VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1

Texto

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VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS

VOL. 1

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PEMBROKE COLLINS CONSELHO EDITORIAL

PRESIDÊNCIA Felipe Dutra Asensi

CONSELHEIROS Adolfo Mamoru Nishiyama (UNIP, São Paulo)

Adriano Moura da Fonseca Pinto (UNESA, Rio de Janeiro) Adriano Rosa (USU, Rio de Janeiro)

Alessandra T. Bentes Vivas (DPRJ, Rio de Janeiro) Arthur Bezerra de Souza Junior (UNINOVE, São Paulo)

Aura Helena Peñas Felizzola (Universidad de Santo Tomás, Colômbia) Carlos Mourão (PGM, São Paulo)

Claudio Joel B. Lossio (Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal) Coriolano de Almeida Camargo (UPM, São Paulo)

Daniel Giotti de Paula (INTEJUR, Juiz de Fora)

Danielle Medeiro da Silva de Araújo (UFSB, Porto Seguro) Denise Mercedes N. N. Lopes Salles (UNILASSALE, Niterói) Diogo de Castro Ferreira (IDT, Juiz de Fora)

Douglas Castro (Foundation for Law and International Affairs, Estados Unidos) Elaine Teixeira Rabello (UERJ, Rio de Janeiro)

Glaucia Ribeiro (UEA, Manaus)

Isabelle Dias Carneiro Santos (UFMS, Campo Grande) Jonathan Regis (UNIVALI, Itajaí)

Julian Mora Aliseda (Universidad de Extremadura. Espanha) Leila Aparecida Chevchuk de Oliveira (TRT 2ª Região, São Paulo) Luciano Nascimento (UEPB, João Pessoa)

Luiz Renato Telles Otaviano (UFMS, Três Lagoas) Marcelo Pereira de Almeida (UFF, Niterói) Marcia Cavalcanti (USU, Rio de Janeiro) Marcio de Oliveira Caldas (FBT, Porto Alegre)

Matheus Marapodi dos Passos (Universidade de Coimbra, Portugal) Omar Toledo Toríbio (Universidad Nacional Mayor de San Marcos, Peru) Ricardo Medeiros Pimenta (IBICT, Rio de Janeiro)

Rogério Borba (UVA, Rio de Janeiro)

Rosangela Tremel (Juscibernética, Florianopolis) Roseni Pinheiro (UERJ, Rio de Janeiro) Sergio de Souza Salles (UCP, Petrópolis) Telson Pires (Faculdade Lusófona, Brasil) Thiago Rodrigues Pereira (Novo Liceu, Portugal) Vania Siciliano Aieta (UERJ, Rio de Janeiro)

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FELIPE ASENSI, LUCAS MANOEL DA SILVA CABRAL, NARA RÚBIA ZARDIN, ROSÂNGELA TREMEL

VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS

VOL. 1

PEMBROKE COLLINS Rio de Janeiro, 2022

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Copyright © 2022

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Felipe Asensi, Lucas Manoel da Silva Cabral, Nara Rúbia Zardin, Rosângela Tremel (orgs.)

DIREÇÃO EDITORIAL Felipe Asensi

EDIÇÃO E EDITORAÇÃO Felipe Asensi

REVISÃO Coordenação Editorial Pembroke Collins

PROJETO GRÁFICO E CAPA Diniz Gomes

DIAGRAMAÇÃO Diniz Gomes

DIREITOS RESERVADOS A

PEMBROKE COLLINS Rua Pedro Primeiro, 07/606 20060-050 / Rio de Janeiro, RJ info@pembrokecollins.com www.pembrokecollins.com

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

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FINANCIAMENTO

Este livro foi financiado pelo Conselho Internacional de Altos Estudos em Direito (CAED-Jus), pelo Conselho Internacional de Altos Estudos em Educação (CAEduca) e pela Pembroke Collins.

Todas as obras são submetidas ao processo de peer view em formato double blind pela Editora e, no caso de Coletânea, também pelos Organizadores.

Bibliotecária: Aneli Beloni CRB7 049/21.

V832

Visões interdisciplinares sobre políticas públicas / Felipe Asensi, Lucas Manoel da Silva Cabral, Nara Rúbia Zardin e Rosângela Tremel (organizadores). – Rio de Janeiro: Pembroke Collins, 2021.

v. 1; 422 p.

ISBN 978-65-89891-53-6

1. Ciência política. 2. Políticas públicas. 3. Direito. 4. Interdisciplinaridade.

I. Asensi, Felipe (org.). II. Cabral, Lucas Manoel da Silva (org.). III. Zardin, Nara Rúbia (org.). IV. Tremel, Rosângela (org.).

CDD 320

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SUMÁRIO

ARTIGO - COMUNICAÇÃO E PP 13

FASCISMO, FAKE NEWS E AS TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO COMO ESTRATÉGIAS DA EXTREMA-DIREITA NO BRASIL E NO MUNDO 15 Adriano Rodrigues de Oliveira

Bianca Pessoa Tenório Wanderley

ARTIGOS - ECONOMIA E PP 31

O CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA COMO ORGANIZAÇÃO SOCIAL: BENEFÍCIOS PARA O BIONEGÓCIO AMAZONENSE 33 Bárbara Dias Cabral

Dimas José Lasmar

O IMPACTO DO REGIME DE METAS DE INFLAÇÃO DO BRASIL SOBRE A

INFLAÇÃO E A DÍVIDA PÚBLICA 50

Thaís Marculino da Silva

Thayse Andrezza Oliveira Do Bu Araújo Adeilson Elias de Souza

O PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A ECONOMIA CRIATIVA 70 Lilian Bastos Ribas de Aguiar

ARTIGOS - FILOSOFIA E PP 83

O CONCEITO DE AULA SOB A PERSPECTIVA DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA 85 Gilcimar Bermond Ruezzene

O USO DE FAKE NEWS NA SOCIEDADE DO ESPÉTACULO DE GUY DEBORD 98 Renata Marafon

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PASSAPORTE DA VACINA: LIBERDADE INDIVIDUAL VS. BEM COMUM 118 Beatriz Caputo Weiss Xavier

Rodolpho da Silva Messias

ARTIGOS - FINANÇAS E TRIBUTOS 133

POLÍTICAS PÚBLICAS TRIBUTÁRIAS EM TEMPOS DE PANDEMIA 135 Beatriz Ribeiro Lopes Barbon

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O COMPLIANCE TRIBUTÁRIO 152 Fabrizio Bon Vecchio

