Universidade Federal do Rio de Janeiro
Faculdade de Letras
Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa
LEITURAS DO CAOS URBANO NA OBRA DE JOSÉ EMILIO PACHECO
Por
ANTONIO FERREIRA DA SILVA JÚNIOR Curso de Doutorado em Letras Neolatinas (Estudos Literários, Literaturas Hispânicas)
Tese Doutoral submetida ao Programa
de Pós-Graduação em Letras
Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas.
Orientadora: Profa. Dra. Mariluci da Cunha Guberman.
FACULDADE DE LETRAS
Universidade Federal do Rio de Janeiro Faculdade de Letras
Comissão de Pós-Graduação e Pesquisa
Título da Tese: Leituras do caos urbano na obra de José Emilio Pacheco Orientadora: Professora Doutora Mariluci da Cunha Guberman (UFRJ)
Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas.
BANCA EXAMINADORA
Profa. Dra. Mariluci da Cunha Guberman (Presidente)
Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas Universidade Federal do Rio de Janeiro
Profo. Titular Dr. Eduardo de Faria Coutinho
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Profa Dra Sonia Cristina Reis
Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas Universidade Federal do Rio de Janeiro
Profa Dra Ximena Antonia Díaz Merino
Universidade Estadual do Oeste do Paraná
Profa Dra Ana Cristina dos Santos
Programa de Pós Graduação em Literatura Comparada e Teoria da Literatura Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Profa Dra Rita de Cássia Miranda Diogo
Programa de Pós Graduação em Literatura Comparada e Teoria da Literatura Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Membro suplente
Profo. Dr. Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina
Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas
Universidade Federal do Rio de Janeiro – Membro suplente
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a Deus e à minha família:
A Deus, pela vida, por acompanhar meus passos e por me atender em todos os momentos. Agradeço por ter colocado pessoas maravilhosas e importantes a meu lado, mesmo aquelas que não estão mais presentes nessa vida.
Aos meus pais Antonio e Terezinha, meu tesouro mais precioso. Agradeço por não medirem esforços em minha educação e pelo apoio incondicional a cada nova empreitada. Obrigado por todas as orações e pela companhia em todos os momentos. A vitória é nossa!
À minha irmã Michele, pela presença e pela motivação constante durante toda minha vida acadêmica.
Ao meu sobrinho e afilhado Lucas, peço desculpas por ter me recusado a brincar ou jogar bola contigo, nos últimos meses, por conta deste estudo. Temos muito tempo pela frente para aproveitar e estudar! Espero que sinta muito orgulho do seu padrinho.
DEDICATÓRIA ESPECIAL
Querida Orientadora Profa. Dra. Mariluci Guberman,
Lembro-me com muita nitidez de uma tarde do mês de junho de 2003 quando estávamos na Faculdade de Letras e eu apresentava o primeiro esboço da análise do poema “Tulum” como resultado de minha pesquisa de Iniciação Científica. Estava nos meus últimos anos de graduação e nem vislumbrava a possibilidade de cursar um Mestrado, quiçá um Doutorado. Nunca pensei que fosse capaz de chegar tão longe. Mas, acho que consegui aos poucos me identificar com o universo envolvente da literatura hispano-americana e isso devo à senhora, Professora Mariluci, pessoa enviada de modo especial por Deus para conduzir meus passos. Saiba que meu trabalho, como professor e pesquisador, se deve a seu ofício apaixonado de educadora.
Agradeço todo o conhecimento recebido, o acesso e o empréstimo de livros de seu acervo pessoal, a leitura de meus escritos, o diálogo, a paciência e o carinho de sempre.
AGRADECIMENTOS
— Ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas/ UFRJ, pelo apoio e acompanhamento durante o curso de Doutorado;
— Ao Professor Dr. Eduardo Coutinho, por sua simplicidade e sabedoria. Agradeço sua leitura crítica e detalhada de parte deste estudo por ocasião do Exame de Qualificação. Infelizmente, não tive a oportunidade de ser seu aluno na Graduação, mas tenho a honra de contar com sua presença nesse momento tão importante;
— À Professora Dra. Sonia Reis, pelo exemplo de profissionalismo e de dedicação. Agradeço as ricas considerações teóricas para esta pesquisa no momento do Exame de Qualificação e na ajuda na estrutura interna deste estudo;
— Ao Professor Dr. Pedro Paulo Catharina, por suas observações precisas nas ocasiões do Colóquio de Pós-Graduação em Letras Neolatinas;
— Ao todos os meus professores da Faculdade de Letras/UFRJ, em especial, aos do Departamento de Espanhol e do Departamento de Literatura Hispano-Americana;
— Ao Professor Dr. Tanius Karam, da Universidad Autónoma de la
Ciudad de México, pelo envio de textos teóricos para este estudo;
— À Direção do Centro Federal de Educação Profissional e Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), por ter financiado minha presença em diferentes congressos da área, divulgado meus estudos sobre a obra de José Emilio Pacheco.
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
— Ao Jefferson Lima, que esteve ao meu lado nos últimos anos e me ajudou em minhas dúvidas e descobertas por esse longo caminhar pelas Letras. Agradeço sua motivação;
— Ao Leandro Cristóvão, amigo de longa data. Só tenho a agradecer sua presença e sua ajuda em todos meus momentos de desespero;
— À Simone Oliveira, pela amizade e pela leitura atenta deste trabalho; — À Viviane Pereira, pelas constantes palavras de apoio e de otimismo; — Aos meus amigos de CEFET/RJ: Alessandra Mitie, Ângela Norte, Bianca Tempone, Carmen Perrotta, Claudia Bichara, Claudia Lopes, Fernanda Rosa, Flávia Dutra, Glória Quelhas, Graça Coelho, Leandro Cristóvão, Kátia Cunha, Silvana Bezerra, Suzana Barroso. Muito obrigado pela torcida!
SILVA JÚNIOR, Antonio Ferreira da.
Leituras do caos urbano na obra de José Emilio Pacheco. Antonio Ferreira da Silva Júnior. – Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.
xiv, 422 f.: il.; 30 cm.
Orientadora: Mariluci da Cunha Guberman.
Tese (Doutorado) – UFRJ / Faculdade de Letras / Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, 2010.
Referências bibliográficas: f. 399- 422.
SINOPSE
RESUMO
SILVA JÚNIOR, Antonio Ferreira da. Leituras do caos urbano na obra de
José Emilio Pacheco. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2010.
422 fl. Mimeo. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas, Literaturas Hispânicas.
A pesquisa intitulada Leituras do caos urbano na obra de José Emilio
Pacheco analisa poemas extraídos das obras Antologia: Fin de siglo y otros poemas (1987), La ciudad de la memoria (1989), El silencio de la luna (1994), El reposo del fuego (1999) e La arena errante (2000); contos
e minificções selecionados das coletâneas La sangre de Medusa y otros
cuentos marginales (1990), El principio del placer (1997) e El viento distante (2000) e do romance curto Las Batallas en el desierto (1981) do
escritor mexicano José Emilio Pacheco (1939), focalizando o discurso simbólico, através das imagens poéticas e narrativas relativas aos dilemas da vida moderna mexicana. Esta pesquisa parte do estudo do processo de criação artística do escritor no contexto das Letras Mexicanas para entender sua obra e sustentar nossa análise crítica dos textos literários. A cidade é o cenário freqüente da obra de Pacheco. A estética moderna nos sinaliza uma cidade caótica e fragmentada, onde os aspectos negativos do sujeito são evidenciados. O caos aparece, neste estudo, como representação de temas decorrentes da vida na cidade moderna: o medo, a violência e a solidão. Partindo desse pressuposto, a proposta desta Tese busca analisar o modo como o escritor constrói a imagem do espaço citadino em sua produção literária. A história tem presença constante na obra do escritor. A nostalgia por uma antiga cidade habitável e inocente comparada à atual, além de uma reflexão constante sobre a identidade mexicana, são algumas das conjeturas que explicam a presença da história na literatura de Pacheco. O desenvolvimento deste estudo se encaminhou para a confirmação da hipótese de que o fio condutor da obra de Pacheco, independente do gênero, representa o desgaste do tempo.
RESUMEN
SILVA JÚNIOR, Antonio Ferreira da. Leituras do caos urbano na obra de
José Emilio Pacheco. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2010.
422 fl. Mimeo. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas, Literaturas Hispânicas.
La investigación titulada Leituras do caos urbano na obra de José Emilio
Pacheco analiza poemas extraídos de las obras Antologia: Fin de siglo y otros poemas (1987), La ciudad de la memoria (1989), El silencio de la luna (1994), El reposo del fuego (1999) y La arena errante (2000);
cuentos y minificciones seleccionados de las coletáneas La sangre de
Medusa y otros cuentos marginales (1990), El principio del placer (1997) y El viento distante (2000) y de la novela corta Las Batallas en el desierto
(1981) del escritor mexicano José Emilio Pacheco (1939), teniendo como foco el discurso simbólico, a través de las imágenes poéticas y narrativas relativas a los dilemas de la vida moderna mexicana. Esta investigación parte del estudio del proceso de creación artística del escritor en el contexto de las Letras Mexicanas para comprender su obra y sostener nuestro análisis crítico de los textos literarios. La ciudad es el escenario frecuente de la obra de Pacheco. La estética moderna nos señala una ciudad caótica y fragmentada, donde los aspectos negativos del sujeto se evidencian. El caos aparece, en este estudio, como representación de los temas recurrentes de la vida en la ciudad moderna: el miedo, la violencia y la soledad. Basándonos en ello, la propuesta de esta Tesis busca analizar la manera cómo el escritor construye la imagen del espacio citadino en su producción literaria. La nostalgia por una antigua ciudad habitable e inocente comparada a la actual, además de una reflexión sobre la identidad mexicana, son algunas de las conjeturas que explican la aparición de la historia en la literatura de Pacheco. El desarrollo de este estudio se encaminó para la confirmación de la hipótesis de que el hilo conductor de la obra de Pacheco, independiente del género, representa el desgaste del tiempo.
ABSTRACT
SILVA JÚNIOR, Antonio Ferreira da. Leituras do caos urbano na obra de
José Emilio Pacheco. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2010.
422 fl. Mimeo. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas, Literaturas Hispânicas.
The study entitled Leituras do caos urbano na obra de José Emilio
Pacheco aims at analyzing poems excerpted from the works: Antologia: Fin de siglo y otros poemas (1987), La ciudad de la memoria (1989), El silencio de la luna (1994), El reposo del fuego (1999) and La arena errante (2000); tales and short fiction stories from the selection La sangre de Medusa y otros cuentos marginales (1990), El principio del placer
(1997) and El viento distante (2000) as well as the short novel Las
Batallas en el desierto (1981) written by the Mexican writer Jose Emilio
Pacheco (1939), focusing on the symbolic discourse through poetic images and narratives regarding the dilemmas in Mexican modern life. The research is based on the study of the writer’s process of artistic creation in Mexican arts in order to understand his work and support our critical analysis of literary texts. The city is a recurrent setting of Pacheco’s work. The modern aesthetics signals a chaotic and fragmented city in which the negative aspects of the individual are highlighted. The chaos emerges as the representation of arising themes of life in the modern city such as fear, violence and loneliness. Based on this assumption, the
purpose of this study is to analyze how the writer builds the image of the
city space in his literary production. History is quite present in his work. The nostalgia for an old, livable and and naive city as well as the constant reflection about Mexican identity are some of the assumptions which may explain the presence of history in Pacheco’s literature. This study develops to confirm the hypothesis that the central aspect of Pacheco’s work, regardless of the genre, represents timeworn.
Ciudad de México se trata de una ciudad cuya complejidad se encuentra constituida no sólo por sus grandes edificios, monumentos o riqueza histórica, también se constituye por un conjunto de imágenes de neón que flotan como nubes sobre las calles fétidas e hiperviolentas, infestadas por sujetos demandantes de derechos, que sus voces se confunden con aquella voz somnolienta que día y noche nos da a conocer los anuncios de una vida urbana postapocalíptica, en la que todos los citadinos luchamos por no perdernos en este labirinto que notoriamente se expresa en la visión de un gigantismo urbano constituido por un pastiche incoherente de paisajes imaginarios.
José Luis Cisneros (2008)
La vida siempre me desborda y hoy escribo con impaciencia, angustia y mala conciencia. Es hermosa la vida y hace agua por todas partes: muerte, dolor, desesperación. Y qué vacío, qué silencio en medio de tanto ruido. Los sueños y los deseos pudriéndose. El don de la elocuencia y el arte del silencio no son contrarios sino complementarios.
[…]
La función de la literatura no es salvar el mundo sino iluminarlo: darnos la experiencia de otra experiencia aunque sea inútil.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...14
JOSÉ EMILIO PACHECO E AS LETRAS...28
I. O CONTO E A POESIA: CAMINHOS FRONTEIRIÇOS DA ARTE DE LER O MUNDO...44
1.1. O conto hispano-americano: a busca por um conceito...49
1.2. A poesia: irmã misteriosa do conto?...83
II. (RE) LEITURAS DA CIDADE: IMAGENS DO CAOS E DO MAL ESTAR DOS TEMPOS...102
2.1. O discurso fundador da cidade...107
2.2. Cidade do México: da formação de uma nação à cidade vídeo-clip....117
2.3. As imagens e as vozes da cidade...132
2.4. O caos urbano e o mal estar da (pós) modernidade...137
III. SUJEITO, CIDADE E EXPERIÊNCIAS URBANAS NA OBRA DE PACHECO...155
3.1. A cidade e o poeta mexicano...155
3.1.1. O sujeito e a cidade da memória...163
3.1.2. A cidade moderna e o poeta...187
3.1.3. Preocupações de final de século na poesia do escritor...191
3.2. A cidade e o contista mexicano...222
3.2.1. “Tríptico del Gato”: sinais da fragmentação do sujeito moderno no primeiro conto do autor...233
3.2.2. Las Batallas en el desierto: México a caminho da Modernidade………...254
3.2.3. “El viento distante”: a solidão na urbe……...305
3.2.4. O medo perante a urbe em “Shelter”...314
3.2.5. O poder das palavras na confissão de “La zarpa”...331
3.2.6. “La Reina”: representações do sujeito na cidade...341
3.2.7. “La fiesta brava”: entre a tradição e a modernidade mexicana...355
CONCLUSÃO...388
INTRODUÇÃO
Esta Tese pretende dar continuidade ao estudo desenvolvido em minha Dissertação de Mestrado, sob orientação da Profa. Dra. Mariluci da Cunha Guberman, no qual enfatizamos o substrato histórico e cultural presente na poesia do escritor mexicano José Emilio Pacheco, por meio do olhar do autor direcionado para o espaço citadino e seus problemas sociais. Após levantar o sistema imagético do corpus analisado, sintetizamos, no final da pesquisa, as dores e os lamentos revelados como constituintes da imagem do “caos”, oriunda da desordem da vida moderna.
Portanto, nesta nova etapa, procuramos retomar a pesquisa anterior para aprofundar e ampliar nossa discussão e análise. A partir do conceito de cidade caótica (GOMES, 2008), resolvemos analisar como Pacheco representa, principalmente, a capital mexicana em seus textos, tanto poéticos, como narrativos. A obra ensaística do autor ainda não se encontra compilada, contudo, tivemos acesso a alguns desses textos, como também, a entrevistas e a discursos de recebimento de prêmios. Acreditamos que tais textos são de notória importância, porque permitem confrontar o pensamento do escritor com sua obra artística. O escritor, normalmente, traz consigo um discurso fatalista para os acontecimentos ao seu redor e isso se reflete em sua obra literária. Por meio do seu olhar nostálgico e pessimista em relação à cidade e, através do lamento pelos mexicanos, encontramos elementos para elaborar esta pesquisa com o fim último de analisar criticamente sua obra.
