1 Professor Dout or, e- m ail: m [email protected]; 2 Professor Titular, e- m ail: [email protected]. Escola de Enferm agem de Ribeirão Pret o da Universidade de São Paulo, Cent ro Colaborador da OMS para o Desenvolvim ent o da Pesquisa em Enferm agem
VI OLÊNCI A DOMÉSTI CA: DO VI SÍ VEL AO I NVI SÍ VEL
Mart a Angélica I ossi Silva1 Maria das Graças Carvalho Ferriani2
Est e est udo obj et iv ou ident ificar e analisar as not ificações de v iolência dom ést ica cont r a cr ianças, r ealizadas j unt o às Regionais de Saúde Guar ulhos, os lim it es da at uação dos pr ofissionais da saúde e o significado da violência dom ést ica cont ra a criança no cot idiano do seu t rabalho. Caract eriza- se o cenário das not ificações realizadas nos anos 2001 e 2002, no m unicípio, com o int uit o de m elhor com preender a realidade e subsidiar o diálogo com os dados colhidos at ravés da abordagem qualit at iva. Const at ou- se predom inância dos casos de negligência 45% das notificações, 26% de violência física e 14% de suspeita de violência sexual. Quem m ais not ificou foram os assist ent es sociais, sendo responsáveis por 46% das not ificações. Por m eio das falas dos at ores sociais, ident ificou- se duas cat egorias em píricas: “ int erfaces da violência” e “ m edo” .
DESCRI TORES: saúde; violência dom ést ica; criança; not ificação de abuso
DOMESTI C VI OLENCE: FROM THE VI SI BLE TO THE I NVI SI BLE
This st udy aim ed t o ident ify and analyze not ificat ions of dom est ic violence against children regist ered at the Regional Health Services in Guarulhos, São Paulo, Brazil; the lim itations im posed to health professionals’ actions and the m eaning of dom estic violence against children in the health professionals’ routine. The notifications regist ered bet ween 2001 and 2002 were charact erized in order t o bet t er underst and t his realit y and also t o support the collected data through the qualitative approach. There is a predom inance of negligence cases 45% , while 26% of the notifications related to physical violence and 14% to suspected sexual violence. Social workers regist ered t he highest num ber of not ificat ions, 46% . Based on t he social agent s’ discourse, we ident ified t wo em pirical cat egories: “ int erfaces of t he violence” and “ fear” .
DESCRI PTORS: healt h; dom est ic violence; child; m andat ory report ing
VI OLENCI A DOMÉSTI CA: DE LO VI SI BLE A LO I NVI SI BLE
Est e est udio t uvo por finalidad ident ificar y analizar las not ificaciones realizadas en las sedes de salud del m unicipio de Guarulhos, los lím it es en las acciones realizados por los profesionales y el significado de la violencia dom est ica en su cot idiano de t rabaj o. Fue descrit o el escenario de las not ificaciones realizadas en 2001 y 2002 con el obj et ivo de obt ener una m ej or com prensión de la realidad y apoyar el diálogo con las inform aciones recolect adas a t ravés de la invest igación cualit at iva. De los casos not ificados const at am os un predom inio de casos de negligencia en 45% de las not ificaciones, así m ism o, 26% fueron not ificaciones de v iolen cia f ísica y 1 4 % de las n ot if icacion es f u er on sospech a de v iolen cia sex u al. Qu ién m ás r ealizó las not ificaciones fue el asist ent e social, siendo responsable por 46% de las m ism as. A part ir de las discusiones con los agent es sociales, ident ificam os dos cat egorías em píricas: “ int erfases de la violencia” y “ m iedo” .
I NTRODUÇÃO
F
alar da violência contra a criança tem sido,ao longo da trajetória da hum anidade, algo com plexo, à m edida que im põe apontar alternativas e expectativas par a com bat er a v ulner abilidade social em que se encont r a a infância, t ant o global com o localm ent e. I m plica, ainda, abordar os conflitos fam iliares, núcleo até então tido com o local de proteção à criança.
Ap e sa r d a v i o l ê n ci a e x i st i r d e sd e a Antigüidade, som ente a partir da década de 60 é que o t em a vem sendo am plam ent e est udado e discut ido
por pesquisadores da área da saúde( 1).
Pode- se pont uar que m uit os problem as t êm d i f i cu l t a d o o d i m en si o n a m en t o d o f en ô m en o d a violência dom ést ica cont ra a criança no Brasil com o, por exem plo, as difer ent es definições do pr oblem a, a d i v e r si d a d e d a s f o n t e s d e i n f o r m a çõ e s e a inexist ência de inquérit os populacionais nacionais. No entanto, os resultados de algum as pesquisas nacionais in d icam q u e a v iolên cia in t r af am iliar n o Br asil é ex pr essiv a, dev endo ser encar ada com o pr ior idade
na agenda das polít icas sociais( 2).
Apreendeu- se, nest e est udo, o fenôm eno da violência, em especial, nas suas form as e expressões, co n si d e r a n d o su a co m p l e x i d a d e , p o l i sse m i a e subj et iv idade, além de r econhecer que t am bém se t rat a de problem a m ult ifacet ado e m ult idim ensional, on de os div er sos t ipos de v iolên cia cost u m am se ex p r essar d e f or m a associad a, con f or m an d o u m a r ede on de aqu elas qu e ex pr essam os con flit os do
sistem a social se articulam nos níveis interpessoais( 3).
Apesar da m udança verificada no âm bito legal com a p r om u lg ação d o Est at u t o d a Cr ian ça e d o
Adolescent e ( ECA) em 1990( 4) e o r econhecim ent o
dos direitos sociais dessa parcela da população, tem -se co m o co n t r a p o n t o a p o t e n ci a l i za çã o d a pr oblem át ica de cr ianças e j ov ens em sit uação de risco social e pessoal, nos centros urbanos e no interior de seus lares.
En t r e a s p o l ít i ca s p ú b l i ca s p a r a o se u
enfrentam ento(5-7), destacam -se aquelas voltadas para
a r ed u ção d a m or b im or t alid ad e p or v iolên cias, à orient ação e m elhoria da qualidade das not ificações, à est r u t u r ação da r ede n acion al de pr ev en ção da v iolência e pr om oção da saúde e à im plant ação e im plem ent ação de núcleos de prevenção à violência nos estados e m unicípios e a instituição do Sistem a de Vigilância Epidem iológica para Acident es e Violências
( SEVI V) , especificam ent e no Est ado de São Paulo( 8).
Com r elação ao m u n icíp io d e Gu ar u lh os, foram im plant ados e im plem ent ados no decorrer da últ im a década, im por t ant es pr oj et os, pr ogr am as e ações na área específica de prot eção à criança e ao adolescent e vit im izados, com ênfase na not ificação, na at enção à saúde da população em sit uações de violências e um com it ê m unicipal de enfrent am ent o à v iolên cia d om ést ica e sex u al con t r a cr ian ças e adolescent es( 9- 10) .
Com b ase em ex p er iên cia p r of ission al, e su b sid iad os n os ob j et iv os d a p r esen t e p esq u isa, p r o cu r o u - se r e sp o n d e r a q u e st õ e s co m o : q u e dificuldades e que facilidades os profissionais de saúde t êm enfr ent ado par a acolher e at ender as cr ianças v ít i m a s o u su sp e i t a m e n t e v ít i m a s d e v i o l ê n ci a dom ést ica? Quais são os lim it es e barreiras sent idos pelos profissionais de saúde que os levam a adot ar p o st u r a s d e m i n i m i za çã o o u o m i ssã o p er a n t e a violência? Que políticas e ações setoriais e integradas t êm sido adot adas com relação a esse problem a?
