• Nenhum resultado encontrado

2. DISPOSITIVO E IMAGEM: O DISPOSITIVO COMO RELAÇÃO E A

2.3. Imagem-movimento e Imagem-tempo

2.3.5. Uma possível fotografia-cristal

Se a fotografia pode mesmo atuar como uma espécie de imagem-cristal, isto significa que ela possui muitos elementos distintos, operando como uma imagem mútua. Todavia, tal mutualismo aplica-se nas relações temporais em que o atual do presente coexiste com um passado que lhe é contemporâneo, ou seja, de um passado que coexiste temporalmente com este presente, conduzindo o seu sentido. Segundo Deleuze, “nossa existência atual, à medida que se desenvolve no tempo, duplica-se deste modo de uma existência virtual, de uma imagem em espelho.” (DELEUZE, IT. p.108)

Uma fotografia-cristal, portanto, pode ser definida como uma operação do tempo, na qual aquilo que se vê diante do cristal é o “surto do tempo como desdobramento”, a sua cisão. Logo, a imagem-cristal não trata do próprio tempo do modo organizado como o conhecemos, mas do procedimento que faz com que o tempo se divida a cada instante em presente e passado, ou mesmo que no presente possa haver uma cisão em duas direções heterogêneas, uma lançada ao passado e outra ao futuro. O que se vê no cristal é a imagem do tempo direta ou a forma transcendental do tempo, que deve ser enunciado como espelho ou germe do tempo. (DELEUZE, IT. p. 350)

A imagem direta do tempo pode se erigir conforme dois tipos de apresentação. Um diz respeito à ordem do tempo que se faz como coexistência entre presente e passado, real e imaginário. O outro tipo de apresentação é o tempo como série, na qual as personagens de uma fotografia ou filme passam a formar as séries como graus de uma vontade de potência, motivados por um devir que interfere qualitativamente na sucessão do tempo.

Este devir pode ser definido como aquilo que transforma uma sequência empírica do vivido em uma sequência de imagens que passam a intervir no curso temporal, ultrapassando o seu limite. O devir, nesta perspectiva, surge como metamorfose, como “ato de lenda e fabulação”, na medida em que procede por meio de uma sequência de imagens fabricadas, que se transformam mediante seus limites,

variações e graus de potência. A sequência imagética que forma uma série engloba, sobretudo, qualquer relação da imagem, desde as personagens, cores, gêneros estéticos, poderes políticos, etc. (DELEUZE, IT. p. 352)

Em meio à tribo Yanomami, Cláudia Andujar tende a devir um índio, mas ao mesmo tempo, o índio, sob o olhar e a descrição da artista, tende a devir outro. Obviamente o devir ocorre de maneira completamente diferente e assimétrica, mas proporciona a fuga de um dado tipo de codificação que poderia, a princípio, se tornar a verdade daquela imagem. De outro modo, podemos perceber que o devir atua mesmo como a potência do falso, para além de qualquer definição de verdadeiro ou falso. (DELEUZE, IT. p.351)

Retomando as fotografias de Andujar, destacadas na seção 2.1.1 desta pesquisa, podemos dizer que a fotógrafa busca extrair as descrições puras do ambiente na qual se insere para produzir o seu trabalho instrumental e artístico. De fato, a fotografia de Andujar cumpriu uma função de registro, uma vez que foi produzida com o intuito de organizar e identificar os índios que haviam sido vacinados na expedição médica realizada pelo “grupo da salvação”, formado pela artista e outros dois médicos.79

Mas a partir do momento em que as imagens são transpostas temporalmente e espacialmente para o território da arte contemporânea, ela deixa de ser uma imagem orgânica, para se tornar uma imagem cristalina, cujo regime faz com que o virtual passe a valer por si mesmo. De outra maneira, o virtual não será mais o plano de oposição do atual, mas entrará em uma espécie de circuito com o atual tornando-se ambos indiscerníveis, ou seja, ambos trocarão de papel a todo momento

A fotografia do registro, tal como foi programada em meados de 1970 é uma imagem-documento, orgânica e consciente, que se atualiza conforme as exigências, necessidades ou crises de um presente ou realidade atual. Já a mesma fotografia, quando disposta como uma situação essencialmente ótica, como objeto de arte para ser vista, ela passa a desabar um esquema de narração orgânica ou cronológica em vista da apresentação de um tempo caótico e infinito.

79 Conforme citamos anteriormente, Cláudia Andujar foi para Amazônia, em meados de 1970, junto de uma expedição médica para registrar e organizar, através da fotografia, a população indígena da tribo Yanomami.

Conforme mencionamos anteriormente, a descrição ancorada pela visibilidade e enunciação toma o lugar do objeto, ou seja, no dispositivo fotográfico, o saber da imagem é substituído, criado e apagado pela própria descrição que constitui o objeto decomposto e multiplicado. Em suma, a imagem cristalina, ou a fotografia cristal é uma fotografia vidente que, nas palavras de Deleuze, pode fazer erigir os signos do cristal, que é a apresentação direta do tempo, atualizada como imagem emancipada, destituída da sujeição motriz.

Nesta perspectiva, os espectadores de uma possível fotografia cristal, produzida por Andujar, passam a se tornar videntes, no sentido de que estes já não podem ou querem reagir somente em função de uma situação dada, exposta como objeto artístico fundamentado. A imagem fotográfica, nestes meandros, deixa de ser um documento a ser traduzido em função de uma necessidade atual correspondente e passa a se tornar o objeto de uma duração, de um acontecimento, de uma transmutação. Se nos guiarmos através da história da fotografia, veremos como esta nova abordagem imagética produz uma nova imagem e um outro dispositivo.