“fronteiras” entre a poesia e a prosa do escritor, muito menos, analisamos seus textos desse modo, mesmo porque a crítica especializada e o mercado editorial ainda não consideram sua unificação. Somente, buscamos, do ponto de vista teórico, encontrar semelhanças entre os gêneros para compreender como se processa o fazer artístico de Pacheco.
A partir de leituras teóricas que classificam a Cidade do México como um espaço caótico (CISNEROS, 2008; GARCÍA CANCLINI, 1999), a pergunta de pesquisa condutora deste estudo está em verificar o modo como o escritor constrói a imagem da urbe em sua produção literária. A análise de textos de diferentes gêneros e épocas busca comprovar se a leitura realizada pelo autor se mantém uniforme em toda sua obra. A originalidade da pesquisa está em levantar, no mesmo estudo, detalhes do processo artístico de Pacheco, no campo da poesia e da prosa, além de conceber o mal-estar, o medo, a violência e a redução da comunicabilidade entres os sujeitos, características impostas pela (pós)
modernidade1 e apresentadas, em nossa investigação, como
desdobramentos do conceito de caos.
Vale a pena ressaltar que esta pesquisa é a primeira realizada, no Brasil, sobre a obra literária de José Emilio Pacheco. Acreditamos que esse cenário mude, nos próximos anos, pela divulgação cada vez mais expressiva da produção do escritor, reforçada pelo reconhecimento do mesmo, no ano de 2009, com o Prêmio Cervantes de Literatura (Espanha).
A partir do exposto, até esse momento, elaboramos nosso tema de investigação baseado no desejo de analisar a obra de Pacheco, como caracterizadora de um tempo, e esse tempo simbolizando a fugacidade do já vivenciado, a reconquista de novas maneiras de encontrar-se com o mundo e como um tempo de esperança de dias melhores. Logo, este estudo propõe-se a analisar, também, o modo pelo qual o escritor se
1
apóia na realidade que o rodeia para a elaboração de seus textos, detectando as marcas de estilo presentes em suas produções artísticas.
Ressaltamos, ainda, que a forma como abordamos e analisamos a obra do escritor é uma das possibilidades existentes. A sensibilidade e a imaginação de cada leitor/ crítico da obra são pontos importantes a se considerar na análise de um texto literário. Não há como esgotar todos os sentidos de um texto literário nesta pesquisa. A partir disso, ressaltamos nossa preocupação em escolher uma fundamentação teórica e metodológica que nos desse subsídio para “recriar” os sentidos atribuídos por Pacheco, sem perder de vista que diante de um fenômeno estético, a intuição e a sensibilidade do leitor jogam um papel importante na tentativa de apreensão de significados.
O fio condutor de análise deste estudo se estrutura por meio de um enfoque de cunho social, propondo um convite a revisitar as origens do indivíduo mexicano a partir das imagens retratadas por Pacheco em sua obra. Além disso, promove, fundamentalmente, uma reflexão sobre o modo como Pacheco retrata, em seus textos, as questões mais latentes da vida na Cidade do México. O caos, gerado pela globalização, leva os indivíduos a experimentarem a heterogeneidade, vivenciando novas experiências urbanas. O encontro com a identidade do outro também interessa a Pacheco.
Pacheco, como poderá ser observado no decorrer desta pesquisa, não se considera como pertencente a um grupo estético específico. Ele representa uma voz própria e autêntica, que ultrapassa todas as correntes de vanguarda e pós-vanguarda, buscando o diálogo com expressões
orientais de estilo — que o ajudaram na elaboração de seus aforismos2 —
e, ao mesmo tempo, resgata uma tradição greco-latina na busca de ferramentas para a elaboração de textos poéticos em formato de epigramas e/ ou que mesclam certo linguajar épico-utópico. O escritor, em questão, não adere a nenhum movimento estético em particular, pois, segundo ele, há a necessidade de o artista vivenciar vários estilos e com
2
esses formar uma consciência crítica a partir dessa experimentação; por isso, Pacheco acredita que a literatura hispano-americana forma-se em conjunto.
Em sua rica produção, o escritor retrata a realidade mexicana, desde o seu passado pré-hispânico até a modernidade. Ambos os panoramas são criados pelo imaginário do escritor, a partir do seu olhar crítico do presente como sujeito conhecedor daquilo que visualiza. Sua literatura emprega referências da história com o intuito de questioná-las e aumentar a participação do leitor em seu texto. O escritor joga com as palavras criando imagens, cuja história enriquece sua ficção. Pacheco entende sua obra como o resultado de um fazer artístico em constante evolução e como um produto aberto ao leitor. Por isso, defende sua participação ativa: ser capaz de interagir com o discurso literário e atribuir novas significações e sentidos para o objeto lido. O leitor desempenha um papel importante ao construir e tecer conexões com a sua própria realidade.
Para o estudo da linguagem poética de Pacheco, utilizar-se-á como
corpus de análise os livros que perpassam as inúmeras fases de sua vida
e que acompanham seu processo de desenvolvimento como escritor e leitor. Ao analisar sua produção, percebemos um desejo de privilegiar sempre o texto; logo, o autor faz uso da técnica da reescritura de certos escritos, para que esses cheguem ao público leitor da melhor maneira possível. Embora um dos temas deste estudo seja a temática do espaço urbano, os livros não se centram somente nessa temática.
renovar seu estilo e repensar o trabalho com a palavra, nunca deixando de enfatizar sua contribuição social.
Para o corpus desta pesquisa, selecionamos as seguintes obras de José Emilio Pacheco:
Poesia:
Antologia Fin de Siglo y otros poemas (1987), coletânea na qual
Pacheco reúne poemas de diversos momentos e com diversas linguagens, permitindo ao leitor desfrutar de um amplo universo imagético;
El Silencio de la luna (1994), evidenciando uma poesia que
ultrapassa a própria linguagem;
Ciudad de la memoria (1989), livro que evidencia a carga
escatológica do indivíduo mexicano, cujas tragédias nos espaços urbanos e a falta de solidariedade entre os semelhantes, repercute a falta do diálogo entre os seres humanos na vida contemporânea;
El reposo del fuego (1999), clássico da literatura mexicana que
permite ao indivíduo refletir sobre a sua existência desde o passado destruído de uma civilização até sua contemporaneidade;
La arena errante (2000), livro cuja linguagem poética desvenda o
interior do homem em sua história pessoal e social. Contos e minificções:
La sangre de Medusa y otros cuentos marginales (1990),
compilação dos textos iniciais do escritor, cuja temática central gira em torno do choque do sujeito diante da violência da urbe; no prólogo desse livro, o autor recorda nomes importantes da Literatura Mexicana e agradece a oportunidade de poder dialogar com eles em sua obra;
El principio del placer (1997), reúne seis contos e um romance
velhice; o livro demonstra a luta pela manutenção da cultura nacional diante da invasão cultural norte-americana;
El viento distante (2000), coletânea de textos que demonstra a
infância como uma fase de descobertas, mistérios e aventuras. Romance curto:
Las Batallas en el desierto (1981), que trata do processo de
modernização do México, da intensificação dos costumes norte-americanos, das trocas e das experiências do sujeito na imensidão da cidade.
Como complemento do material de análise, fazemos uso de ensaios e entrevistas escritas do autor. Em alguns temas, ampliamos o
corpus com o auxílio de outros textos, principalmente, poemas em prosa,
extraídos de Como la lluvia (2009a) e La edad de las tinieblas (2009b), obras mais recentes do autor cuja discussão central está em retratar o poder, a arrogância, o desejo, a superioridade e a inveja do homem; a cidade como cenário da liquidez dos valores humanos. O primeiro livro traz epigramas, haikús, poemas breves, extensos e em prosa, já o segundo, explora todas as possibilidades do poema: mais líricos, narrativos e ensaísticos. A hibridez genérica presente, nesses últimos livros, pode ser um caminho para a continuidade de nossa pesquisa sobre a obra de Pacheco.
A primeira seção deste estudo “José Emilio Pacheco e as Letras” mostra o surgimento da figura do escritor no cenário da Literatura Mexicana, sua formação literária, o modo como idealiza sua arte e o direcionamento dado a sua obra, ou melhor, a adoção de uma voz voltada para a reflexão dos fracassos de sua nação mestiça. Apresentamos, principalmente, o contexto intelectual e literário em que se formou o escritor, sendo esse levantamento de grande relevância para inserir o autor entre os mais renomados de seu tempo e de seu país. A carga humanística presente nos textos de Pacheco é construída ao longo de sua carreira como escritor. O reconhecimento do valor de sua obra, por escritores prestigiados da literatura em língua espanhola, mostra-se nítido, como inúmeros prêmios conquistados pelo escritor.
O primeiro capítulo intitulado “A poesia e o conto: caminhos fronteiriços da arte de ler o mundo” subdivide-se em duas seções. Esse capítulo fornece ferramentas ao leitor para que compreenda a escolha do
corpus da pesquisa e a análise dos textos, realizada no terceiro capítulo
do estudo. Pacheco aponta a brevidade como uma característica comum aos dois gêneros, além disso, visualiza outros pontos de semelhança entre ambos. Para o escritor mexicano, a escolha do gênero decorre da necessidade de expressar cada assunto.
O sub-capítulo “A poesia: irmã misteriosa do conto?” traz em seu título uma interrogante originada a partir da leitura de uma afirmação de Cortázar (1963) sobre a origem e a intensidade presente nos dois gêneros. Nessa seção do estudo, pretendemos buscar pontos de aproximação entre os mesmos. Para isso, recorremos aos estudos de Emil Staiger (1974), Sônia Brayner (1979) e Javier Lasarte (1991). Para José Emilio Pacheco (1966), a poesia e a prosa complementam-se e contribuem para sua versatilidade como escritor. Ainda, nessa seção, discutimos a evolução da poesia, em particular no cenário mexicano, e sua presença na vida contemporânea.
Buscamos retratar o cenário da poesia mexicana com os movimentos poéticos anteriores ao surgimento da voz crítica e social de Pacheco. As tendências poéticas, desde os anos quarenta, revelam-se aos olhos do leitor na interpretação e na compreensão das temáticas produzidas por Pacheco. Evidenciam-se nesse sub-capítulo, correntes literárias antagônicas e, ao mesmo tempo, tão pertinentes, quando pensadas a partir do minucioso trabalho de criação poética do autor. Inúmeros movimentos somam-se em prol do desejo de retratar o real, ou melhor, de representar o reflexo desse real, gerando certa pluralidade de estilos.
O capítulo dois intitula-se “(Re) leituras da cidade: imagens do caos e do mal estar dos tempos” e divide-se em quatro sub-capítulos. Esse capítulo, como um todo, trata da fundamentação teórica que sustentou nossa pesquisa e a análise do corpus do estudo. A cidade transforma-se no objeto central do olhar do sujeito moderno, inclusive, dos escritores hispano-americanos, que a retratam de modo real ou imaginário. Buscamos, neste capítulo, trazer para a discussão a fundação das cidades hispano-americanas até sua contemporaneidade, permitindo que o leitor note as transformações no modo de ler o espaço urbano, através dos tempos.
consigo certas ideologias e uma mentalidade urbana. Tais considerações são complementadas pelo aporte teórico de Kevin Lynch (1997), ao propor que o espaço da cidade se comunica com o interior de cada um dos indivíduos presentes na cidade ou que façam parte da própria cidade. Assim, ambos os teóricos contribuíram para se pensar os discursos, as memórias e as imagens que encontramos na história da cidade — vista por seu patrimônio arquitetônico, cultural e nas características de um povo.
Por meio dos conceitos de “cidade caótica”, de Renato Cordeiro Gomes (2008), “cidade turbilhão”, de Rafael Argullol (1994) e “cidade video-clip”, de García Canclini (1999), tratamos a Cidade do México como personagem central da literatura de Pacheco. Sua poesia aborda a superposição de espaços (templos, praças, ruas) e da perpetuação de um imaginário indígena na constituição da cidade moderna. Sua prosa emprega o cenário da urbe para ressaltar a desilusão do homem diante da desordem da vida ou dos atos de violência desses sujeitos. Independente do gênero, a obra de Pacheco trata de uma cidade real, cujo conflito e cuja falta de comunicação nas relações sociais acabam por gerar um sentimento caótico. Recorremos ao livro de Gênesis, da Bíblia, e as considerações de Renato Cordeiro Gomes (2008), Mariluci da Cunha Guberman (2008) e Zygmunt Bauman (2008) para fundamentar nosso estudo sobre o caos urbano.
A literatura de Pacheco dota de sentido o mundo transformado em ruína, aquele que não pode mais ser retratado em sua totalidade. A cidade contemporânea congrega outras em seu interior. A partir disso, o caos urbano é visível no processo de construção e reconstrução da urbe, na explosão de grandes catástrofes na humanidade e na falta de diálogo entre os sujeitos.
O caos urbano aliado ao medo e à violência provoca o isolamento dos sujeitos, ocasionando a solidão, conseqüência da nova geografia da cidade moderna. O isolamento e a procura por proteção constituem um novo modelo de vida nas grandes metrópoles. Essa se configura de um modo bastante plural, colocando diferentes grupos e classes na convivência lado a lado. O castigo e a maldição, presentes no mito bíblico da cidade fundada por Caim, continuam apresentando-se nos grandes centros urbanos através dos inúmeros problemas ocasionados pela população na busca de ascensão social.
Na primeira seção, analisamos poemas que tratam da memória do escritor para o espaço citadino. Pacheco tece comentários sobre o caráter coletivo do espaço da cidade, ao propor espaços híbridos de convivência em sua voz poética. Ainda, nessa seção, por meio do jogo de palavras empregado pelo escritor em seu poema “México: vista aérea”, certas imagens poéticas são cantadas através da arqueologia mexicana, em busca de uma conscientização nacional, recurso utilizado por Pacheco para preservar certa parcela da identidade mexicana. O poeta denuncia fatos e expõe questões que parecem provocá-lo profundamente ao sentir a constante presença do passado de sua civilização.
Na segunda seção, nos dedicamos a discutir o valor da linguagem na vida humana, para isso tentaremos compreender e desmembrar o canto poético de Pacheco, apreendendo o árduo trabalho do escritor na busca pela melhor palavra lírica para representar o mundo ao seu redor. As inúmeras influências estéticas, recebidas por outras vozes, são reconhecidas por Pacheco como responsáveis pela formação de sua poesia, ao mesmo tempo, singela e atual.
Na terceira seção, buscamos mostrar a maneira como o poeta revela a utopia de seguir vivendo e cantando a diversidade do México. A sensibilidade da palavra poética de Pacheco mostra que só por meio dos seus sentidos mais aguçados consegue perceber as questões que permeiam o imaginário mexicano. A carga dramática de sua poética é sentida e simbolizada como uma possível solução para os novos tempos do México.
mesmos. Para isso, devemos recuperar a nossa identidade coletiva, mais que nunca, por meio de nossas ações em sociedade.
Para o entendimento desse tempo da ruptura e da noção de globalização, colocações de Octavio Ianni (2003), Zygmunt Bauman (1999 e 2005) e Manuel Castells (2002) serviram como suporte teórico para a idéia de heterogeneidade e de pluralidade dos tempos, trazida por essa mudança no modo de analisar as questões sociais. Essa transformação de mentalidade liga-se à idéia de tentar compreender o que seria a nossa identidade e como essa se dá no convívio com outras, que encontramos no espaço da cidade.
