UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARIANA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEATRO MESTRADO EM TEATRO WELLINGTON MENEGAZ DE PAULA

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Texto

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARIANA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEATRO

MESTRADO EM TEATRO

WELLINGTON MENEGAZ DE PAULA

O TEATRO E OS ADOLESCENTES DO CANAÃ:

ASPECTOS ARTÍSTICOS E COMUNITÁRIOS

FLORIANÓPOLIS

SC

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WELLINGTON MENEGAZ DE PAULA

O TEATRO E OS ADOLESCENTES DO CANAÃ:

ASPECTOS ARTÍSTICOS E COMUNITÁRIOS

Dissertação apresentada à Universidade do Estado de Santa Catariana (UDESC), programa de pós-graduação em Teatro – Linha de Pesquisa: Teatro, Sociedade e Criação Cênica – como requisito para a obtenção do título de Mestre em Teatro.

Orientadora: Profª Drª Márcia Pompeo Nogueira

FLORIANÓPOLIS

SC

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Ficha elaborada pela Biblioteca Central da UDESC

P324t Paula, Wellington Menegaz de

O teatro e os adolescentes do Canaã: aspectos artísticos e comunitários / Wellington Menegaz de Paula, 2011.

126 p. : il. ; 30 cm

Bibliografia: p. 117-122

Orientadora: Dra. Márcia Pompeo Nogueira

Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Artes, Mestrado em Teatro, Florianópolis, 2011.

1. Teatro. - 2. Adolescentes. - 3. Comunidade - I. Nogueira, Márcia Pompeo. II. Universidade do Estado de Santa Catarina. Mestrado em Teatro. – III Título.

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WELLINGTON MENEGAZ DE PAULA

O TEATRO E OS ADOLESCENTES DO CANAÃ:

ASPECTOS ARTÍSTICOS E COMUNITÁRIOS

Dissertação aprovada como requisito para obtenção do grau de Mestre em Teatro, no programa de pós-graduação em Teatro – Linha de Pesquisa: Teatro, Sociedade e Criação Cênica – da Universidade do Estado de Santa Catariana (UDESC).

BANCA EXAMINADORA:

Orientadora:

Prof.ª Dr.ª Márcia Pompeo Nogueira

UDESC – Universidade do Estado de Santa Catariana

Membro:

Prof. Dr. Milton de Andrade Leal Junior

UDESC – Universidade do Estado de Santa Catariana

Membro externo:

Prof. Dr. Narciso Larangeira Telles da Silva UFU – Universidade Federal de Uberlândia

Suplente

Prof.ª Dr.ª Vera Collaço

UDESC – Universidade do Estado de Santa Catariana

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Aos meus pais, à minha irmã, às minhas sobrinhas, aos amigos, à minha orientadora, aos adolescentes que participaram do Projeto de Teatro, aos

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AGRADECIMENTOS

A todos os adolescentes do Canaã, que fizeram parte dos espetáculos analisados nessa pesquisa. Dentro do meu coração e das minhas memórias, levarei cada um de vocês: Ariel, Beatriz, Bruna, Carol, Camila, Cristiano, Daniela, Diogo, Dominiqui, Eniale, Elias, Érica, Evandro, Fabiana, Fabiane, Fátima, Geovanna, Havilla, Jefferson, Jéssica C., Jéssica M., Jéssica N., Jonathan, Juliana, Kerollen, Leandro, Letícia, Liliane, Lorraine, Luana, Lucas, Luciena, Luciano, Maison, Marecella, Marcos, Mayanne, Mayara, Monalisa, Natália, Natânia, Nildiane, Nívea, Paula, Priscila, Rayssa, Suely, Wellington, Winter, Kairo, Kennedy, Ketley, Yago, Thayla, Thayná, Vanessa e Yonara.

À Ana Maria de Freitas e Márcia dos Santos Reis, pelo apoio aos espetáculos e pelos conselhos ao longo da minha jornada, na Escola Municipal Doutor Gladsen Guerra de Rezende.

Aos profissionais que trabalharam na construção dos espetáculos analisados nessa pesquisa: Marcelo Batista Gomes, Dóris de Fátima Carneiro, Kate Mônica Costa, Ana Paula de Lima, Waleska Machado Silva, Augusto dos Anjos e Luciene Aparecida Andrade.

A toda comunidade do Canaã, em especial aos familiares dos adolescentes que participaram das montagens teatrais.

A todos os profissionais da Escola Municipal Dr. Gladsen Guerra de Rezende.

Ao Programa de Pós-Graduação em Teatro PPGT/UDESC, e a Capes pelo financiamento dessa pesquisa.

À minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Márcia Pompeo Nogueira, pela paciência, pelo carinho e pelos apontamentos precisos que tanto contribuíram para o desenvolvimento dessa pesquisa.

À banca de qualificação, Prof. Dr. Milton Andrade, Prof. Dr. Narciso Larangeira Teles da Silva e Prof.ª Dr.ª Vera Collaço, pelos apontamentos.

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À minha amiga Ana Maria Rodrigues, pela leitura dos meus escritos, pelas ideias e comentários. Pela amizade e pelo amor compartilhado.

À amiga Aline Porto Quites, por ter aberto as portas do seu apartamento e do seu coração, e me recebido com tanto carinho em Florianópolis, durante o período de escrita.

Ao Rafael Martins Chagas, pela atenção e carinho, em ler e compartilhar percepções em relação a essa pesquisa.

Ao amigo Juliano Prado, pela escuta e pelas idéias.

À Daniela Reis, pela leitura do projeto que apresentei para entrar no mestrado. Pelos apontamentos e pela escuta.

Ao Cleber Pereira Borges e Luciano Flávio de Oliveira, colegas do mestrado, os quais, em diversos momentos, compartilhamos nossas inquietações em relação às nossas pesquisa.

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RESUMO

Esta dissertação refere-se às montagens - Romeu e Julieta na Terra Prometida, As Mil e uma Noites, Sol Ardente, e Depois Daquela Viagem - realizadasno período de 2005 a 2007, como

projeto extracurricular da Escola Municipal Doutor Gladsen Guerra de Rezende, localizada no Jardim Canaã, Uberlândia, Minas Gerais. A pesquisa se inicia com a apresentação de três referências importantes para se entender o trabalho teatral aqui analisado: o contexto em que o projeto acontece, o bairro Jardim Canaã, suas características econômicas, sociais e culturais; os referenciais teóricos que ajudam a entender os sujeitos da pesquisa, os jovens que tomaram parte dos projetos; e os objetivos da escola na estruturação dos projetos extracurriculares, que são a base do Projeto de Teatro. Em seguida, as estratégias metodológicas presentes na

criação de cada espetáculo são analisadas, levando-se em conta a forma como a linguagem teatral se relacionou com os adolescentes do projeto. Os aspectos comunitários dos processos são analisados a partir de quatro princípios formulados por Jan Cohen Cruz: cultura ativa, hifenação, contexto comum e reciprocidade. As práticas teatrais, aqui analisadas, percorrem de formas diferentes, dois extremos de uma polaridade: o espaço que existe entre os objetivos puramente artísticos e aqueles voltados para os interesses e necessidades da comunidade. Nessa óptica, a pesquisa busca saber em que ponto a proposta teatral realizada se situa no percurso entre esses dois extremos, de forma a responder à pergunta: uma ação teatral pode estar comprometida com os interesses e necessidades da comunidade sem com isso perder o foco nos aspectos relacionados à linguagem artística?

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ABSTRACT

This paper refers to the performances – Romeo and Juliet in the Promised Land, The Thousand and One Nights, Blazing Sun, and After that Trip – that happened from 2005 to

2007, as an extracurricular project of the Municipal School Dr. Gladsen Guerra de Rezende, located in Jardim Canaã, Uberlândia, Minas Gerais. The work begins with the introduction of three important references to understand the theatrical work analyzed here: the context in which the project occurs, the Jardim Canaã, and its economic, social and cultural references, the theoretical frameworks that help to understand the research subjects, the young people who took part in the projects; and the school's objectives in the structuring of the extracurricular projects, which are the basis of the Theatre Project. Then, the methodological

strategies present at the creation of each show are analyzed, taking into account how the theatrical language was related to the project participants. The community aspects of the theatrical processes are analyzed from four principles formulated by Jan Cohen Cruz: active culture, hyphenation, reciprocity and common context. The theatre practices analyzed here travel in different ways two extremes of a polarity: the space between the purely artistic goals and those related to the community interests and needs. Thus, the research seeks to know how far the theatre work analyzed here is located in the space between these two extremes, in order to answer the question: could a theatrical action be committed with the community interests and needs without losing the focus on aspects related to the artistic language?

