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Transexualidade e intersexualidade: trans-inter-seções

No documento Transexualidades: um olhar multidisciplinar (páginas 67-81)

Liliana Lopes Pedral Sampaio Maria Thereza Ávila Dantas Coelho

Shirley Acioly Monteiro de Lima

Este capítulo busca discutir as aproximações entre a transexualidade e a intersexualidade a partir de pesquisas de campo e da prática clínica com pessoas transexuais e intersexo. Quanto mais nos aprofundamos nesses trabalhos, mais evidente fica que a discussão sobre a transexu- alidade e a intersexualidade vai além das dimensões médica e biológica e inclui a socialização e o modo como essas pessoas lidam com seu corpo e autoimagem e como são percebidas pelos grupos aos quais pertencem.

Diante das afirmações acima, podemos dizer que tanto a transexualidade como a interse- xualidade abrangem fatores que vão desde o biológico até o sociocultural, sendo as diferenças sexuais e de gênero centrais nesta discussão. Quando se fala de sexo, gênero, diferenças sexu- ais, masculino e feminino, fala-se de conceitos imersos no arcabouço cultural do qual fazemos parte desde o nosso nascimento, e até antes, se pensarmos que somos inseridos em relações familiares e sociais dos grupos pelos quais seremos recebidos. Ao nos apresentarmos ao mun- do, estamos ativamente nos relacionando com o meio social através da apresentação de quem somos e da interiorização de quem o mundo percebe que somos.

Chiland (2005, p. 31-32) destaca que “[...] as diferenças sociais entre os sexos, se não dei- xam de ter alguma relação com as diferenças biológicas, não são delas um decalque, um reflexo ou uma consequência direta; são uma interpretação, uma modificação e uma ampliação [...]”.

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Isso leva a crer que tudo o que se refere ao que é masculino e/ou feminino depende de como o grupo social se organiza em torno desses conceitos e como o próprio sujeito lida com eles. A concepção binária dos gêneros se baseia na suposição de características particulares a cada gênero, que devem ser compartilhadas por todos os que pertencem a um determinado gênero. O que foge a esses padrões é tido, muitas vezes, como anormal ou patológico.

[...] no final do século XVIII, o modelo único, o isomorfismo dos órgãos femininos e masculinos, deu lugar a um novo modelo onde prevalecia o dimorfismo radical, a divergência biológica [...]. Por volta de 1800, as diferenças fundamentais entre o homem e a mulher começaram a ser baseadas em distinções biológicas constatáveis. (LIMA, 2007, p. 25) [...] com uma insistência quase que perversa da compreensão das di- ferenças sexuais como uma questão de grau, gradações de um tipo básico masculino, houve um clamor para articular distinções corporais exatas [...]. (LAQUEUR, 2001, p. 17)

Para que se afirme o que foge à normalidade e, portanto, deva ser corrigido, a biomedicina e o discurso social comum se baseiam em características biológicas e na concepção binária se- gundo a qual o corpo masculino implica o pênis e o corpo feminino, a vagina. Algumas vezes po- dem acontecer desvios desse padrão, como é o caso das pessoas intersexo. O que dizer aos pais quando o aspecto externo dos genitais não permite identificar o “sexo biológico” com precisão? Que a criança não tem sexo? Que nasceu com os dois sexos? É importante salientar que, para as pessoas intersexo, a problemática ligada à sexualidade se apresenta, em grande parte dos casos, no momento do nascimento, pelo exame visual da genitália. Em casos de ambiguidade genital, nesse momento a equipe médica, junto com a família, para garantir uma adequação do corpo ao sistema binário masculino/feminino, decide qual “sexo biológico” será cirurgicamente construído, excluindo a possibilidade de decisão da própria pessoa.

Ainda tendo como referência a concepção binária, para as pessoas transexuais, por sua vez, a problemática se apresenta de outra forma, com o desacordo entre o “sexo biológico” e o gênero a que sente pertencer. Algumas vezes as pessoas transexuais passam boa parte da vida sentindo esse desacordo entre “sexo biológico” e gênero como um desconforto, sem saber nomear ou explicar o que lhes acontece, já que seus corpos são tidos como biologicamente nor- mais. Quando conseguem desvendar e explicar o que ocorre, buscam intervir sobre o corpo de acordo com sua identidade de gênero. No caso das pessoas intersexo, como já dito, na maioria das vezes essa decisão de intervenção quanto ao “sexo biológico” é feita pela equipe médica e pelos pais, sem a participação da pessoa em questão, antes mesmo que ela possa ter desenvol- vido uma percepção e sentimento a respeito de si mesmo.

Autores como Athayde (2001), Pinto e Bruns (2003), Murta (2007), dentre outros, revelam que as pessoas transexuais, sentem necessidade de adequar o seu corpo físico à sua autoi- magem, atingindo assim, um corpo que esteja em conformação com sua realidade subjetiva. Nos casos de intersexualidade, em que a escolha da construção do genital venha a ser poste- riormente considerada como equivocada, temos um desacordo entre os aspectos biológicos

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determinantes do sexo masculino ou feminino e o gênero ocasionando uma situação que, em parte, se assemelha à transexualidade. Há, nesses casos, um sentimento de desconforto, de não pertencimento ao “sexo biológico” que lhe foi designado ao nascer. Em outras situações, pode acontecer também que a cirurgia não seja realizada quando criança e que o gênero determinado pelos pais para a criação de seu filho(a) com genitália ambígua seja discordante do gênero a que sente pertencer, como é o caso da pessoa intersexo à qual iremos nos reportar.

Diante das questões apresentadas e considerando que as relações sociais são fundadas so- bre as diferenças percebidas entre os sexos, podemos dizer que, no caso das pessoas intersexo e transexuais, devemos resgatar a discussão sobre os significados atribuídos ao sexo e ao gênero em nossa sociedade. Para além da existência de marcadores da masculinidade e da feminilida- de, há que se considerar e rever as formas pelas quais lidamos com tais aspectos, quando eles se expressam por caminhos que se distanciam das vias convencionais, como os casos em que há uma mistura ou combinação entre os dois.

No que diz respeito ao corpo e à formação genital, até sete semanas após a fertilização, o embrião humano é um organismo bissexual com primórdios gonadais e genitais idênticos nos dois sexos. “Ou seja, o sexo genético (XX ou XY) está dado, mas ainda não é possível distinguir macro ou microscopicamente a diferença entre embriões com predestinação masculina ou fe- minina [...]”. (LIMA, 2007, p. 30)

Conforme descrito nos parágrafos anteriores, um aspecto central e comum à transexu- alidade e intersexualidade é o papel da construção social do gênero, feita a partir da leitura genital e definição social do que é pertinente à feminilidade e/ou à masculinidade. No caso da transexualidade, o desenvolvimento embrionário se dá “a contento” e temos, ao final de uma gestação, um corpo dito “normal” sob os aspectos biológicos. Na intersexualidade, entretanto,

[...] no processo de desenvolvimento podem ocorrer variações que re- sultem na formação de um corpo que não siga o estágio de desenvol- vimento completo, não podendo ser prontamente classificado como masculino ou feminino. A esse processo de diferenciação incompleto chama-se intersexo ou distúrbio de desenvolvimento do sexo (DDS). (LIMA, 2007, p.30)

Ou seja, falar sobre intersexualidade é falar de um sujeito com um corpo em desacordo com o esperado, quando constatado que suas características biológicas não correspondem a um desenvolvimento “normal” e à apresentação de uma genitália “tipicamente” feminina ou mas- culina. Essa ocorrência coloca o sujeito em “um ‘não lugar’, um ‘não ser’ feminino ou masculino”. (LIMA, 2007, p. 3) Nesse contexto, a condição de ambiguidade genital gera uma busca por uma solução corretiva, representada, em alguns casos, pela correção cirúrgica. A intervenção cirúr- gica sobre esse corpo, que não expressa necessariamente o masculino ou o feminino, pretende subordinar o corpo às exigências sociais e da própria medicina, buscando corrigir o que foge ao que é entendido como normalidade. Para a medicina, enquanto que na intersexualidade o problema está no corpo, em uma forma que “não atendeu” ao que era esperado biologicamente, na transexualidade o problema é classificado como um transtorno mental:

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Em 1980, a condição transexual teve seu lugar formalizado na psiquia- tria e na medicina, sendo agregada ao manual diagnóstico psiquiátri- co DSM III (Manual Diagnóstico e Estatístico das Desordens Mentais). Posteriormente, em 1994, com a publicação do DSM IV, o termo tran- sexualismo, utilizado até então, foi substituído por Transtorno de Iden- tidade de Gênero (TIG), delimitando mais claramente o fato de ser con- siderado um estado psicológico no qual a identidade de gênero está em desacordo com o sexo biológico. (ARÁN; MURTA; LIONÇO, 2009)

Portanto, se por um lado verificamos que a distinção entre “sexo biológico” e gênero, alia- da ao desejo de corresponder ao que é esperado em uma cultura, impulsiona as pessoas tran- sexuais na busca de adequação do corpo biológico ao gênero, no caso das pessoas intersexo a decisão sobre a intervenção cirúrgica, na infância, é tomada pelos profissionais da área médica. A busca de adequação do corpo e garantia de um “espaço social” motiva a correção cirúrgica sem, no entanto, considerar a possibilidade de decisão futura pela própria pessoa.

Para as pessoas transexuais, a busca das intervenções cirúrgicas e hormonais, sentidas como necessárias para uma adequação do corpo e minimização do seu sofrimento psíquico e desconforto social, pode colocá-las diante de outra problemática, que é entrar em contato com um sentimento de impotência frente à resistência de profissionais da saúde, que decidi- rão quem deverá ou poderá sofrer tais intervenções sobre um corpo que nasceu “perfeito”. Em muitos casos, são esses mesmos profissionais que realizam intervenções nos corpos das pessoas intersexo, na época do seu nascimento, baseados no princípio da beneficência. Esse princípio se refere à

[...] obrigação moral de agir em benefício de outros, admitindo-se que muitos atos não são obrigatórios, mas que as exceções, aceitas moral- mente, não invalidam a obrigação moral de promover às pessoas be- nefícios que atendam interesses legítimos e importantes. (VENTURA, 2010, p. 56)

Buscando compreender como essas ideias sobre o corpo e seu lugar social se constroem, encontramos estudos da psicologia e da psicanálise acerca da distinção entre sexo e gênero. Ceccarelli (2008), por exemplo, destaca que, em Freud, a distinção de gênero começa em uma etapa anterior à castração e não leva em conta a anatomia, tendo como base a distinção pai/mãe.

[...] A apresentação dos gêneros se faz sem levar em conta o órgão se- xual. Isso significa que o que distingue o gênero não é o sexo anatômi- co, e inversamente o sexo anatômico não garante a priori, o gênero [...]. (CECCARELLI, 2008, p. 56)

[...] Trata-se então de dois movimentos distintos que ocorrem em mo- mentos diferentes: um, a distinção dos gêneros; outro, a diferença dos sexos [...]. (CECCARELLI, 1999, p. 8)

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No caso das pessoas intersexo, na sua grande maioria, não lhes é dada a possibilidade de conhecer o seu corpo original do nascimento, pois, para aplacar uma angústia social frente a um corpo ambíguo, este é cirurgiado e designado. No caso das pessoas transexuais, a situação é di- ferente. A transexualidade não pode ser identificada através de um exame físico, como acontece na intersexualidade. Ela não tem uma forma física, visível ou palpável. Não existe um exame médico que possa identificá-la, no nascimento, e classificá-la nas suas variações, como ocorre nos casos categorizados como intersexualidade. A transexualidade é uma questão, sobretudo, psíquica, subjetiva, que parte da própria pessoa ao se afirmar como alguém que não reconhece o seu corpo “perfeito” como tal, pois, se esse corpo não está de acordo com o que a própria pessoa sente e espera, ele não pode ser reconhecido como adequado. Bento (2006) sugere que as explicações para a emergência da experiência transexual devem ser buscadas nas articula- ções históricas e sociais que produzem os corpos sexuados e que têm, na heterossexualidade, a matriz que confere inteligibilidade aos gêneros. Segundo essa autora, a pessoa transexual exibe uma “pluralidade de conflitos entre corpo, sexualidade e identidade de gênero, internos à experiência transexual”. (BENTO, 2006)