No México, defendemos a posição de que a idéia do nacional se faz cada vez mais reduzida, e, por conseguinte, a identidade vista como unidade fixa é rompida pelos novos discursos da modernidade, levando a um hibridismo de culturas. Para chegar às seguintes conclusões, utilizamos estudos de Néstor García Canclini (1999 e 2000), Pedro Gómez García (1998) e Stuart Hall (2006) sobre a identidade que compartilhamos com os demais sujeitos num espaço de interação.
Em “A cidade e o cotista mexicano”, apresentamos como se constrói o universo narrativo criado por Pacheco e alguns pontos de semelhança da figura do escritor como poeta e contista. O sub-capítulo divide-se em sete seções, cujo interesse se resume na análise dos contos, das minificções e do romance curto do escritor, problematizando as ações humanas, responsáveis, em parte, pelos desdobramentos de um ar caótico.
Na segunda seção, analisamos a relação entre a ficção e a história no romance curto Las Batallas en el desierto. O plano de fundo da narrativa é o processo de industrialização e de modernização, iniciados no México a partir do governo do Presidente Miguel Alemán. Pacheco demonstra a massiva presença do poderio norte-americano no contexto mexicano, cujo poder afeta a economia, os costumes culturais locais e, principalmente, a personalidade dos personagens da trama. O romance do escritor faz uma aproximação, em algumas cenas, ao movimento estético do Pop Art, do crítico inglês Lawrence Alloway, para fazer uma referência crítica ao consumismo daquele momento. Buscamos analisar a forma como Pacheco realiza tal diálogo.
Na terceira seção, analisamos a minificção “El viento distante”, cujo símbolo do vento alude à recordação de um tempo já vivenciado pelos sujeitos da narrativa. Pacheco aborda a tristeza da sociedade personificada através do sofrimento da personagem em busca da salvação diante da precariedade da vida.
Na quarta seção, tecemos a leitura da minificção “Shelter”, a partir dos estudos de Zygmunt Bauman (2009) e de Eduardo Galeano (2008) sobre o tema do medo e de Michel Foucault (2006) sobre a loucura. O sentimento do medo está presente, na sociedade, desde a Grécia Antiga. Na sociedade moderna, todas as pessoas são passíveis de sentir medo e transmiti-lo de inúmeras formas: tristeza, solidão, loucura. Todo o relato centra-se no discurso de um personagem como forma de representar o seu olhar de desespero para a sociedade ao redor. Tanto medo gera-lhe momentos de fuga do real, demonstrando certo desvio psíquico em suas ações.
esse poder, que passa pela essência de quem o enuncia. Aliado a isso, tratamos, nessa seção, do gênero confissão, adotado por Pacheco no conto, como intertexto do grande texto. Para o estudo do gênero confissão, recorremos aos estudos da filósofa espanhola María Zambrano (2001) como mecanismo de análise e compreensão desse tipo de enunciação.
Na sexta seção, tratamos do conto “La reina”, cuja temática central gira em torno do desejo de uma adolescente em ocupar o posto de rainha do carnaval de sua cidade. O conto acaba por problematizar questões da personalidade da protagonista e, ainda, revela as conturbadas relações de poder e de solidão dentro dos centros urbanos. Apesar de estar numa festa de Carnaval, a figura da protagonista denuncia as identidades solitárias e perdidas no espaço da urbe. O discurso da sociedade capitalista, a superioridade de classes e a sensualidade são outras temáticas discutidas nessa seção.
A sétima seção traz a análise do conto “La fiesta brava”, cujo objetivo do autor está em criticar a invasão norte-americana ocorrida no México, geradora de relações de dependência econômica e cultural. Além disso, Pacheco transfere os conflitos sociais ao texto literário, tenta resgatar a história e problematiza suas fases obscuras para projetá-las desde seu olhar e sua verdade. O conto propõe, inclusive, um repensar sobre a escritura e a figura do escritor hispano-americano. O autor chega a uma conclusão, na narrativa, a de que a nostalgia asteca é tida como uma realidade impossível diante dos avanços da sociedade globalizada.
JOSÉ EMILIO PACHECO E AS LETRAS
No sé por qué escribimos
Y a veces me pregunto por qué más tarde publicamos lo escrito. Es decir, lanzamos una botella al mar, harto y repleto
de basura y botellas con mensajes.
Nunca sabremos a quién ni adónde la llevarán las mareas.
Lo más probable
es que sucumba en la tempestad y el abismo
Pacheco (1987, p. 47)
(Disponível em: <http://letraslibres.com/pdf/12374.pdf>. Último acesso em 04 out. 2010)
Profeta del desastre, aunque para nuestra desgracia las profecías y el pesimismo de José Emilio Pacheco han sido totalmente desbordados por la realidad
Segundo o poeta e crítico mexicano José Joaquín Blanco3, os melhores escritores de um país sempre procuram apreender as correntes literárias anteriores, para que, com isso, possam conhecê-las e criar uma nova voz, rompendo assim certa tradição. Porém, nunca haverá totalmente uma ruptura com tais influências anteriores; o que poderá ocorrer, de fato, será uma renovação poética e, portanto, uma aquisição de novos procedimentos estéticos.
Nesse contexto literário, especificamente mexicano e ricamente heterogêneo, surge em cena o escritor mexicano José Emilio Pacheco, que por meio de seu discurso, nos mostra uma diversidade de gêneros, que o tornam um autor de difícil classificação para os críticos que se propõem a estudá-lo, evidenciando, desse modo, a exigência de um leitor atento para a compreensão dessas muitas leituras, que encontramos de maneira implícita em sua voz singular.
José Emilio Pacheco Berny nasceu na Cidade do México, em 30 de junho de 1939. Sua formação intelectual deu-se em Direito, Filosofia e Letras pela Universidad Autónoma do México (UNAM), o que nos revela uma formação humanística, que podemos comprovar por meio da riqueza ideológica e pelo estilo de suas palavras. Nessa mesma universidade, iniciou suas atividades literárias na revista Medio Siglo. É interessante ressaltarmos a importância das leituras e participação em revistas na trajetória literária do escritor, porque, nessas, encontramos o pensamento de um tempo e o desejo utópico de uma nação expressados pela voz de Pacheco, que analisa e vê diversas realidades para seu país. No México, ambos os movimentos de vanguarda – os Estridentistas em 1921 e a Geração dos Contemporáneos (1928-1931) – desenvolveram boa parte de seus trabalhos literários por meio de suas respectivas revistas, Actual
nº 1 e Contemporáneos. Tais revistas4 buscavam retratar, sempre com atualidade, o que também sucedia fora das fronteiras nacionais do México.
3
Apud STANTON (1991, p. 108).
4
Desde muito jovem, Pacheco demonstrava interesse pela tarefa de escrever. Esse desejo se iniciou aos quinze anos, quando ganhou de seus avós o romance Quo Vadis?, de Henryk Sienkiewicz, que lhe motivou a continuar a história da trama de uma de suas primeiras
leituras5. Ademais, começou a publicar, ainda adolescente, seus escritos
em diários estudantis como Proa (1955), e El Diario de Yucatán (1956). A partir desse momento, nunca mais deixou de publicar suas curiosidades literárias, confirmadas pela crítica especializada como grandes ensaios.
Pacheco foi secretário de redação da Revista de la Universidad de
México e de México en la Cultura, suplemento de Novedades, assim
como chefe de redação de La Cultura en México, suplemento de Siempre. Dirigiu também a Biblioteca del Estudiante universitario e, durante os anos de 1970 e 1971, foi bolsista do Centro Mexicano de Escritores, onde pôde ter contato com novas correntes literárias e com novos pensadores como, Juan José Arreola, Jaime García Terrés, Fernando Benítez e Ramón Xirau, que lhe permitiram refletir e repensar sua própria produção intelectual.