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LISTA DE IMAGENS

Imagem 1 – O Canaã visto através da janela da Sala de Teatro da E. M. Dr.

Gladsen Guerra de Rezende ... p. 19 Imagem 2 – Ensaio da peça As mil e uma noites, na Praça Emília dos Santos ... p. 24

Imagem 3 – Turma do Projeto de Teatro ... p. 31

Imagem 4 – Pátio da E. M. Dr. Gladsen Guerra. Alunos do Projeto de Teatro

em jogo cênico ... p. 41 Imagem 5 – Pátio interno da escola. Ensaio de Romeu e Julieta na terra

prometida ... p. 42

Imagem 6 – Jardim interno da E. M. Dr. Gladsen Guerra ... p. 42 Imagem 7 – Cantina da Escola. Cena do espetáculo As mil e uma noites ... p. 43

Imagem 8 – Biblioteca da Escola. Cena do espetáculo As mil e uma noites ... p. 43

Imagem 9 – Sala de Teatro, momento de aquecimento antes dos ensaios de As

mil e uma noites ... p. 44

Imagem 10 – Encontro de preparação musical ... p. 55 Imagem 11 – Ensaio da cena da luta entre Mercúccio e Teobaldo ... p. 56 Imagem 12 – Ensaio da coreográfica ... p. 56 Imagem 13 – Público na noite de estreia do espetáculo Romeu e Julieta na terra

prometida ... p. 62

Imagem 14 – Cena do balcão. Espetáculo Romeu e Julieta na terra prometida ... p. 62

Imagem 15 – Coreografia do baile. Cena do espetáculo Romeu e Julieta na terra

prometida ... p. 63

Imagem 16 – Cena do espetáculo Romeu e Julieta na terra prometida ... p. 63

Imagem 17 – Cena final do espetáculo Romeu e Julieta na terra prometida ... p. 64

Imagem 18 – Momento das narrações de histórias ... p. 72 Imagem 19 – Caverna de Ali Babá ... p. 74 Imagem 20 – Público na estréia de As Mil e Uma Noites ... p. 80

Imagem 21 – Cena inicial do espetáculo As Mil e Uma Noites ... p. 81

Imagem 22 – Cena do espetáculo As Mil e Uma Noites ... p. 82

Imagem 23 – Folder com a programação do Primeiro encontro de artes cênicas

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Imagem 24 – Primeira assembléia do Projeto de Teatro ... p. 85

Imagem 25 – Cena do espetáculo Sol Ardente e Depois Daquela Viagem ... p. 94

Imagem 26 – Cena do espetáculo Depois Daquela Viagem, momento em que a

personagem Nina, recebe a notícia que é portadora do Vírus HIV .. p. 95 Imagem 27 – Cena do espetáculo Sol Ardente ... p. 96

Imagem 28 – Cena do espetáculo Sol Ardente ... p. 96

Imagem 29 – Cena do assassinato, no espetáculo Sol Ardente ... p. 97

Imagem 30 – Público na estréia do espetáculo Sol Ardente e Depois Daquela

Viagem ... p. 98

Imagem 31 – Público na estréia do espetáculo Sol Ardente e Depois Daquela

Viagem ... p. 99

Imagem 32 – Apresentação de Sol Ardente e Depois Daquela Viagem para os

alunos das terceiras séries do ensino fundamental ... p. 99 Imagem 33 – Apresentação de Sol Ardente e Depois Daquela Viagem para os

alunos das quartas séries do ensino fundamental ... p. 100 Imagem 34 – Adolescentes participantes do elenco Romeu e Julieta na Terra

Prometida, ao lado da equipe de direção. Foto de Ana Maria de

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LISTA DE TABELAS

Tabela 01 – Dados estatísticos do Canaã, elaborados por Wellington Menegaz

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LISTA DE ABREVIATURAS SIGLAS

E. M. Dr. Escola Municipal Doutor

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

MG Minas Gerais

Km² Quilômetros quadrados PPP Proposta Político Pedagógica

UBSF Unidades Básicas de Saúde da Família ONG Organização Não Governamental UFU Universidade Federal de Uberlândia

CEMEPE Centro Municipal de Estudos e Projetos Educacionais CESEU Centro Sócio educativo de Uberlândia

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 14

CAPÍTULO I – O CONTEXTO... 19

1.1OCANAÃ ... 20

1.1.1 Situação econômica ... 20

1.1.2 Espaços sociais públicos do Canaã ... 22

1.1.3 Como os moradores percebem o Canaã ... 23

1.1.4 Drogas, violência e preconceito ... 25

1.2ADOLESCENTESDOCANAÃ ... 31

1.2.1 Referenciais para definir juventude ... 31

1.3ARELAÇÃODAESCOLACOMOCANAÃ ... 34

1.3.1 Idealização dos projetos extracurriculares ... 35

1.3.2 Congresso em Educação da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende ... 37

1.3.3 Os primeiros projetos ... 38

1.3.4 A Arte invade a escola ... 39

1.3.5 Imagens da Escola e do Projeto de Teatro ... 40

1.3.6 O final da trajetória ... 44

1.3.7 Apontamentos sobre os projetos extracurriculares ... 45

CAPÍTULO II – PROCESSOS CRIATIVOS ... 47

2.1ROMEUEJULIETANATERRAPROMETIDA ... 48

2.1.1 Incluindo a voz dos participantes ... 50

2.1.2 Testes para seleção dos participantes ... 51

2.1.3 Realidade e ficção... 51

2.1.4 Primeiro ato ... 53

2.1.5 Segundo e terceiro ato ... 53

2.1.6 Articulações entre as linguagens artísticas ... 54

2.1.7 A escolha de Julieta ... 57

2.1.8 Repetições ... 60

2.1.9 O espetáculo ... 61

2.1.10 Avaliação do processo ... 64

2.2ASMILEUMANOITES ... 65

2.2.1 Três etapas para seleção dos participantes ... 67

2.2.2 Divisão de personagens ... 68

2.2.3 Os três núcleos ... 70

2.2.4 Aquecimentos ... 70

2.2.5 Narração de histórias ... 72

2.2.6 Criação de imagens corporais ... 73

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2.2.8 Oficinas com jogos teatrais... 76

2.2.9 Articulações entre as linguagens artísticas ... 78

2.2.10 O espetáculo ... 79

2.2.11 Novos rumos para as montagens do Gladsen ... 82

2.3SOLARDENTEEDEPOISDAQUELAVIAGEM ... 85

2.3.1 Um processo colaborativo ... 86

2.3.2 Narração e improvisação de histórias ... 87

2.3.3 A busca pelo tema ... 88

2.3.4 Formação de dois grupos ... 89

2.3.5 Dramaturgia em processo ... 90

2.3.6 Composição das cenas ... 92

2.3.7 O espetáculo ... 94

2.3.8 As apresentações ... 97

2.3.9 Apontamento final ... 100

CAPÍTULO III – OS ASPECTOS COMUNITÁRIOS ... 101

3.1CONSIDERAÇÕESFINAIS ... 109

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 118

ENTREVISTAS ... 120

PROTOCOLOSDEAULA ... 122

APÊNDICES ... 124

APÊNDICE01 ... 125

Questionário das entrevistas com os dez ex-alunos do Projeto de Teatro. ... 125

APÊNDICE02 ... 126

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INTRODUÇÃO

Na minha trajetória, na condição de educador, tive a oportunidade de me aprofundar no ensino do teatro voltado para adolescentes. No início, que se deu em 2001, o trabalho com o público juvenil aconteceu por acaso, logo, porém, o acaso foi se transformando em opção. De 2001 a 2008, passei por algumas escolas públicas do município de Uberlândia (MG), ministrando aulas de teatro para adolescentes do ensino fundamental. Dessas várias experiências, uma me tocou de forma singular. E é nela e seus desdobramentos que irei focar nesta dissertação.

Essa experiência foi o Projeto de Teatro, desenvolvido em período extracurricular, na

Escola Municipal Doutor Gladsen Guerra de Rezende, localizada em um bairro da periferia de Uberlândia, Minas Gerais – o Jardim Canaã. Meu primeiro contato com o Projeto de Teatro

se deu em 2005, naquele mesmo ano, fui convidado, pela direção da escola, para dirigir uma montagem teatral com, aproximadamente, cinquenta adolescentes. A partir de então, iniciou-se a trajetória das montagens teatrais da E. M. Dr. Gladiniciou-sen Guerra de Rezende. Uma trajetória que é marcada pelo envolvimento de vários profissionais da escola, professores que atuavam nas funções de direção, assistência de direção, preparação circense, composição coreográfica e produção. Como também pelo envolvimento de vários adolescentes do Canaã, uma vez as montagens abrangiam um número significativo de integrantes. O espetáculo com menor número de participantes contou com a presença de trinta e três adolescentes, e o com maior número com cinquenta adolescentes.

Durante os anos de 2005 a 2007, período em que o processo de montagens teatrais existiu na instituição, foram encenados os seguintes espetáculos: Romeu e Julieta na Terra Prometida, As Mil e Uma Noites, Sol Ardente e Depois Daquela Viagem. E é sobre essas

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montagem; descrevendo os diferentes processos de criação, analisando as opções feitas com base em referenciais teóricos que tiveram impacto diretamente na forma como a linguagem teatral se relacionou com os adolescentes que participaram dessas experiências.

A análise das práticas teatrais realizadas percorre de formas diferentes o espaço que existe entre objetivos puramente artísticos e objetivos voltados para os interesses e necessidades da comunidade. Dessa forma, esta polaridade entre o artístico e o comunitário ganha especial destaque nesta dissertação. Deveriam os objetivos de trabalhos feitos em contextos comunitários serem de caráter puramente artístico, isto é, ter seu foco exclusivamente nos aspectos relacionados à linguagem teatral? Ou os objetivos deveriam valorizar apenas os aspectos comunitários de um trabalho teatral, apoiados na idéia de que os educadores e/ou os artistas devem resolver os problemas da comunidade, e que o trabalho tem como único propósito melhorar a qualidade de vida dos envolvidos.

A partir dessa polaridade, o objetivo desta dissertação é saber, com base nas análises das montagens feitas, em que ponto a proposta teatral realizada se situa entre o percurso existente entre esses dois extremos. Quais seriam as implicações desse posicionamento para os processos artísticos? A partir dessa constatação, formulei outras perguntas: Pode uma ação teatral estar comprometida com os interesses e as necessidades da comunidade sem, com isso, perder o foco nos aspectos relacionados à qualidade da linguagem artística? Sem se tornar um teatro puramente instrumental?

Essa pesquisa foi dividida em três capítulos, referências bibliográficas e anexos. No primeiro capítulo, intitulado “O Contexto”, problematizo o local da experiência, ou seja, o bairro Jardim Canaã, suas características econômicas, sociais e culturais. Feito isso, reflito sobre os sujeitos da pesquisa, que chamo de jovens ou de adolescentes mediante a análise de algumas correntes da sociologia da juventude, geracional, classista, e o entendimento dos jovens como categoria social. Para finalizar o primeiro capítulo, apresento os projetos extracurriculares da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, propostos pela direção da escola como uma tentativa de dar respostas aos conflitos dos adolescentes do Canaã.

No segundo capítulo, “Processos Criativos”, investigo as estratégias metodológicas utilizadas na construção dos espetáculos Romeu e Julieta na terra prometida, As mil e uma noites, Sol ardente e Depois daquela viagem. Cabe ressaltar que tais espetáculos incluem

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No terceiro capítulo, “Os aspectos comunitários”, apresento os quatro princípios formulados por Jan Cohen Cruz, para a análise das performances baseadas na comunidade: cultura ativa, hifenação, contexto comum e reciprocidade. A partir da conceitualização desses princípios, teço análises das relações de cada processo criativo, produzido na E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, com os quatro princípios comunitários. Esse estudo busca entender o sentido das proximidades, distâncias e associações que envolveram os aspectos comunitários e artísticos para os adolescentes que participaram das montagens teatrais realizadas pela E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende. O terceiro capítulo também inclui as considerações finais, nas quais analiso as implicações dos trabalhos teatrais para a comunidade, como também para os adolescentes que participaram dos espetáculos. Além disso, analiso o redimensionamento dos aspectos artísticos, a partir da incorporação dos aspectos comunitários nos processos de montagens.

Para a realização desta pesquisa, recorri a alguns procedimentos metodológicos, tais como: pesquisa de referências bibliográficas sobre perspectivas artísticas e comunitárias, sobre o público alvo dos projetos teatrais, os adolescentes; fontes documentais como: Propostas Político-Pedagógicas da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende; levantamento feito pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano de Uberlândia, publicado no Caderno Informativo 2008, sobre os equipamentos públicos presentes nos bairros de Uberlândia (MG);

e dados estatísticos do Censo do IBGE.

Outro recurso metodológico foi a pesquisa Nos Caminhos do Canaã, realizada no

início de 2010, que envolvia um questionário com vinte e uma perguntas, elaborado em

reuniões com alguns ex-alunos do Projeto de Teatro, que também são moradores do Canaã. A

partir desse questionário, pude, em conjunto com alguns ex-alunos do Projeto de Teatro,

entrevistar vinte e quatro moradores do bairro. Ou seja, os entrevistados, concederam entrevistas a jovens que, assim como eles, vivem no Canaã. A pesquisa se deu de forma clara e aberta, os seus reais motivos foram divulgados para os entrevistados. Todos os entrevistados assinaram um documento concordando com a utilização dessas informações para a pesquisa. O questionário aplicado encontra-se em anexo. Foram feitas também entrevistas com ex-participantes das montagens teatrais e com os profissionais da escola.

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com o intuito de serem objetos de uma pesquisa futura. Era uma experiência empírica que, transcorridos alguns anos, me propus a analisar. Para tanto, tive que elaborar algumas estratégias metodológicas. A primeira delas foi o resgate da história das montagens, para isso, elaborei um roteiro, no qual registrei o que havia sido abordado em cada mês de trabalho. A confecção desse roteiro só foi possível por meio da análise dos planejamentos de aula, das anotações que fazia durante e após cada ensaio, e dos protocolos de aulas confeccionados por todos os participantes. Após a elaboração do roteiro, que resgatava fragmentos de três anos de trabalho, de 2005 a 2007, comecei a analisar as estratégias metodológicas contidas em cada espetáculo. Para isso, utilizei referenciais teóricos oriundos do teatro educação, do teatro produzido em contextos comunitários e pesquisas relacionadas a processos criativos. Para a compreensão dos sentidos dessas ações para os participantes, adolescentes e profissionais, analisei as entrevistas com os profissionais envolvidos diretamente na construção dos espetáculos e com os dez ex-participantes do Projeto de Teatro, além de, novamente, me

reportar aos protocolos de aula.

Quero ressaltar a importância e sentido, para esta pesquisa, dos protocolos de aula, produzidos pelos adolescentes que participaram do Projeto de Teatro nos anos de 2005 a

2007. Segundo a Prof.ª Dr.ª Ingrid Dormien Koudela, os protocolos são, “[...] antes de mais nada, registro. [...] Esse documento, que não tem que obedecer à rigidez formal de uma ata ou de um relatório, é o ideal para que se tenha a noção de continuidade do processo, sem que seja necessário o emprego de tempo demasiado em sua elaboração” (KOUDELA, 1992, p. 94-95). Durante toda minha jornada, na condição de professor de teatro, inclusive no Canaã, adotei os protocolos como instrumento para avaliação do trabalho construído diariamente em sala de aula. No Projeto de Teatro, pedia para que os alunos redigissem os protocolos a cada

encontro. Neles, os participantes relatavam suas impressões em relação à aula/ensaio do dia. Essa prática nos ajudava a entender um pouco mais sobre o processo, pois, após a leitura dos protocolos, efetuávamos um debate sobre os pontos abordados por eles em relação ao encontro anterior. Ao longo dos três anos que compreendem as montagens dos espetáculos analisados por esta pesquisa, mais de trezentos protocolos foram produzidos pelos alunos.

Em relação à metodologia empregada no terceiro capítulo, utilizei quatro princípios propostos no artigo “Entre o ritual e a arte”, de Jan Cohen Cruz – cultura ativa, hifenação, contexto comum e reciprocidade - como base para a análise dos aspectos comunitários presentes em cada espetáculo produzido na E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende.

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instituição, e a segunda, por meio do nome como as pessoas do bairro a conhecem, ou seja, o Gladsen. Outro fator que merece esclarecimento é em relação aos nomes dos entrevistados. As únicas pessoas entrevistadas que tiveram seus nomes verdadeiros divulgados na pesquisa são alguns profissionais que atuaram na E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, que estiveram diretamente ligados nas criações dos espetáculos. E aqui me refiro à direção da escola e a alguns professores dos projetos extracurriculares. Agindo dessa forma, posso inserir os créditos dos trabalhos desses profissionais. Os outros entrevistados tiveram seus nomes ocultos. Para título de esclarecimento, os vinte e quatro moradores do Canaã serão citados como Moradores. Os dez ex-participantes, entrevistados no ano de 2009, serão citados como Participantes. Em relação aos protocolos, os autores destes serão denominados de Alunos,

além disso, apresentarei a data do ensaio ao qual se refere. Cabe ressaltar que a numeração, que corresponderá aos Moradores,Participantes e Alunos, será crescente e se estabelecerá de

acordo com a inserção de fragmentos de seus depoimentos, ao longo da dissertação, exemplo:

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CAPÍTULO I – O CONTEXTO

Começo o trabalho de análise dos espetáculos – Romeu e Julieta na Terra Prometida, As Mil e Uma Noites, Sol Ardente e Depois Daquela Viagem – mediante o contexto que

abrigou esses processos criativos e dos sujeitos que participaram destes. O primeiro passo, para essa contextualização, será a apresentação do local da experiência, ou seja, o bairro Jardim Canaã (IMAGEM 1) – com recorte nos seus desdobramentos sociais, econômicos e culturais.

Imagem 1 – O Canaã visto através da janela da Sala de Teatro da E. M. Dr. Gladsen Guerra

de Rezende.

Foto: Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 2007.

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Rezende, mais especificamente, a forma como dialogaram com os recortes problematizados ao longo dessa primeira parte.

1.1 O CANAÃ

O Jardim Canaã é um dos sessenta e quatro bairros da cidade de Uberlândia (MG). Fundado no início da década de 1990, o Canaã está situado no setor Oeste do referido Município, o qual ocupa uma área de 3,12 Km², onde se localizam 3.291 residências1. Em relação ao seu quantitativo populacional2, no bairro, vivem 11.980 habitantes, distribuídos da seguinte forma: do sexo masculino, 6.055; do sexo feminino, 5.926; com idades de 10 a 14 anos, 1.234; e de 15 a 19 anos, 1.180.

1.1.1 Situação econômica

Em relação à situação econômica dos moradores do Canaã, no início do ano 2000, ou seja, praticamente, uma década após a sua fundação, percebe-se, por meio de dados do Censo do IBGE (TABELA 01), que o rendimento familiar da sua população era o seguinte:

Tabela 01 – Dados estatísticos do Canaã. Números de

salários mínimos

¼ a 1

1 a 3 3 a 5 5 a

10 10 a 15 15 a 20 20 a 30 Acima de 30 Sem rendimentos. Desempregados População Canaã 14,1 2% 55,0 5% 15,4 2%

4,0% 0,35 % 0,15 % 0,15 % 0,00 % 10,70 %

Fonte: Elaborados por Wellington Menegaz de Paula, a partir dos dados obtidos no Censo de 2000.

Segundo esses dados, a maioria dos moradores do bairro pertencia, no início do ano 2000, a uma classe econômica menos favorecida, onde cerca de 25% vivia em situação de

1 Dados obtidos por meio de levantamento realizado pela: Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Meio

Ambiente de Uberlândia (MG) no ano de 2009. Disponíveis no endereço eletrônico:

http://www.uberlandia.mg.gov.br/midia/documentos/planejamento_urbano/populacao_2000.pdf.

2 Dados obtidos por meio de levantamento realizado pela Diretoria de Pesquisa Integrada Núcleo de Pesquisa, Estatística e Banco de Dados da Prefeitura Municipal de Uberlândia (MG). E divulgados no Caderno Informativo2008: equipamentos sociais públicos (SECRETARIA MUNICIPAL DE PLANEJAMENTO

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miséria. Cabe destacar que, segundo os moradores e profissionais entrevistados por esta pesquisa, a condição econômica do Canaã praticamente não se modificou nos últimos anos. Ou seja, os dados acima continuam presentes no cotidiano da comunidade.

Essa é a realidade dos jovens que participaram dos projetos extracurriculares oferecidos pela E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, e, consequentemente, essa também é a situação de muitos alunos que fizeram parte dos espetáculos produzidos na escola, nos anos de 2005 a 2007. Em conversas, que tínhamos na época, os adolescentes relatavam que não possuíam condições financeiras para, por exemplo, pagarem uma passagem de ônibus urbano, a fim de se deslocarem, semanalmente, do Canaã, em direção a outros bairros da cidade. Com isso, não poderiam participar de oficinas de teatro, ou de outra linguagem artística, oferecidas gratuitamente em localidades do município de Uberlândia (MG), como, por exemplo, a Oficina Cultural de Uberlândia e a Universidade Federal de Uberlândia. O que fazia com que os projetos extracurriculares do Gladsen fossem a única opção para os jovens do bairro se aprofundarem em uma determinada linguagem artística.

Aliado a essa realidade socioeconômica, existe outro fator que agrava a situação das crianças e adolescentes do Canaã, que é o fato de a maioria dos adultos do bairro trabalhar em outras localidades. Os pais saem cedo e retornam à noite. Situação descrita na Proposta Político Pedagógica – PPP – da escola: “O bairro Jardim Canaã caracteriza-se por ser um bairro operário, [...] seus moradores, utilizam-no como bairro dormitório” (Proposta Político Pedagógica da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, 2005, p. 5).

Todos os entrevistados, na pesquisa de campo Nos caminhos do Canaã, citaram essa

situação que, segundo eles, está presente no cotidiano do bairro nos dias atuais. A seguir, transcrevo o depoimento de uma das mais antigas moradoras da comunidade, sobre a situação descrita anteriormente:

Eu vejo o Canaã como um hotel a que as pessoas vêm para dormir. Noventa por cento dos moradores vêm aqui só para dormir. É um bairro pernoite. Tem pessoas que saem na segunda e só voltam no final de semana. Fim de semana a população parece ser maior. As mulheres daqui são muito trabalhadoras e os pais também. É um bairro em que durante o dia você encontra mais crianças e adolescentes. (Moradora 01, 2010)3.

Esse fato faz com que as crianças e os adolescentes do Canaã, na maioria das vezes, passem o dia longe dos pais. Crescem e tecem suas primeiras experiências de vida na rua, que pode ser um elemento lúdico, com suas brincadeiras de esconde-esconde, pique-pega e futebol, como também o primeiro contato com o mundo do tráfico de drogas e a

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marginalidade ou a combinação de ambos. Segundo a ex-diretora do Gladsen, Ana Maria de Freitas, há dez anos essa situação era mais alarmante: “pais que trabalhavam e crianças sozinhas. E estas crianças sozinhas, ou ficavam com um irmão mais velho, que era quase da mesma idade que ela, ou iam para a rua” (FREITAS, 2009)4. Isso se dava porque, na época, não existiam creches no bairro, e nem outro espaço público destinado ao atendimento em tempo integral de crianças e adolescentes. Até o início de 2005, o Canaã tinha como únicas opções de lazer, além do Gladsen, uma praça e uma quadra poliesportiva.

1.1.2 Espaços sociais públicos do Canaã

Segundo um levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano de Uberlândia (MG), e publicado no Caderno Informativo 20085, ao longo dos

últimos dez anos, alguns equipamentos sociais públicos foram sendo implementados no Canaã. Entre eles, destaco: três Unidades Básicas de Saúde da Família - UBSF; uma

associação de moradores; uma organização não governamental, destinada ao tratamento de dependentes químicos, denominada Grupo Salva Vidas unidade Renascer; três creches, Creche Jardim Canaã Missão Sal da Terra, Centro de Formação Canaã, e o Centro Educacional Crescer6.

No Canaã, atualmente, existem três escolas públicas, que oferecem ensino regular para os moradores do bairro. Dentre elas, está a Escola Municipal Dr. Gladsen Guerra de Rezende, com ensino fundamental e pertencente ao programa de Educação de Jovens e Adultos, inaugurada no ano de 1997; a Escola Municipal Professora Josiany França, com ensino fundamental, inaugurada ano de 2007; e a Escola Estadual Mario Porto, que oferece, além do ensino fundamental, o ensino médio, fundada no ano de 2008. Cabe destacar que só no ano de 2007 é que o Gladsen deixou de ser a única escola pública do bairro. Daí, a relevância de sua atuação, pois, durante uma década inteira, ela foi a única opção de educação formal para crianças e adolescentes do Canaã.

Em relação às áreas destinadas exclusivamente ao esporte e lazer, o Caderno Informativo 2008 cita a Unidade Esportiva Comunitária Núcleo de Esportes Jardim Canaã e

4 FREITAS, Ana Maria. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 04 de setembro de

2009.

5 O Caderno Informativo 2008 está disponível no seguinte endereço eletrônico:

www3.uberlandia.mg.gov.br/mídia/documentos/planejamento_ubano/caderno_informativo_2008.pdf.

6 As instituições que administram essas creches são respectivamente: a Organização Não Governamental -

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três praças públicas - Leopoldo Ferreira Goulart, Morum Bernardino e Emília dos Santos. Feito esse breve levantamento, é hora de apresentar a visão dos moradores sobre os equipamentos sociais existentes no bairro. Será que eles conseguem atender aos desejos da comunidade?

1.1.3 Como os moradores percebem o Canaã

Se observado o bairro, na visão dos moradores que contribuíram com a pesquisa de campo Nos Caminhos do Canaã, pode-se notar um local que, praticamente, não tem espaços

públicos destinados ao Esporte, Lazer e Arte. Dos vinte e quatro entrevistados, dezessete apontaram a inexistência de tais locais dentro do bairro. Sete pessoas atribuíram às duas escolas municipais essa função. Porém, segundo esses entrevistados, elas não conseguem atender, a toda comunidade:

Os lugares voltados para o lazer e arte, aqui do Canaã são as escolas e as ruas. Tem os espaços criados pelas pessoas do bairro, um local específico não tem. Quando a escola propõe alguma coisa, quando a comunidade propõe alguma coisa, são eventos esporádicos, aí acontece aquele momento de lazer. Mas não existe um espaço físico voltado para toda comunidade, e destinado exclusivamente para essas práticas. (Moradora 02, 2010)7.

Sobre o Núcleo de Esportes Jardim Canaã, os moradores entrevistados não consideram

essa unidade esportiva como opção de lazer. Segundo eles, a quadra é um espaço praticamente abandonado, onde quase não acontecem atividades esportivas, como nos relata uma moradora do bairro e professora do Gladsen: “Tinha uma quadra, que hoje está toda „detonada‟, é algo que está ali, mas que a gente não vê a manutenção do governo” (Moradora 03, 2009)8.

Importa salientar que todos os vinte e quatro entrevistados desconhecem a existência de três praças públicas no bairro. Todos citam apenas a Praça Emília dos Santos, denominada

por eles como a “praça atrás do Gladsen”. Porém a maioria dos entrevistados não a considera como um espaço de lazer para as famílias: “a gente passa na praça a noite e tem gente fumando maconha, eu considero que lá não é um lugar de diversão para as famílias, tem muito „mala‟ e muita confusão” (Morador 04, 2010)9. Cabe citar que essa praça foi utilizada,

algumas vezes, como espaço de ensaios de As Mil e Uma Noites (IMAGEM 2). Nosso

objetivo era dar elementos para que os participantes compreendessem as diferenças básicas

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entre o fazer teatro em uma sala fechada e num espaço aberto, sujeito a todo tipo de interferência urbana.

Imagem 2 – Ensaio da peça As mil e uma noites, na Praça Emília dos Santos.

Foto: Dóris de Fátima Carneiro. Uberlândia, 2007.

Com poucas opções de lazer para a comunidade, a presença de um número significativo de templos religiosos, mais especificamente, de igrejas evangélicas chama a atenção. Caminhando pelo Canaã, é possível perceber vários cômodos comerciais que se transformaram em templos religiosos. Somados a eles, no bairro, existe uma Igreja Católica, alguns Centros Espíritas e o Vale do Amanhecer.

No Canaã, tem poucas opções de lazer, além das que são oferecidas pelas escolas. No caso das pessoas adultas do bairro, essa situação piora, porque ou eles vão para o boteco, que acaba sendo um ponto que o pessoal utiliza como um lazer, ou para alguma igreja. Tem muitos templos religiosos no bairro, especialmente evangélicos, tem também uma igreja católica e alguns centros espíritas. Muitos jovens não têm nada para fazer, então vão à missa, ou ao culto. Muitos não vão pela religião em si, mas para encontrar os amigos, ter os momentos de paquera. (Morador 05, 2010)10.

A maioria dos entrevistados reivindica um lugar específico para os moradores poderem desenvolver atividades culturais. Locais onde as famílias possam passar o final de semana, onde os jovens que não estudam em uma das duas escolas municipais do bairro possam desenvolver alguma atividade artística e/ou esportiva. Um espaço físico, além das escolas e das igrejas, em que atividades culturais possam ser desenvolvidas por toda a comunidade do bairro. Um local, em que a diversidade cultural, existente no Canaã, possa ser

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explorada e valorizada, pois, segundo moradores, no bairro, há vários artistas populares, tais como: tocadores de viola, compositores, grupos de congado, de capoeira e dança de rua.

É um bairro que tem uma diversidade cultural grande, só que a gente não sabe como explorar isso, fazer isso se mostrar. Aqui tem desde folia de reis a grupos de congado, o pessoal de música sertaneja, música gospel, grupos de axé, hip hop e

capoeira. Aqui é bem rico culturalmente, só que o bairro ainda não tem essa organização, e também a maioria das pessoas do Canaã não conhece. Aqui é bem misto, bem diversificado no campo artístico. (Moradora 06, 2010)11.

Essa presença de vários artistas populares no bairro motivou um grupo de moradores do Canaã a formar uma organização não governamental, intitulada Periferarte. É relevante

citar que esta realiza um trabalho destinado à valorização dos artistas populares que moram no Canaã, por meio da realização de ações socioculturais e esportivas dentro do bairro, como nos informa uma das fundadoras da ONG, Juliana de Lima Trindade: “Nós da Periferarte

propomos atividades na rua, como, por exemplo, a festa junina, a mini maratona, eventos musicais, e aulas de capoeira” (TRINDADE, 2010)12. Porém a Periferarte enfrenta várias

dificuldades, entre elas, destaca-se a falta de apoio financeiro para execução dos seus projetos. Praticamente, todas as ações desenvolvidas pela ONG é fruto do trabalho voluntário de seus membros.

Após esse panorama de algumas características econômicas e culturais do Canaã,

estudarei alguns conflitos presentes na comunidade, os quais dialogam diretamente com esta pesquisa.

1.1.4 Drogas, violência e preconceito

Aliada à situação de miséria, que atingia cerca de um quarto da sua população, no início do ano 2000, o Canaã também sofria problemas sociais semelhantes a alguns bairros periféricos das grandes cidades brasileiras. Nesta pesquisa, decidi focar em apenas dois deles: a violência e o envolvimento de adolescentes do bairro com o tráfico de drogas, uma vez que motivaram a implementação dos projetos extracurriculares da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende. Conforme depoimento da ex-diretora da instituição, Ana Maria de Freitas: “a exposição à violência e ao tráfico de drogas, presente no cotidiano de muitas crianças e adolescentes do bairro, era algo que mais nos chocava naqueles anos de 2001 e 2002, e o que nos levou a propor os projetos extracurriculares” (FREITAS, 2009).

11 MORADOR 06. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 21 de fevereiro de 2010. 12 TRINDADE, Juliana de Lima. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 25 de

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Cabe citar que essa mesma violência, descrita por Ana Maria de Freitas, estava presente nas falas de alguns moradores entrevistados na pesquisa de campo Nos Caminhos do Canaã,

como também nas falas de alguns ex-alunos do Projeto de Teatro. Mas até que ponto todas essas

afirmações são verídicas? Como mensurá-las? Como entender essa questão que permeava o imaginário dos moradores do Canaã? Faz-se necessário, neste momento, um mapeamento sobre a questão da violência presente no bairro Jardim Canaã, nos anos que marcaram a implementação dos projetos extracurriculares no Gladsen, ou seja, de 2001 até os dias atuais, como também um levantamento sobre esse mesmo problema no município de Uberlândia.

O sociólogo João Marcos Alem, no artigo Violência, Desigualdade Social e Cultura em Uberlândia-MG (ALEM, 2005), aponta que, no início do ano 2000, houve um aumento

significativo em determinadas manifestações da violência no município de Uberlândia (MG):

No início da década atual [referindo-se ao ano 2000], um estudo da Fundação João Pinheiro13 apresentava um diagnóstico muito preocupante sobre a criminalidade violenta em Uberlândia [...]. Certas modalidades de crimes apresentavam dados notáveis, como são os casos dos crimes contra o patrimônio e os referentes ao uso, tráfico e plantio de droga. (ALEM, 2005, p.04).

No período de 2000 a 2004, de acordo com um estudo realizado no Curso de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia14, foram 306 homicídios que deram entrada no Hospital de Clínicas da UFU15. Os bairros que registraram maiores incidências de vítimas por 100.000 habitantes foram16: “Dona Zulmira, com 54,9 homicídios/100.000 habitantes, Morumbi (37,9), Luizote de Freitas (32,2), Jardim Canaã (27,7), Umuarama (24,9) e Custódio Pereira (20,5)” (FERREIRA; RIBEIRO, 2009, p. 162). Ou seja, o bairro Canaã, no período de 2000 a 2004, ficou em quarto lugar, entre os bairros de Uberlândia com maiores índices de vítimas de homicídio.

Outro estudo, realizado pelo Instituto de Geografia da UFU17, confirma os dados citados anteriormente. Nele, o setor onde se encontra o bairro Jardim Canaã, setor Oeste, juntamente com o setor Leste, foram apontados como sendo as localidades onde os índices de

13 O referido estudo é o Plano de Segurança Pública do Município de Uberlândia (Fundação João Pinheiro,

2000). Documento em que se encontra o primeiro estudo sistemático sobre o problema da violência criminal em Uberlândia, em anos recentes.

14 Estudo descrito no artigo

Epidemiologia das agressões atendidas pelo hospital de clínicas de Uberlândia e dos homicídios ocorridos no município de 2000 a 2004. Escrito por Taciana F. A. Ferreira, sob orientação da

Prof.ª Dr.ª Lindioneza A. Ribeiro, ambas do Curso de Medicina da UFU.

15 Universidade Federal de Uberlândia.

16 Esses dados foram obtidos através de um levantamento, que as pesquisadoras fizeram junto ao Núcleo de

Informações em Saúde da Secretária Municipal de Saúde de Uberlândia. Cabe destacar que esses dados não correspondem à totalidade dos casos, pois apenas registram as vítimas fatais que deram entrada no HCU.

17 Esses dados se encontram no artigo

Contribuições da Geografia ao estudo dos homicídios em Uberlândia – MG, de autoria da pesquisadora Márcia Andréia Ferreira Santos, sob orientação do professor Dr. Julio Cesar de

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homicídios eram maiores18 no período já citado. Para ser mais preciso, a pesquisa divulga 215 homicídios nos bairros que fazem parte do Setor Oeste, ou seja, Jardim Canaã, Jaraguá, Luizote de Freitas, Planalto e Tocantins. Segundo a pesquisa, os bairros que apresentaram individualmente maior número de homicídios nesse período foram: “o Jardim Canaã, o São Jorge e o Morumbi” (RAMIRES; SANTOS, 2005, p. 12).

Acima, transpus algumas pesquisas, baseadas em dados oficiais, sobre violência presente no município de Uberlândia e no bairro Canaã. Agora, passo para o desafio de analisar as vozes dos moradores do Canaã, em relação a esse assunto. Dos dez ex-alunos do

Projeto de Teatro19, entrevistados por mim, oito descreveram o Canaã, nos anos de 2000 a

2005, como um local marcado pela violência: “antes a gente saía da escola de noite e ouvia falar: morreu umas pessoas ali em baixo. E a gente podia ir lá que realmente tinha gente

morta” (Participante 01, 2009)20. Outra adolescentedescreveu esse período da seguinte forma:

“antigamente, minha mãe não gostava que eu ficasse na rua até mais tarde, porque acontecia muita violência e muitos assassinatos. Era perigoso sair na rua depois das dez da noite” (Participante 02, 2009)21.

Nos primeiros anos em que trabalhei no Gladsen, ouvia relatos de alunos sobre a existência de uma lista com nomes de pessoas envolvidas com o tráfico de drogas no Canaã, que seriam assassinadas. Se essa lista existiu, ou se era uma lenda urbana da comunidade, é algo acerca de que não tenho dados concretos para responder. Mas o fato é que a violência estava presente nas falas de muitos jovens que passaram pelo Projeto de Teatro, surgindo em

jogos, improvisações e em bate-papos formais e informais.

Em 2005 e 2006, era comum ouvir, de profissionais que atuavam na escola, que alguns alunos, crianças ou adolescentes, tinham sido encaminhados para o Conselho Tutelar, pois haviam se envolvido em algum delito. A ex-diretora do Gladsen, na época, Ana Maria de Freitas, resumiu a situação da seguinte forma: “muitas crianças de 10 e 11 anos, aqui do Canaã, encontravam-se expostas ao tráfico, às armas de fogo e à criminalidade” (FREITAS, 2009).

O tráfico de drogas é outro problema que afeta os moradores do Canaã. Na pesquisa de campo Nos caminhos do Canaã, quando questionados sobre quais eram os principais

problemas dos adolescentes do bairro, uma resposta surgiu frequentemente, que é o fato de os adolescentes tornarem-se usuários e, posteriormente, venderem drogas, ainda na infância: “o

18 De acordo com as ocorrências registradas pela Polícia Militar.

19 Dados obtidos por intermédio de entrevistas com dez ex-participantes do Projeto de Teatro.

20 PARTICIPANTE 01. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 13 de setembro de

2009.

21 PARTICIPANTE 02. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 13 de setembro de

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principal problema são as drogas, a gente vê bastante durante a noite, e é complicado porque eles são bem novos” (Moradora 07, 2010)22.

Esse incômodo não faz parte apenas das preocupações dos adultos moradores do bairro, os dez adolescentes que participaram do Projeto de Teatro, entrevistados para esta

pesquisa, também apontam o tráfico de drogas como o principal problema dos jovens do Canaã: “tem meninos de treze, quatorze anos aqui do bairro, que já estão trabalhando como

aviãozinhos23” (Participante 03, 2009)24.

O tráfico de drogas é uma realidade que afeta os grandes centros urbanos, um processo em que vários jovens, não só os do bairro Canaã, estão envolvidos. A socióloga Marisa Fefferman descreve a estrutura do tráfico da seguinte maneira:

Os traficantes de drogas buscam lugares para instalar o seu “comércio”, seus pontos

de venda e distribuição, tendo como critério determinante a dificuldade de acesso do aparato repressor. Nessas áreas, geralmente na periferia, é montado um esquema

para garantir o progresso do “negócio”. Existe uma hierarquia, e os jovens que

“trabalham” com o comércio varejista de drogas são a parte mais visível do tráfico. [...] Estes jovens ocultam os reais beneficiados desse que é um dos setores mais lucrativos da economia mundial. (FEFFERMAN, 2006, p.210).

No depoimento do Coronel da Polícia Militar da 9ª região, Dilmar Crovato, para o Jornal Correio de Uberlândia, ele relata que 70% das mortes que envolveram menores de dezenove anos, em 2009 e 2010, no município de Uberlândia, foram causadas pelo envolvimento com as drogas. Essa opinião é compartilhada pelo promotor da Infância e da Juventude, Epaminondas Costa. Segundo ele, o consumo de drogas - principalmente o crack -

leva a dívidas com traficantes e, posteriormente, ao acerto de contas: “Temos casos de mães que pedem para que o filho seja encaminhado ao CESEU (Centro Socioeducativo de Uberlândia) como forma de proteção” (TAVARES, 2010).

O fator econômico é um dos principais responsáveis em atrair os jovens para o comércio ilícito das drogas. No início de 2001, conforme mencionado anteriormente, cerca de vinte e cinco por cento dos moradores do Canaã viviam em situação de miséria. Para conseguirem ter acesso a bens de consumo e ajudar na renda familiar, muitas crianças e adolescentes do Canaã tinham que trabalhar em empregos com baixa remuneração, como babás e entregadores de supermercados. Outros buscavam dinheiro nos sinaleiros da cidade: “ainda hoje, no bairro Canaã, tem muitas crianças e adolescentes que são pedintes, eles vão para o centro da cidade pedir esmola” (FREITAS, 2009). Porém, o que uma parcela

22 MORADOR 07. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 21 de fevereiro de 2010. 23 Se referindo aos adolescentes que estão trabalhando no tráfico de drogas.

24 PARTICIPANTE 03. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 13 de setembro de

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significativa dos jovens do Canaã, assim como o de outros que vivem em situação de miséria, percebem é que com o dinheiro que ganham é insuficiente para compra de produtos de maior valor. Então, alguns começam a trabalhar no comércio ilícito do tráfico de drogas e a cometer pequenos delitos, como assaltos.

Muitos adolescentes aqui do Canaã estão indo para o caminho errado, para todo lado tem esse negócio de drogas. Muitos amigos meus estão indo para o lado das drogas. Começam vendendo e depois usando. Os adolescentes acham que vender droga é um dinheiro fácil. (Participante 04, 2009)25.

Dar outra possibilidade para aquele público, além da violência e do tráfico, é uma maneira de libertá-los de uma forma de pensar e agir capitalista, em que a vida desses jovens pode ser o preço máximo.

[...] como nas empresas que não garantem condições mínimas de trabalho e sugam do funcionário qualquer benefício [...], o tráfico promete benefícios e garantias aos seus funcionários, mas em troca, os aprisiona em uma dívida interminável. Os mecanismos discursivos são os mesmos, mas no tráfico a consequência é que o jovem se emaranha cada vez mais no crime. Os patrões expõem seus funcionários de

forma crescente, e se houver alguma falha no “trabalho”, o patrão mata ou manda

matar, não há diferença, o jovem é demitido da vida. (FEFFERMAN, 2006, p. 218).

Mudar a trajetória que muitos jovens percorrem em direção às drogas e/ou à violência é um dever do Estado. E é isso que a Escola Municipal Dr. Gladsen Guerra de Rezende está buscando fazer, mediante de algumas ações, tais como: reuniões de pais; palestras sobre drogas; os projetos extracurriculares que dão atendimento em tempo integral para crianças e adolescentes; e parcerias com alguns órgãos como o Conselho Tutelar. Ela busca atuar no momento que antecede a entrada dos jovens no universo do tráfico de drogas, ou seja, na infância e no início da adolescência. Com isso, procura intervir nos rumos da barbárie, pois, assim como afirmou Theodor Adorno, desbarbarizar seria a questão mais urgente da educação (ADORNO, 2003)26.

Um fato que deve ser ressaltado é que, independente dos jovens moradores do bairro do Canaã estarem ou não envolvidos com o uso e o tráfico de drogas ou com alguns delitos, como o furto, um aspecto é marcante na vida deles, o preconceito por parte da maioria da população do município de Uberlândia, em relação a eles, por serem moradores do bairro Jardim Canaã. Mais da metade dos entrevistados na pesquisa de campo Nos Caminhos do Canaã apontam o processo de espetacularização dos conflitos existentes no bairro Jardim

25 PARTICIPANTE 04. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 13 de setembro de

2009.

26

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Canaã, feito pela mídia, como uma das possíveis causas da visão preconceituosa que habitantes de outras localidades de Uberlândia têm em relação aos moradores do Canaã.

De fato, nós temos sérios problemas aqui no bairro, como a questão do envolvimento de alguns jovens do Canaã com o tráfico de drogas. Porém a forma como a mídia aborda essa questão dá a impressão de que todos os moradores são traficantes e marginais, e que tem droga rolando o dia todo. E não é bem isso o que acontece. Tem seus locais, tem seus horários e seus usuários, como em outros bairros. (Moradora 02, 2010)27.

Essa espetacularização dos conflitos existentes no cotidiano da comunidade, feita pela mídia, já havia sido levantada, nos anos de 2005 a 2007, pelos adolescentes que participavam do

Projeto de Teatro. Segundo eles, a maioria das notícias veiculadas em telejornais apenas retratava

alguns aspectos do bairro, como a violência e o tráfico de drogas, e outros não eram sequer cogitados, como relatou, na época, uma ex-aluna do Projeto de Teatro, em seu protocolo de aula:

Acontece muito da televisão ou do jornal, noticiar as coisas ruins que acontecem aqui. Por exemplo, se tem uma morte, um assassinato, a mídia no outro dia já está passando na televisão, falando que o bairro é perigoso. Mas eles têm que mostrar as coisas boas que tem no bairro, como por exemplo, o teatro. Eles dão mais ênfase nas coisas ruins, e as coisas boas ficam esquecidas, como se fosse tudo por debaixo dos panos. O que o Canaã tem de bom não é mostrado pela mídia. Por isso as pessoas que não moram aqui têm uma visão ruim do bairro. (Aluna 01, 2005)28.

Em 2005, quando comecei a trabalhar no Projeto de Teatro, percebia como essa visão

preconceituosa estava presente na vida dos adolescentes. Os alunos, na época, relatavam piadas e comentários maldosos que sofriam quando iam passear em outros bairros e diziam que eram moradores do Canaã. Uma aluna descreveu, em seu protocolo, a visão de colegas seus, moradores de outros bairros, em relação ao Canaã, e às limitações que isto acarretava na sua sociabilidade: “Quando eu vou para o treino, no centro da cidade, e meus colegas me perguntam: „Onde você mora? Eu moro no Canaã‟. Logo vem o comentário: „Credo no Canaã‟. Quando chamo eles para jogar bola aqui, o que eu escuto: „Não. Você tá doida? Se eu for lá vou ser assaltado‟”(Aluna 02, 2005)29.

Mudar o olhar que as pessoas tinham em relação ao Canaã, também foi uma das metas da direção do Gladsen, quando implementaram os projetos extracurriculares: “[...] naquele ano de 2005, com a montagem do primeiro espetáculo da escola, nós queríamos que o Canaã pudesse ser noticiado também nas páginas culturais” (REIS, 2009)30. Ao longo da segunda parte dessa dissertação, problematizarei essa questão.

27 MORADORA 02. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 21 fevereiro de 2010. 28 Aluna 01. Protocolo de aula. Uberlândia, 17 agosto de 2005.

29 Aluna 02. Protocolo de aula. Uberlândia, 27 setembro de 2005.

30 REIS, Márcia dos Santos. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 04 de setembro

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A seguir, apresento o segundo passo, para contextualização dos espetáculos do Gladsen, ou seja, análise dos referenciais teóricos alusivos aos sujeitos da pesquisa - os jovens adolescentes do Canaã.

1.2 ADOLESCENTES DO CANAÃ

No estudo sobre os participantes das montagens teatrais do Gladsen, surgem alguns questionamentos iniciais: Como os integrantes do Projeto de Teatro (IMAGEM 3) podem ser

analisados? Seria suficiente caracterizá-los em função de referenciais relativos à faixa etária? Seria correto chamá-los de jovens ou de adolescentes?

Imagem 3 – Turma do Projeto de Teatro.

Foto: Dóris de Fátima Carneiro. Uberlândia, 2007.

1.2.1 Referenciais para definir juventude

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socialmente, variando seu entendimento conforme algumas correntes que os analisam e que são sintetizadas por Luiz Antônio Groppo, da seguinte forma:

-As ciências médicas criaram a concepção de puberdade, referente à fase de transformações no corpo do indivíduo que era criança e que está se tornando maduro.

-A psicologia, a psicanálise e a pedagogia criaram a concepção de adolescência, relativa às mudanças na personalidade, na mente ou no comportamento do indivíduo que se torna adulto.

-A sociologia costuma trabalhar com a concepção de juventude quando trata do período interstício entre as funções sociais da infância e as funções sociais do homem adulto. (GROPPO, 2000, p.13-14).

Diante dessas várias possibilidades, percebi que posso definir os indivíduos, que fizeram parte do Projeto de Teatro, com idades que variavam de 13 a 16 anos, como sendo

adolescentes, visto que a escolha pelo termo adolescente aponta para a faixa etária dos ex-alunos do Projeto de Teatro. Mas, quais seriam as implicações de chamá-los de jovens?

Dentro da sociologia, existem algumas possibilidades de analisar a juventude: a corrente geracional, a corrente classista e o entendimento dos jovens como categoria social. Mas, afinal, do que tratam cada uma dessas três correntes? E quais as suas contribuições para esta pesquisa?

Entre os autores que analisam o conceito de juventude, José Machado Pais é quem nos lembra que, para olharmos a juventude, devemos observá-la na sua diversidade e não na aparente noção de unidade. Na verdade, a juventude não carrega uma noção de unidade, como se existisse um bloco de pessoas que pensa de forma igual, que se veste do mesmo modo, têm os mesmos problemas, alegrias e possibilidades, como é veiculado o tempo todo pela mídia, por intermédio das telenovelas e seriados. Esse conceito está longe de ser real, pois, para os vários indivíduos que se constituem como categoria juvenil, múltiplas diferenças marcam seus comportamentos e várias são as possibilidades às quais têm acesso. Para José Machado Pais, essas tentativas de ver a juventude como um bloco uniforme talvez sejam fruto de ideias propagadas pela corrente geracional, que trabalha dentro de limites de idades: “a corrente geracional toma como ponto de partida a noção de juventude, entendida no sentido de fase de vida, e enfatiza, por conseguinte, o aspecto unitário da juventude” (PAIS, 1996, p.37-38).

A corrente geracional não trabalha com a ideia de diversidade. Para ela, existe um bloco de pessoas caracterizado pela mesma faixa etária, que está submetido às mesmas condições e têm respostas semelhantes às experiências que vivenciam:

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Isto é, para a corrente geracional, as experiências de determinados indivíduos são compartilhadas por outros indivíduos da mesma geração, que vivem, por esse fato, circunstâncias semelhantes e que têm de enfrentar-se com problemas similares. (PAIS, 1996, p. 39).

Outra corrente trabalhada pela sociologia, para entender a juventude, é a Corrente Classista, que identifica uma distinção básica entre os jovens com base em suas classes sociais. Para essa corrente, o momento de transição da juventude para a fase adulta “encontrar-se-ia sempre pautado por desigualdades sociais: quer em nível da divisão sexual do trabalho, quer, principalmente, em nível da condição social” (PAIS, 1996, p.44). Mesmo concordando com essa afirmativa, penso que definir os jovens unicamente pela Corrente Classista pode sugerir uma visão determinista da análise sobre a juventude. Como se explicaria o caso de jovens da mesma classe social assumirem padrões de comportamento tão distintos, ou alguns jovens de classes sociais distintas terem gostos semelhantes em relação à moda e à música, por exemplo.

Considero que a maior contribuição da Corrente Classista, para o estudo dos jovens do Canaã, e dos espetáculos do Gladsen, venha do sociólogo Pierre Bourdieu. Ele indica a possibilidade de existirem basicamente “duas juventudes”, cita, por exemplo, “os jovens que já trabalham” e os “adolescentes da mesma idade (biológica) que são estudantes”. Seu pensamento não se limita apenas à questão do trabalho na adolescência. Ele esclarece que as possibilidades de jovens pertencentes a uma classe social menos favorecida economicamente não são as mesmas das alternativas disponíveis para “adolescentes burgueses”, e continua seu pensamento dizendo que “épor formidável abuso de linguagem que se pode subsumir, no mesmo conceito, universos sociais que praticamente não possuem nada em comum” (BOURDIEU, 1983, p.113–114).

Mediante esse quadro de conceitualizações, uma definição, trabalhada pelo sociólogo Luiz Antônio Groppo, que leva em consideração aspectos levantados por outras correntes, mas avança na caracterização da juventude como uma categoria social, se faz relevante para essa pesquisa:

Podemos definir a juventude como uma categoria social. Tal definição faz da

juventude algo mais do que uma faixa etária ou uma “classe de idade”, no sentido de

limites etários restritos – 13 a 20 anos, 17 a 25 anos, 15 a 21 anos etc. Também, não faz da juventude um grupo coeso ou uma classe de fato. [...] Não existe realmente

uma “classe social” formada, ao mesmo tempo, por todos os indivíduos de uma

mesma faixa etária. [...] Trata-se não apenas de limites etários pretensamente naturais e objetivos, mas também, e principalmente, de representações simbólicas e situações sociais com suas próprias formas e conteúdos. (GROPPO, 2000, p.07-08).

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[...] a juventude como categoria social não apenas passou por várias metamorfoses na história da modernidade. Também é uma representação e uma situação social simbolizada e vivida com muita diversidade na realidade cotidiana, devido à sua combinação com outras situações sociais – como a de classe ou estrato social -, e devido também às diferenças culturais, nacionais e de localidade, bem como às distinções de etnia e de gênero. (GROPPO, 2000, p.15).

Essas combinações sociais, apontadas pelo autor, fazem com que tenhamos vários tipos de jovens, e não um bloco uniforme denominado juventude. Sobre a ideia de pluralidade de juventudes, Groppo é bem claro. Ele acredita que ela se relaciona com fatores socioculturais:

[...] a multiplicidade das juventudes não se funda num vazio social ou num nada cultural, não emerge de uma realidade meramente diversa, ininteligível e esvaecida. Tem como base experiências socioculturais anteriores, paralelas ou posteriores que criaram e recriaram as faixas etárias e institucionalizaram o curso de vida individual

– projetos e ações que fazem parte do processo civilizador da modernidade. (GROPPO, 2000, p. 19).

Essas várias diferenças sociais e culturais referidas pelo autor constituem as juventudes ao longo da história. A partir do pensamento formulado por Groppo, pesquisar sobre juventude é deixar claro a que jovens o estudo se refere e quais os fatores socioculturais estão presentes no seu cotidiano. Dentro desse quadro conceitual, quais seriam, no caso dos jovens adolescentes do Canaã, os fatores socioculturais presentes na sua comunidade, que afetam diretamente suas vidas? Alguns deles já foram mostrados anteriormente, dentre eles as questões sociais, econômicas e culturais, tais como: trabalho infantil, baixo poder aquisitivo da população, falta de opções de lazer, tráfico de drogas, a forma como a mídia aborda os conflitos da comunidade, e o preconceito, fruto dessa abordagem. Aspectos esses que colaboram na caracterização do bairro e, consequentemente, dos jovens do Canaã. Outro fator sociocultural presente na comunidade é a atuação da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, com recorte nos projetos extracurriculares, os quais se propõem a dialogar com os fatores levantados anteriormente. E é a análise do Gladsen e de seus projetos extracurriculares de que se trata o último passo da contextualização dessa pesquisa.

1.3 A RELAÇÃO DA ESCOLA COM O CANAÃ

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Pedagógicas de 2001, 2005 e 2007, a instituição desenvolvia projetos tanto na grade curricular como na extracurricular, pois acreditava que por meio deles os alunos poderiam compreender o seu cotidiano: “a Escola Municipal Dr. Gladsen Guerra de Rezende procura adotar em seu cotidiano escolar projetos que possam dar possibilidade aos alunos de compreenderem a realidade em que estão inseridos, de maneira lúdica e criativa” (Proposta Político Pedagógica da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, 2007, p. 5).

A referida instituição foi uma das primeiras, do município de Uberlândia (MG), a trabalhar com projetos artísticos desenvolvidos na grade extracurricular, os quais fizeram parte de uma concepção de currículo em que a escola acreditava. Como nos explica a ex-vice-diretora, Márcia dos Santos Reis:

Existiam [se referindo aos anos de 2001 e 2002] algumas escolas que trabalhavam alguns projetos [extracurriculares] isolados, como a dança, mas não como nossa proposta, onde os projetos faziam parte do currículo. Essa era a concepção de currículo que a gente tinha, na qual os projetos extracurriculares não eram um

“penduricalho” qualquer. (REIS, 2009)31.

Ao longo dos anos de existência do Gladsen, várias foram as ações que a instituição desenvolveu no propósito de estabelecer diálogo com a comunidade do Canaã. Entende-se por diálogo tanto o levar a comunidade para dentro da escola, quanto o responder aos conflitos que esta vivia. Entre essas ações, destaco: as reuniões de pais; o conselho escolar, constituído por pais e profissionais da escola; o grêmio estudantil; o clube das mães; os projetos desenvolvidos na grade curricular e na extracurricular; alguns eventos, como a Festa da Primavera, a Festa Junina, as exposições artística; entre outros.

Cito todos esses eventos, para mostrar que a ligação da escola com a comunidade não estava restrita apenas aos projetos extracurriculares. A opção pelo recorte nesses projetos, e, em especial, no do teatro, no qual atuei como professor durante quatro anos, se deu por uma escolha pessoal.

1.3.1 Idealização dos projetos extracurriculares

Para iniciar a análise sobre a implementação dos projetos extracurriculares, começarei pelo momento que antecedeu a sua idealização, que foi a posse, no ano de 2001, de uma nova gestão para o Gladsen. Dentro dessa nova administração, estavam duas mulheres que seriam fundamentais no processo de idealização e implementação dos projetos extracurriculares na

31 REIS, Márcia dos Santos. Entrevista concedida a Wellington Menegaz de Paula. Uberlândia, 04 de setembro

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