O corpo da pessoa transexual é, portanto, um corpo reconhecido pela medicina como normal. Essas pessoas têm, então, que empreender uma intensa e longa luta pela conquista das intervenções sobre seus corpos, para poder existir em um corpo que proporcione conforto, de maneira que este corresponda, minimamente, ao que sentem ser. O corpo se torna, dia após dia, um emblema de batalha, um local de estranhamento. Inúmeras possibilidades são pensa- das, montadas e remontadas na tentativa de sobreviver com um corpo que não é sentido como adequado. Há uma longa espera enquanto se convive com um corpo funcional e biologicamen- te perfeito, aos olhos da medicina, mas que, ao mesmo tempo, para as pessoas transexuais, é um corpo que as exclui, que as incomoda e lhes causa intenso sofrimento, até que consigam realizar as intervenções desejadas para obter uma aparência mais conforme ao gênero em que se reconhecem. Existe aí a reivindicação de um corpo de acordo com a vida psíquica. Na in- tersexualidade, por sua vez, é feita uma construção corporal esperando que, ao longo da vida, ocorra uma confirmação do gênero na mesma direção do corpo “corrigido” pela medicina após o nascimento. Não existe um desacordo a priori, podendo isso vir a existir, ou não, ao longo do desenvolvimento, como consequência, caso o sentimento de identidade não acompanhe o cor- po que foi construído com o aval da medicina.

Segundo Cabral e Benzur (2005, p. 283-284, tradução nossa), a variação é um conceito chave para a compreensão da intersexualidade. Na perspectiva dele, quando dizemos interse- xualidade,

[...] nos referimos a todas aquelas situações nas quais o corpo sexuado de um indivíduo varia sobre o standard de corporalidade feminina ou masculina culturalmente vigente. De que variações falamos? Sem âni- mo de exaustividade, daquelas que envolvem mosaicos cromossômi- cos (XXY, XX0), configurações e localizações particulares das gônadas – (a coexistência de tecido testicular e ovariano, testículos que não desceram) – como dos genitais (por exemplo, quando o tamanho do pênis é ‘demasiado’ pequeno e quando o clitóris é ‘demasiado’ grande

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de acordo com esse mesmo standard que antes falava, quando o final da uretra está deslocado da ponta do pênis em um de seus lados ou na base do mesmo, ou quando a vagina está ausente...). Portanto, quando falamos de intersexualidade não nos referimos a um corpo em parti- cular, senão a um conjunto muito amplo de corporalidades possíveis, cuja variação sobre a masculinidade e a feminilidade corporalmente ‘típicas’ vem dada por um modo cultural, biomedicamente específico, de olhar e medir os corpos humanos.1

De acordo com Lima (2007), conforme a resolução no 1.664, de 12 de maio de 2003 (Diário

Oficial da União nº 90, 13/5/2003, Seção 1, p. 101/102),

que dispõe sobre as normas técnicas necessárias para o tratamento de pacientes portadores de anomalias de diferenciação sexual, devem ter assegurada uma conduta de investigação precoce com vistas a uma definição adequada do gênero e tratamento em tempo hábil. (Art 2o). O

mesmo documento, em seu anexo – Exposição de motivos – afirma que “há quem advogue a causa da não intervenção até que a pessoa pos- sa autodefinir-se sexualmente. Entretanto, não existem a longo prazo estudos sobre as repercussões individuais, sociais, legais, afetivas e até mesmo sexuais de uma pessoa que enquanto não se definiu sexu- almente viveu anos sem um sexo estabelecido”. Afirma também que, apesar dos dois extremos (cirurgia emergencial e cirurgia tardia, em crianças mais velhas ou adolescentes), deve-se realizar uma investiga- ção criteriosa, por uma equipe multidisciplinar, para minimizar insatis- fações e que o objetivo da intervenção é “obter uma definição racional sobre o sexo de criação mais recomendável”. (LIMA, 2007, p. 32-33)

É recomendado que as pessoas intersexo sejam acompanhadas por equipes multidiscipli- nares para que possam decidir pelas intervenções cirúrgicas e tratamentos como os hormonais. O acompanhamento médico e psicológico de uma pessoa intersexo pode fazer com que o pro- cesso de definição sexual aconteça conforme cada caso individual, podendo a equipe médica, em alguns casos de diagnóstico ou tratamento tardio, considerar, inclusive, o sexo de criação para a correção cirúrgica, mesmo que “isso não constitua a melhor opção do ponto de vista técnico”. (GUERRA; MACIEL-GUERRA, 2002, p. 223) Pode ainda ocorrer que a equipe médica forneça um laudo profissional nos casos em que a pessoa opta por mudança de nome e registro civil, apesar da impossibilidade de construção da genitália compatível com o sexo escolhido.