Suas palavras podem ser admiradas em algumas áreas e gêneros:
contos, crônicas, romances, ensaios, roteiros, adaptações
cinematográficas, traduções e poesias. No campo da tradução, merecem relevância suas versões de Cómo, de Samuel Beckett, de De Profundis, de Oscar Wilde, de Cuatro cuartetos, de T.S. Eliot e de Un tranvía
llamado deseo, de Tennesse Williams. Por meio dessa última, foi
prestigiado com o prêmio de melhor tradução da obra, oferecido pela sociedade de críticos teatrais em 1983.
Pacheco e seu amigo Carlos Monsiváis, ambos filhos de uma tradição de escritores jornalistas, organizaram o suplemento da revista
Estaciones — cujo diretor era o poeta Elías Nandino — mostrando, desde
jovem, seu gosto por temas jornalísticos, o que, um pouco mais tarde,
5
mais precisamente a partir de 1976, revela-nos seu compromisso sócio-político ao assinar a coluna Inventario, em um jornal mexicano chamado
Proceso6. Por mais de três anos, sua coluna contribuiu como uma notável fonte para compreender a história literária mexicana.
Seu primeiro romance, Morirás lejos, obteve, em 1968, o Prêmio
Magda Donato. Segundo a crítica, sua prosa pode ser comparada ao
estilo de Alfonso Reyes pelo emprego de uma linguagem simples, mas, ao mesmo tempo, de leitura difícil. Suas obras constituem grandes desafios para o leitor. Podemos definir ainda as obras de Pacheco como profundas reflexões da realidade mexicana. De acordo com Pacheco (1966):
Reyes abrió la posibilidad moderna de escribir en México. Arrojó al surco la semilla para que el campo verdeciera. Todos, hasta quienes no lo leyeron, hemos salido de él; y si nos apartamos es para regresar con mayor fuerza. Su obra es un camino y lo contrario de un camino: nadie puede rechazar su lección ni volver a escribir, a pensar, como antes de Reyes; nadie puede ser Reyes de nuevo, seguir su sombra, porque tras él las aguas se cerraron y no conducen a ninguna parte.
A produção em prosa do escritor mexicano compreende o romance citado acima e Las Batallas en el desierto (1981); três livros de contos, La
sangre de Medusa (1990), El viento distante (1963) e El principio del
placer (1973); obras ensaísticas, “El derecho a la lectura”, “En torno a la
cultura nacional” e “Belleza y poesía en el arte popular mexicano”, somente para citar algumas. Sua produção periodística, muito ampla, não se encontra compilada até o presente momento. Não devemos esquecer sua vastíssima produção em versos. O escritor mexicano Vicente Quirarte define Pacheco como um escritor dotado de indiscutível versatilidade em seu trabalho. Segundo o próprio poeta, o conjunto de suas obras se vê
6
O escritor argentino Juan Gelman, ganhador do Prêmio Cervantes 2007, demonstra, em suas palavras, o reconhecimento por esse trabalho de Pacheco: “José Emilio es un narrador admirable, es un crítico profundo y todos extrañamos los textos que solía publicar semanalmente en Proceso. Pero José Emilio es sobre todo y ante todo poeta, un poeta querido, admirado, uno de los poetas más eminentes en lengua española” (MONTAÑOS GARFIAS, 2009). Ao ser homenageado na Feira Internacional del Libro
Universitario, no ano de 2009, em Guadalajara, o escritor mexicano comenta sobre a
como um corpo vivo que nasce, cresce, se aperfeiçoa e está em contínuo processo de mudanças.
Notamos, em Pacheco, que sua palavra não se compromete somente a favor de um gênero específico; seu dom em usar a palavra é mostra de talento e revela a amplitude de interesses do escritor. Podemos lembrar aqui o título de um dos seus livros de contos El principio del
placer, e fazer uma alusão à palavra como uma mostra fascinante do
prazer na vida do poeta. Pacheco entende a palavra como corpo da escritura e, segundo o escritor uruguaio Mario Benedetti, essa é, para o poeta, a base de seu jogo poético, por isso os poetas vivenciam eternamente uma luta constante pela busca da melhor palavra para expressar as realidades que querem retratar.
Benedetti (2000, p. 77) afirma que nem sempre os escritores se comprometem em nomear a realidade que constroem. As imagens das palavras não ditas e os sons não pronunciados pelo escritor podem ser compreendidos também no silêncio do mesmo, possivelmente porque, no silêncio, as palavras encontram um espaço nostálgico. Por meio dessa relação do poeta entre seu mundo e a realidade que retrata, conseguimos perceber uma aproximação entre leitor e autor.
Para Pacheco, o texto é a forma de comunicação mais íntima que pode ser estabelecida entre duas ou mais pessoas, porque se transforma no lugar do encontro com a experiência alheia. Há uma construção de sentidos pelo autor e pelo leitor, ambos colaboram, portanto, na tessitura do texto. A leitura será sempre um diálogo, uma eterna interação de signos, ditos e não ditos.
Pacheco conseguiu maior destaque no campo da poesia, à medida que entendia um poema não como um objeto estilizado, mas sim como uma revelação, isto é, que leva o público leitor não só a trabalhar com a sensibilidade, mas também a dialogar com o próprio texto. Para o poeta em questão, cada livro se reescreve quando o leitor o lê. Vemos aqui nitidamente a importância dada pelo poeta ao fato de respeitar a individualidade do leitor, que pode ler certo texto, a partir de suas diversas experiências e leituras de mundo. O escritor mexicano ressalta também a
importância da intertextualidade7, que é facilmente percebida em sua
produção poética.
Pacheco possui uma consciência do uso da intertextualidade em sua obra e das possibilidades de um tema ser novamente discutido por meio da incorporação de novos significados. O autor emprega múltiplos enunciados tomados de outros textos para promover um entrecruzamento de discursos em sua obra. Pacheco (1983) defende ainda o anonimato do autor:
[…] sobre la base de que uno está siempre plagiando sin querer a los demás. Trato de compensar un poco estas circunstancias mediante los seudónimos, heterónimos y apócrifos. Pero en todo momento bajo una mínima ética: no escribir nunca nada que no firmaría con mi nombre
Seus heterônimos8, Julián Hernández e Fernando Tejada,
aparecem pela primeira vez no livro No me preguntes cómo pasa el
tiempo (1970). Segundo Pacheco, o primeiro deles surgiu no poema
“Carta a George B. Moore en defensa del anonimato9”, uma resposta ao
7
Bakhtin (1992) instala a noção de intertextualidade para indicar que a palavra (o discurso) é uma mescla de diferentes textos que dialogam.
8
Verani (1994) comenta, em seu estudo, que a heteronímia não é central na obra de Pacheco, mas sim um reforço a noção da poesia como construção contínua entre o autor e o leitor.
9
escritor norte-americano que desejava entrevistá-lo10. Ao afirmar que “la poesía no es de nadie: se hace entre todos”, o autor defende a abolição dos conceitos de autor e de autoria da obra ao mencionar: “Llamo poesía a ese lugar del encuentro/ con la experiencia ajena. El lector, la lectora/ harán, o no, el poema que tan sólo he esbozado” (PACHECO, 1987, p. 46). Pacheco defende a existência de uma autoria coletiva, que ocorre na atribuição de sentidos pelo leitor.
