Esquema 8: organizadores e conectores; extraído de Adam (1999: 59)
5. Tipos discursivos
5.3. Tipos discursivos e géneros de texto
Para Bronckart, os géneros de texto, considerando a sua maleabilidade, dinamismo e heterogeneidade, não podem ser objeto de uma classificação estável e
104 definitiva. Além disso, o autor defende que “é unicamente ao nível desses segmentos [tipos discursivos] que podem ser identificadas regularidades de organização linguísticas” (Bronckart, [1997]1999: 138). Deste ponto de vista, apesar de os tipos discursivos entrarem na constituição de qualquer género, no ISD, assume-se que não é possível estabelecer uma relação biunívoca entre os géneros de texto e os tipos discursivos, ou seja, não podemos identificar os géneros textuais a partir da ocorrência dos tipos discursivos. Contudo, entre os tipos discursivos e os géneros de texto há uma relação necessária, ou seja, um género é sempre constituído por um ou mais tipos discursivos. Esta relação vinculativa, como observa Miranda (2008: 87), está também subjacente nas próprias noções de géneros de texto e de tipos discursivos: por um lado, a noção de género como “configuração de escolhas” implica a seleção dos tipos discursivos e, por outro, na definição de tipos discursivos como “segmentos constitutivos de um género”. Segundo Miranda (2008: 87):
O termo ‘constitutivo’ indica, então, uma relação vinculativa necessária, de modo que os tipos de discurso não seriam simples configurações eventuais nos géneros, mas consti- tuintes fundamentais. Poder-se-ia dizer, portanto, que um primeiro modo ou nível de re- lação entre géneros e tipos é esta espécie de ligação em que uns estão constitutivamente vinculados aos outros. Isto implica que os géneros mobilizam sempre, e necessariamente, pelo menos um tipo de discurso.
Por outro lado, como se observou no ponto anterior, Bronckart, para explicitar a marcação linguística dos tipos discursivos, das variantes e dos tipos mistos, refere géneros em que os tipos de primeiro e de segundo nível ocorrem. De acordo com o autor, os tipos interativos primários ocorrem em géneros orais, como, por exemplo, entrevista, conversação, intervenção política (Bronckart, [1997]1999: 187), o primeiro subconjunto dos tipos interativos secundários está associado a géneros escritos como o romance, novela ou conto e o segundo subconjunto ocorre no género peça de teatro (Bronckart, [1997]1999: 188-189). Mais à frente, a propósito do tipo misto interativo-teórico, Bronckart ([1997]1999: 192) refere que este ocorre no âmbito de exposições orais e em exposições escritas, como, por exemplo, manuais, editoriais, brochuras etc). Já os relatos interativos primários são associados pelo autor a géneros orais (intervenção política, conversação e entrevista), enquanto os secundários, ocorrem em géneros escritos (romance e peça de teatro) (Bronckart, [1997]1999: 194). Quanto ao tipo narrativo teórico, na caracterização apresentada pelo autor, aparece associado a obras históricas e
105 à monografia científica, género a que também é associado o tipo misto interativo-teórico (Bronckart, [1997]1999: 209).
Além disso, a propósito da distinção de textos homogéneos e textos heterogéneos, Bronckart refere o seguinte:
Podem ser considerados homogéneos os exemplares de texto que são compostos por um único e mesmo tipo de discurso. Pertencem a este primeiro subconjunto os exemplares
do género conto, romance, novela, etc., compostos exclusivamente pelo tipo narração
e nos quais não aparece, portanto, nenhum segmento de discurso relatado nem nenhum segmento de comentário de autor. Pertencem também ao subconjunto dos textos homogéneos os exemplares do género enciclopédia, dicionário, etc., compostos
exclusivamente pelo tipo discurso teórico (…)
Bronckart, [1997]1999: 253; negrito nosso
A partir destas afirmações, podemos inferir que as relações entre géneros de texto e tipos discursivos não são totalmente aleatórias. Isto significa que determinados géneros tendem a ser compostos por tipos discursivos específicos, existindo, assim, alguma previsibilidade nos tipos discursivos que podem ou não ocorrer num dado género, como também sublinham as seguintes afirmações de Bronckart.
Um mesmo tipo discursivo pode, portanto, aparecer como elemento constitutivo de númerosos gêneros diferentes. A narração, por exemplo, aparece, geralmente, como tipo principal nos gêneros romance, novela, conto, policial, etc., mas pode também aparecer como tipo menor nos gêneros enciclopédia, manual, monografia, monografia científica, etc., mas aparece, também frequentemente, como tipo secundário nos gêneros romance, conto, novela, etc.
Bronckart, [1997]1999: 250
Embora o autor refira que os tipos discursivos não são exclusivos de um género, ao sublinhar que um só tipo pode ocorrer num grande número de géneros, não deixa de associar a ocorrência dos tipos discursivos a géneros específicos, bem como o número de tipos que são mobilizados, evidenciando que a sua ocorrência em determinados géneros é relativamente estável e previsível.
Tal como observa Miranda (2008: 87):
Isto permite considerar que não é qualquer tipo de discurso que aparece em qualquer género, mas que os géneros de texto estabilizam a mobilização de determinado(s) tipo(s) de discurso. Assim, haveria um ‘recorte’ operado no plano praxiológico. De facto, a opção por tipos de discurso específicos poderia ser vista como uma das escolhas que – organizadas em feixe – constituem uma configuração genérica particular.
106 Nesta perspetiva, podemos questionar se a ocorrência dos tipos discursivos não nos possibilita, em parte, a identificação de um género e, em que medida, a inscrição genérica dos textos determina a maior ou menor previsibilidade na ocorrência dos tipos discursivos. Como referido inicialmente, embora Bronckart não tenha aprofundado as relações entre géneros de texto e tipos discursivos, nos trabalhos mais recentes, o autor foca a necessidade de “identificar os recursos do sistema da língua que são utilizados de modo privilegiado para os géneros X e os recursos usados de modo privilegiado pelos tipos” (Bronckart, 2008: 41).
Neste sentido, considerando que os tipos discursivos são constitutivos de qualquer género, a identificação dos recursos da língua privilegiados num dado género passa também pela identificação dos tipos discursivos, que, por sua vez, implicam a mobilização de recursos de uma língua natural. Por outro lado, a necessidade de identificar os recursos privilegiados pelos tipos conduz-nos a uma outra questão: a de saber se um tipo discursivo, ao ser mobilizado em diferentes géneros, apresenta especificidades, isto é, uma configuração linguística específica. Além disso, mais recentemente, Bronckart sublinha o seguinte:
Enfim, resta um enorme trabalho a ser feito para identificar os níveis da organização dos textos nos quais se manifestam os traços da genericidade, as eventuais restriçôes de seleçâo sobre os tipos de discurso (na nossa perspectiva) ou os tipos de sequências (na de Adam), às eventuais seleções de subparadigmas lexicais, passando por outros aspectos ainda da complexa organização dos textos/discursos.
Bronckart, 2017b: 50
Para estas questões, são especialmente relevantes os trabalhos de Miranda (2007; 2008). Segundo a autora, podemos identificar três níveis de articulação entre géneros de texto e tipos discursivos, conforme evidencia o seguinte esquema: