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Braz. j. . vol.83 número3

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Academic year: 2018

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www.bjorl.org

Brazilian

Journal

of

OTORHINOLARYNGOLOGY

ARTIGO

ORIGINAL

Deep

neck

abscesses:

study

of

101

cases

Thiago

Pires

Brito

,

Igor

Moreira

Hazboun,

Fernando

Laffite

Fernandes,

Lucas

Ricci

Bento,

Carlos

Eduardo

Monteiro

Zappelini,

Carlos

Takahiro

Chone

e

Agrício

Nubiato

Crespo

UniversidadeEstadualdeCampinas(UNICAMP),FaculdadedeCiênciasMédicas,DepartamentodeOtorrinolaringologia, Campinas,SP,Brasil

Recebidoem28deoutubrode2015;aceitoem12deabrilde2016 DisponívelnaInternetem26deabrilde2017

KEYWORDS

Neckabscess;

Neckinfection;

Neckspaces

Abstract

Introduction:AlthoughtheincidenceofDeepCervicalAbscess(DCA)hasdecreasedmainlyfor theavailabilityofantibiotics,thisinfectionstilloccurswithconsiderablefrequencyandcanbe associatedwithhighmorbidityandmortality.

Objective: Thisstudyaimedtopresentourclinical-surgicalexperiencewithdeepneck absces-ses.

Methods:Aretrospectivestudyanalyzed101patientsdiagnosedwithdeepneckabscesses cau-sedbymultipleetiologies,assistedatamedicalschoolhospitalduring6years.Onehundred onepatientswereincludedand27(26.7%)wereyoungerthan18yearsold(thechildrengroup), 74 patients (73.3%)were olderthan 18 yearsold(theadults group). The followingclinical featureswereanalyzedandcompared:age,gender,clinicalsymptoms,leukocytecount,the affected cervicalarea,lifestylehabits,antibiotictherapy,comorbidities, etiology,bacterial culture,timeofhospitalization,theneedoftracheostomyandcomplications.

Results:There was predominanceinthemale gender(55.5%)andyoung people(meanage 28.1years).Allofthe51patientswithassociateddiseasecomorbiditywereadults.Themost frequentetiologieswerebacterialtonsillitis(31.68%)andodontogenicinfections(23.7%).The mostcommon cervicalareas affected were theperitonsillar (26.7%), submandibular/mouth floor (22.7%)andparapharyngealspaces (18.8%).Inchildren group,thesitemostcommonly

DOIserefereaoartigo:http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2016.04.004

Comocitaresteartigo:BritoTP,HazbounIM,FernandesFL,BentoLR,ZappeliniCE,ChoneCT,etal.Deepneckabscesses:studyof

101cases.BrazJOtorhinolaryngol.2017;83:341---8. ∗Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](T.P.Brito).

ArevisãoporparesédaresponsabilidadedaAssociac¸ãoBrasileiradeOtorrinolaringologiaeCirurgiaCérvico-Facial.

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involvedwastheperitonsillarspace(10patients,37%).Inadultsgroup,thesitemostcommonly involvedwasmultispace(31patients,41.8%).Streptococcuspyogenes (23.3%)was themost commonmicroorganismpresent.Amoxicillinassociatedwithclavulanate(82.1%)wasthemore usedantibiotic. Themaincomplicationsofabscesses weresepticshock(16.8%), pneumonia (10.8%) and mediastinitis (1.98%). Tracheostomy was necessary in 16.8% of patients. The mortalityratewas1.98%.

Conclusion:TheclinicalfeaturesandseverityofDCAvariedaccordingtodifferentagegroups, perhapsduetothelocationoftheinfectionandahigherincidenceofcomorbidityinadults. Thus,DCAinadultsismorefaciletohavemultispaceinvolvementandleadtocomplications andseemstobemoreseriousthanthatinchildren.

© 2016 Associac¸˜ao Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia C´ervico-Facial. Published by Elsevier Editora Ltda. This is an open access article under the CC BY license (http:// creativecommons.org/licenses/by/4.0/).

PALAVRAS-CHAVE

Abscessocervical;

Infecc¸ãocervical;

Espac¸oscervicais

Abscessoscervicaisprofundos:estudode101casos

Resumo

Introduc¸ão:Emboraaincidênciadosabscessoscervicaisprofundos(ACP)tenhadiminuído, prin-cipalmentepeladisponibilidadedosantibióticos,essainfecc¸ãoaindaocorrecomfrequência considerávelepodeestarassociadaaaltamorbidadeemortalidade.

Objetivo:Esteestudotevecomoobjetivoapresentarnossaexperiênciaclínico-cirúrgicacom osabcessoscervicaisprofundos.

Método: Umestudoretrospectivorealizadoemumhospitaluniversitárioanalisou101 pacien-tes,duranteseisanos,diagnosticadoscomabscessoscervicaisprofundoscausadospormúltiplas etiologias.Foramincluídos101pacientes,sendoque27(26,7%)tinhammenosde18anos(grupo dascrianc¸as)e74(73,3%)tinhammaisde18anos(grupodosadultos).Asseguintes caracte-rísticasclínicasforamanalisadasecomparadas:idade,sexo,sintomasclínicos,áreacervical acometida,hábitosdevida,antibioticoterapia,comorbidades,etiologia,culturabacteriana, tempodeinternac¸ão,necessidadedetraqueotomiaecomplicac¸ões.

Resultados: Houvepredominânciadosexomasculino(55,5%)edejovens(idademédiade28,1 anos). Todosos 51 pacientescom comorbidade associada eram adultos. Asetiologias mais frequentesforamtonsilite bacteriana(31,68%) einfecc¸ões odontogênicas (23,7%).As áreas cervicaisacometidas mais comunsforama peritonsilar (26,7%), submandibular/assoalhoda boca(22,7%)eosespac¸os parafaríngeos(18,8%).Nogrupodascrianc¸as,olocal mais comu-mente envolvidofoioespac¸o peritonsilar(10pacientes, 37%).Nogrupo dosadultos,houve predomíniode acometimentodemúltiplosespac¸os cervicais(31 pacientes,41,8%). Strepto-coccuspyogenes foiomicrorganismopresentemaiscomum(23,3%). Aamoxicilinaassociada aoclavulanatofoioantibióticomaisusado(82,1%).Asprincipaiscomplicac¸õesdosabscessos foramchoqueséptico(16,8%),pneumonia(10,8%)emediastinite(1,98%).Atraqueostomiafoi necessáriaem16,8%dospacientes.Ataxademortalidadefoide1,98%.

Conclusão:Ascaracterísticasclínicas eagravidadedosACP variamdeacordocomas dife-rentesfaixasetárias,possivelmentedevidoàlocalizac¸ãodainfecc¸ãoeàmaiorincidênciade comorbidadesemadultos.Assim,oACPemadultosacometemaisfacilmentemúltiplosespac¸os, apresentamaiscomplicac¸õeseparecesertambémmaisgravedoqueemcrianc¸as.

© 2016 Associac¸˜ao Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia C´ervico-Facial. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este ´e um artigo Open Access sob uma licenc¸a CC BY (http:// creativecommons.org/licenses/by/4.0/).

Introduc

¸ão

Osabscessoscervicais profundos (ACP) são definidospela presenc¸a de pus nos espac¸os e nas fáscias da cabec¸a e do pescoc¸o. Os ACP podem ser categorizados em retrofaríngeos,peritonsilares,massetéricos,maxilares pte-ropalatinos,parafaríngeos, submandibulares, parotídeose doassoalho da boca.1 A despeito doprogresso em testes dediagnósticoedadisponibilidadedemoderna

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tonsi-liteetorcicolo), particularmenteem crianc¸as, nasquaiso examefísico pode ser maisdifícil doque o realizadoem adultos.Noentanto,aparentemente,emadultosémais fre-quentehaverenvolvimentodemúltiplosespac¸oscervicais, termaiorpotencialdecomplicac¸õesesermaisgravedoque emcrianc¸as.3,4Alémdisso,ousodemedicamentos analgési-coseanti-inflamatóriospodemascararasmanifestac¸ões.Às vezesédifícilencontraraorigemdosACP,porqueaprincipal fontedeinfecc¸ãopodeprecedê-losporsemanas.5

