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ASPECTOS TEÓRICO-CONCEITUAIS

2 PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS E ESTADO DA ARTE

2.1.3 USO DE ABORDAGENS OBJETIVAS INTERDISCIPLINARES

Interessa aqui destacar as pesquisas que englobam tanto a visão dinâmica do clima, como a visão biometeorológica do conforto. Os trabalhos com análise rítmica envolvendo a temática do conforto humano também foram citados por Zavattini (2004), no seu levantamento de teses e dissertações entre 1971 e 2000, porém, a maioria, infelizmente, não alcançou o verdadeiro uso do paradigma do ritmo, apesar de citá-lo nas pesquisas. No entanto, identificam- se duas exceções desses trabalhos no extenso levantamento do autor: Malagutti (1993)109 apud Zavattini (2004), que identificou os tipos de tempo atuantes em 1985 no Estado de São Paulo e incluiu as nuanças no aspecto do conforto térmico relativas à prática do turismo; e Vecchia

109 MALAGUTTI, Marta. Caracterização dos tipos de tempo e aplicação de índices de sensação de conforto

humano nas estâncias climáticas do Estado de São Paulo. 1993. Dissertação (Mestrado em Geografia) –

(1997)110 apud Zavattini (2004), que, preocupado com o excessivo uso da abordagem estatística no conforto humano, encontra no paradigma do ritmo a possibilidade da aplicação de dados meteorológicos na definição e avaliação dos espaços urbanos, mas não utiliza os gráficos de análise rítmica propriamente ditos (utiliza-se do conceito de tipos de tempo, e toma por empréstimo o diagrama bioclimático de Olgyay (1998), adaptado às nossas condições, para analisar a ocorrência de estresse térmico e avaliar a resposta térmica de edificações).

A relação entre a visão dinâmica do clima e o conforto térmico só foram novamente encontrados em trabalhos mais recentes. A tese de doutorado de Dumke (2007) relacionou o estudo do clima urbano e do conforto térmico às condições sociais da população, baseada em metodologia interdisciplinar para o estudo do clima urbano. A metodologia utilizada pela autora priorizou análises no âmbito das relações sociedade e natureza, análises do clima no tempo e no espaço, e a perspectiva da interação global e local. Dumke (2007) utilizou, em paralelo, a caracterização do clima local sob os aspectos dinâmicos da atmosfera e os modelos de conforto térmico de Sorre (1984)111, Givoni (1992) e Aroztegui (1995). A autora apresentou gráficos de

análise rítmica, mas não introduziu índices de conforto térmico ou outros modelos de conforto em tais gráficos.

Já no início da segunda década do século, a tese de doutorado de Utimura (2010) foi desenvolvida com base no conceito de ritmo climático e na concepção bioclimática do ambiente construído (OLGYAY, 1963), que foram aplicados empiricamente em trabalho de campo. No entanto, a autora não elaborou os gráficos de análise rítmica. O trabalho foi desenvolvido em duas frentes de investigação, primeiro determinando as condições de conforto térmico no interior das habitações, e investigando a prevalência de sintomas respiratórios nas mesmas. Avaliou a variação do conforto, da temperatura e da umidade de acordo com a atuação do sistema atmosférico nos dias de coleta.

A dissertação de mestrado de Gobo (2013) avaliou as condições de conforto térmico nas escalas regional e sub-regional no Estado do Rio Grande do Sul, segundo as médias mensais e sazonais de temperatura do ar, da umidade relativa do ar e velocidade do vento com a finalidade de estabelecer uma regionalização climática para o estado com base no zoneamento do conforto térmico humano, utilizando 23 estações meteorológicas do INMET. Nesse zoneamento, foram

110 VECCHIA, Francisco. Clima e ambiente construído: a abordagem dinâmica aplicada ao conforto humano. 1997. Tese (Doutorado em Geografia Física) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997.

111 Sorre (1984, p. 34) adota as temperaturas do ar entre 16 e 23ºC como limites críticos para um equilíbrio térmico com o meio externo, denominando este limite de “temperatura neutral”. Segundo o autor, abaixo de 16ºC é a zona de frio, e acima de 23ºC é a zona de calor. Cabe salientar que o autor não utiliza o termo “conforto térmico”, e que adota tais limites baseado em discussões de pesquisas por parte de fisiologistas e psicofisiologistas, apesar de apresentar críticas com relação às suas imprecisões e resultados contraditórios.

utilizados os índices de Temperatura Efetiva com Vento (TEv), para as estações de outono e inverno, e o índice de Temperatura Resultante (TR) para as estações de primavera e verão. O autor estabeleceu, também, as condições de conforto térmico para os anos-padrão mais chuvoso, menos chuvoso e habitual, para a estação de Santa Maria, RS, com avaliação dos sistemas atmosféricos predominantes nestes anos, com tabelas de frequências percentuais de zonas de conforto para cada sistema atmosférico identificado. O autor apresentou gráficos de análise rítmica, e introduziu tais índices de conforto nos gráficos, mas para o cálculo dos índices, utilizou os dados das médias de temperatura do ar, umidade relativa do ar e velocidade do vento, não os dados brutos. Em sua tese de doutorado, publicada pouco antes da conclusão da presente tese, como já comentado na seção 2.1.2, Gobo (2018) propõe nova regionalização bioclimática baseada no índice de conforto proposto por ele, válido para regiões brasileiras de clima semelhante ao estudado, considerando também seus estudos no mestrado (2013) a partir da análise dinâmica do clima do Estado do Rio Grande do Sul.

No desenvolvimento da tese de doutorado de Schmitz (2014), também pode ser encontrada a visão dinâmica do clima relacionada ao conforto. Para discutir a reestruturação urbana e o conforto térmico, a autora utilizou a metodologia do Sistema Ambiental Urbano, sistematizada por levantamento de dados in loco, modelagem de cenários para o clima urbano e o conforto térmico presente e futuros (+25 e +50 anos), e simulação de diferentes morfologias do desenho urbano com o software ENVI-met. Para simular os efeitos dos cenários presente e futuros no conforto térmico, a autora utilizou o índice de conforto UTCI. A dinâmica climática foi inserida apenas nos gráficos horários de análise rítmica dos dias de coleta.

Abordagens subjetivas do tema

Os aspectos subjetivos na presente pesquisa referem-se ao campo da percepção ambiental e da fenomenologia. No campo da percepção ambiental, refere-se mais precisamente ao trabalho da canadense Anne T. Whyte (1977), que sintetizou em um documento único as diversas técnicas e instrumentos disponíveis para esse campo de estudo. Na fenomenologia, referente à aplicação do método fenomenológico na percepção, não só ambiental, como especificamente na percepção climática e no conforto térmico.