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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 6, 2011.
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INTRODUÇÃO
Cornélio Penna é autor de quatro romances: Fronteira (1935), Dois romances de Nico Horta (1939), Repouso (1948), A menina morta (1954). Em A menina morta, obra que será objeto de estudo deste trabalho, a ação se desenrola numa fazenda isolada por montanhas, no sul Minas Gerais, numa região degradada pela ação do homem. As pessoas, isoladas em si mesmas, desgastadas pelo cotidiano pesado e monótono, parecem almas que habitam uma casa fantasmagórica. Negros e brancos sentem o peso da solidão e da angústia, lamentosos por perder o único sopro de vida, o único elo entre a casa-grande e a senzala: a menina morta. Segundo Schmidt:
A ―menina morta‖ viera ao mundo para ligar essas duas humanidades distantes embora dependentes uma da outra, a dos senhores, nas suas casas, com seu conforto, com seus caprichos e loucuras, e a da senzala, do eito, dos trabalhos e sofrimentos sem recompensa.
(SCHMIDT, 1958, p. 724)
A narrativa já se inicia com a atmosfera densa do luto, com todos ocupados preparando o funeral: dando banho no cadáver, costurando seu último vestido ou construindo cuidadosamente o caixão. Embora o livro de quinhentas páginas seja apenas divido por pequenos capítulos, podemos englobá-los em duas grades partes: a primeira consiste na lembrança da relação carinhosa que a menina mantinha com os habitantes da fazenda, incluindo os escravos, a segunda se refere aos preparativos para receber a filha mais velha, Carlota, (que até então estudava na Corte e fora chamada para a fazenda do grotão para substituir a menina morta) e os preparativos para seu casamento. Ao longo do romance, com o clima opressivo e melancólico da casa patriarcal, Carlota não apenas substitui a irmã, mas se torna em vida a menina morta.
Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, escrito em 1975 também pode ser dividido em duas partes, a primeira consiste no dialogo entre os dois irmãos, Pedro e André, a segunda nas consequências da volta de André. Essa discussão inicial entre os dois tem uma atmosfera densa, em que os irmãos rememoram o passado e tentam achar os culpados pela degradação da família no presente. Pedro, que na casa tem o papel de guardar o discurso do pai, convence André de voltar para a fazenda, uma volta que traz muitas consequências.
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O objetivo deste trabalho é realizar um paralelo entre duas personagens das referidas obras: Ana de Lavoura arcaica e Carlota de A menina morta. Ambas as personagens estão submissas a um pai que determina com forte autoritarismo não apenas os seus destinos, mas o de todos que habitam a fazenda. Porém, mesmo dentro desse sistema de repressão, Ana e Carlota ousam desafiar a tradição patriarcal. E é essa rebeldia que chama a atenção e pretende-se observar mais cuidadosamente.
É importante salientar que os dois romances têm essa semelhança, possuem como pano de fundo o meio rural e tematizam o drama de famílias patriarcais. Porém, A menina morta tem como contexto o período do Império e se passa numa fazenda cafeeira no sul de Minas Gerais, no Vale do Paraíba.
Sobre Lavoura arcaica, pouco se pode afirmar, apenas que transcorre em uma fazenda, em um lugar não identificado, e durante um período posterior ao Império, provavelmente durantes as primeiras décadas da República, pois não há menção ao trabalho escravo. Portanto, pode haver uma grande diferença temporal entre os momentos retratados nos romances, mas que não será levado em consideração nesse estudo, pois será focado apenas o rompimento que as duas personagens femininas realizam no sistema que as oprimem,analisaremos como elas são responsáveis por arruinar a casa patriarcal. Analisar as diferentes características que fundamentam cada sistema e como cada um dos dois romances o retrata será objeto para um outro estudo.
Uma obra de grande importância que analisa o sistema patriarcal no mesmo período que os romances estudados abrangem é Sobrados e mocambos (1936) de Gilberto Freyre. Nessa obra, é esboçado o perfil da família patriarcal no Brasil Império (de seu inicio até seu fim, com a República). Para o autor, nesse momento acontecem grandes transformações no país, mais especificamente no Rio de Janeiro, para onde as abastadas famílias se direcionam e trocam a casa-grande pela Corte, lugar de maior efervescência cultural, com teatros, bibliotecas e novidades europeias a circular. A importância da obra de Freyre é inegável, pois é um dos poucos livros que procuram explicar esse período da história brasileira, com uma grande riqueza de detalhes sobre os costumes familiares nas fazendas, sobre a crise estrutural dessas famílias, os sinais que marcaram a sua decadência e seus novos hábitos na cidade. Porém, segundo alguns sociólogos, residem em sua obra alguns problemas. Um deles é a generalização a partir de casos particulares. Como afirma Mariza Corrêa, o problema central de ambos os textos é: “(...) o contraste entre essa sociedade multifacetada, móvel, flexível e dispersa, e a tentativa de acomodá-la dentro dos estreitos limites do engenho ou da fazenda: lugares privilegiados do nascimento da sociedade brasileira.” (CORRÊA, 1993, p. 24). A crítica voltada à obra de Gilberto Freire consiste em que o autor toma como modelo uma parcela pequena da
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população, a família patriarcal representava cerca de vinte por cento da população. É preciso lembrar que essa não existiu sozinha, Freyre parece esquecer as disparidades da sociedade de então. Apesar dessa ressalva, em Sobrados e mocambos temos uma descrição sociológica da mulher e do homem na família patriarcal, descrição que procuraremos aproximar de nossas personagens literárias.
Mas o que justifica realizar a análise da representação social na obra literária, fazer um paralelo entre uma obra de cunho sociológico e duas obras literárias?
Essa é uma tarefa que pode incorrer em um erro, o erro de um reducionismo sociologizante da obra literária. Antonio Candido, na obra Literatura e sociedade (1918), propõe uma forma de análise que equilibre esses dois lados. Nessa perspectiva se analisa os aspectos estéticos da obra sem perder de vista seu engajamento social. O fator social fornece matéria – ambiente, costumes, valores, tradições – ao escritor, o qual transformará esses aspectos sociais em internos, em aspectos estéticos. Segundo Antonio Candido, nesse método de análise não se coloca em relevo o social a ponto de se tornar uma análise sociológica da obra, nem se focaliza o texto a ponto de se realizar um estudo formal da obra. O autor discorre sobre essa abordagem, esse prisma de análise da obra literária e nos aponta um método de análise:
Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo. Sabemos, ainda, que o externo (no caso o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (CANDIDO, 2000, p. 6)
Não se deve tentar explicar a obra baseando-se na sociologia, procurar averiguar se a narrativa corresponde à realidade ou não, mas analisar como os fatores sociais interferem na tipificação dos personagens, na estruturação da obra. Segundo Antonio Candido quando realizamos uma análise desse tipo não consideremos o contexto, os fatores externos, como meio para enquadrar a obra num determinado período histórico, mas sim como fator que opera na própria construção artística. Quando a obra é
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abordada dessa maneira deixa-se de realizar uma crítica sociológica para realizar uma crítica literária.