Os ACP sãopotencialmente fataise exigem uma abor-dagem diagnóstica e terapêutica agressiva para evitar complicac¸ões com risco à vida, tais como obstruc¸ão das vias respiratórias, fasciíte necrosante cervical, trom-bose da veia jugular, empiema, coagulac¸ão intravascular disseminada, mediastinite, pneumonia por aspirac¸ão ou trombose/aneurisma da artéria carótida. Em geral, ACP polimicrobianos ocorrem a partir de infecc¸ões prévias não controladas, como tonsilite, infecc¸ões dentárias e linfadenite cervical após infecc¸ão de vias respiratórias superiores.2,6 É necessário investigar os fatores de risco, como infecc¸ões, corpos estranhos, traumatismo ou cirur-gia cervical, imunossupressão e dependência de drogas intravenosas. Doenc¸as concomitantes, tais como cistos e fístulas congênitos, tuberculose, diabetes mellitus, HIV, tumores, entreoutras,tambémdevem ser consideradas.7 Asmanifestac¸õesclínicassãodiversasedependemdaárea cervicalacometida.Ousoinadequadodeantibióticos tam-bémpodealteraraapresentac¸ãoclínicadeinfecc¸õesdesse tipoetorná-lasimperceptíveis.4Ospacientespodem apre-sentar leves sintomas, como febre e dor, ou apresentar sintomasmaisgravesouameac¸adoresàvida,comodispneia, obstruc¸ãodasviasrespiratóriasechoqueséptico.

Opresenteestudotemcomoobjetivorelatarnossa expe-riência na conduc¸ão de infecc¸ões dos espac¸os cervicais profundos.

Método

Foram revisados os prontuários de 101 pacientes com diagnóstico de infecc¸ão dos espac¸os cervicais que foram atendidospelo setor de otorrinolaringologia e cirurgia de cabec¸a e pescoc¸ode umhospitaluniversitário, duranteo períododejaneirode2007ajaneirode2013.Todosos paci-entesassinaramdocumentac¸ão,naqualautorizaramouso dedadosdeseusprontuários(procedimentopadrãodo hos-pital).

Em todos os casos, os pacientes foram submetidos a procedimentos cirúrgicos para drenagem dos abcessos. O diagnóstico de abscesso cervical profundo foi suspeitado pelahistóriaclínicaeconfirmadoportomografia computa-dorizada(TC)oucirurgia.Esteestudoexcluiupacientescom infecc¸õescervicaisque nãonecessitaram de cirurgia,tais comoceluliteeinfecc¸õessuperficiaisoulimitadas.Todosos pacientesforamsubmetidosaantibioticoterapiae,quando possível,coletou-seamostraparaculturaesensibilidade.

As seguintes características clínicasforamanalisadase comparadas: idade, sexo,sintomas clínicos, áreacervical acometida,hábitosdevida,usodeantibióticos, comorbida-des,etiologia, culturabacteriana, durac¸ãodainternac¸ão, necessidadedetraqueostomiaecomplicac¸ões.

Todososdadosdescritivosforamrelatadosem porcenta-gens.Asavaliac¸õesestatísticasforamfeitascomumtestet

30 25 20 15 10 5 0

81-90

Faixa etária (anos)

Número de pacientes (%)

0-10 11-20 21-30 31-40 41-50 51-60 61-70 71-80

Figura1 Distribuic¸ãodosindivíduosdeacordocomaidade.

bilateralcorrigidoparadesigualdadedevariânciasegraus deliberdade. Oteste exatodeFisher e o teste␹2 foram usadosparacompararavariávelcategórica.SPSS(13.0,SPSS Inc.,Chicago,IL)foiusadoparaanalisarosdadoseumvalor p<0,05foiconsideradoestatisticamentesignificativo.

Resultados

Populac¸ão

Dos101pacientes,56eramdosexomasculinoe45do femi-nino,55,5%e44,5%,respectivamente.Asidadesvariaramde uma81anos,commédiade28,1anos.Amaioriados paci-enteserajovem,comfaixaetáriaentreassegundaequarta décadas.Entreascrianc¸as,aidademédiafoide8,4anos, comumaligeirapredominânciadosexomasculino(57%dos pacientes)(fig.1).

Sintomasetempoparadiagnóstico

Ossintomasmaiscomunsaodiagnósticoforamfebre(86,1%) e dor cervical (81,1%). Outros sintomas foram odinofagia (75,2%),edemacervical(60,3%)etrismo(47,5%).Treze paci-entes(12,8%), sendo oito homens e cinco mulheres, com médiadeidadede31,3anos,tinhamsintomasdeobstruc¸ão dasviasrespiratórias.Quinzepacientes(14,8%) apresenta-vam sinais de bacteriemia no momento do diagnóstico e dessesforamcoletadashemoculturas.Otempomédioentre oiníciodossintomasatéaprocuraaosservic¸osdesaúdefoi deoitodias(variac¸ãode2a20dias).