1 [...] nos referimos a todas aquellas situaciones en las que el cuerpo sexuado de um individuo varía respecto al stan-

dard de corporalidad femenina o masculina culturamente vigente. De que tipo de variaciones hablamos? Sin ánimo de exhasutividade, a aquellas que involucran mosaicos cromosómicos (XXY, XX0), configuraciones y localizaciones particulares de las gónadas – (la coexistencia de tejido testicular y ovárico, testículos no descendidos) como de los genitales (por ejemplo, cuando el tamaño del pene es “demasiado” pequeño y cuando el clitóris es “demasiado” grande de acuerdo a ese mismo standard del que antes hablaba, cuando el final de la uretra está desplazado de la punta del pene a uno de sus costados o a la base del mismo, o cuando la vagina está ausente...). Por lo tanto, cuando hablamos de intersexualidad no nos referimos a un cuerpo en particular, sino a un conjunto muy amplio de corpora- lidades posibles, cuya variación respecto de la masculinidad y la femineidad corporalmente “típicas” viene dada por un modo cultural, biomédicamente específico, de mirar y medir cuerpos humanos.

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Não existe uma única forma de existência da intersexualidade, como também não existe um transexual verdadeiro ou uma única forma de ser transexual, uma única forma de ser ho- mem ou mulher, em qualquer condição, mesmo que seja uma condição entendida como normal pela medicina ou pela sociedade. Mais especificamente para as pessoas transexuais, desde a infância, e mais acentuadamente a partir da adolescência, o corpo “biologicamente perfeito” leva a uma acentuação do sofrimento e da exclusão social, quando os caracteres que surgem devido à produção hormonal revelam o que é sentido como indesejado. A declaração abaixo de um homem transexual reforça tais afirmações:

A infância e adolescência que deveriam ser as fases mais lúdicas, de maiores descobertas, pra gente as descobertas sempre trazem um con- teúdo negativo porque você descobre uma coisa: você descobre o que você é, mas aquilo é um desencontro com o que esperam de você; então você acaba sofrendo muito. Na adolescência quando o teu corpo começa a desenvolver caracteres secundários, além de ser um choque interno e você dizer putz!!! Por que isso tá acontecendo? Eu não que- ro isso. As pessoas começam a perceber e aí começam a questionar. (SAMPAIO; COELHO, 2012, p. 343)

Por tudo isso, os contextos familiares e sociais das pessoas transexuais e intersexo, nos casos em que o corpo biológico construído não corresponde ao gênero, aparecem assinalados por conflitos resultantes da não aceitação e não entendimento por parte dos pais, da sociedade e das próprias pessoas que, algumas vezes, levam um bom tempo para compreender o que lhes ocorre. A fala seguinte de uma mulher transexual deixa claro isso: “Quando eu descobri que existia a transexualidade eu disse: eu acho que é aqui que eu me encaixo [...] e a cada dia que passava eu tinha mais certeza”. Ela explica que a transexualidade “é você descobrir que você não é do gênero que te colocaram”:

No meu caso me fizeram acreditar que eu era um homem porque eu nasci com um genital masculino. Ser transexual é ter a convicção de que você pertence a um gênero, mas você olha e vê que tem um bioló- gico que não combina, não condiz com o gênero que você tem. Então, durante muito tempo você passa por muita coisa para acertar isso. É uma busca por você, uma descoberta do gênero. Não é apenas dizer eu sou mulher e pronto. É uma descoberta a cada dia como uma mu- lher, ela sempre se descobre. Sonhos, medos, tristezas que uma mulher tem. A gente vai descobrindo a cada dia além de todos os problemas por não ter nascido com o biológico feminino. Nesse estágio você co- meça a descobrir a realidade de uma mulher e isso faz parte dessa construção do gênero. O gênero está em construção, a cada dia eu me construo mais mulher. É isso.

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[...] se são as normas de gênero que especificam e limitam a femini- lidade, a masculinidade e mesmo o que podemos compreender como macho ou fêmea, homem ou mulher, não existem normas de gênero que sejam separadas de uma estética de gênero. Mais do que um “ver- dadeiro” sexo cromossômico, gonadal, hormonal, endócrino, psíquico ou jurídico, são as roupas, cabelos, adereços corporais, jeitos e trejei-

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