Diant e dessas consider ações, est a pesquisa delineou- se com o obj et ivo de ident ificar e analisar as notificações de violência dom éstica contra crianças, realizadas j unto às Regionais de Saúde de Guarulhos, os lim it es e lacunas da at uação dos profissionais da saúde, e o significado da violência dom ést ica cont ra a criança no cot idiano do seu t rabalho.
MÉTODOS
O p r esen t e est u d o t r a t a - se d e p esq u i sa descrit iva e explorat ória com abordagem qualit at iva, a l t e r n a t i v a m e t o d o l ó g i ca q u e co l a b o r o u p a r a a co m p r e e n sã o d a r e a l i d a d e e x p r e ssa p e l o s profissionais da saúde com relação à sua visão acerca do fenôm eno da violência dom éstica contra a criança. Após an álise e apr ov ação pelo Com it ê de Ét ica em Pesq u isa d a Escola d e En f er m ag em d e Ribeir ão Pr et o - USP, pela Secr et ar ia Municipal de Saúde de Guarulhos e consent im ent o dos suj eit os da pesqu isa, m an if est ado por m eio da assin at u r a n o Term o de Consentim ento Livre e Esclarecido, os dados f o r a m co l e t a d o s p o r m e i o d e e n t r e v i st a s se m i -est r ut ur adas e análise de docum ent os e r egist r os, entre agosto de 2003 e abril de 2004.
v i o l ê n ci a d o m é st i ca co n t r a a cr i a n ça , j u n t o à s Regionais de Saúde de Guar ulhos nos anos 2001 e 2002.
Pa r a t a n t o , co n su l t o u - se 3 5 f i ch a s d e n ot ificações de casos con fir m ados e/ ou su speit os, e n ca m i n h a d a s p e l a s Un i d a d e s Bá si ca s e Pr o n t o At en d i m en t o s à s q u a t r o Reg i o n a i s d e Sa ú d e d o Município de Guarulhos com vistas a um prim eiro olhar crít ico do problem a em quest ão.
A p a r t i r d e ssa a n á l i se p r e l i m i n a r d a s not ificações, est abeleceu- se, com o cam po de est udo e r ealid ad e a ser com p r een d id a e in v est ig ad a, a Regional de Saúde I I I , por m eio da Unidade de Saúde da Fam ília ( USF) Jd. Fort aleza e Unidade Básica de Saúde ( UBS) Carm ela, onde, pelos dados levantados, os índices de not ificações for am r elev ant es. For am consult ados os pront uários das crianças relacionados às not ificações da Regional I I I , para caract erizar as si t u a çõ e s q u e i n d i ca v a m a co n f i r m a çã o e / o u a suspeit a da ocorrência de violência dom ést ica.
Os suj eitos do estudo foram profissionais que at endiam , no seu t r abalho cot idiano, cr ianças e/ ou su as f am ílias pot en cialm en t e v ít im as de v iolên cia d o m ést i ca. Fo r am en t r ev i st ad o s 2 p si có l o g o s, 2 en f er m eir os, 2 agen t es com u n it ár ios de saú de, 2 auxiliares de enferm agem e 2 m édicos pediat ras.
O roteiro para as entrevistas contou com três quest ões abert as e nort eadoras: qual a sua vivência ou experiência no atendim ento dos casos de violência dom ést ica cont ra crianças? O que t em feit o frent e a possív eis casos? Com o v ê o t r abalh o, os r ecu r sos disponibilizados no m unicípio com relação à assistência a est as crianças?
A p a r t i r d o m a t e r i a l o b t i d o e d a f u n d am en t ação t eór ica, an alisou - se os d ad os d e
acor do com a pr opost a de Min ay o( 11), ut ilizando o
m ét od o h er m en êu t ico d ialét ico, q u e p ossib ilit a o co n f r o n t o d e d i f e r e n t e s p o si ci o n a m e n t o s n a int erpret ação dos dados e se apresent a, segundo a aut or a, com o “ o m ais capaz de dar cont a de um a int erpret ação aproxim ada da realidade. Ele coloca a fala em seu contexto para entendê- la a partir do seu in t er ior e n o cam p o d a esp ecif icid ad e h ist ór ica e t ot alizant e em que é produzida”.
A análise qualit at iva das ent revist as levou à ordenação e classificação dos dados por unidades de r egist r os, r efer enciadas por t em as, e r efinados em ex pr essões de sínt ese, as cat egor ias em pír icas que e x p l i ci t a r a m a r e a l i d a d e , se g u n d o a v i sã o d o s ent r ev ist ados.
RESULTADOS
Na Figura 1, observou- se que o m aior índice registrado de notificações de violência contra a criança nos anos 2001 e 2002 corresponde à região da Regional de Saúde I I I , com 40% dos casos notificados.
4GIKQPCN+ 4GIKQPCN++ 4GIKQPCN+++ 4GIKQPCN+8 8(ÈUKEC 85GZWCN 0GINKIÄPEKC 8(820GINKI 5WURGKVC8( 5WURGKVC85
Figura 1 - Dist ribuição das not ificações de violência dom ést ica cont ra crianças e adolescent es regist radas j u n t o às Reg i o n ai s d e Saú d e seg u n d o o t i p o d e violência, Guarulhos, SP, 2001 e 2002
Quanto aos tipos de violência aos quais as vítimas foram submetidas, na Figura 2, notou-se predominância dos casos de negligência, 45% das notificações, 26% de violência física e 14% de suspeita de violência sexual.
asd
26%
3%
45% 6%
6%
14%
V. Física V. Sexual Negligência
V.Fís/V.Psic/Neglig Suspeita V. Física Suspeita V. Sexual
Figura 2 - Dist ribuição das not ificações de violência dom ést ica cont ra crianças e adolescent es regist radas j u n t o às Reg ion ais d e Saú d e, seg u n d o o t ip o d e violência, Guarulhos, SP, 2001 e 2002
Figura 3 - Dist ribuição das not ificações de violência dom ést ica cont ra crianças e adolescent es regist radas j unt o às Regionais de Saúde, segundo a cat egor ia profissional not ificant e, Guarulhos, SP, 2001 e 2002
Obser v ou- se, segundo análise da Figur a 4, que 31% dos casos foram encam inhados ao Conselho Tut elar exclusivam ent e, 28% ao Conselho Tut elar e out ros program as sociais concom it ant em ent e e 23% apenas para t rat am ent o am bulat orial.
da violência dom éstica contra a criança e a dificuldade dos sujeitos em identificar e assistir os casos no cotidiano de sua at uação. Os pr ofissionais apont ar am , ainda, outros aspectos relacionados à falta de visibilidade do problem a, à falta de preparo dos profissionais para lidar com essa q u est ão e d est acam a n ecessid ad e d a integração das ações com diferentes áreas e serviços. Sim , um a rede de atenção e assistência, seria m uito
bom se pudéssem os trabalhar, ou até m esm o term os um espaço
som ente para discutirm os de form a m ais integrada se não todos,
m as os principais casos. ( E8) .
Gostaria m uito que a Secretaria im plem entasse e criasse
um espaço dentro do program a da criança onde pudéssem os ser
capacitados e orientados a trabalhar com essa problem ática, bem
com o oportunizar um a integração de form a m ais oficializada com
out ros serviços e secret arias. ( E9) .
A per cepção da v iolên cia dom ést ica com o f e n ô m e n o m u l t i f a ce t a d o e d e co m p l e x a s r a íze s m acroestruturais está presente, de form a significativa, nos discursos, conform e dem onst ram as falas.
[ ...] eu diria que a violência que eu detecto está m uito
relacionada com as condições de vida.... ( E1) .
Eu tenho vários casos de mães etilistas e que saem na
noite e deixam as crianças sozinhas, tenho vários casos desses. (E8).
Sabem os da im portância da notificação e do registro
dos casos que nos chegam , m as às vezes se torna difícil definir
se é realm ente ou não, pois m uitos casos são de ordem social ...