Hábitosdevidaecomorbidades

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Tabela1 Comparac¸ãoentrecrianc¸aseadultos

N◦depacientes Múltiplosespac¸oscervicais Ndecomplicac¸ões Morte Ndecomorbidade

Crianc¸as 27 2 8 0 0

Adultos 74 31 40 2 51

Valorp <0,001 0,005 >0,10 <0,001

Etiologia

Atonsilitebacterianafoiacausamaiscomumdeabscesso

cervical(32pacientes,31,68%),seguidaporinfecc¸ão

odon-togênica(24pacientes,23,7%).Em15pacientes(14,8%),a

causanão pôdeser identificada. Outras etiologias foram:

linfadenite pós-infecc¸ão das vias respiratórias e ingestão

de corpo estranho (nove pacientes cada, 17,8%), adenite

(submandibulite:6 casos,5,9% e caxumba:2 casos,1,9%)

efasciíte(quatropacientes,3,96%).Em58,3%doscasosde

etiologiaodontogênicahaviahistóriademanipulac¸ão

den-táriarecente(fig.2).

Espac¸oselinfonodoscervicais

ATC de pescoc¸ofoi realizada paradiagnosticar e avaliar aextensãodainfecc¸ãoem71,2%dospacientes.Osdemais tiveramaextensãodadoenc¸aestabelecida no intraopera-tório.Aregiãocervicalperitonsilarfoiamaisacometidaem 26,7%dos casos (27 pacientes).As outras áreas afetadas, emordemdecrescente,foram:submandibular/assoalhoda boca (23 pacientes, 22,7%), parafaríngea (19 pacientes, 18,8%), retrofaríngea (18 pacientes, 17,8%), mastigatória (oitopacientes, 7,92%)e jugulo-carotídea(quatro pacien-tes,3,96%)(fig.3).

Conforme mostra a tabela 2, o local maiscomumente envolvidono grupo das crianc¸as foi o espac¸o peritonsilar (10pacientes,37%),seguidopeloespac¸oparafaríngeo(nove pacientes, 33,3%), o submandibular em quatro pacientes (14,8%)eoretrofaríngeoemquatropacientes(14,8%).No grupo dos adultos, a localizac¸ão mais frequente foi a de múltiplosespac¸oscervicais(31pacientes, 41,8%),seguida pelo espac¸o submandibular em 19 pacientes (25,6%) e o peritonsilar em 17 pacientes (22,9%). Os pacientes adul-tosdesenvolveraminfecc¸ãoemmúltiplosespac¸oscommais frequênciadoqueascrianc¸as(p<0,01)(tabela1).

35 30 25 20 15 10 5 0

Número de pacientes (%)

Fasciíte Adenite

Corpo estranho Linfadenite

IndeterminadoOdontogênico Tonsilite

Etiologia

Figura2 Etiologiadosabscessoscervicaisprofundos.

Houve a ocorrência de múltiplos espac¸oscervicais em 33 pacientes (32,7%). Quando presente, a linfadenopatia atingiu, com maior frequência,osníveis cervicaisII e III. Houveextensãoparaomediastinosuperioremdois pacien-tes(1,9%).

Bacteriologiaeantibioticoterapia

Todosospacientesreceberamterapiaantimicrobiana. Amo-xicilinacomclavulanatofoioantibióticomaisusadocomo tratamentodeprimeiralinha(82,1%doscasos),seguidopela combinac¸ão de ceftriaxona+metronidazol. A mudanc¸a de antibióticodependeudosresultadosdeculturaoudo resul-tadoclínico.

Omaterialparaculturafoiobtidoem76,2%dos pacien-tes.Nãohouvecrescimentobacterianoem14,5%doscasos. Aculturapolimicrobianafoidetectadaem18,8%dos paci-entes,sendoStreptococcuspyogenes+Streptococcus pneu-moniae a associac¸ão mais frequente. O Streptococcus pyogenes foi o microrganismo mais comum, presente em 25 pacientes (23,3%).A prevalência deoutros organismos foi a seguinte: Streptococcus intermedius (20 pacientes, 18,6%), Streptococcus constelattus (16 pacientes, 14,9%), Staphylococcusaureus(13pacientes,12,1%),Streptococcus viridans(novepacientes,8,4%),Streptococcuspneumoniae (oito pacientes, 7,4%) e Neisseria spp. (sete pacientes, 6,5%). Demais microrganismos (Corynebacterium spp., Eikenella corrodens, Enterococcus faecium, Klebsiella pneumoniae e outros estreptococos) foram menos fre-quentes, totalizando 12 pacientes (11,8%). Dezessete pacientesapresentaramsinaisclínicosdesepsenachegada ao setor de emergência. Em decorrência desses sinais, hemoculturasforamfeitas,comresultadospositivosem13 pacientes(12,8%,dototal),sendotambémmaisprevalente aocorrênciadeStreptococcuspyogenes.(fig.4).

