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quem só verdadeiramente ama depois que se sente por elle injuriada e aviltada, depois que d‘elle apanha, como se fora vil escrava – é a Diva; ou então um pé nojento, abominavel, immundo, servindo de protagonista da obra, causando horror e asco ao pio leitor, e que dirias uma baixa miniatura excogitada do Quasimodo – é a Pata da gazella;
ou então o hippocentauro chato, informe, indecoroso, repulsivo, como typo de costumes brazilios – e temos finalmente o Gaúcho. (TÁVORA, 1872, p. 144-145)
O clamor de Távora pela observação, mérito atribuído pela crítica às Cartas, está sob uma chave singular, pois vai para além de uma exasperação do sentimento de fidelidade ao real de nossos escritores. Quando Távora propõe o conceito de objetividade, há por de trás de sua intenção outro aspecto importante: recusar a concepção de realidade de Alencar. Ao contestar Alencar por fazer a imaginação prevalecer sobre a observação, Távora incide não numa maneira de proceder na relação com o objeto a ser representado, mas nos mecanismo ideológicos que devem ser agenciados para que se efetive a representação (“o belo ideal”). Ao vetar a imaginação, Távora veta, na verdade, os valores que ele não reconhecia como dignos de figurar na ficção. Está em jogo nas críticas de Távora, portanto, as projeções ideológicas que a representação literária carrega em si, provando que o princípio realista que move o romance oitocentista brasileiro é uma maneira ideológica de se ler uma realidade – ou de mascará-la.
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Há em sua physionomia illuminada de um esplendor insano, em seu animo insoffrido, o entumecimento e as palpitações precipites do arrojo semi-barbaro.
Finalmente vejo no gaúcho alguma cousa que se pareça com Osorio ou Zeno Cabral – no espirito, fontes inexgotaveis dos maiores heroísmos, - no sentimento a exaltação e a decisão, que póde inspirar a cálida ventania das savanas, - nas acções , nos gestos, uma resolução firme, implacavel –n‘uma palavra, a integra personalisação da virilidade continental. (TÁVORA, 1872, p. 3-4)
E o cavalo, personagem tão importante quanto o gaúcho no romance de Alencar, é definido da seguinte maneira:
E o cavallo do pampa? Comprehendo-o d‘este modo: susceptível, vertiginoso, estremecendo de mil inquietações a qualquer leve rumor do deserto, arredio do homem em quem adivinha, por instincto e por lição, um inimigo encarniçado de sua independencia; um animal que, ao ver o gaúcho, dispara a correr, com medo de sua crueza, por banhados e coxilhas, impellido pela exaltação, pela investida, pelo desencadeamento dos panicos brutaes; um animal que só possam domar a temeraria audacia e a classica pericia do gaúcho, e a que fora licito applicar, sem risco de impropriedade, o nome expressivo de desespero ou furacão. (TÁVORA, 1872, p. 4-5)
E a relação entre o gaúcho e o cavalo é assim definida, em sua concepção: “(...) o cavallo o completa; é o seu appendice, ou antes, o seu epilogo; representa o papel de seu escravo, antes que o de seu amigo, e melhor o de victima que o de escravo: o gaúcho é mais o tyranno do cavallo do que senhor d‟elle.” (TÁVORA, 1872, p. 4).
Para Távora, o gaúcho, em sua transposição para a forma romanesca, deveria ter como traços uma figura de homem destemido, com forte ímpeto para as ações heroicas e a representação da virilidade continental. O cavalo seria o animal que deveria ser subjugado pelo gaúcho e sua relação seria de dominação, brutalidade mesmo, contra o animal cujo ímpeto indomável seria seu traço primordial. A imagem pintada, no final das contas, pelos três excertos acima é o herói prevalecendo sobre a natureza – portanto, não sendo “cavallizado”, brutalizado ou animalizado na sua representação ficcional. Curiosamente, é o que o romance de Alencar não possui, como o próprio Távora nota: “Nem um, nem outro, nos dá Senio.”
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(TÁVORA, 1872, p. 5). E, por esta mesma razão, é posto como uma concepção doentia de nossa nacionalidade:
Manuel Canho, apresentado como realisando o ideal do gaúcho, caracterisa-se por estes signaes: odio eterno para com a especie humana, frouxo e afeminado enternecimento para com a raça hippica.
Senio expressa a doutrina de que o gaúcho tem mais em si de cavallo do que de homem; que dizer gaúcho é querer dizer – coração para uma raça bruta, musculo apenas para a sua propria especie e até para a sua familia.
Canho morre de amores pelas eguas. Com ellas vive, convive e dorme. Cavallos e poldrinhos despertam-lhe todos os estremecimentos do affecto mais terno e mulherengo. Já viste maior aberração, meu amigo? (TÁVORA, 1872, p. 5)
Franklin Távora, ao esboçar o seu ideal de gaúcho e descrever a representação de Alencar, coloca claramente a questão da polêmica em termos ideológicos. Távora recusa a relação afetiva de Canho com os cavalos, bem como o “ódio eterno” que ele carrega dentro de si para com o assassino de seu pai, sua mãe e sua meia-irmã. É inaceitável, como os grifos do autor sugerem, que ele mantenha relações afetivas com os cavalos e tenha “ódio eterno para com a espécie humana”. Na carta 3, ao comparar as relações de Canho com os animais e os homens, Távora comenta: “Esse coração era a esphinge. Tão vilão para com seu similhante, quão prodigo de impossíveis affectos para o bruto! Homem que, tendo o sentimento tão apurado para o animal, deixasse de o ter para a sua especie, seria uma aleijão da especie humana.” (TÁVORA, 1872, p. 32-33). O próprio narrador de O gaúcho comenta este aspecto contraditório da personagem: “Que anomalia era a fibra cardíaca desse homem?”, continuando logo em seguida: “Quanto se expandia em amor e dedicação com os animais, seus prediletos, tanto se retraía com frieza e indiferença ante as mais doces afeições de sangue que o cercam.” (p.
124).
A representação do ideal gaúcho de Alencar passa, em última instância, no consórcio do bruto com o homem, sendo que muito do bruto prevalece sobre o homem. Canho é mais primitivo que os cavalos. Daí a queixa de Távora sobre a humanização dos animais, pois fazia frente, como disse anteriormente, a barbárie do herói. É isso que Távora não aceita e que está em jogo nas suas concepções de objetividade, imaginação e representação literária. O esforço analítico de Franklin Távora é movido por uma necessidade coletiva – manter a presença de uma identidade nacional na representação literária. O clamor pela observação objetiva e pela busca de
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uma realidade ideal se justifica por esta tentativa de estabelecer na literatura nossa identidade. No fundo, as Cartas a Cincinnato são menos uma tentativa de destruição das bases do ideário romântico e mais uma contribuição para o problema intrínseco que vinha se arrastando desde os primeiros teorizadores de nossa literatura em como dar expressão à matéria local. Franklin Távora, no final das contas, propõe uma correção das imperfeições da matéria local – gerando a moralização em literatura e criando espaço para um veto ao ficcional em nossa série literária.
FORÇAS DE CONSTRUÇÃO: CAMPO POÉTICO NO OITOCENTOS BRASILEIRO
Dois pontos de vistas ideologicamente armados sobre a realidade – as vozes narrativas locais de Moretti – e que condicionariam duas maneiras de lidar com as forças antagônicas de nosso cenário cultural, sugeridas pela ambivalência da cor local: de um lado, Franklin Távora que pedia mais objetividade na ficção para se ter uma imagem ideal da nação; de outro, Alencar, como bom conservador que era, grudando-se ao dado local até no que ele tinha de desconcertante para a realização de nosso ideal de civilização, e sendo acusado de criador de fantasias e quimeras.
Ambas as posições, que acabaram sendo os dois centros em torno dos quais os intelectuais giravam, tiveram desdobramentos significativos na execução das representações ficcionais do nosso oitocentos, pois fixaram, pelo seu forte poder ideológico, dois tipos de narradores nos romances do período formativo inicial: um narrador-naturalizador que insistia nos elementos da cor local até as últimas consequências; o que implica em dizer que o barbarismo de nossa matéria local tinha mais chances de aparecer na representação literária. Esse narrador traz para o centro da trama ficcional aqueles elementos da cor local que podem gerar constrangimento no que diz respeito ao projeto de construção de um país civilizado. Tome-se como exemplo, um romance como Til (1871), de José de Alencar, em que o elemento do favor e o jaguncismo são naturalizados pelo ponto de vista narrativo, incompatibilizando, no plano ideológico da estrutura romanesca e dos valores vigentes na vida intelectual, com as ideias do liberalismo econômico. É posta no centro da narrativa, como se pode perceber, a ambiguidade de nossa matéria local, quando inscrita num mundo de valores que se queria tomar como nossos.
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O outro narrador pode ser chamado de ilustrado. Seu principal traço é a insistência em perseguir o ideal europeu, a partir de uma leitura da realidade brasileira fundada na noção de beleza ideal da nação. Embora a cor local seja encarada como um elemento necessário para a literatura manter seu timbre brasileiro, assume-se, deste ponto de vista, que é necessário operar mudanças no momento da representação literária para haver a correção dos “defeitos” do país. Trata-se de uma representação compensatória, pois estava por detrás desta visão o esforço de afinar nossa experiência social e intelectual com a Europa. O início do romance O cabeleira (1876), de Franklin Távora é exemplar nesse sentido.
Duas posições ideológicas, dois narradores: um problema único – a incompatibilidade da cor local com a estrutura romanesca, que gera por sua vez uma frincha em nosso sentimento de nacionalidade, pois essa incompatibilidade é um problema posto para a representação literária. Diante desse problema comum, pode-se dizer que esses narradores se irmanam em um aspecto: esforçam-se ambos para remendar as rachaduras da identidade.
Mais, os dois narradores acionam um discurso moralizante toda a vez que o conteúdo cria alguma frincha na forma. E a moralização transforma-se em mais uma lei para o campo poético brasileiro...