Como Jorge Luis Borges, Pacheco entende o ato da escritura como um trabalho infinito, em que escrever pressupõe voltar a escrever sobre algo já produzido ou mencionado. Ele compreende o texto como o produto da interpenetração de diversos discursos: do presente e do passado. Pacheco pratica a reescritura em sua obra, porque não acredita
na noção de texto como um produto concluído11, além disso, se preocupa
em oferecer uma melhor qualidade dos escritos ao seu público leitor. O escritor dominicano Juan Bosch entende tal postura como a daquele que domina todas as técnicas da escrita e é capaz de iluminar o
ocurrieron estos versos. No es un poema / no aspira al privilegio de la poesía / (no es voluntaria. (PACHECO, 1987, p. 45). No fragmento anterior, o autor define seu conceito de poesia e possibilita nossa compreensão da linguagem empregada em seu texto. Os limites entre a prosa e a poesia são problematizados pelo uso coloquial da linguagem.
10
Pacheco demonstra claramente seu desagrado em ser entrevistado. Numa entrevista a Hernán Bravo Varela (2009, p. 68) disse “Leo con enorme interés las entrevistas ajenas. El problema es que no sirvo para ellas. Necesito ver las palabras para enterarme de qué estoy diciendo. No tengo la menor facilidad de expresión oral. Y si me pongo a contestar por escrito lo que me preguntan, ¿a qué horas leo y trabajo cuando ya cada día tengo menos tiempo en todos los sentidos? Hay autores muy interesantes como persona. No soy uno de ellos. Por lo demás, detesto escucharme y verme en fotos y videos” (BRAVO VARELA, 2009, p. 68). Suas palavras nos revelam um dado curioso: a dificuldade de se expressar de modo espontâneo em público. Além disso, sua preocupação com a palavra escrita. O escritor critica os recursos tecnológicos porque sabe que modificam a forma como se apresenta a linguagem escrita e, de certa maneira, a noção de literatura e de leitor. Pacheco complementa “Tengo plena conciencia de ser, insisto, un pésimo lector en voz alta. Escucho, eso sí, muy bien en silencio y no me gustan que declamen mis poemas […] De modo que estoy perdido en el mundo de los medios y al mismo tiempo no puedo esquivar mi participación de ellos” (BRAVO VARELA, 2009, p. 71). No discurso de recebimento do Prêmio Cervantes, o escritor aproveita para criticar o uso das novas tecnologias ao mencionar: “Como todo, Internet es al mismo tiempo la cámara de los horrores y el retablo de las maravillas” (PACHECO, 2009c).
11
texto com um toque particular de personalidade. O escritor norte-americano William Faulkner, em uma entrevista, também expressa sua opinião sobre o processo de (re) criação literária:
[...] se eu pudesse escrever toda a minha obra de novo, tenho certeza de que faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É para isso que ele continua trabalhando, tentando de novo; ele acredita sempre que dessa vez irá conseguir, irá realizar o que quer.
[...]
Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. Nunca está tão bom quanto seria possível. Sempre sonhe e mire acima daquilo que você sabe que pode fazer. Não se preocupe apenas em ser melhor que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que você mesmo. Um artista é uma criatura arrastada por demônios. Não sabe por que o escolheram e normalmente está ocupado demais para se perguntar isso. (REVIEW, 1988)
As palavras de Faulkner corroboram o trabalho de constante (re)
criação adotado por Pacheco12. O ato da criação literária nada mais seria
que uma revisão e recapitulação de discursos pré-existentes em outros momentos. Nunca temos uma repetição ou plágio total de discursos, pois sendo a literatura uma arte, permite leituras diversificadas do mundo, conseqüentemente, de fatos que se cruzam com a experiência do outro. Além disso, todo escritor está preso a um tempo, buscando direcionar seu olhar para a realidade que lhe tocou presenciar ou imaginar.
Por ser um escritor e leitor de diversos gêneros literários, Pacheco pôde ter sua experiência reconhecida em alguns desses pelo recebimento de diversos prêmios, que o fazem ser reconhecido cada vez mais no campo das Letras Hispânicas.
Pacheco, desde o início de sua trajetória literária, surpreendeu grandes escritores, como Octavio Paz, que o elogiava pela força de seu pessimismo, e o peruano Mario Vargas Llosa, que, em 1964, escreve no periódico El Expreso de Lima sobre seu encanto e entusiasmo para com as poesias do escritor mexicano, colocando-o no mesmo patamar de
12
intelectuais como Alfonso Reyes, José Gorostiza e Octavio Paz, completando o rico quadro da literatura mexicana.
Essa literatura, que flui à medida que a lemos e nos identificamos com os inúmeros fatos históricos e inúmeros sentimentos que são cantados, rendeu vários prêmios ao escritor, como o Magda Donato (1967), por seu romance Morirás lejos; Aguascalientes (1969); o Premio
Nacional de Poesía (1969) pelo livro No me preguntes cómo pasa el
tiempo; Xavier Villaurrutia (1973), por seu livro El Principio del placer;
Nacional de Periodismo Literario (1980) no México, El Iberoamericano de
Letras no Chile; Malcolm Lowry, de ensaio (1991) e Nacional de
Linguística y Literatura (1991) no México.
Ao receber o Premio José Asunción Silva, em 1996, da Casa de
Poesía Silva de Bogotá, em homenagem ao centenário da morte do poeta
colombiano, Pacheco teve as portas do universo hispânico abertas. Dessa forma, o recebimento de outro prêmio de renomado prestígio como este permitiu seu maior reconhecimento.
Seu livro El Silencio de la luna foi considerado, por uma banca de renomados nomes das letras hispânicas, o melhor livro de poesia em língua espanhola no período de 1990 a 1995. Esse trabalho retrata, de forma nítida, a realidade de seu tempo, ao mesmo tempo em que mostra uma possível mudança para essa realidade, colocando em cena novas formas de viver o tempo. Segundo o poeta colombiano Darío Jaramillo, um dos jurados do prêmio, em Pacheco temos:
Uma poesia sem limites na linguagem, que estende as fronteiras da percepção, poesia de todos, para todos, ato compartilhado de descobrimento inesperado, de crueldade e explícita revelação do incompreensível tempo, da história cotidiana que o poeta nomeia com lucidez e com o desconcerto de quem é igual a todos13.
O reconhecimento de sua trajetória intelectual e o desejo de dialogar com diversas tradições estéticas renderam a Pacheco, no ano de
13
2002, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Veracruzana, concedido pela equipe de jurados formada pelo historiador e grande pensador José Luis Martínez, pelo escritor e crítico espanhol Manuel Durán, pelo crítico e pesquisador do El Colegio de México, Anthony Staton, e pelos poetas José Luis Rivas e Tedi López Mills.
Outro prêmio dado ao escritor foi o VI Premio Internacional Octavio
Paz de Poesía y Ensayo outorgado pela Asociación Civil Amigos de
Octavio Paz em 2003. Na noite de entrega desse prêmio, acompanhado do escritor Rodolfo Castañón, Pacheco pôde ler alguns de seus poemas. Ele comentou, com o público presente, sobre seus estudos literários iniciais e sua visão a respeito de diversos assuntos que atingem a sociedade.
O escritor recebeu esse reconhecimento exatamente no mesmo ano em que seu primeiro livro de poesias — Los elementos de la noche (1963) — completava quarenta anos de existência. No momento de recebimento do prêmio, Pacheco deixou clara a importância da palavra na vida do homem e, portanto, da renovação poética de um escritor:
La poesía mantiene viva la lengua, la pone en circulación y la somete a prueba. Si esa lengua se paraliza o se degrada, la barbarie y la violencia llenan su vacío. Sin esa lengua no hay diálogo, no hay polémica, no hay instrucción posible, no hay arte, ciencia ni cultura, no hay futuro. Ocupa el porvenir el corazón de las tinieblas. Se abre a nuestros pies el abismo que nos rodea por todas partes14.