35 30 25 20 15 10 5 0

Área acometida

Número de pacientes (%)

Mediastino superio r

Jugulo-carotídea Mastigado

r

Retrofaríngeo ParafaríngeoSubmandibula r

Peritonsila r

Múltiplos espaço s

(5)

Tabela2 Distribuic¸ãodoslocaisdeabscessoscervicaisprofundos

Crianc¸asn(%)(n = 27) Adultosn(%)(n= 74) Total(n = 101)

Múltiplosespac¸os 2(7,4) 31(41,8) 33(32,6)

Espac¸oparafaríngeo 9(33,3) 10(13,5) 19(18,8)

Espac¸operitonsilar 10(37) 17(22,9) 27(26,7)

Espac¸osubmandibular 4(14,8) 19(25,6) 23(22,7)

Espac¸oretrofaríngeo 4(14,8) 14(18,9) 18(17,8)

Espac¸omastigador 0 8(10,8) 8(7,92)

Espac¸ojugular-carótida 0 4(5,4) 4(3,96)

Mediastinosuperior 0 2(2,7) 2(1,9)

25 20 15 10 5 0

Microrganismo

Número de pacientes (%)

Neisseria sp S. pneumoniae

S. viridans S. aureus

S. constelatusS. intermediusS. pyogenes Outros

Polimicrobianos

Figura 4 Cultura de crescimento bacteriano em abscessos cervicaisprofundos.

Complicac¸ões,traqueotomiaemortalidade

Ascomplicac¸õesdasinfecc¸õescervicaisprofundassão

apre-sentadasnatabela3.Foramencontradascomplicac¸õesem

48 pacientes (oito crianc¸as, 40 adultos). Dos oito paci-entes do grupo crianc¸as com complicac¸ões, três tiverem pneumonia, três choque séptico e dois necessidade de reintervenc¸ãocirúrgica.Asprincipaiscomplicac¸õesdos abs-cessos cervicais incluíram sepse (17 pacientes, 16,8%), pneumonia(11pacientes,10,8%),mediastinite(dois pacien-tes,1,9%)etrombosedaveiajugular(umpaciente,0,9%). Areintervenc¸ãocirúrgicafoinecessáriaemnovepacientes (8,9%),provavelmentedevidoàreorganizac¸ãodainfecc¸ão em compartimentos. Ospacientes adultos desenvolveram complicac¸ões infecciosas com mais frequência do que as crianc¸as(p=0,005)(tabela1).

A obstruc¸ão das vias respiratórias superiores e a impossibilidade de intubac¸ão levaram à traqueotomiaem 17pacientes(16,8%).Desses,oito(7,9%)foramsubmetidos à traqueotomia de emergência devido à insuficiência respiratória.

Houve duas mortes (taxa de mortalidade de 1,9%). O primeiro caso foi uma mulher saudável de 19 anos, com abscesso cervical extenso, associado à mediastinite des-cendentede etiologiaindeterminada. Amorteocorreu no terceirodiapós-operatórioeapacienteapresentousepse, comhemoculturapositivaparaStreptococcuspyogenes.O segundo caso foi um homem diabético de 49 anos, com abscesso de etiologia odontogênica (angina de Ludwig), que se estendeu para osespac¸os cervicais submandibula-res/assoalho da boca e para o espac¸o parafaríngeo. Ele

apresentousepsecomhemoculturapolimicrobiana ( Strep-tococcusviridans+Neisseriaspp).

Otempomédiodeinternac¸ãofoide9,7dias,comuma variac¸ãoentre2e45dias.Ascomplicac¸õesdoabscesso pro-longaram o tempo de internac¸ão em cerca de cinco dias (tempomédiodepermanênciade14,8dias).