Débora Manke Vieira

ARTIGO - GLOBALIZAÇÃO 169

EQUÍVOCOS E RESPOSTAS DO GLOBALISMO NO PANORAMA

PÓS-MODERNO 171

Fabiana Beppler

ARTIGO - HISTÓRIA DAS PP 183

HISTÓRIA E MEMÓRIA: MESTRE DE BALSAS E ESTIVADORES DO RIO

PARNAÍBA NAS DÉCADAS DE 1950 A 1964 – URUÇUÍ (PI) 185 Maria dos Anjos Gomes Leite

ARTIGO - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL 201

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO INSTRUMENTO PROPULSOR PARA O DESENVOLVIMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS UNIFICADAS NO

COMBATE E PREVENÇÃO DO SUICÍDIO 203

Fernanda Diógenes Gomes Vieira

ARTIGO - LITERATURA E PP 221

A LETRA ESCARLATE, DE NATHANIEL HAWTHORNE: OS REFLEXOS DO

PURITANISMO RELIGIOSO NOS PERSONAGENS PRINCIPAIS 223 Ailton Dourado Silva

Lubia Faeth Alves Ferreira

ARTIGOS - PESQUISAS EMPÍRICAS 241

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TELEMARKETING DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19 243 Francisca Jamily de Souza Lima

Gabrielle Ingrid Pereira Ribeiro Thaís Vieira Nogueira Feitosa

Adalberto Benevides Magalhães Neto

A PERCEPÇÃO DE FUTUROS GESTORES SOBRE RESPONSABILIDADE

SOCIAL CORPORATIVA 262

Erika Oliveira Uchoa

Thaís Vieira Nogueira Feitosa Cristiane Madeiro Araújo Souza

ARTIGO - PP E PANDEMIAS 281

UMA ANÁLISE DA SINDEMIA ENTRE A PANDEMIA DA COVID-19 E OS

CONTEXTOS DE VULNERABILIDADES SOCIAIS 283

Olga Veloso da Silva Oliveira Anderson Veloso da Silva

João Batista Lima do Nascimento Marcio de Vasconcelos Maciel

ARTIGOS - TEORIA DAS PP 299

MÚLTIPLOS FLUXOS E COALIZÃO DE DEFESA: APROXIMAÇÕES E

LIMITAÇÕES TEÓRICAS 301

Ana Paula Lima dos Santos

A HISTORICIDADE DA POLÍTICA PÚBLICA NO CONTEXTO BRASILEIRO:

UMA ANALÍTICA DAS EXPRESSÕES POLICY, POLITY E POLITICS 318 João Ygor Gomes

ARTIGOS - TEORIA DO ESTADO 337

DECAIMENTO DEMOCRÁTICO À BRASILEIRA: UM ENSAIO SOBRE A

ASCENSÃO DOS REGIMES ILIBERAIS NO BRASIL 339 Pedro Henrique Freitas Silva Lima

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A SEPARAÇÃO DOS TRÊS PODERES: UMA ABORDAGEM A PARTIR DA

OBRA DE MONTESQUIEU 354

Antonio Guedes Cavalcante Júnior Danilo Barbosa Granja

Fernando Antonio Alves dos Santos

DISCRICIONARIEDADE JUDICIAL E O DIREITO COMO INTEGRIDADE DE

RONALD DWORKIN 366

Danielly Novais do Rego

“EU SOU, REALMENTE, A CONSTITUIÇÃO!”: UMA ANÁLISE DE

BOLSONARO SOB A ÓTICA DE CARL SCHMITT 381

Kerston Marques Silva Benevides

RESUMOS 393

POLÍTICA ECONÔMICA NA NSN: SOB O ASPECTO DA POLÍTICA FISCAL E

MONETÁRIA 395

Maysa Gilhermina de Oliveira Marindia Feliciano dos Santos

ATIVIDADE DAS ONGS CONTRA A PESCA INCIDENTAL EM ALTO-MAR:

EXTERNALIDADES POSITIVAS OU NEGATIVAS? 401 Maysa Gilhermina de Oliveira

Marindia Feliciano dos Santos

DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO JURÍDICA: O DILEMA DO DIFÍCIL ACESSO AO DIREITO E AO SISTEMA DE DISTRIBUIÇÃO DE JUSTIÇA NO

BRASIL 406

Lethícia Santos Silva

A EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS 411 Beatriz Ribeiro Lopes Barbon

CONTRA A LIBERDADE ABSTRATA: A AUTONOMIA DOS GRUPOS SOCIAIS

NO TRADICIONALISMO HISPÂNICO 416

Vitor Monteiro Raimondi

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CONSELHO CIENTÍFICO DO CAED-Jus

• Adriano Rosa (Universidade Santa Úrsula, Brasil)

• Alexandre Bahia (Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil)

• Alfredo Freitas (Ambra College, Estados Unidos)

• Antonio Santoro (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)

• Arthur Bezerra de Souza Junior (Universidade Nove de Julho, Brasil)

• Bruno Zanotti (PCES, Brasil)

• Claudia Nunes (Universidade Veiga de Almeida, Brasil)

• Daniel Giotti de Paula (PFN, Brasil)

• Danielle Ferreira Medeiro da Silva de Araújo (Universidade Federal do Sul da Bahia, Brasil)

• Denise Salles (Universidade Católica de Petrópolis, Brasil)

• Edgar Contreras (Universidad Jorge Tadeo Lozano, Colômbia)

• Eduardo Val (Universidade Federal Fluminense, Brasil)

• Felipe Asensi (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil)

• Fernando Bentes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil)

• Glaucia Ribeiro (Universidade do Estado do Amazonas, Brasil)

• Gunter Frankenberg (Johann Wolfgang Goethe-Universität - Frankfurt am Main, Alemanha)

• João Mendes (Universidade de Coimbra, Portugal)

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• Jose Buzanello (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil)

• Klever Filpo (Universidade Católica de Petrópolis, Brasil)

• Luciana Souza (Faculdade Milton Campos, Brasil)

• Marcello Mello (Universidade Federal Fluminense, Brasil)

• Maria do Carmo Rebouças dos Santos (Universidade Federal do Sul da Bahia, Brasil)

• Nikolas Rose (King’s College London, Reino Unido)

• Oton Vasconcelos (Universidade de Pernambuco, Brasil)

• Paula Arévalo Mutiz (Fundación Universitária Los Libertadores, Colômbia)

• Pedro Ivo Sousa (Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil)

• Santiago Polop (Universidad Nacional de Río Cuarto, Argentina)

• Siddharta Legale (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil)

• Saul Tourinho Leal (Instituto Brasiliense de Direito Público, Brasil)

• Sergio Salles (Universidade Católica de Petrópolis, Brasil)

• Susanna Pozzolo (Università degli Studi di Brescia, Itália)

• Thiago Pereira (Centro Universitário Lassale, Brasil)

• Tiago Gagliano (Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Brasil)

• Walkyria Chagas da Silva Santos (Universidade de Brasília, Brasil)

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SOBRE O CAED-Jus

O Conselho Internacional de Altos Estudos em Direito (CAED-Jus) é iniciativa consolidada e reconhecida de uma rede de acadêmicos para o desenvolvimento de pesquisas jurídicas e reflexões interdisciplinares de alta qualidade.

O CAED-Jus desenvolve-se via internet, sendo a tecnologia par- te importante para o sucesso das discussões e para a interação entre os participantes através de diversos recursos multimídia. O evento é um dos principais congressos acadêmicos do mundo e conta com os seguintes di- ferenciais:

• Abertura a uma visão multidisciplinar e multiprofissional sobre o direito, sendo bem-vindos os trabalhos de acadêmicos de diversas formações;

• Democratização da divulgação e produção científica;

• Publicação dos artigos e resumos em livro impresso no Brasil (com ISBN), com envio da versão digital aos participantes;

• Interação efetiva entre os participantes através de ferramentas via internet;

• Exposição permanente do trabalho e do vídeo do autor, durante o evento, no site para os participantes;

O Conselho Científico do CAED-Jus é composto por acadêmicos de alta qualidade no campo do direito em nível nacional e internacional, tendo membros do Brasil, Estados Unidos, Colômbia, Argentina, Portu- gal, Reino Unido, Itália e Alemanha.

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Em 2021, o CAED-Jus organizou o seu tradicional Congresso In- terdisciplinar de Políticas Públicas (ConiPUB 2021), que ocorreu entre os dias 27 e 29 de outubro de 2021 e contou com 50 Áreas Temá- ticas e mais de 250 artigos e resumos expandidos de 43 universidades e 22 programas de pós-graduação stricto sensu. A seleção dos trabalhos apre- sentados ocorreu através do processo de peer review com double blind, o que resultou na publicação dos livros do evento.

Esta publicação é financiada por recursos do Conselho Internacional de Altos Estudos em Direito (CAED-Jus), do Conselho Internacional de Altos Estudos em Educação (CAEduca) e da Editora Pembroke Collins e cumpre os diversos critérios de avaliação de livros com excelência acadê- mica nacionais e internacionais.

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ARTIGO - COMUNICAÇÃO E PP

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FASCISMO, FAKE NEWS E AS

TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO COMO ESTRATÉGIAS DA EXTREMA- DIREITA NO BRASIL E NO MUNDO

Adriano Rodrigues de Oliveira1 Bianca Pessoa Tenório Wanderley2

INTRODUÇÃO

Ao longo das décadas de 1930 e 1940, o mundo observou a ascensão e queda dos regimes nazista e fascista na Europa. Esses regimes totalitários não cresceram e se sustentaram ao longo deste período exclusivamente por meio do aparato militar, mas também por meio de um aparato ideológico operacionalizado pela propaganda. A veiculação de mensagens, símbolos e imagens para a mobilização de determinados valores e emoções tornou- -se elemento fundamental para o estabelecimento da ideologia autoritária nas sociedades em que esses regimes emergiram.

No século XXI, após várias décadas de transformação política e so- cial, observamos a consolidação total ou parcial da democracia liberal como

1 Graduado em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo (USP). Aluno do curso de especialização em Comunicação Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

2 Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Aluna do curso de especialização em Comunicação Política da Universidade Federal de Pernambu- co (UFPE).

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regime político e do Estado de direito como sistema de justiça no mundo ocidental. Contudo, os fatos mais recentes do cenário político mundial re- velam que permanece possível a ascensão de líderes autoritários capazes de mobilizar os sentimentos das massas por meio da propaganda e do uso de símbolos e imagens, fragilizando a própria democracia e resgatando práticas que nos remetem ao período do nazifascismo, ao menos no que se refere à construção estética e propagandística dos seus líderes e movimentos.

No Brasil, após as conturbadas eleições presidenciais de 2018, chegou à chefia do Poder Executivo federal Jair Bolsonaro, um deputado federal há quase 30 anos no legislativo e desde sempre identificado com pautas ligadas aos interesses de agentes de segurança, militares, policiais, bem como a valores reacionários no campo dos costumes, tal como os movi- mentos antiaborto e antidrogas. Nesse sentido, Bolsonaro pode ser colo- cado no mesmo campo de outros líderes de perfil populista de extrema- -direita que se elegeram pelo mundo nos últimos anos, tal como Donald Trump (EUA), Viktor Orbán (Hungria), entre outros.

O governo Bolsonaro, bem como o movimento que se forma em torno de si, denominado bolsonarismo, tem como uma de suas princi- pais características a promoção de atos, eventos, imagens e declarações que buscam fidelizar e radicalizar cada vez mais seus adeptos e apoiadores, realizados pelo próprio Bolsonaro ou por seus ministros e assessores. Em alguns desses episódios, amplamente divulgados nos meios de comunica- ção nacionais, observam-se possíveis diálogos com os elementos essenciais do fascismo e nazismo, tanto do ponto de vista comunicacional quanto ideológico.

Nesse contexto, a ampliação do acesso à internet e as plataformas di- gitais de comunicação e notícias fez avançar, por um lado, a pluralidade de conteúdos – inclusive de canais alternativos aos discursos hegemônicos da grande mídia –, e por outro a vulnerabilidade do público em geral às investidas da desinformação e das notícias falsas. O avanço desenfreado dos processos de desinformação, alimentado por lideranças populistas de extrema-direita nacionais e internacionais, contribui para a construção de um ambiente fértil para o fortalecimento de ideologias autoritárias na sociedade e no ambiente político.

O uso de robôs e contas falsas para disseminação de conteúdos polí- ticos, bem como a formação de bolhas informacionais, trazem à tona os

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ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

desafios da relação do ser humano com a tecnologia e seu impacto na polí- tica. Os algoritmos e a inteligência artificial usados para fins políticos e de manutenção de poder tornaram-se peça importante da dinâmica eleitoral em todo o mundo, favorecendo o engajamento de eleitores com base em discursos de ódio que circulam no ambiente digital.

Diante do exposto, o presente trabalho busca, por um lado, discutir a presença do espectro fascista no ambiente político contemporâneo utili- zando como estudo de caso o chamado bolsonarismo e suas lideranças, e por outro lado busca-se apontar os desafios contemporâneos relacionados ao avanço tecnológico e o uso da tecnologia no debate político digital, por meio tanto de aportes teóricos como de dados secundários.

A PRESENÇA DO ESPECTRO FASCISTA NO AMBIENTE POLÍTICO CONTEMPORÂNEO

Desde 1989, com a consolidação da Constituição Cidadã, a redemo- cratização pós-ditadura e o retorno do sufrágio universal, o Brasil vem ex- perimentando o seu mais longo período de relativa estabilidade democrá- tica. Contudo, a partir de 2013, com a realização de protestos em massa, o surgimento da operação lava-jato em 2014, e o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, o país tem se tornado palco de uma constante e aguda crise política e social. Turbulências políticas semelhantes são encontradas também em outros países, e é neste cenário que observamos a ascensão de líderes populistas de direita e extrema-direita, de postura autoritária, e que se utilizaram de diferentes mecanismos de propaganda para mobilizar sentimentos da população. Em alguns casos, é possível observar caracterís- ticas semelhantes às do nazifascismo.

A linguagem utilizada na comunicação e na propaganda dos regimes nazista e fascista possui em comum alguns elementos fundamentais: culto à figura de um líder, de um mito; defesa do ultranacionalismo; militariza- ção da nação; escolha de um “inimigo” especial para difamação constante;

apelo às emoções, evitando ideias abstratas. Nos dias atuais, líderes popu- listas de extrema-direita com objetivo de instaurar regimes de controle, mobilizam seguidores utilizando um ou mais desses elementos. Estes o fa- zem muitas vezes invocando o direito à liberdade de expressão consolida- do nas democracias liberais do ocidente, em muitos casos com o objetivo

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implícito ou explícito de fragilizar o próprio regime democrático. Stanley (2020) aponta sobre isso:

A democracia, ao permitir a liberdade de expressão, abre espaço para que um demagogo explore a necessidade que o povo tem de um homem forte; o homem forte usará essa liberdade para se aproveitar dos ressentimentos e medos das pessoas [...]. Os fas- cistas sempre estiveram familiarizados com essa receita de usar as liberdades da democracia contra ela mesma. O ministro da pro- paganda nazista, Joseph Goebbels, declarou certa vez: “Essa será sempre uma das melhores piadas da democracia, que ela deu a seus inimigos mortais os meios pelos quais foi destruída”. Hoje não é diferente do passado. Mais uma vez, encontramos inimigos da de- mocracia liberal empregando essa estratégia, levando a liberdade de expressão aos seus limites e, por fim, utilizando-a para subverter o discurso dos outros. (STANLEY, 2020, p. 45).

Nesse contexto, destaca-se ainda a importância do uso da tecnologia, sobretudo as redes sociais e os aplicativos de troca de mensagens, no debate público contemporâneo. O uso dessas ferramentas, que têm em si a forte atuação de algoritmos e Big Data, por líderes populistas de extrema-direita têm se mostrado eficiente no manejo e propagação de suas ideias, valores e visões de mundo. A produção de conteúdo personalizado para um pú- blico-alvo e fora dos controles e da checagem de fatos é uma característica central desse tipo de comunicação, conforme aponta Da Empoli (2020):

Hoje, o tratamento dos físicos estatísticos permite enviar uma mensagem personalizada a cada eleitor com base nas características individuais. Isso possibilita uma comunicação muito mais eficaz e racional do que no passado, mas levanta algumas questões proble- máticas. [...] Pode-se, por exemplo, abordar argumentos mais con- troversos, endereçando-os somente àqueles que lhe são sensíveis, sem correr o risco de perder apoio de outros eleitores que pensam diferente. Como grande parte dessa atividade se passa nas redes so- ciais, isso implica, ao menos na aparência, uma comunicação entre pares, mais do que uma mensagem que venha do alto: esse tipo de propaganda viral escapa a qualquer forma de controle e checagem

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ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

de fatos. Se por acaso tiver que ser revelado, sua paternidade pode- rá facilmente ser negada pelo ator político que está na origem do fato divulgado. O resultado é que o que alguns começam a definir como “dog whistle politics”, “política do apito do cão”, quando só alguns percebem o chamado, enquanto outros não ouvem nada.

(DA EMPOLI, 2020, p. 152-153).

No Brasil, onde muitos autores identificam a presença de um fas- cismo típico da sociedade brasileira, observou-se a ascensão de grupos de direita e extrema-direita na política e nos meios de comunicação nos últimos anos. Há diferentes olhares sobre a questão, nos quais pode-se afirmar que este fascismo brasileiro sempre existiu, somente não tinha tanta visibilidade, ou que ele de fato emergiu da forma como se apresenta atualmente a partir dos fenômenos políticos ocorridos em 2013 e desen- cadeados por este momento na história. Sobre essa questão, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado apresenta a seguinte perspectiva:

A lógica fascista brasileira é difusa. Ela não é facilmente identifi- cada, pois propaga um ódio mais pulverizado, direcionado a uma massa diversa. É animada por uma mídia que busca seus próprios interesses, uma polícia violenta, um movimento religioso fanáti- co e uma elite sui generis que, na teoria, defende o liberalismo, mas na prática age para defender privilégios. Ao passo que a ex- trema-direita geralmente vê seu povo como superior, encarna o nacionalismo para tanto, o fascismo idiossincrático à brasileira não idolatra a si próprio, mas sim aqueles países que nos barram na imigração. A semente do fascismo tropical está presente em todas as classes, em todas as regiões. Há quem diga que ele piorou após junho de 2013. Há quem acredite que sempre foi assim e que ele apenas mostrou sua cara como tendência da polarização. Há ain- da quem afirme que se trata simplesmente de backlash, ou seja, uma retaliação, resultado das incipientes mudanças nas estruturas da profunda desigualdade brasileira. (PINHEIRO MACHADO, 2019, p. 71-72).

A presença permanente do autoritarismo na sociedade brasileira, que pode ser entendida como uma espécie de “fascismo popular” (SOUZA,

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2019) abre um largo espaço para a circulação e apropriação dos discursos propagados pelas lideranças populistas de extrema-direita. Independente- mente de sua origem e desenvolvimento, o fato é que esta realidade está muito presente nos dias atuais e têm ditado os rumos e pautas do deba- te público e das decisões dos atores políticos. A análise deste fenômeno é de fundamental importância para a compreensão do atual “espírito do tempo” de nossa geração e dos caminhos necessários e possíveis para sua superação e garantia da democracia e do futuro das próximas gerações.

A utilização de elementos que dialogam com a estética e a propagan- da nazifascista é motivo no mínimo de atenção para todos aqueles que desejam compreender como esses líderes populistas de extrema-direita mobilizam sentimentos, símbolos e discursos para se dirigir tanto a seus a apoiadores quanto à sociedade em geral, e como isso impacta o ambiente democrático de uma sociedade.

ALGUMAS EVIDÊNCIAS DA APROXIMAÇÃO ENTRE O BOLSONARISMO E O NAZIFASCISMO

A relação entre o político Jair Bolsonaro e grupos neonazistas no Bra- sil não é recente. A antropóloga Adriana Dias Ferreira, que pesquisa so- bre as atividades desses grupos há mais de vinte anos, encontrou provas em seus arquivos de que neonazistas brasileiros apoiam Bolsonaro há pelo menos 17 anos.3 No material levantado desde 2006 há um banner de pro- paganda de Bolsonaro presente em um grande site neonazista e também uma carta escrita por ele direcionada a esse público, evidenciando que sua base de apoio foi formada ao longo do tempo, ao menos em parte, de grupos neonazistas e simpatizantes do nazifascismo.

Já no tempo presente, alguns episódios envolvendo Bolsonaro e seus apoiadores, amplamente divulgados nos meios de comunicação nacio- nais, fornecem evidências de possíveis semelhanças e referências estéticas e ideológicas com os regimes nazifascistas do século XX, sendo algumas mais sutis e outras bastante explícitas. Um dos episódios mais notáveis neste âmbito foi o caso do ex-Secretário Especial de Cultura Roberto Al-

3 DEMORI, Leandro. Pesquisadora encontra carta de Bolsonaro publicada em sites neona- zistas em 2004. The Intercept Brasil, 2021. Disponível em: <https://bityli.com/zfRC5> Acesso em: 13/09/2021.

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vim. O então colaborador do governo Bolsonaro fez um pronunciamen- to em que copiou uma citação do ministro da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, para divulgar o Prêmio Nacional das Artes.4 Além disso apresentou um cenário no vídeo muito semelhante às imagens históricas em que Goebbels aparece, constituindo uma estética geral de clara referência nazista. O fato provocou ampla repercussão negativa, o que levou à exoneração do então responsável pela política cultural do país.

Em episódio mais recente, Bolsonaro participou de uma reunião na qual recebeu a parlamentar alemã Beatrix von Storch, neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das finanças de Hitler, e expoente do partido conservador nacionalista.5 A parlamentar já se referiu a imigran- tes como “horda de estupradores” e defendeu que a polícia abrisse fogo contra mulheres e crianças que tentassem entrar no país. A parlamentar se referiu a Bolsonaro como alguém “humilde” e “amável” e posteriormen- te sugeriu a criação do que chamou de uma "internacional conservadora"

com o apoio de Bolsonaro e outros líderes de extrema-direita.6

Esse movimento de aproximação de políticos brasileiros com o nazi- fascismo não se resume apenas a discursos e reuniões, mas provoca efeitos reais. O aumento explosivo de denúncias de crimes cibernéticos ligados à apologia do nazifascismo, bem como o aumento da presença de células nazifascistas pelo país, evidenciam a materialização e os efeitos da circu- lação dessas ideias e símbolos autoritários propagados por autoridades pú- blicas, sobretudo ligadas ao bolsonarismo.7 Ao mesmo tempo, o bolsona-

4 GOES, Bruno. Roberto Alvim copia discurso do nazista Joseph Goebbels e causa onda de indignação. Jornal O Globo, 2020. Disponível em: <https://bityli.com/5rFE6>. Acesso em:

11/09/2021.

5 BBC. Beatrix von Storch: quem é a líder da extrema-direita alemã que se reuniu com Bolso- naro. Portal G1, 2021. Disponível em: <https://bityli.com/3G373>. Acesso em: 11/09/2021.

6 SANCHEZ, Mariana. Neta de ministro de Hitler, deputada alemã sugere 'internacional con- servadora' com Bolsonaro. BBC News, 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portu- guese/brasil-58325310>. Acesso em: 11/09/2021

7 MENA, Fernanda. Brasil vive escalada de grupos neonazistas e aumento de inquéritos de apologia do nazismo na PF. Folha de S. Paulo, 2021. Disponível em: <https://bityli.com/

tTdwli>. Acesso em: 11/09/2021.

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rismo tem como um de seus alvos prefenciais as mulheres e a imprensa, o que se evidencia com os inúmeros ataques feitos a jornalistas.8

Por fim, cabe destacar o papel da tecnologia e das redes sociais na pro- pagação dessas ideias no mundo contemporâneo, o que leva à necessidade de se fazer uma reflexão sobre a relação dos seres humanos com a tecno- logia e seus possíveis impactos sociais, políticos e também humanitários.

A RELAÇÃO DO SER HUMANO COM A TECNOLOGIA E OS RISCOS DO AVANÇO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O debate filosófico e sociológico sobre inteligência artificial contribui para evidenciar um conjunto de dúvidas e questões inescapáveis ao pen- samento sobre humanidade e tecnologia no mundo contemporâneo. Por exemplo, se num futuro próximo as máquinas tornarão de fato nossa vida melhor ou se serão ferramentas de potencialização das injustiças. O uso de algoritmos e inteligência artificial em campanhas políticas não escapa a essas possíveis implicações, sendo pertinente a reflexão acerca da relação dos seres humanos com a tecnologia e desta com a política.

Entre os pensadores da tecnologia no mundo contemporâneo, des- tacamos um grupo que podemos denominar como prudencialistas. Estes analisam as possíveis implicações do avanço do desenvolvimento da inte- ligência artificial e nos alertam sobre como este fenômeno pode se voltar contra a própria humanidade. Entre eles, destaca-se aqui o pensamento de Yuval Harari e de Nick Bostrom.

O historiador israelense Yuval Harari alerta para os possíveis perigos envolvendo a inteligência artificial e os sistemas de Big Data, sobretudo no que concerne às questões de guerra e de vigilância, afirmando que muitas pessoas temem a desobediência das máquinas, quando na verdade o pro- blema pode ser exatamente a obediência cega delas:

Um ditador cruel armado com robôs assassinos não precisaria ter medo de que seus soldados se voltassem contra ele, não importa quão perversas e loucas fossem suas ordens. [...] Sistemas de ar- 8 Congresso em Foco. Bolsonaro dá segundo show de grosseria contra uma jornalista em quatro dias. Congresso em Foco, 2021: Disponível em: < https://bityli.com/aQk9f7 > Acesso em: 11/09/2021.