Ent ão quem são as m aiores vít im as? As crianças. ( E10) . Out r a quest ão apont ada pelos suj eit os é a falt a de form ação e capacit ação dos profissionais da saúde para at uarem frent e a esse problem a.
Muitos profissionais estão despreparados para avaliar
e perceber as situações de violência... Eu acho que é falta de
ca p a ci t a çã o d o s p r o f i ssi o n a i s e u m a su p e r v i sã o ,
acom panham ento. (E6).
Acho que ser ia necessár io divulgar m ais ent r e os
profissionais o que fazer e com o fazer, m uitos não sabem com o
agir ou não se sentem respaldados... ( E8) .
Assim com o eu m uit os colegas t êm dificuldade de
identificar o que é violência, e que referência tem os além do
Conselho. (E9).
Medo
Est a cat egor ia em pír ica ev idenciou o m edo que em er ge no im aginár io, no cot idiano e na ação d os at or es soci ai s f r en t e aos casos d e v i ol ên ci a dom ést ica, sen do u m dos f at or es delin eador es da ação dos suj eit os, influenciando no que fazem ou no que pensam poder ou não fazer.
#UU5QEKCN /ÃFKEQ 'PHGTOGKTQ 2UKEÎNQIQ
#WZ'PH #%& 0ºQKPHQTOCFQ
Figura 4 - Dist ribuição das not ificações de violência dom ést ica cont ra crianças e adolescent es regist radas j u n t o às Reg i o n ai s d e Saú d e, seg u n d o o encam inham ento realizado, Guarulhos, SP, 2001 e 2002
AS CATEGORI AS EMPÍ RI CAS
Após o processo de organização do m at erial colet ado nas ent r ev ist as, das v ár ias leit ur as desse m at er ial e de sua análise qualit at iva, apr eendeu- se das falas dos profissionais duas cat egorias em píricas, “ int erfaces da violência” e “ m edo”.
I nt erfaces da violência
Est a cat eg o r i a ev i d en ci o u a au sên ci a d e políticas públicas que possam responder pelo fenôm eno
%QPUGNJQ6WVGNCT %QPUGNJQGQWVTQUTGEWTUQU
8KUKVC&QOKEKNKCT 6TCVCOGPVQ#ODWNCVQTKCN
Porque eu tenho casos assim . Já teve casos que a fam ília
m e fala o que acontece, todo m undo sabe, aí passa por um
pronto-socorro e ninguém percebe ou faz que não percebe m uitas vezes
por m edo. (E4).
Eu m esm a quando acabei de desligar o telefone fiquei
com m edo. Falei: gente o que foi que eu fiz? Fiquei preocupada,
não conseguia dorm ir direito. ( E5) .
As falas dos profissionais ressalt am o m edo de ser em per seguidos pelos fam iliar es das v ít im as not ificadas.
Porque outras pessoas fizeram isso por m im entendeu,
não precisou ser a gente daqui, porque depois a gente fica m al
visto pelo bairro. Você já pensou, denunciar um a fam ília e no m ês
seguinte você ter que ir lá! ( E5) .
É... receosa, eu fiquei sabendo que ela j á tinha sido
cham ada e ela m uito brava disse que ia descobrir quem foi que
fez a denuncia... Eu fiquei contente de ver que não falaram da
onde vinha a denúncia. ( E4) .
DI SCUSSÃO
O m unicípio de Guar ulhos, consider ando- se os dados r egist r ados j unt o às Regionais de Saúde, ainda apresent a significat iva subnot ificação dos casos de violência dom éstica contra crianças, o que tem se co n st i t u íd o e m f a t o r d i f i cu l t a d o r p a r a o estabelecim ento de novas políticas e ações integradas, um a vez que “ o ato de notificar é um elem ento crucial na ação pont ual cont ra a violência, na ação polít ica
global e no ent endim ent o do fenôm eno”( 12).
A su b n o t i f i ca çã o e st á f r e q ü e n t e m e n t e r e l a ci o n a d a co m à f a l t a d e co n h e ci m e n t o d o s p r o f i ssi o n a i s d a sa ú d e , d a i m p o r t â n ci a e d o s p r oced i m en t os n ecessár i os p ar a a n ot i f i cação, a ausência de adesão à not ificação; pr eocupação dos p r of ission ais com a q u eb r a d e con f iab ilid ad e d as inform ações e finalm ente pela falta de percepção dos profissionais sobre a relevância dessa t em át ica para
a saúde pública( 13).
O est udo m ost rou que a Regional de Saúde I I I , é a região com m aior índice de notificações. Essa área corresponde a inúm eros bairros e vilas com alta co n ce n t r a çã o d e p o b r e za e si t u a çõ e s d e m iserabilidade, áreas de invasão t errit orial e favelas, heterogeneidade e alta rotatividade de sua população e superlotação dos lares. Acresce- se a isso a escassez de capit al social, fat or es esses que v êm m ant endo os níveis de desigualdade econôm ica, cultural e social na região.
Nessa r eg i ã o en co n t r a m - se i n st a l a d a s 6 Unidades Básicas de Saúde com 12 Equipes de Saúde da Fam ília, 3 Unidades de Pr ont o At endim ent o e 1 Cent r al Odont ológica.
De acordo com dados da Secretaria Municipal
d a Saú d e( 1 4 ), b asead os n os d ad os d o Sist em a d e
I nfor m ação da At enção Básica ( SI AB) , essa r egião a p r e se n t a e st i m a t i v a d e 2 8 7 . 9 0 2 h a b i t a n t e s, cor r esp on d en d o a 2 0 , 9 7 % d a p op u lação t ot al d o m unicípio. Desses, 71. 198 ( 24, 73% ) encont r am - se na faixa etária de 0 a 9 anos.
O Mapa de Ex clu são e I n clu são Social de Gu a r u l h o s( 1 5 ) a p o n t a q u e d i v e r so s b a i r r o s q u e co m p õ e m a Re g i o n a l I I I a p r e se n t a m ín d i ce s significat ivos de exclusão social, desem prego, baixa qualidade de vida e desenvolvim ent o hum ano.
Ou t r o a sp e ct o r e l e v a n t e , o b se r v a d o n a análise dos result ados, refere- se ao alt o percent ual de casos de negligência not ificados e o cuidado na ident ificação dos casos de negligência no dia- a- dia d o t r a b a l h o d o p r o f i ssi o n a l d e sa ú d e . Essa ident ificação é com plexa, exige dos profissionais um olhar crítico no sentido de diferenciar a existência da int encionalidade, em não prover as necessidades da cr iança, das pr iv ações e car ências decor r ent es das sit uações de pobreza.
Observou- se, ainda, que a baixa not ificação r eal i zad a p el o s en f er m ei r o s p ar ece ev i d en ci ar a necessidade de m aior envolvim ent o dessa cat egoria, q u e se m o st r a p e cu l i a r n ã o só p e l o se u sa b e r esp ecíf ico, m as p ela su a cap acid ad e d e ação, d e escuta e de relação, um agente com potência de ação e t r ansfor m ação.
Ad em ais, a en f er m ag em , en t en d id a com o p r át ica social, car r eg ad a d e com p r om isso com a em ancipação e desenvolvim ent o hum ano, não pode se r ealizar sen ão n a per spect iv a da com plex idade d a s t r a n sf o r m a çõ e s d o co n t e x t o so ci a l cont em porâneo, em que est á incluindo a abordagem in t eg r al e m u lt id iscip lin ar d a v iolên cia d om ést ica cont ra a criança.
sej am indicat ivos de que m uit os profissionais t em am t r a n st o r n o s l e g a i s e r e l a ci o n a i s, a d v i n d o s d a not ificação.
Nest e est u do, em bor a os r esu lt ados m ais significat iv os apont em par a o encam inham ent o dos casos aos Conselhos Tut elares, conform e preconizado p elo ECA, ch am ou a at en ção o f at o d e 2 3 % d as notificações terem tido com o encam inham ento apenas o t rat am ent o am bulat orial das vít im as, sem a devida not ificação ao Conselho Tut elar, um a v ez post a sua obr igat or iedade.
Os en t r ev ist ados r ev elar am qu e a gr an de dificuldade para se efet ivar a assist ência às crianças v ít im as de v iolência dom ést ica é a dificuldade dos suj eitos em identificar os casos com exatidão e a falta d e p r ep ar o d os p r of ission ais p ar a lid ar com essa quest ão.
Pelas falas pode- se apreender a dificuldade t é cn i ca d o p r o ce sso d e n o t i f i ca r. Ap e sa r d a obr igat or iedade da not ificação, os pr ofissionais t êm d i f i cu l d a d es em a d o t á - l a co m o co n d u t a p a d r ã o , condut a essa ainda carregada de m uit as incert ezas e dúv idas.
Essa dificuldade pode est ar r elacionada ao fat o de que a quest ão da violência dom ést ica cont ra a criança não tem sido tratada de form a sistem atizada e int egrada na form ação dos profissionais, ou sej a, nos currículos de graduação, e m ost ra- se ausent e da p au t a d e ed u cação p er m an en t e n o s ser v i ço s d e saú de. Logo, m u it os pr ofission ais n ão dispõem de inform ações básicas que perm itam diagnosticá- la com exat idão( 12).
Os p r of ission ais d em on st r ar am , em su as f alas, clar a per cepção da im por t ân cia de polít icas públicas int egradas e art iculadas para a assist ência às crianças vítim as de violência dom éstica, articulação essa necessár ia par a o r eor denam ent o de polít icas públicas m ais visíveis e sust ent áveis.
Nesse sent ido, a saúde pública “ pr ecisa se v olt ar par a o desenv olv im ent o de ações conj unt as com ou t r os set or es, n ão se lim it an d o a esp aços
t radicionalm ent e por ela ocupados”( 16).
Em r elação aos f at or es d et er m in an t es d a v iolência dom ést ica cont r a a cr iança, per cebeu- se, nas falas dos pr ofissionais, que esses os ar t iculam com a violência estrutural e social a que as crianças, su as f am ílias e a socied ad e em q u e v iv em est ão ex post as.
Co m o s d i scu r so s e p r o d u çã o t e ó r i ca apresentados, cabe, aqui, a reflexão sobre a violência
que ocorre no cam po estrutural que acaba por delinear a violência no espaço privado das fam ílias. O padrão d e v iolên cia im p ost o p or m u it as f am ílias às su as crianças não pode ser visto isolado das questões m ais am plas de poder, f r u st r ação, r edu ção dos dir eit os sociais e de pr iv ação, cau sadas pelo desem pr ego, inj ustiça social, políticas econôm icas ineficientes e pela ausência do Estado em cum prir o seu papel de gerador e gest or das polít icas sociais.
Ent ende- se que o aspect o econôm ico não é o único vért ice a ser considerado, na det erm inação histórica da violência. Há que se considerar os fatores educacionais, culturais, sociais e políticos que se inter-relacionam dialeticam ente na disputa pelo poder, pela posse do out ro, da aut oridade.
A q u a l i d a d e d e v i d a d e cr i a n ça s e adolescentes será um a realidade quando a luta contra a violência ent re classes sociais ( violência est rut ural de que as infâncias pobres, prost it uídas e exploradas n o t r ab alh o são alg u n s f r u t os) e a lu t a con t r a a v i o l ên ci a i n t r acl asses so ci ai s ( d e q u e a i n f ân ci a vitim izada no lar é um a conseqüência) forem levadas
sim ult aneam ent e( 17).
Com r elação à cat egor ia em pír ica “ m edo”, observou- se que, ao verbalizar a sit uação do m edo, os profissionais o enfatizam com o algo real, decorrente de experiências am eaçadoras, que convivem no seu dia- a- dia, sent indo- se am eaçados em sua int egridade f ísi ca e n o d e se n v o l v i m e n t o d e se u t r a b a l h o , caract erizando um a das resist ências para se not ificar, ao se sen t ir em p er seg u id os p elos f am iliar es d as
vít im as que foram not ificados( 12).
Para se ent ender a dinâm ica e m anifest ação d e sse m e d o r e l a t a d o p e l o s su j e i t o s, é p r e ci so apreendê- lo com o um fenôm eno societ ário com plexo q u e en v olv e as r elações en t r e as f or ças sociais, cu lt u r ais e p olít icas d a socied ad e, n ão p od en d o, p or t an t o, ser est u d ad o f or a d a soci ed ad e q u e o produz, um a vez que ele se nutre de fatos sociais, a exem plo da violência urbana, im aginários e cult urais
t raduzidos nas relações cot idianas( 18).
CONSI DERAÇÕES FI NAI S
co m p l e x i d a d e é u m co n h e ci m e n t o a i n d a e m const r ução.
Par a i m p ed i r a ( r e) p r o d u ção d o ci cl o d a violência int rafam iliar, as iniciat ivas sociopolít icas na área devem buscar responder os desafios de t irar a violência dom éstica contra crianças da clandestinidade com preender m elhor o processo de produção desse f e n ô m e n o , f o r m a r p r o f i ssi o n a i s co m p e t e n t e s e so ci a l m e n t e co m p r o m e t i d o s n o co m b a t e a e ssa m odalidade de violência.
Ressalt a- se, t odav ia, que esse pr ocesso de v i si b i l i d a d e n ã o o co r r e d e m a n ei r a h o m o g ên ea , exist em avanços e ret rocessos, êxit os e obst áculos, r e q u e r e n d o u m e x e r cíci o d e p e r se v e r a n ça e com pr om isso.
Con h ecer o sign if icado e as in t er f aces da v iolên cia d om ést ica con t r a cr ian ças n a v isão d os profissionais da saúde oportunizou verificar que esses profissionais carecem de form ação e apoio, e que o pr ocesso de t r abalho necessit a t er out r o olhar com v ist as à m elh or ar t icu lação das polít icas sociais a ser em est abelecidas ent r e diver sas ár eas.
Co n si d e r a - se e st e e st u d o co m o u m a co n t r i b u i çã o p a r a a á r e a d a sa ú d e , e p a r a a
e n f e r m a g e m , m e d i a n t e o a p r o f u n d a m e n t o n a com preensão do obj et o de est udo, apont ando que o papel do enfer m eir o, com o elem ent o da equipe de sa ú d e , i m p l i ca e m u m a p o st u r a m a i s a t i v a , apropriando- se de novos conhecim ent os e prát icas.
Conclui- se est e t r abalho esper ando que os r e su l t a d o s a p r e se n t a d o s i n st r u m e n t a l i ze m t r ansfor m ações na pr át ica assist encial e fom ent e a realização de novas pesquisas, um a vez que est udo não encerra a com preensão acerca do significado da violência dom ést ica cont ra a criança.
Est u d o s q u e o b j e t i v e m a a v a l i a çã o d o s sist em as d e in f or m ação p ar a o acom p an h am en t o da m agnit ude do problem a, que busquem aprim orar u m r efer en cial t eór ico- an alít ico, capaz de per m it ir a com pr een são desse f en ôm en o n a especif icidade qu e ele t em h oj e, os fat or es de v u ln er abilidade e d e p r o t e ç ã o c o m u n s à s d i f e r e n t e s c u l t u r a s e sociedades, ou o quant o o t em a est á inser ido nos c u r r íc u l o s e s c o l a r e s d o s d i f e r e n t e s n ív e i s d e f o r m a ç ã o p o d e m s e r o c a m i n h o p a r a n o v o s conhecim ent os e dir ecionam ent os que possibilit em a prom oção dos direit os, da prot eção e da cidadania dessa popu lação.
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