Discussão

Os abscessos cervicais profundos são doenc¸as de grande importância por conta de sua frequência e de suas gra-ves complicac¸ões. A incidência dos mesmos é estimada em cerca de 10/100.000 habitantes/ano, com tendência a aumentar, especialmente em crianc¸as menores de 5 anos,1 nas quais a incidência estimada é de cerca de 2/100.000habitantes/ano.1Asinfecc¸õesnãotêm preferên-ciaporsexoouidadee podemacometerqualquerpessoa. Emconcordância comas análises deEftekharian etal., o presenteestudo constatou maiorincidência na populac¸ão jovemdosexomasculino,comidademédiade28,1anos.8 Huangetal.eoutrosestudostambémmostramuma tendên-ciacrescentenaincidênciadeinfecc¸õesempacientesidosos ecomdoenc¸assistêmicas.9Nessegrupo,osmecanismosde defesaseriam menoseficientes, as taxas de recuperac¸ão maislentaseascomplicac¸õesbastantefrequentes.

Muitas causas estão associadas aos ACP. Na era

pré-antibiótica,asinfecc¸õesfaríngeas/tonsilareseram res-ponsáveis por 70% dos casos de infecc¸ões dos espac¸os cervicaisprofundos.10 Atualmente, muitas pesquisas mos-tram um declínio significativo dessa incidência, sendo as infecc¸ões odontogênicas a causamais frequente.6,10,11 No presente estudo, a tonsilite bacteriana foi a causa mais comum(31,68%),seguidadeinfecc¸ãoodontogênica(23,7%), correspondendojuntasa55,3%daamostra.Outrosestudos mostraramumaumentodasinfecc¸õesassociadasao abuso dedrogasintravenosaseaostraumatismocervicais,embora nãotenhamsidoaquiidentificadasessasetiologias.12

Em Coelho et al., o foco dentário foi a origem de abscessos em 37% dos pacientes, enquanto doenc¸as das tonsilas palatinas e faríngeas estavam presentes em 20% doscasos,nãosendopossívelidentificarafontedeinfecc¸ão

em 33% dos pacientes.13 Para Sennes et al., a

(6)

Tabela3 Complicac¸õesdeabscessoscervicaisprofundos

Crianc¸asn(%)(n=8)a Adultosn(%)(n=40)a Todosospacientesn(%)(n=101)a

Mediastinite 0 2(5) 1,98

Trombosedeveiajugular 0 1(2,5) 0,99

Traqueotomiadeemergência 0 8(20) 7,92

Pneumonia 3(37,5) 8(20) 10,80

Choqueséptico 3(37,5) 14(35) 16,80

Reintervenc¸ãocirúrgica 2(25) 7(17,5) 8,90

aPacienteisoladopodeterduasoumaiscomplicac¸ões.

estranho foram foram encontradas em nosso estudo em 17,8%dos casos; adenite(submandibular e parotídea) em 7,8%efasciíteem3,96%.Outrosautorestambémrelataram uma proporc¸ão significativa de ACP com origem primá-ria desconhecida, que atingiu até 50% dos casos.2,6,15,16 Em 14,8% dos pacientes do nosso estudo a etiologia da infecc¸ãonãopôdeserdeterminada,provavelmenteporque ainfecc¸ãoinicialnãofoiprontamentediagnosticadaepor elapoderprecederoabscessoemsemanas.Assim,otempo médioentreoiníciodossintomaseodiagnósticodeACPfoi deoitodias,tendochegadoaaté20dias,encontrando-se comoprincipaissintomasafebreeadorcervical.

O conhecimento das relac¸ões anatômicas entre os espac¸os cervicais é importante para a conduta terapêu-tica,umavez queasfáscias que delimitamesses espac¸os sãoimportantesbarreirasanatômicasparaapropagac¸ãoda infecc¸ão,mastambémservemparadirecioná-la,quandosua resistêncianaturalésuperada.17

A maioria dos estudos anteriores1,18,19 relatou que as crianc¸as representam uma proporc¸ão relativamente baixa deseuspacientescomACP.

Jáaqui,encontrou-seproporc¸ãomaiselevadade pacien-tescommenosde18anos(27casos,26,7%)enenhumdeles tinha doenc¸as associadas. O conhecimento amplo sobre quaismedicamentosforamadministradospreviamenteesua frequêncianãofoiobtidoemgrandeparte doscasos, por-queamaioriadospacientesrecebeutratamentoemoutras unidadesdesaúde.Noentanto,osabscessospodemtersido facilitadospelousoindiscriminadodeantibióticos, especi-almentenotratamentodegripeseoutrasinfecc¸õesvirais, quesãomaiscomunsemcrianc¸asdoqueemadultos, ocasi-onandoresistênciaaosantimicrobianos.20,21

Ousopréviodeantibióticosestácorrelacionadocomum maiorisolamentodeorganismosresistenteseumaumento daincidência debactériasprodutorasde␤-lactamase.22,23 Emúltimaanálise, aresistênciaparece terefeitosobrea incidênciadeinfecc¸ãocervicalprofunda.24 Sãonecessários estudosprospectivos paraelucidar muitos desses questio-namentosedefinirmelhora consequênciadetratamentos inadequadoscomantimicrobianos.

Grandepartedosestudos5,25relatouoespac¸o retrofarín-geocomoomaiscomumenvolvidoemcrianc¸as.Nopresente estudo,oespac¸operitonsilarfoio demaiorocorrênciano grupodascrianc¸as(10de27pacientes,37%),seguidopelo espac¸oparafaríngeo(9de27pacientes,33,3%).Existeum estudo4 que mostrou o espac¸o parafaríngeo como o mais comumenteenvolvidoemcrianc¸as.Issopodeserexplicado porqueasinfecc¸õesnosespac¸osperitonsilar,submandibular, mastigatórioeparotídeopodemseespalharparaoespac¸o

parafaríngeo.9 A infecc¸ão em múltiplos espac¸os cervicais foiencontradaem31pacientesadultos(41,8%)eemduas crianc¸as(7,4%)(p<0,001).Osadultosapresentarammaior facilidadeem desenvolverinfecc¸ãoem múltiplosespac¸os, em comparac¸ão comascrianc¸as, alémdemostraremuma tendênciadedesenvolveremmaiscomplicac¸õesedemaior tempodeinternac¸ãohospitalar.Ofatopodeestar relacio-nadocomumamaiorincidênciadecomorbidadesem adul-tos.Pacientescomcomorbidadestendematerumadefesa maisprecáriacontrainfecc¸ões,oqueresultaeminfecc¸ões maisgraveseamplas.18Nosdoiscasosqueevoluírampara óbito,haviaenvolvimentodemúltiplosespac¸oscervicais.

A microbiologia do ACP é caracterizada como poli-microbiana, incluindo bactérias aeróbicas e anaeróbicas, particularmente gram-positivas. Entre os agentes mais encontrados estão: Streptococcus viridans, Streptococcus milleri,Prevotella spp, Peptosstreptococcus spp. e Klebi-siella pneumoniae,esseúltimomaiscomumem pacientes diabéticos.26Sennesetal.encontraramStreptococcus viri-dansem41,5%doscasos,Staphylococcusaureusem 20,7% delese3,8%comHaemophilusinfluenza.14Nonossoestudo, Streptococcuspyogenesfoioagentemaisfrequentemente isolado(23,3%),oquepodeserexplicadopelamaior incidên-ciadeinfecc¸õesperitonsilares.Detodosospacientes,14,5% nãoapresentaramcrescimentobacterianoemcultura,oque podeserexplicadopelousodealtasdosesdeantibióticos intravenosos, antesda drenagem cirúrgica do abscesso.27 Em 12,8% dos pacientes, foi detectada hemocultura posi-tiva,oquemostraaelevadapossibilidadededisseminac¸ão sistêmicadeumainfecc¸ãoinicialmentenãocontrolada.

Muitos estudos mostraram a associac¸ão do DM com ACP.9,28 Huang et al. 9,20 e Lee et al. 18 indicaram que pacientesidososcomDMerammaissuscetíveisàinfecc¸ão cervical profunda. Em pacientes com DM, a hiperglice-mia pode prejudicar vários mecanismos de defesa do hospedeiro, como as func¸ões dos neutrófilos (aderência, quimiotaxia e fagocitose), resultando em predisposic¸ão à infecc¸ãoecomplicac¸ões.29Huangetal.encontraramaltas taxas de infecc¸ão por Klebsiella pneumoniae em pacien-tes diabéticos.9 Aprevalênciadepacientesdiabéticos,no nosso estudo, foi baixa (12,8%), sendo o Staphylococcus aureus(cincopacientes)eoStreptococcuspyogenes(quatro pacientes)comoosmicrorganismospresentesmaiscomuns nestespacientes.Emumadasevoluc¸õesfatais,opaciente com DM mal controlado apresentou hemocultura positiva paraStreptococcusviridians+Neisseriaspp.

