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Rev. Bras. Anestesiol. vol.67 número4

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Academic year: 2018

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REVISTA

BRASILEIRA

DE

ANESTESIOLOGIA

PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia

www.sba.com.br

ARTIGO

CIENTÍFICO

Uso

da

ultrassonografia

para

avaliac

¸ão

do

volume

gástrico

após

ingestão

de

diferentes

volumes

de

soluc

¸ão

isotônica

Flora

Margarida

Barra

Bisinotto

a,b,c,d,∗

,

Aline

de

Araújo

Naves

e

,

Hellen

Moreira

de

Lima

f,g

,

Ana

Cristina

Abdu

Peixoto

e,h

,

Gisele

Caetano

Maia

b

,

Paulo

Pacheco

Resende

Junior

b

,

Laura

Bisinotto

Martins

i

e

Luciano

A.

Matias

da

Silveira

b

aSociedadeBrasileiradeAnestesiologia,RiodeJaneiro,RJ,Brasil

bUniversidadeFederaldoTriânguloMineiro(UFTM),HospitaldeClínicas,Uberaba,MG,Brasil cUniversidadeEstadualPaulista‘‘JúliodeMesquitaFilho’’(UNESP),Botucatu,SP,Brasil

dUniversidadeFederaldoTriânguloMineiro(UFTM),DisciplinadeAnestesiologia,Uberaba,MG,Brasil eUniversidadeFederaldoTriânguloMineiro(UFTM),Servic¸odeRadiologiaeDiagnóstico,Uberaba,MG,Brasil fUniversidadeFederaldoTriânguloMineiro(UFTM),CursodeGraduac¸ãoemMedicina,Uberaba,MG,Brasil gFundac¸ãodeAmparoàPesquisadoEstadodeMinasGerais(FAPEMIG),BeloHorizonte,MG,Brasil

hUniversidadeFederaldoTriânguloMineiro(UFTM),ProgramadePós-Graduac¸ãoemCiênciasdaSaúde,Uberaba,MG,Brasil iUniversidadedeRibeirãoPreto(UNAERP),CursodeGraduac¸ãoemMedicina,RibeirãoPreto,SP,Brasil

Recebidoem29dejaneirode2016;aceitoem26dejulhode2016 DisponívelnaInternetem3desetembrode2016

PALAVRAS-CHAVE

Broncoaspirac¸ão;

Ultrassonografia gástrica;

Jejumpré-operatório

Resumo

Justificativaeobjetivos: Asdiretrizesrecentesdejejumpré-operatóriopermitemaingestão

delíquidosaté2horasantesdacirurgia.Oobjetivodopresenteestudofoi,pormeiode

ultras-sonografiagástrica,avaliarovolumegástricodevoluntáriosapósjejumnoturnoecomparar

comovolumegástricoduashorasapósaingestãode200e500mldesoluc¸ãoisotônica.

Método: Foramsubmetidosàultrassonografiagástrica80voluntáriosemtrêsmomentos:após

jejumde8horas;2horasapósaingestãode200mldesoluc¸ãoisotônica,seguidadoprimeiro

exame; e,em outrodia, 2horasapósa ingestãode500ml da mesmasoluc¸ão,apósjejum

noturno.Aavaliac¸ãofoiquantitativa(áreadoantroevolumegástricoserelac¸ãovolume

gás-trico/pesodosparticipantes)equalitativa,pelaausênciaoupresenc¸adeconteúdogástriconas

posic¸õesdedecúbitolateraldireitoesupina.Foiconsideradosignificantep<0,05.

Resultados: Não houve diferenc¸a nas variáveis quantitativasnos três momentos estudados

(p>0,05).Cincovoluntários(6,25%)apresentaramumvolume/pesosuperiora1,5ml.kg−1em

jejume2horasapósaingestãode200mleseis(7,5%)após500ml.Qualitativamente,apresenc¸a

delíquidogástricoocorreuemmaisvoluntáriosapósaingestãodelíquidos,principalmentede

500ml(18,7%),emborasemsignificânciaestatística.

