A superioridade espiritual e civilizacional era uma crença comum a todos os colonizadores, corroborada por Léry quando afirma que “os habitantes da Europa, da Ásia e da África devem louvar a Deus pela superioridade sobre os dessa quarta parte do mundo” (LÉRY, 1980, p. 206).
Sobre a possível origem dos habitantes e suas implicações religiosas, Léry reflete:
Resta-me agora tocar na questão que poderia ser aqui aventada de saber qual a origem desses selvagens. É evidente que descendem de um dos três filhos de Noé, mas acho difícil dizer de qual, baseando-se nas Santas Escrituras ou nos doutores profanos. Verdade é que Moisés, fazendo menção dos filhos de Jafé, diz que as ilhas foram habitadas por eles; mas, como é natural, o hebreu se referia às terras da Grécia, Gália e outras regiões separadas da Judeia pelo mar e consideradas ilhas por ele; não há pois base para que nelas se compreendam a América e adjacências. Dizer que são oriundas de Sem, pai da geração bendita dos judeus, mais tarde corrompida a ponto de rejeitar o criador, não me parece lógico. (...). Parece-me, pois, mais provável que descendam de Cam. (LÉRY, 1980, p. 221)
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Interessante observar que, dos três de filhos de Noé, a Bíblia Sagrada dá conta de que Cam teria sido o amaldiçoado por ter visto seu pai nu (Gênesis 9:18-27). A maldição recebida pelo filho mais novo de Noé consistiria em que, além de apresentar a pela negra, seus descendentes seriam escravos de outros povos. Em função dessa crença, a cor negra da pele esteve, durante toda a Idade Média, associada ao diabólico, ou à presença ou domínio do Mal, por conta da rebeldia, atitude do Diabo em relação ao Criador, que também se revela no comportamento de Cam.
Para Bosi (1996, p. 256-258), os “camitas”, ou descendentes de Cam, seriam os povos de pele escura que povoavam a Etiópia, a Arábia do Sul, a Núbia e a Somália. Com a transposição dos elementos diabólicos e maravilhosos para as regiões recém-descobertas, não deve causar espanto que também a origem bíblica dos habitantes tenha sofrido essa adaptação.
As observações de Léry acerca da vida longa dos indígenas estão relacionadas ao que Hilário Franco Júnior denomina de “imaginário da perfeição social” (FRANCO JR., citado em PALAZZO, 2006). De acordo com Léry, os indígenas “alcançam a idade de cem ou cento e vinte anos (...) todos eles bebendo verdadeiramente à fonte da juventude” (LÉRY, 1980, p. 185).
Após ter passado um ano na região da Guanabara, Léry nos fornece uma descrição minuciosa do modo de vida dos nativos:
(...) os selvagens do Brasil, habitantes da América, chamados Tupinambás, entre os quais residi durante quase um ano e com os quais tratei familiarmente, não são maiores nem mais gordos do que os europeus; são porém mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito poucos coxos, disformes, aleijados ou doentios. Apesar de chegarem muitos a 120 anos, (sabem contar a idade pela lunação) poucos são os que na velhice têm os cabelos brancos ou grisalhos, o que demonstra não só o bom clima da terra, sem geadas nem frios excessivos que perturbem o verdejar permanente dos campos e da vegetação, mas ainda que pouco se preocupam com as coisas deste mundo (...). E parece que haurem todos eles na fonte da Juventude.
(LÉRY, 1980, p. 111-112)
Reafirmando a influência medieval que associava o homem selvagem ao animalesco, pode-se encontrar, ainda, na obra de Léry, a comparação entre o indígena e os animais: “(...) ouvimos o rumor de um bruto que vinha em nossa direção mas, pensando que fosse algum selvagem não paramos nem demos importância ao caso” (LÉRY, 1980, p. 140).
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Os viajantes-cronistas do século XVI apresentam, de modo geral, uma visão dicotômica, e generalizante, acerca dos habitantes nativos das terras recém descobertas. Assim, animalização e demonização são características dos “índios” em geral, sem nenhuma preocupação com a individualidade desses sujeitos (PIRES, 2003). Em sua obra, Léry aborda a questão da nudez indígena, ao afirmar que
(...) coisa não menos estranha e difícil de crer para os que não os viram, é que andam todos, homens, mulheres e crianças, nus, como ao saírem do ventre materno. Não só ocultam nenhuma parte do corpo, mas ainda não dão nenhum sinal de pudor ou vergonha.
(LÉRY, 1980, p. 112)
Léry parece tentar defender o nativo da acusação de que essa nudez favorecia a luxúria e a lascívia, comportamentos intimamente relacionados à ação diabólica, o que situa o cronista viajante em conformidade com a corrente que apoiava a noção de bom selvagem, noção que persistirá no pensamento francês em Montaigne, Voltaire e Rousseau (PIRES, 2003).
Nesse sentido, é possível afirmar que, no que se refere à noção de nativo selvagem e animalesco, Léry rompe com a tradição do pensamento medieval ao demonstrar uma sensível percepção do outro. E, contestando o pensamento vigente, afirma que “mesmo sendo bárbaras e cruéis com os inimigos, a selvageria não impede estas nações de considerarem bem tudo o que se diz a eles com sensatez”, e de modo contrário ao que acreditavam os europeus, os índios da tribo Tupinambá não apresentavam o corpo “nem monstruoso nem prodigioso”, se comparados aos europeus (SOUZA, 1989, p.
67).
Até então, era essencialmente na relação com o sobrenatural que o nativo tinha confirmado seu caráter de humanidade diabólica aos olhos do homem europeu. Levados ao engano pelo Maligno, destituídos de razão e incapazes de discernir entre o Bem e o Mal, os ameríndios eram condenados por adorarem o diabo por meio dos pajés. Léry, no entanto, mostra-se encantado ao descrever uma cerimônia religiosa comandada pelo pajé, associando-a àquilo que mais assombrava o imaginário europeu seiscentista:
o sabbat das feiticeiras (SOUZA, 1989, p.70).
Para Souza:
No novo mundo, o explorador-missionário funcionava, como do outro lado do Atlântico, o seu colega exorcista. Infelizmente ainda não se estudou de forma sistemática a literatura de viagens como um imenso
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complemento e deslocamento da demonologia. E, entretanto, nela se encontram as mesmas estruturas. (SOUZA, 1989, 70)