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diagnóstico e avaliac¸ão daextensão doabscesso. Embora tenha alta sensibilidade, a especificidade desse exame é baixa,por exemplo,como acontecenos casosde aglome-radoslinfonodaissemabscessoassociado,oquepodelevar a procedimentos cirúrgicos desnecessários.30 Oh et al. e outrospesquisadoresdemonstraramaeficáciadadrenagem deabscessocomagulhaguiadaporultrassom,semaumento dastaxasdecomplicac¸ões.27 Emgeral, otratamento con-servador é eficaz em pequenas colec¸ões e não apresenta evidênciasdecomplicac¸õesiminentes.Adrenagemcirúrgica aberta foi preferencialmente utilizada em todos os casos desteestudo,vistoquenossaexperiênciacomotratamento anteriormentecitadoaindaépequena.

Aantibioticoterapiafoiiniciadaempiricamenteantesde osresultadosdeculturaesensibilidadeestaremdisponíveis. A escolha de amoxicilina+ácido clavulânico como trata-mentodeprimeiralinhaem82,1%doscasosfoibaseadana cobertura debactérias comumente encontradasem nosso meio, tanto as gram- positivas como anaeróbios. Muitos autores aconselham, para uma cobertura empírica ideal, umapenicilinacombinadacomuminibidorde␤-lactamase (como amoxicilina e ácido clavulânico)ou umantibiótico ␤-lactamase resistente (como cefuroxima, meropenem ou imipenem) em combinac¸ão com um fármaco que seja altamente eficaz contra a maioria dos anaeróbios (como o metronidazol ou clindamicina).17,28 Afebril depois de 48horas,opacienterecebiaaltahospitalarcomprescric¸ão deantibióticooral.

Apesar do uso generalizado de antibióticos, várias complicac¸õesdoACPindesejáveiseameac¸adorasàvidasão conhecidas, como mediastinitedescendente, trombose da veiajugular,pericardite,empiemapleural,erosãoarterial, obstruc¸ãodasviasrespiratóriassuperioresesepse.Emnosso estudo,houvedoiscasosdemediastinite,ambosem adul-tose envolvendomúltiplosespac¸oscervicais,comchoque sépticoeóbitoemumdeles(tabela1).Namediastinite,há queixafrequentededortorácicaoudedispneia.Aextensão dadoenc¸aocorre via espac¸o visceral anteriore a morta-lidade pode chegar a 50% dos casos, exigindo drenagem torácicacombinada.31Aobstruc¸ãodaviaáreasuperiorea consequenteinsuficiênciarespiratóriaobrigouarealizac¸ão detraqueotomiadeemergênciaem7,9%dospacientes. Har--Eletal.descrevemqueoenvolvimentodoassoalhodaboca edoespac¸oretrofaríngeoestámaisassociado aobstruc¸ão da via aérea e maior necessidade de traqueotomia, pro-cedimento necessário em 75% dos casos.10 É interessante observarque,emnossoestudo,especialmentenospacientes com trismo secundário ao acometimento da muscula-turamastigatória, a traqueotomiafoi necessáriadevido à impossibilidade de intubac¸ão, mesmo sem a presenc¸a de insuficiência respiratória. Anossataxa demortalidade foi de1,9%,semelhanteaodescritoporHuangetal.(1,6%).9

Apresentamos aqui informac¸ões relevantes sobre os resultadosclínicosecirúrgicosdosACP.Noentanto,ocurso e a gravidade da mesma infecc¸ão em pacientes diferen-tes podemvariargrandemente, oque requer umaequipe experienteparaaabordagemadequada.

Conclusões

As infecc¸ões cervicais profundas constituem uma emer-gência médica e cirúrgica. As características clínicas e a

gravidade do ACP variaram de acordo com as diferentes faixas etárias, possivelmente em razão da localizac¸ão da infecc¸ão e maiorincidência decomorbidadesem adultos. Assim,oACP em adultosapresentacom maiorfrequência oenvolvimentodemúltiplosespac¸oselevaacomplicac¸ões aparentementemaisgravesdoqueemcrianc¸as.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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Imagem

Figura 1 Distribuic ¸ão dos indivíduos de acordo com a idade.
Figura 3 Extensão da infecc ¸ão por abscessos cervicais pro- pro-fundos.
Figura 4 Cultura de crescimento bacteriano em abscessos cervicais profundos.
Tabela 3 Complicac ¸ões de abscessos cervicais profundos

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