TrabalhofeitonoHospitaldeClínicasdaUniversidadeFederaldoTriânguloMineiro(UFTM),Uberaba,MG,Brasil.

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](F.M.Bisinotto).

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2016.07.003

(2)

Conclusão:O volume gástrico pela ultrassonografia não apresenta diferenc¸a significativa

tantoqualitativaquantoquantitativa,2horasapósaingestãode200mloude500mldesoluc¸ão

isotônicaemcomparac¸ãocomojejum,emboraconteúdolíquidogástricotenhasidoidentificado

emmaisvoluntários,principalmenteapósaingestãode500mldesoluc¸ãoisotônica.

©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum

artigo OpenAccess sobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

KEYWORDS Bronchoaspiration;

Gastricultrasound;

Preoperativefasting

Useofultrasoundforgastricvolumeevaluationafteringestionofdifferentvolumes ofisotonicsolution

Abstract

Backgroundandobjectives: Thecurrentpreoperativefastingguidelinesallowfluidintakeup

to2hoursbeforesurgery.Theaimofthisstudywastoevaluatethegastricvolumeof

volun-teersafteranovernightfastandcompareitwiththegastricvolume2hoursafteringestionof

200and500mLofisotonicsolution,bymeansofultrasoundassessment.

Method: Eightyvolunteersunderwentgastricultrasoundatthreetimes:after8hoursof

fas-ting;2hoursafteringestionof200mLisotonicsaline,followedbythefirstscan;andonanother

day,2hoursafteringestionof500mLofthesamesolutionafteranovernightfast.The

evalu-ationwasquantitative(antrumareaandgastricvolume,andtheratioofparticipants’gastric

volume/weight)andqualitative(absenceorpresenceofgastriccontentsonrightlateral

decu-bitusandsupinepositions.Ap-value<0.05wasconsideredsignificant).

Results:There wasnodifferenceinquantitativevariablesatmeasurementtimes (p>0.05).

Five volunteers(6.25%)had avolume/weight over 1.5mL.kg−1 atfasting and 2hoursafter

ingestion of 200mL and 6 (7.5%) after 500mL. Qualitatively, the presence of gastric fluid

occurred in more volunteers after fluid ingestion, especially 500mL (18.7%), although not

statisticallysignificant.

Conclusion: Ultrasoundassessmentofgastricvolume showednosignificant difference,both

qualitativeandquantitative,2hafteringestionof200mLor500mLofisotonicsolution

compa-redtofasting,althoughgastricfluidcontenthasbeenidentifiedinmorevolunteers,especially

afteringestionof500mLisotonicsolution.

©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Publishedby ElsevierEditoraLtda.Thisisan

openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Aaspirac¸ãodoconteúdogástricoéumacausaimportantede

morbimortalidadeduranteaanestesiageral,comotambém

na unidadedeterapiaintensiva.1---3 Apresenta umrisco de

mortalidadequechegaa5%eestáenvolvidaemmaisde9%

detodososóbitosrelacionadosà anestesia.4,5A presenc¸a

deconteúdogástriconomomentodainduc¸ãodaanestesia

éumimportantefatorderiscoparaasuaocorrência,oque

tornaarestric¸ãoalimentarantesdaanestesiaumaconduta

vitalparaaseguranc¸adopaciente.Embora ovolume

resi-dualgástrico,consideradocrítico,ouseja,aquelequeporsi

sóaumentaoriscodeaspirac¸ão,sejacontroverso,estudos

têmmostradoqueospacientessadioseemjejum

frequen-tementetêmvolumesresiduaisacimade1,5mL.kg−1 sem

significanteaumentodoriscodeaspirac¸ão.6---8

Durante os anos 1980 era rotina os pacientes serem

submetidosaextensosperíodosdejejumantesde

procedi-mentoseletivos,umapráticaqueaindacontinuaemvárias

instituic¸ões.Asorientac¸õespré-operatóriasdejejumtêmse

tornadocadavezmaisliberais,detalformaqueasdiretrizes

atuaisdejejumpré-operatório9,10 encorajamaingestãode

volumesdelíquidossemresíduosemvolumesdesde100ml

atéquantidadesilimitadasparaadultos,até2horasantesda

cirurgia.Essacondutatemcomofinalidadereduziro

descon-fortodopacienteetambémascomplicac¸õeshemodinâmicas

durante a induc¸ão daanestesia, que são frequentemente

relacionadasàdesidratac¸ãodecorrentedeperíodos

prolon-gadosdejejum.11,12 Anãoadesãoàsrecomendac¸õespode

refletirumapreferênciamédicaoufalhasnaspróprias

dire-trizes,comoanãodeterminac¸ãodaquantidadepermitida

delíquido. O acesso clínicoao risco de aspirac¸ão é

limi-tado devido à falta de exames não invasivos que sejam

validadosparaaavaliac¸ãodoconteúdogástrico.Ogrande

crescimentodousodaultrassonografiaportátilnoscentros

cirúrgicosdespertou o interessede seu usocomo método

dediagnósticoparaaavaliac¸ãodoconteúdogástrico.

Estu-dostêmmostradoaviabilidadedousodaultrassonografia

paraaavaliac¸ãodoconteúdogástricopormeiodamedidada

ÁreaTransversaldoAntroGástrico(ATAG).13---17Perlasetal.15

relataramumarelac¸ãoquaselinearentreaATAGeovolume

gástricoemvoluntáriossadios.

Oobjetivodopresenteestudofoi,pormeiode

(3)

sadios após jejum noturno e comparar com o volume

gástricoduas horasapós aingestãodediferentesvolumes

desoluc¸ãoisotônica.

Método

Após aprovac¸ão do Comitê de Ética em Pesquisa da

Uni-versidade Federal do Triângulo Mineiro, com o parecer

número1.144.018de19dejunhode2015,econsentimento

informado, este estudo transversal e prospectivo foi

con-duzido em 80 voluntários sadios. Os critérios de inclusão

foram:idade entre18 e 60 anos, classificac¸ão doestado

físicopelaSociedadeAmericanadeAnestesiologistas(ASA)

IouII,índice demassa corporalmenor doque 30kg.m−2

e habilidade para compreender o protocolo do estudo e

o consentimento informado. Foi considerada critério de

exclusãoqualquer condic¸ão que pudesse interferir com o

tempodeesvaziamentogástrico,comogestac¸ão,diabetes

oupresenc¸adedoenc¸asdotratogastrointestinal.

Os voluntários foram submetidos à ultrassonografia

(USG) abdominal para as análises quantitativa e

qualita-tivado conteúdo gástrico em três momentos. O primeiro

momento,denominadojejum,foiapósumperíodonoturno

mínimode 8 horas. O segundomomento, denominadode

200mL+jejum,foi2horas apósaingestãode200mLde

soluc¸ão isotônica.Essa foi ingeridaimediatamenteapós o

exameultrassonográfico doprimeiro momento.Oterceiro

momento,denominado500mL+jejum,foiemoutrodia.Os

voluntários,após umperíodomínimode8horas dejejum

noturno, ingeriram 500 mL de soluc¸ão isotônica e, após

2 horas, fizeram o exame ultrassonográfico. As soluc¸ões

isotônicasforamtodasiguaise compostasdecarboidratos

(8,4g);sódio(57mg);cloreto(49mg);potássio(46mg);

aro-matizantes,conservanteseconteúdocalóricode36Kcalpor

200mL;erefrigeradas.Nãohouverestric¸ãoàdeambulac¸ão

apósaingestãodassoluc¸ões.

A avaliac¸ão ultrassonográfica do conteúdo gástrico foi

feita por um profissional do Servic¸o de Radiologia da

mesmaInstituic¸ão. Osexames foramfeitoscom uma

téc-nicajádescritaanteriormente,13-18comumasondaconvexa

(2-5 MHz). Osvoluntários foram examinados inicialmente

emposic¸ãosupinaseguidapelaposic¸ãoemdecúbitolateral

direito(DLD).Otransdutorfoicolocadoemplanosagitalna

regiãoepigástricaeemseguida oantroeocorpogástrico

foramescaneadospor meiodamovimentac¸ão do

transdu-tordadireitaparaaesquerda,comafinalidadedeseobter

umaimpressãoqualitativageraldacavidadeedoconteúdo

gástrico. Uma visibilizac¸ão melhor do antro é obtida no

plano parassagital logo à direita da linha média. Teve-se

comoreferênciaoloboesquerdodofígado,anteriormente,

e o pâncreas, posteriormente. A veia cava inferior

situa--se posteriormente ao pâncreas. O antro apresenta uma

parede caracterizada por múltiplascamadas e a sua

visi-bilidade foi avaliada de uma maneira binária (visível ou

não)em ambas asposic¸ões,supinae em DLD. Foram

fei-tasavaliac¸ões qualitativae quantitativadoantro gástrico

pelomesmoultrassonografista.Oantrofoiconsideradovazio

seapareciacom asparedesanteriore posterior

justapos-tas.Foiconsideradocomocontendolíquidoseapresentasse

uma endocavidade com um conteúdo hipoecoico em seu

interiorecom asparedes distendidas.Oantrofoijulgado

como tendo umconteúdosólido se aparecesse distendido

comumconteúdocomcaracterísticasparecidascom‘‘vidro

fosco’’ ou uma imagem ecogênica semelhante ao

parên-quimahepático.Baseadoapenasnessaanálisequalitativado

antroospacientesforamclassificadoscomoGrau0---quando

oantroapareciavazioem ambasasposic¸ões,supinaeem

DLD,o quesugereumestômagovazio;Grau1---quandoa

presenc¸adelíquido somenteeraaparente em DLD,o que

sugerepequenaquantidadedevolumelíquidonoestômago;

Grau2---apresenc¸adeconteúdolíquidotantona posic¸ão

supinaquantoem DLD,o quesugere apresenc¸ademaior

volumegástrico.

Paraaanálisequantitativausou-seamedidadaáreada

secc¸ãotransversadoantrogástrico(ATAG),pormeioda

téc-nicadescrita inicialmenteporBolondi,18 eposteriormente

porPerlasetal.,13-15comousodaparedeexternado

estô-mago. Essafoi feitaem DLD como usodedois diâmetros

perpendicularesdoantro,deserosaaserosa,olongitudinal

oucraniocaudal(CC)eoanteroposterior(AP),pormeioda

fórmuladaelipse,desenvolvidaporBolondietal.,18naqual

aATAG=(CC×AP×␲)/4,comovalorde␲=3,14.

DepoisdocálculodaATAG,ovolumetotaldoestômago

(‘‘volumeprevisto’’)foiestimadoemcadavoluntáriocom

ummodelo matemático anteriormentetestado e validado

poroutrosautores,15noqual:

Volumedoestômago(mL)=27 +14,6ATAG(cm2)

−1,28idade(emanos)

Como cálculodovolumeprevisto, obteve-searelac¸ão

entreesseeopesodosvoluntários(vol/peso).

Para a análise estatística usou-se Anova-Friedman. O

tamanhodaamostra(n=80)foicalculadoparaseobter95%

deconfianc¸a;80%depoderdoteste;earaizdoerro

qua-dradomédio(RMSSE)=0,25.Asvariáveisquantitativas,área

doantro gástrico(cm2),volumegástrico(mL)e arelac¸ão

entreovolumegástricoeopesodosvoluntários(vol/peso)

(mL.kg−1) foram inicialmente submetidas a uma análise

descritiva, a partir de medidas de centralidade e de

dis-persão.Acomparac¸ãodessas variáveisentreosmomentos

deavaliac¸ão(jejum;200mL+jejum;e500mL+jejum)foi

feitaapartirdaAnovanãoparamétricadeFriedman,devido

ànãonormalidadedosdados,verificadaapartirdotestede

Shapiro-Wilk. Quanto à avaliac¸ão qualitativa do conteúdo

gástrico, em relac¸ão aosgrupos, foi feitaumaanálise de

associac¸ãopelotestedo␹2,seguidadaanálisederesíduo

quandosignificativootestedo␹2.Oníveldesignificância

paraosprocedimentosinferenciaisfoide5%.

Resultados

Participaram do estudo 84 voluntários e 80 completaram

todos os exames, ou 240 análises, sem qualquer evento

adversoouretardoqueprejudicasseosresultados.As

carac-terísticas dos participantes podemser vistas na tabela 1.

O resultado daavaliac¸ão qualitativado conteúdogástrico

podeservistona tabela2.Nenhumvoluntário apresentou

conteúdosólido ao exame.Quanto à relac¸ãodaavaliac¸ão

qualitativadoconteúdogástricosegundoosgrupos,

(4)

Tabela1 Dadosdemográficosdosparticipantesdoestudo

Média±desviopadrão

Idade(anos) 33,98±10,73

Peso(kg) 69,82±12,55

Altura(m) 1,67±0,09

IMC(kg.m2) 24,86±3,85

Gênero

Masculino 24

Feminino 56

IMC,índicedemassacorporal

Tabela2 Distribuic¸ãodosparticipantesdoestudoquanto

àavaliac¸ãoqualitativadoconteúdogástricoeosgrupos

Grau0 Grau1 Grau2

Jejum 65(81,25%) 11(13,75%) 4(5%)

200mL+2h 55(68,75%) 14(17,5%) 11(13,75%)

500mL+2h 57(71,25%) 8(10%) 15(18,75%)

p=0,07,␹2stat=8,8.

grupojejum,81,25%;comoGrau1nogrupo200mL+jejum

(17,5%);ecomoGrau2nogrupo500mL+jejum(18,75%);

issosugerequemaiorvolumeingeridoresultaemmaior

con-teúdo gástrico após 2 horas de jejum. No entanto, essa

associac¸ão não se mostrou estatisticamente significativa

(p=0,07).

Osresultadosdasavaliac¸õesquantitativas,áreadoantro,

volumegástricoerelac¸ãovol/pesonostrêsmomentosnão

apresentaramdiferenc¸aemqualquerdosmomentos

estuda-dos(p>0,05);esãomostradosnasfiguras1,2e3.Quandose

analisaafigura3,observa-sequecincovoluntários(6,25%)

Anova-Friedman (p = 0,69)

Momentos

Área antro gástr

ico (cm

2)

Jejum no tur

no

200 mL + 2 h Jejum 500 mL + 2 h Jejum 18

16

14

12

10

8

6

4

2

0

Mediana 25%-75% Min-Max

Figura1 Box-plotquemostraamedianaeavariac¸ão

inter-quartil para a área do antro gástrico nos três momentos estudados(p>0,05).

240

Jejum

200 mL + 2 h jejum 500 mL + 2 h jejum

Anova-Friedman (p = 0,58)

Momentos

V

olume gástr

ico (mL)

220 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 –20

Mediana 25%-75% Min-Max

Figura2 Box-plotquemostraamedianaeavariac¸ão

inter-quartilpara o volume gástriconos três momentosestudados (p>0,05).

apresentaram um volume/peso superior a 1,5 mL.kg−1,

tantoemjejumquantonomomento200mL+jejum,eseis

(7,5%) no momento 500 mL+jejum. Nenhum deles, nas

diversassituac¸ões,eraomesmovoluntário.

Discussão

Este estudo tevecomo objetivo a avaliac¸ão do conteúdo

gástrico em voluntários sadios, em tempo real, pela

3,5

5 (6,25%)

Jejum

200 mL + 2 h jejum 500 mL + 2 h jejum 5 (6,25%) 6 (7,5%)

Anova-Friedman (p = 0,58)

Momentos

V

olume gástr

ico / peso (mL.kg

–1) 3,0

2,5

2,0

1,5

1,0

0,5

0,0

–0,5

Mediana 25%-75% Min-Max

Figura 3 Box-plot que mostra a mediana e a variac¸ão

(5)

ultrassonografia.Osresultadosdaavaliac¸ãoqualitativa

evi-denciaramumaumentonaporcentagemdevoluntárioscom

conteúdolíquido2horasapósaingestãodelíquidos,

prin-cipalmentenovolumede500mL,15voluntários(18,75%),

vistonasposic¸õessupinaeem DLD,oque falaafavorde

umvolumegástricoprevistode180±83mL.19Naavaliac¸ão

quantitativaos resultados dos volumes gástricos (área do

antro, volume gástrico previsto e vol/peso) obtidos após

operíododejejumnoturnonãodiferiramdaquelesapós2

horasdaingestãodevolumesde200mLoude500mL.Além

disso, confirmaram também a existência de quantidades

variáveisdevolumegástricoapósoperíododejejum,que

emalgunsvoluntáriosforamacimade1,5mL.kg−1.

A ultrassonografia gástrica é o novo point-of-care de

aplicac¸ão da ultrassonografiadiagnóstica, que permiteao

anestesiologistaavaliaroconteúdoeovolumegástricosdos

pacientes,e assimoriscodeaspirac¸ãoà beiradoleito,e

ajudanatomadadedecisõesparaacondutaanestésicaeo

manejodaviaaérea.Jáfoivalidada15etambémconsiderada

altamentereprodutível.20

Aaspirac¸ãodoconteúdogástricoéumadascomplicac¸ões

anestésicasmaistemidaseaindaéconsideradaumacausa

importante de morbimortalidade relacionada à

aneste-sia geral.20 Descrita quase 70 anos, em um dos mais

amplamente artigos citados entre os artigos médicos, de

Mendelson,21,22 quedescreveu aaspirac¸ão em obstetrícia,

o que ajudou na formac¸ão daconduta anestésica através

degerac¸ões.E‘‘NadaPorviaOral’’(NPO),empiricamente,

porperíodossuperioresa8-12horas,tornou-seumaprática

padrão, em nome da seguranc¸a. É incerto por que tão

longosperíodosdejejumparalíquidosforamintroduzidos

na prática clínica. No entanto, em uma época em que

a aspirac¸ão pulmonar era uma das principais causas de

mortalidade anestésica,a extrapolac¸ão paramulheres de

resultadosdeestudosemmacacos Rhesusarbitrariamente

definiucomo deriscoparaaspirac¸ãoaquelasque

apresen-tassemvolume gástricosuperior a 25 mL (0,4mL.kg−1) e

com pH < 2,5; introduziu-se o conceito de volume e pH

críticos.23 Essaalegac¸ãomaistardeencontrousustentac¸ão

em outro experimento feito em macacos Rhesus no qual

soluc¸ão ácida (0,4 mL.kg−1) e com pH=1,26 foi instilada

dentrodobrônquiodosanimaispormeiodetraqueostomia,

o que causou parada cardíaca.19 Estudos posteriores,24,25

tambémconduzidos em macacos, mostraramquevolumes

maiores eram necessários para levar a um quadro de

pneumonitegraveeóbitoenovamenteaextrapolac¸ãopara

sereshumanos aumentou de 25mL para 50 mL o volume

crítico (0,8 mL.kg−1), o que reduziu consideravelmente

o númerode pacientes considerados ‘‘de risco’’. Embora

esse volume seja provavelmente considerado insuficiente

por si só para levar à aspirac¸ão pulmonar, a combinac¸ão

dessevolumecríticocomoutrosfatores,taiscomohérnia

hiatal ou anestesia inadequada, pode ser suficiente para

causar aspirac¸ão com danos pulmonares.26 Até então os

pacientes eram submetidos a prolongados períodos de

jejum.E,hácercade20anos,ascondutasem relac¸ãoao

jejumpré-operatóriopassaramaserrevisadas.7

Assim, as diretrizes atuais9,10 recomendam líquidos

semresíduosatéduashorasantesdacirurgia,oqueéum

compromissoentreoconforto,acooperac¸ãoeahidratac¸ão,

por um lado, e a seguranc¸a, por outro. E os resultados

das análises quantitativas do presente estudo mostraram

exatamenteumaconfirmac¸ãodessasdiretrizes,queapós2

horasdaingestãodelíquidossemresíduosnãohávariac¸ão

significativanoconteúdogástricoem relac¸ão aojejumde

mais de 8 horas. E, além disso, outra dúvida frequente

de todos aqueles que trabalham com cirurgia e orientam

o jejum é o volume que pode ser ingerido. A presente

pesquisa mostrouqueaingestão de200mLoude500mL

nãomostroudiferenc¸aquantoaovolumegástricoresidual,

apósumperíododejejumde2horas,emcomparac¸ãocom

ojejumnoturno.Embora,qualitativamente,aingestãode

líquidos esteja associada com a detecc¸ão dapresenc¸a de

conteúdo líquido gástrico, cujo volume foi maior após a

ingestãode500mL.

Oestômagotemmuitasfunc¸õescomplexas.Servecomo

umreservatório para tudo o que comemos, deforma

efi-ciente macerao alimento, iniciaos primeirosestágios da

digestãoeentão,cuidadosaevagarosamente,equase

meto-dicamente,liberaseuconteúdoparaointestinodelgado.Os

sólidosesvaziam-sedeacordocomumacinéticadeordem

zero.Istoé,aumavelocidadeconstantedeacordocomo

númerodecalorias(aproximadamente200kcal.hr−1).27-29

ocaminhodoslíquidossemresíduosédramaticamente

dife-rente.Elesseesvaziamdoestômagorapidamente,seguem

umacinéticadeprimeiraordem27(i.e.;umdeclíniodescrito

porumacurvaexponencial).Algunslíquidos,taiscomoágua

esorofisiológico0,9%,têmumameia-vidamuitocurta,de

aproximadamente10minutos,e efetivamentetêmapenas

umflushatravésdoestômago.27,30 Noentanto,oslíquidos

com alto teor calórico têm uma velocidade de

esvazia-mento maislenta,como osalimentossólidos.Napesquisa

usamos um isotônico de valor energético de 36 Kcal por

200 mL. Assim, o número de calorias ingerido foi de 36

Kcal naqueles voluntários que ingeriram 200 mL e de 90

Kcal nos queingeriram500 mL.Todosestavam na mesma

temperatura e não houve repouso após a ingestão,

fato-res que poderiam alterar o esvaziamento gástrico. Como

os voluntáriosforam osmesmos nos três momentos

estu-dados, fatoresindividuais nãoexerceram influência sobre

os resultados obtidos. Assim, o volume e o valor

energé-ticodasoluc¸ãoingeridaforamosfatoresqueinfluenciaram

os resultados. Embora não tenha havido uma diferenc¸a

quantitativa significante nos resultados obtidos por meio

dacomparac¸ão estatísticaentre osmomentos analisados,

houveumaumentononúmerodevoluntárioscomvolume

gástricoGrau 2,na avaliac¸ãoqualitativa, após aingestão

de200mL,e principalmente 500ml,em comparac¸ão com

o jejum de 8 horas. Nessaavaliac¸ão qualitativa deve ser

consideradaapresenc¸adecertaquantidadedelíquido

den-tro do estômago mesmo em pacientes que permanecem

em jejumpormaisde8horas. Nopresenteestudo,cinco

voluntários (6,25%) (fig. 3) apresentaram volumes

superi-ores a 1,5 mL.kg−1 na primeira avaliac¸ão e quatro deles

(5%) foram considerados Grau 2. Esses volumes são

con-siderados comuns em pacientes em jejum e considerados

seguros.15Secrec¸õesoralegástricasãoconstantemente

adi-cionadas ao estômagoepor issoalgum volumede líquido

está sempre presente dentro do órgão. A produc¸ão de

salivaocorreaumavelocidadede0,4-1,0mL.kg.h−1

junta-mentecomasecrec¸ãogástricaendógenaemvelocidadede

produc¸ãosemelhante.31 Issoexplicaapresenc¸adelíquido,

visualizadapelaUSG,em quantidadesvariáveisnos

(6)

daingestão desoluc¸õesisotônicas independentemente do volume.

Embora inúmeros estudos já tenham sido feitos em

relac¸ão à seguranc¸ada ingestão de líquidossem resíduos

até2horasantesdacirurgiaeàcriac¸ãodasdiretrizes de

jejumpré-operatório,muitosanestesiologistasecirurgiões

aindasemostraminsegurosquantoaessaprática.Portanto,

seria de interesse fazer um exame à beira do leito, não

invasivo,quepudessedeterminarovolumedoconteúdo

gás-triconoperíodoperioperatório,paraajudarnaavaliac¸ãodo

risco deaspirac¸ão pulmonar. Atérecentementenão havia

ummétododediagnósticonãoinvasivoquepudesse

pronta-menteavaliaroconteúdogástricoeseraplicadonoperíodo

perioperatório. A USG é a primeira técnica não invasiva

validadaqueforneceambasasinformac¸ões,quantitativae

qualitativa,doconteúdogástricoàbeiradoleito.12-15Vários

estudossugeremque o antro gástricoé a região do

estô-magoqueémaispassíveldeexameultrassonográfico.13,32,17

Podeseridentificadoem98%-100% doscasos.14,16,33Como

uso, então, da imagem do antro gástrico e o cálculo de

sua área transversal, vários modelos matemáticos foram

desenvolvidos parao cálculo dovolumegástrico.14-16 Esse

método pode predizer volumes de 0-500 mL e é

aplicá-vel a pacientes adultos e com índice de massa corporal

menordoque40kg.cm−2.Amargemdeerronasmedidas

édeapenas±6mL.15 Existemoutrosmétodosparaestudar

oesvaziamentogástrico,masnãosãoaplicáveisaoperíodo

perioperatório.34,35Agamacintilografiaéométodonão

inva-sivo considerado como ‘‘padrão-ouro’’.35,36 Apresenta os

inconvenientesdocusto,dousoderadiac¸ãoedenãoserum

exameprático.A ultrassonografiaéuma técnicabastante

interessante.Alémdamedidadoantrogástrico,quepermite

o cálculo dovolume gástricopor meiodafórmula usada,

pode-setambémusarumasimplesgraduac¸ãode0-2paraa

avaliac¸ão doconteúdo.Perlasetal.,13 em umestudoque

avaliouovolumegástrico,empacientesemjejum,

encon-trou3,5%dosexaminadoscomoestômagoclassificadocomo

Grau2,enquantoquenopresenteestudoencontramos5%.

A portabilidade e a praticidade desses aparelhos, aliadas

aobaixocusto,permitemseuusoàbeiradoleitoevários

tiposdeabordagensdiagnósticas,comoaavaliac¸ãogástrica.

Apósanosdeincertezas,estudostêmmostradoevidências

suficientesdesuaacuráciaereprodutibilidade.

Embora apresente algumaslimitac¸ões, como toda

téc-nicaultrassonográfica, queé dependentedaqualidadedo

equipamentoetambémdooperador,oantronãoé

identi-ficávelem todosospacienteseváriospassosprecisam ser

executadosdeformasistemáticaparaseobtenharesultados

confiáveisetambémapresentaaincapacidadedeseavaliar

opH.Apresentepesquisafoifeitaemvoluntáriossadiose

entãoosresultadosnãopodemserextrapoladospara

aque-lespacientesportadoresdedoenc¸ascrônicasouemusode

medicamentosquealteremamotilidadedosistema

diges-tivo.Nesses,asrecomendac¸õesquantoaojejumdevemser

individualizadas.

Concluímos que em voluntários sadios em jejum após

ingerirem200mLou500mLsoluc¸ãoisotônicae

permane-cerem2horasemjejum,aáreadoantrogástrico,ovolume

previsto do estômagoe o volumegástrico/peso não

mos-tramdiferenc¸assignificantesemrelac¸ãoaosmesmosdados

obtidosapósumperíodomínimodejejumde8horas,pela

avaliac¸ão ultrassonográfica. Noentanto, qualitativamente

há umaumento na porcentagem de voluntárioscom

con-teúdolíquidodetectável, tantoem posic¸ão supinaquanto

emdecúbitolateraldireitoapós2horasdaingestão,tanto

de200mLeprincipalmentede500mLemcomparac¸ãocom

ojejum.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

Agradecimentos

GilbertodeAraújoPereira,professordadisciplinade

bioes-tatísticadoCursodeEnfermagemdaUFTM.

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Imagem

Tabela 1 Dados demográficos dos participantes do estudo Média ± desvio padrão

Referências

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