Por meio de suas palavras, percebemos o desejo latente do poeta em lutar pelas questões humanísticas de seu país. Pacheco mostra, ao México, o verdadeiro papel democrático que cada artista ou intelectual deve ter como compromisso para com seu povo. Num mundo dominado pela violência e pela injustiça, o escritor reforça o papel do intelectual a partir de suas palavras:
¿Qué puede hacer el escritor en un mundo en que millones de seres mueren de hambre, y otros son incinerados en los arrozales de Vietnam, y otros se suicidan al no resistir las tensiones de una sociedad tecnológica cuyo fin es la abundancia de objetos que cosifican y enajenan? (PACHECO, 1966)
14
O presidente mexicano Vicente Fox Quesada, ao participar da referida cerimônia, elogiou o amor de Pacheco pelo México e por sua cidade natal, cantada tantas vezes em sua produção e comentou:
Sua consciência da necessidade de construir uma muralha contra a violência e destruição converteu-o em um defensor dos valores mais importantes do ser humano. José Emilio Pacheco é um humanista sempre disposto a defender com sua palavra as melhores causas do México e do mundo15.
Sentimos, por essas palavras, a gratidão do presidente mexicano para com o poeta, o qual está tão presente na cultura e tradição de seu povo. Por outro lado, o governante amplia o universo de Pacheco, ao dizer que o escritor também contribui, por meio de sua obra, para análise de certas questões de âmbito mundial. Apesar de ter mencionado que “es un chantaje exigir de las letras y los escritores lo que nadie se atreve a esperar de los otros hombres ni de Dios” (PACHECO, 1966), o escritor
atribui um sentido ético16 a sua escrita, com base numa concepção
estética de pensar a arte como uma saída para a transformação de nossas sociedades.
Como Pacheco deixa claro em seu ensaio “Nota sobre la otra vanguardia” (1971), cabe, ao processo de escritura, preencher os espaços vazios na mente e na vida do indivíduo. Um leitor atento
15
“Su conciencia de la necesidad de construir una muralla contra la violencia y la destrucción, lo ha convertido en un defensor de los valores más importantes del ser humano. José Emilio Pacheco es un humanista siempre dispuesto a defender con su palabra las mejores causas de México y del mundo”. In: <www.letralia.com/97/notic097.htm>. Último acesso em: 25 dez. 2009. [Tradução nossa].
16
reconhece, nesse pensamento do autor, certa leitura de Octavio Paz. Pacheco (1966) expressou publicamente sua dívida ao mestre:
Mi deuda hacia Paz no tiene término y crece a cada nuevo libro que publica. Su poesía y su prosa han hecho que comience el descubrimiento de lo que quiero decir; me han iluminado, para decirlo con una palabra que le es grata.
A partir da amizade e das trocas intelectuais entre Pacheco e Paz, escritores de gerações diferentes, o escritor Castañón ressaltou, entre eles, uma visível semelhança no que diz respeito à trajetória e ao estilo literários:
Emilio é um homem das letras, que desenvolveu não somente o romance e a poesia, mas também o conto, o ensaio, a vinheta, o teatro, a tradução e inclusive o aforismo. Em sua obra, igual à de Paz, existe uma clara relação da consciência ética com a estética. Também existe, em seus textos, um ouvido atento, assim como uma espontaneidade e valor para lançar a moeda da palavra no ar 17.
Pelas palavras de Castañón, podemos entender que tanto Pacheco como Paz consideram a prática da poesia como uma força que pode ir além de si mesma e ultrapassar uma simples reflexão teórica em direção a um entendimento do mundo. Essa preocupação ética relacionada à estética de sua voz poética dá-se em Pacheco por sua maneira de empregar a palavra, de modo que, ao lê-las, compreendemos as características do escritor, como, principalmente, as muitas leituras realizadas por ele no seu processo de autoconhecimento.
Ainda em 2003, Pacheco recebe o Premio Iberoamericano de
Poesía Ramón López Velarde, da Universidad Autónoma de Zacatecas e
o Premio Internacional Alfonso Reyes pelo reconhecimento ao seu papel de grande difusor da cultura latino-americana no estrangeiro. O poeta
mexicano Alí Chumacero, presidente da Sociedade Alfonsina
Internacional, encontra, na poética de Pacheco, um predomínio de formas
17
clássicas e modernas, capazes de evidenciar a profunda paixão por literatura e uma vida dedicada às letras.
Em outubro de 2004, o poeta recebeu o Premio Iberoamericano de
Letras José Donoso por seu destaque como um dos escritores mais
significativos da língua espanhola. Também, em julho do mesmo ano, o poeta recebeu das mãos do presidente chileno Ricardo Lagos o Premio
Iberoamericano de Poesía Pablo Neruda, entregue pela primeira vez em
comemoração ao centenário de nascimento do poeta chileno e Prêmio Nobel de Literatura.
Segundo as palavras do presidente chileno:
O prêmio a Pacheco é um reconhecimento a sua extraordinária competência técnica e capacidade para dialogar com as formas mais vitais da literatura contemporânea.
[...]
José Emilio Pacheco é um poeta tão universal como mexicano, e por sua vez latino-americano. Sua poesia indaga no passado e no presente. Resgata a memória dos poetas maias e, através deles, nos mostra, sob outra luz, uma luz reveladora que tem relação com a história de nosso continente18.
Por meio das palavras de Lagos, percebemos quanto é importante a capacidade de Pacheco em dialogar com demais autores da Literatura em língua castelhana. Esse prêmio revela o reconhecimento ao difícil trabalho do escritor em usar a palavra como ferramenta e verbo para repassar suas ideologias e sensações.
Pacheco foi professor catedrático em várias universidades do México, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Participa como pesquisador do Centro de Estudos Históricos do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) sobre aspectos da cultura nacional e temas relacionados à arte da poesia popular mexicana. É especialista em Literatura Mexicana do século XIX, e é membro, desde 1986, de El Colegio Nacional de
México, onde, desde jovem, foi preparado para dialogar com a história
literária mexicana.
18
Ao pensar a trajetória de Pacheco, Roberto Fernández Retamar19 analisa que o escritor não estabeleceu raízes mais fortes em nenhum movimento dos diversos caminhos literários. O crítico cubano observa que esses ajudaram a Pacheco a vivenciar novas experiências e, portanto, nos afirma que a América Hispânica faz-se em conjunto. Não há como renegar totalmente certas tradições anteriores, já que cada indivíduo é um resultado de diversas leituras e, a partir dessas, constrói seu pensamento e se expõe ao mundo.
Uma prova da união de correntes opostas evidencia-se na antologia mexicana — da qual Pacheco contribui com sua voz poética —
Poesía en Movimiento. México 1915-1966. Nessa, Octavio Paz reforça,
por meio de seu prólogo, que a união de diferentes gerações só contribui para uma atitude renovadora no campo das Letras Mexicanas. Paz expõe a junção dos movimentos Estridentista e Contemporáneos, como correntes poéticas dos anos 40 e 50, e como representação da poética dos anos 60; mostra-nos a corrente cultista, e por outro lado, a
sentimental.
Essa antologia publicada em 1966 revela esse novo olhar sobre a poesia mexicana, uma poesia que respeita o jogo de diversas linguagens na busca de uma maior exaltação do estilo e temáticas a serem abordadas.
Ao analisar a produção de Pacheco, percebemos algumas
características de estilo, que nos fazem identificar diversos
representantes da literatura contemporânea mexicana, como também autores fora do âmbito de seu país. Pacheco reconhece, em sua poética, a influência de inúmeras correntes:
La historia literaria se escribe en términos militares. Se habla mucho de las pugnas intergeneracionales, en todo caso no menos agudas que los conflictos en el interior de un mismo grupo de edad. Todo ello existe y sería vano negarlo. Pero igualmente cierto es que nadie trabaja aislado: debe tanto a los poetas que lo precedieron como a sus contemporáneos y a los que vienen después. Son muchos aquellos y aquellas de quienes he aprendido y continúo aprendiendo. Me duele no
19
FERNÁNDEZ RETAMAR, Roberto. “Prólogo”. In: PACHECO, José Emilio. Antologia: