasil é parte da Convenção Internacional sobre a Supressão de Atentados Terroristas com Bombas de 1997, promulgada pelo Decreto nº 4.394, de 26 de setembro de 2002, que no intuito de definir o terrorismo estabelece no seu artigo 2º:

“Art. 2º. 1. Comete um delito no sentido desta Convenção qualquer pessoa que ilícita e intencionalmente entrega, coloca, lança ou detona um artefato explosivo ou outro artefato mortífero em, dentro ou contra um logradouro público, uma instalação estatal ou governamental, um sistema de transporte público ou uma instalação de infra-estrutura: a) Com a intenção de causar morte ou grave lesão corporal; ou b) Com a intenção de causar destruição significativa desse lugar, instalação ou rede que ocasione ou possa ocasionar um grande prejuízo econômico. 2. Também constitui delito a tentativa de cometer qualquer dos delitos enumerados no parágrafo 1. 3. Também constitui delito: a) Participar como cúmplice nos delitos enunciados nos parágrafos 1 ou 2; ou b) Organizar e dirigir outros na perpetração dos delitos enunciados nos parágrafos 1 e 2; ou c) Contribuir de qualquer outra forma na perpetração de um ou mais dos delitos enunciados nos parágrafos 1 ou 2 por um grupo de pessoas que atue com um propósito comum; essa contribuição deverá ser intencional e ocorrer seja com a finalidade de colaborar com a atividade ou o propósito delitiva genérico do grupo, seja com o conhecimento da intenção do grupo de cometer o delito ou delitos de que se trate”.

Entretanto, não se trata de tipificação do crime de terrorismo, até porque se a convenção tivesse tipificado a conduta, haveria um enorme obstáculo a derribar, referente à implantação no sistema punitivo interno de uma norma penal incriminadora fruto de uma convenção internacional.

Outrossim, basta observar que no bojo desta Convenção existe a determinação para que cada Estado Parte tome as medidas necessárias para tipificar e punir adequadamente as condutas indicadas no seu artigo 2º. É o que se verifica nos seus artigos 4º e 5º, que prevêem respectivamente:

“Art. 4º. Cada Estado Parte adotará as medidas necessárias para: a) Tipificar como crime, de acordo com sua legislação interna, os delitos indicados no artigo 2 desta Convenção; b) Punir esses delitos com penas adequadas, que levem em consideração a gravidade de sua natureza”.

“Art. 5º. Cada Estado Parte adotará as medidas necessárias, inclusive, quando for o caso, a adoção de legislação interna, para garantir que atos criminosos compreendidos no âmbito desta Convenção, em especial os que pretendam ou tenham o propósito de criar um estado de terror na população em geral, em um grupo de pessoas ou em determinadas pessoas, não se possam, em nenhuma circunstância, justificar por considerações de natureza política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou de qualquer natureza semelhante e sejam apenados de forma consistente com sua gravidade”.

Da apreciação destes dispositivos vem à baila a seguinte questão: Os mandados de criminalização podem decorrer de tratados, convenções ou pactos internacionais?

Longe do objetivo de perscrutar o tema, que envolve enorme controvérsia sobre a natureza das normas decorrentes de tratados, convenções e pactos internacionais, o que demandaria um trabalho apartado da presente pesquisa, mas somente a título de levantar alguns pontos que compõem o debate, deve-se “ad initio” verificar o conteúdo do § 3º do artigo 5º da Constituição, acrescentado pela Emenda Constitucional n. 45, de 8 de dezembro de 2004, e que dispõe: “Os tratados e convenções internacionais sobre

direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”.

Em relação à Convenção Internacional sobre a Supressão de Atentados Terroristas com Bombas que é de 15 de dezembro de 1997, e que foi introduzida no ordenamento jurídico interno pelo Decreto n. 4.394, de 26 de setembro de 2002, cabe verificar se mesmo tendo sido aprovada com quórum diverso do fixado no § 3º do artigo 5º da “Lex Mater”, é possível admitir que suas normas tenham caráter constitucional, ou, se devem ser vistas apenas como normas infraconstitucionais.

Para parcela da doutrina, os tratados e convenções internacionais que versem sobre direitos humanos devem ser recebidos com status de norma constitucional, ainda que aprovados antes da Emenda Constitucional n. 45 com quórum diferenciado261.

Assim sendo, mesmos os tratados e convenções que foram incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro antes da Reforma do Judiciário (EC n. 45/2004),

261 Nesse sentido: PIOVESAN, Flávia. Reforma do Judiciário e Direitos Humanos. In: André Ramos

Tavares, Pedro Lenza, Pietro de Jesús Lora Alarcón (Coord.), Reforma do Judiciário. São Paulo, Método, 2005, p. 67. Sobre o assunto consultar na mesma obra o posicionamento, em igual sentido, de: FRANCISCO, José Carlos. Bloco de constitucionalidade e recepção dos tratados internacionais. Op. cit., p. 99. Vide também: PIOVESAN, Flávia. A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais

de Proteção dos Direitos Humanos. In: Temas de Direitos Humanos. 2ª ed. São Paulo, Max Limonad, 2003, p. 44-56; PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 7ª ed. São Paulo, Saraiva, p. 51/77, 2006; LAFER, Celso. A Internacionalização dos Direitos Humanos:

independentemente, do fato das respectivas aprovações terem sido dadas por outro quórum que não o qualificado, têm força de norma constitucional.

Quanto ao posicionamento do Supremo Tribunal Federal é de se reconhecer que, recentemente, surgiu um movimento no sentido de se começar a admitir a prevalência da posição doutrinária acima exposta.

A nossa Corte Suprema no passado, por diversas vezes, havia perfilado o entendimento de que os tratados e convenções internacionais ao ingressarem no ordenamento jurídico situam-se no mesmo patamar hierárquico das leis ordinárias262.

Decisões mais recentes começaram a atribuir aos tratados e convenções internacionais o caráter de “supralegalidade”, isto é, não obstante serem considerados infraconstitucionais, não podem situar-se no mesmo nível das leis ordinárias, devendo, pois ocuparem um lugar especialmente reservado a eles. Assim, ao mesmo tempo em que não podem afrontar a Constituição, não devem, porém, ser colocados ao lado das leis ordinárias, devendo, pois, ficar acima destas263.

E, como citado acima, atualmente há um redirecionamento dentro do Supremo Tribunal Federal para admitir que os tratados que foram aprovados antes da inserção do § 3º no artigo 5º da Carta Magna, e que versem sobre direitos humanos, tenham natureza de norma constitucional, passando a integrar o chamado bloco de constitucionalidade264.

Se, realmente, essa for a posição a ser seguida em relação aos documentos internacionais que versem sobre direitos humanos aprovados antes da Emenda n. 45/04, e, também, considerando-se que os tratados e convenções sobre direitos humanos aprovados pós Reforma do Judiciário com o quórum qualificado do § 3º do artigo 5ª da

262 Foi no RE nº 80.004/SE, julgado em 01/06/77, que pela primeira vez o STF adotou a orientação de que

os tratados e convenções internacionais estariam no mesmo nível hierárquico das leis ordinárias. Embora o relator do respectivo acórdão, o então Min. Xavier de Albuquerque, baseado na jurisprudência antecedente, tenha votado pela prevalência dos tratados e convenções internacionais sobre a legislação infraconstitucional, prevaleceu a tese contrária. Posteriormente vários outros julgados acolheram a mesma posição. Nesse sentido, vide HC nº 72.131/RJ; ADI nº 1.480-3/DF; RE nº 206.482-3/SP; HC nº 81.319- 4/GO.

263 Vide RE 466.343-1/SP.

Constituição, passam a ter status de normas constitucionais, a questão da possibilidade desses instrumentos internacionais estabelecerem mandados de criminalização poderá ser ao menos colocada em pauta.

Mas outros obstáculos podem surgir. Será que todos os Estados-parte cumpririam essas ordens de criminalização? Caso não cumprissem haveria como obrigá-los a fazê-lo? Na prática haveria efetiva vinculação? Enfim, a questão é extremamente delicada e como não há intenção de esquadrinhar todo o assunto, mas somente promover uma reflexão sobre o tema, por ora basta.

Isso, porém, não afeta em hipótese alguma a constatação da existência, no Brasil, de mandado de criminalização em relação ao terrorismo, tendo em vista que ele está previsto expressamente da Constituição.

Destarte, a despeito da discussão acima posta, o que deve ficar registrado é que a ordem constitucional de criminalização atinente ao terrorismo, até o presente momento, está sendo completamente ignorada pelo legislador brasileiro.

3.3.1.3. Ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem

No documento MESTRADO EM DIREITO PENAL SÃO PAULO 2010 (páginas 121-125)