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mas autônomos, no entanto, são uma catástrofe iminente, porque a maioria dos governos são eticamente corruptos, se não explicita- mente malignos. O perigo não se restringe a máquinas de matar.

Sistemas de vigilância podem ser igualmente arriscados. Nas mãos de um governo benigno, algoritmos poderosos de vigilância po- dem ser a melhor coisa que já aconteceu ao gênero humano. Mas os mesmos algoritmos de Big Data podem também dar poder a um futuro Grande Irmão, e podemos acabar em um regime de vigilância orwelliano, no qual todo mundo é monitorado o tempo todo. (HARARI, 2018).

E prossegue afirmando que não é exatamente com uma rebelião das máquinas que devemos nos preocupar, e sim com as decisões do próprio ser humano diante do que as máquinas podem potencializar. Isso ocorre porque há uma diferença entre inteligência e consciência, e que as máqui- nas não possuem esta última:

A ficção científica tende a confundir inteligência com consciência, e supõe que para se equipar ou suplantar a inteligência humana os computadores terão de desenvolver consciência. O enredo básico de quase todos os filmes e livros sobre IA gira em torno do mo- mento mágico no qual um computador ou robô ganha consciên- cia. [...] Porém na realidade não há motivo para supor que a inte- ligência artificial vá desenvolver consciência, porque inteligência e consciência são coisas muito diferentes. Inteligência é a aptidão para resolver problemas. Consciência é a aptidão para sentir coisas como dor, alegria, amor e raiva. Tendemos a confundir os dois porque nos humanos e nos outros mamíferos a inteligência anda de mãos dadas com a consciência. Mamíferos resolvem a maioria dos problemas sentindo coisas. Computadores, no entanto, resolvem problemas de maneira muito diversa. (HARARI, 2018).

Já o professor da Universidade de Oxford Nick Bostrom, na con- clusão da sua obra sobre a superinteligência, nos alerta sobre o problema do controle e do autoaperfeiçoamento recursivo acerca das inteligências artificiais, que precisarão cada vez mais de métodos de segurança. Sobre

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a delicadeza do tema e os perigos que a humanidade pode encontrar no futuro ele afirma:

Diante do prospecto de uma explosão da inteligência, nós, huma- nos, somos como crianças pequenas brincando com uma bomba.

Tamanho é o descompasso entre o poder do nosso brinquedo e a imaturidade da nossa conduta. A superinteligência é um desafio para o qual não estamos preparados atualmente e assim continuare- mos por um longo tempo. Sabemos pouco a respeito do momento em que a detonação ocorrerá, embora seja possível ouvir um fraco tiquetaque quando aproximamos o dispositivo dos nossos ouvidos.

(BOSTROM, 2018).

Seja pela perspectiva prudencialista ou por outras perspectivas, está claro que o debate acerca dos rápidos avanços tecnológicos, sobretudo da inteligência artificial, está muito longe das conclusões. No entanto, as vi- sões aqui apresentadas destacam a importância de se pensar em formas de evitar e mitigar os danos que podem ser causados pelo mau uso da tec- nologia, seja diminuindo o ritmo do avanço ou inovando em segurança.

FAKE NEWS E DESINFORMAÇÃO

Notícias falsas veiculadas não por acaso ou sem querer, mas com in- tenções específicas de enganar, disseminar mentiras, difamar, ou de sim- plesmente fazer a maioria da população ter uma opinião ao invés de outra, são lançadas estrategicamente na internet todos os dias. Além disso, me- canismos baseados em bolhas de informação, que determinam a possibi- lidade de um usuário de ter acesso a notícias sobre um tema específico na internet, conseguem atualmente disparar informações para públicos que têm um perfil específico sem que essas mesmas informações cheguem a outros usuários. Por essas razões, como define Magrani e Oliveira (2018, p. 10) “As deep fakes, os algoritmos, o filter bubble, [...] colocam em xeque a forma como se olha para a realidade, afetando aspectos da vida que vão além das eleições”.

Em seu artigo, Magrani e Oliveira defendem a definição de um có- digo de ética e moral que estabeleça procedimentos não apenas para o

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compartilhamento de informações, mas também para toda a cadeia de produção de notícias. No entanto, em um mundo comandado pelo inte- resse de grandes corporações transnacionais de diversas áreas de atuação, incluindo as de comunicação, como as redes sociais, e de pesquisa, como os buscadores, pensar na aplicação de um código de ética que regule ou impeça os seus projetos de controle e interesses capitalistas é, no míni- mo, utópico.

Os autores defendem “a possibilidade de se compreender as platafor- mas digitais como esferas públicas abstratas, dotadas de grande potencial comunicativo e democrático” (2018, p. 13). O potencial democrático, no entanto, é afetado por essa lógica do capitalismo, da necessidade de geração de lucro de empresas como Facebook (que também controla redes sociais de utilização massiva dentre a população, como Instagram e WhatsApp) e até mesmo pelo interesse dessas corporações, de outros indivíduos ou de grupos políticos que utilizam dados de usuários dessas redes para atingir seus objetivos. Objetivos estes que incluem ganhar eleições e participar da política de forma que seu poder seja mantido.

Ainda que não seja possível calcular com exatidão qual o impacto da ampla circulação de informações e fake news na política, sabemos que elas afetaram diretamente os resultados dos processos eleitorais recentes no país e também em outras partes do mundo. Uma vez que as eleições, em uma democracia representativa, são a principal forma de garantir a partici- pação e soberania do povo nas disputas políticas, quando estas acontecem baseadas em campanhas de desinformação e discurso de ódio acerca dos concorrentes, torna-se um desafio escolher quais representantes de fato caracterizam a vontade do povo.

Uma vez que entendemos que uma maneira eficiente de combater as informações falsas que circulam pela internet e nas redes sociais é atra- vés da checagem minuciosa dos assuntos, podemos dizer que em contra- ponto às fake news está o papel do jornalismo e de seus profissionais. Para Porcello e Brites (2018, p. 11), “a melhor e mais eficiente maneira de evitar a proliferação de informações falsas, mentiras e fake news é a cor- reta e minuciosa checagem dos assuntos e seus desdobramentos”, uma defesa do que os autores chamam de missão primordial do jornalismo, que é “verificar antes de publicar e levar ao público o que for obtido de fonte confiável e verdadeira”.

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No entanto, as notícias falsas e informações sensacionalistas chegam até as pessoas antes das verdadeiras. Para Canavilhas e Ferrari (2018, p. 33) as fake news são “frugais e só existem porque as pessoas precisam de notícias, verdadeiras ou não, para alimentar as próprias certezas”. Além do desejo das pessoas de afirmarem suas convicções através de conteúdos que se tornam oficializados e legitimados por elas próprias, as redes sociais permitem este rá- pido compartilhamento de materiais e estão literalmente na ponta dos dedos da maioria dos cidadãos. Um código de ética, como sugerido por Magrani e Oliveira, não existe e mesmo o aumento no número de agências de checagem e de métodos que buscam alertar pessoas sobre a veracidade daquilo que leem não são o suficiente para dar conta do tamanho do problema.

AS CAMPANHAS BOLSONARISTAS NO 7 DE SETEMBRO

Esse “novo ecossistema mediático em que o usuário já não consegue distinguir a informação falsa da verdadeira, com graves repercussões nas eleições” (CANAVILHAS; FERRARI, 2018, p. 33) foi o grande palco da campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018. Tal campanha não poupou o uso destas ferramentas para garantir que, ainda que de forma manipu- lada, o nome de Bolsonaro estivesse sendo comentado positivamente por usuários de redes sociais, especialmente no WhatsApp e Twitter.

Em um dos casos, ainda durante as campanhas eleitorais de 2018, contratos que chegavam a custar R$ 12 milhões foram feitos entre apoia- dores de Bolsonaro e a empresa espanhola Enviawhatsapps para que fos- sem disparadas massivamente mensagens de apoio ao então candidato em grupos de WhatsApp.9 A prática, que desperta na população uma falsa sensação de que Bolsonaro era querido por mais pessoas do que era na rea- lidade, é considerada ilegal pelo Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, em setembro de 2019, 80% das contas utilizadas para esses disparos de fake news estavam ativas e funcionando com o mesmo objetivo.10 A prática não parou com o final das eleições.

9 ALESSI, Gil; VIEJO, Manuel. Empresários financiaram disparos em massa pró-Bolsona- ro no Whatsapp, diz jornal. El País, 2019. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/bra- sil/2019/06/18/politica/1560864965_530788.html>. Acesso em: 12/09/2021.

10 MILITÃO, Eduardo; Aiuri Rebello. Rede de fake news com robôs pró-Bolsonaro mantém 80% das contas ativas. UOL, 2019. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ul-

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Ao longo de todo o ano de 2021, a esquerda brasileira, seus partidos e movimentos sociais organizaram em todo o país protestos denunciando a má gestão do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19 e o impacto da sua política na vida das pessoas e na economia. Os protestos que aconteceram em mais de 200 cidades no Brasil e no mundo em 29 de maio deste ano, a primeira grande mobilização após o afrouxamento dos proto- colos de segurança contra o coronavírus, levaram organicamente milhares de pessoas às ruas pedindo a saída de Bolsonaro do poder, por mais políticas públicas de saúde, garantia das vacinas e de comida para a população.

Esses atos, realizados com a expertise e sabedoria popular em organi- zar manifestações com larga aderência, mesmo com pouco financiamen- to, aconteceram outras vezes desde então e continuam sendo organizadas em todo o país. Na contramão, apoiadores de Bolsonaro, para demonstrar seu apoio ao presidente e apresentar suas demandas antidemocráticas, or- ganizaram-se para sair às ruas no dia 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, um símbolo do nacionalismo. No entanto, as estratégias de di- vulgação e a aderência das pessoas ao movimento aconteceram através de ferramentas muito diferentes.

Para aumentar a sensação de adesão às passeatas antidemocráticas em 7 de setembro deste ano e, consequentemente, ampliar o interesse de aliados ao presidente em ir às ruas organicamente, bolsonaristas utilizaram de im- pulsionamento artificial de hashtags nas redes sociais. A apuração realizada pelo Radar Aos Fatos11 foi feita a partir da análise de cerca de 330 mil tweets que comparavam as tags #Dia07VaiSerGigante, #Dia7VaiSerGigante, #7de- SetembroVaiSerGigante, e outras como #TheMaskedBrasil, em referência ao programa de TV da Rede Globo, e a palavra “sextou”. O resultado da pesquisa apontou que o desempenho das primeiras tags, em apoio a Bol- sonaro, é 15 pontos mais alto do que o das demais palavras, o que aponta para um crescimento artificial da pauta nas redes sociais. Durante o dia das

timas-noticias/2019/09/19/fake-news-pro-bolsonaro-whatsapp-leicoes-robos-disparo-em- -massa.htm>. Acesso em: 12/09/2021.

11 ELY, Débora; BARBOSA, João. Ação coordenada impulsiona artificialmente convocação para atos de 7 de Setembro no Twitter. Radar Aos Fatos, 2021. Disponível em: <https://

www.aosfatos.org/noticias/acao-coordenada-impulsiona-artificialmente-convocacao-para- -atos-de-7-de-setembro-no-twitter/>. Acesso em: 12/09/2021.

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passeatas, o Bot Sentinel12, plataforma independente de monitoramento de perfis e hashtags nas redes sociais, indicou que a tag #7DESETPELALI- BERDADE era a segunda mais utilizada por robôs no Twitter.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde 2013, o Brasil tem passado por constantes turbulências políti- cas e sociais, que se desdobraram na chegada do bolsonarismo ao poder, com sua concepção autoritária de política e sociedade, tal como foi discu- tido no decorrer do presente trabalho. Simultaneamente, e ligada a isso, está em marcha uma revolução digital que altera a dinâmica do debate político e eleitoral no mundo.

Em um mundo onde a diversidade informacional atinge um pata- mar nunca antes visto, em decorrência do avanço da internet e das redes sociais, cabe indagar se o Brasil tem levado a sério o debate sobre a real importância do trabalho jornalístico para a garantia da verdade e da de- mocracia. É necessário haver um compromisso tanto da própria mídia, quanto dos governos para que as fake news e a pós-verdade não tome todo ou quase todo o debate público. A construção desse compromisso não se dá somente por reposicionamentos e autocríticas pontuais, mas pela ampla discussão na sociedade civil e nos parlamentos acerca do papel e das obri- gações das instituições da imprensa.

Assim, com riscos reais ao ambiente democrático que observamos hoje, não podemos nos dar ao luxo de ter uma imprensa que seja des- compromissada com a garantia da democracia, da apuração rigorosa dos fatos e informações. É necessário também que haja a defesa dos processos democráticos de eleição, desde a sua campanha até a tomada de posse dos candidatos eleitos. É prejudicial à sociedade que fake news tenham tanta influência e poder nos processos eleitorais e quanto mais grupos antide- mocráticos se especializarem no seu uso, mais sombria se tornará a demo- cracia, se é que ainda existirá alguma.

12 CARVALHO, Lucas. 7 de setembro: robôs pró-Bolsonaro inflam apoio a manifestações no Twitter. Tilt UOL, 2021. Disponível em: <https://www.uol.com.br/tilt/noticias/reda- cao/2021/09/07/7-de-setembro-robos-inflam-apoio-a-bolsonaro-no-twitter.htm>. Acesso em: 12/09/2021.

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Por fim, a sociedade civil tem o papel de cobrar constantemente de seus representantes uma resposta firme e democrática contra a propagação de discursos de ódio, desinformação e contra a circulação de ideias e símbolos nazifascistas. Para tanto, nossa relação com o ambiente digital deve ter como norte o aprimoramento do regime democrático e das instituições republica- nas. Ao mesmo tempo, a tecnologia deve estar a serviço do interesse público inclusive como instrumento de educação cidadã e de modernização de pro- cessos participativos. Pois tal como sugere Harari, os efeitos da tecnologia e seu avanço na sociedade são resultado do que nós, humanos, fazemos dela.

REFERÊNCIAS

BOSTROM, N. Superinteligência: caminhos, perigos e estraté- gias para um novo mundo. Darkside; 1ª edição (9 maio 2018).

CANAVILHAS, J.; FERRARI, P. Fact-checking: o jornalismo re- gressa às origens. Jornalismo em tempo de transformação:

desafios de produção e de ação, p. 30-49, 2018.

DA EMPOLI, G. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020.

HARARI, Y. N. Liberdade – Big Data está vigiando você. In: ______. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

MAGRANI, E.; OLIVEIRA, R. M. A esfera pública (forjada) na era das fake news e dos filtros-bolha. Cadernos Adenauer. Fake news e as eleições, 2018.

PINHEIRO-MACHADO, R. Amanhã vai ser maior: o que aconte- ceu com o Brasil e as possíveis rotas de fuga para a crise atual.

São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.

PORCELLO, F. A. C.; DIAS, F. de B. C. Verdade x mentira: a amea- ça das fakenews nas eleições de 2018 no Brasil. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (41.: 2018 set. 02-09: Join- ville, SC). Anais... São Paulo: Intercom, 2018. 2018.

SOUZA, J. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.

STANLEY, J. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e

“eles”. Porto Alegre: L&PM, 2020.

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ARTIGOS - ECONOMIA E PP

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O CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA COMO ORGANIZAÇÃO SOCIAL: BENEFÍCIOS PARA O

BIONEGÓCIO AMAZONENSE

Bárbara Dias Cabral13 Dimas José Lasmar14

INTRODUÇÃO

Instalado em Manaus-AM, em um complexo com área construída de 12 mil metros quadrados, o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) objetiva a criação de alternativas econômicas mediante a inovação tecnológica para o melhor aproveitamento econômico e social da biodi- versidade amazônica de forma sustentável (GOV, 2021). Atualmente en- contra-se sob a égide da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) – uma autarquia vinculada ao Ministério da Economia que administra a Zona Franca de Manaus e as isenções tributárias, além do Amazonas, das áreas dos estados de Rondônia, Roraima, Acre e Amapá.

13 Doutoranda em Biotecnologia na linha de pesquisa Gestão da Inovação (UFAM) no Pro- grama PPGBIOTEC; mestre em Direito Ambiental (UEA); especialista em Gestão Pública e Direito Processual Civil; servidora pública requisitada pelo TRE-AM e advogada (OAB 7565/

AM); ex-professora universitária (graduação e especialização).

14 Doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (2005); professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)/FES/DEA; professor colaborador dos programas de doutorado PPGBiotec e BIONORTE.

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Para melhor atuação do CBA, com base em algumas publicações de especialistas, sugere-se que se transforme numa organização social: tipo de organização privada que se dedica à resolução de problemas sociais, com o intuito de criar valor social de um modo sustentável (BERNAR- DINO, 2017). A ideia está orientada em duas direções: de um lado, a participação do Estado em atividades privadas; e de outro, a participação popular na gestão administrativa, cumprindo-se, no nosso país, o princí- pio constitucional de democracia não apenas representativa, mas também participativa (ERHARDT, 2001).

Com tal informação, vem o seguinte questionamento: é possí- vel prever benefícios para o bionegócio amazonense decorrentes da transformação do Centro de Biotecnologia da Amazônia numa orga- nização social? O trabalho justifica-se pela necessidade de apresentar ao mundo acadêmico e à sociedade os possíveis desdobramentos da alteração de sua natureza jurídica. A pesquisa tem por objetivo apre- sentar o Centro de Biotecnologia da Amazônia como uma instituição fomentadora do bionegócio amazonense, a partir da definição de sua personalidade jurídica.

A metodologia a ser aplicada ao trabalho quanto ao tipo de pesquisa será exploratória. Quanto aos métodos empregados, será bibliográfica e documental. Em relação à técnica de coleta de dados, será aplicada a pes- quisa bibliográfica; já a técnica de análise de dados será qualitativa.

Para tanto, propõe-se com o trabalho apresentar um breve histórico do CBA, bem como sua atual natureza jurídica e seu panorama econômi- co-orçamentário. Além disso, será realizada uma análise das informações jurídicas sobre os benefícios de transformar o CBA em organização social, traçando um paralelo com organizações sociais bem-sucedidas no Brasil, complementando com um panorama do bionegócio no Amazonas.

INFORMAÇÕES PRELIMINARES SOBRE O CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA

O capítulo apresenta um breve histórico do CBA, o posicionando como braço da SUFRAMA. Em seguida, discorre sobre sua atual natu- reza jurídica e os entraves dela decorrentes. Por fim, traça um panorama econômico-orçamentário do CBA.

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BREVE HISTÓRICO DO CBA

O Centro de Biotecnologia da Amazônia surgiu no contexto do florescimento de cursos de pós-graduação no Amazonas, em particular o Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (PPGBIOTEC) da UFAM, aproveitando os potenciais benefícios decorrentes e do progres- so alcançado pela Zona Franca de Manaus. De acordo com a Organiza- ção Internacional do Trabalho (OIT), as zonas francas constituem me- canismos através dos quais são elaboradas as cadeias produtivas globais, por meio de incentivos fiscais e infraestruturais atrativos do investimento direto estrangeiro (OIT, 1998 apud SERÁFICO, 2009). No final dos anos 1950, o Governo Federal brasileiro criou a Zona Franca de Ma- naus (ZFM) (BRASIL, 1957), que foi regulamentada dez anos mais tarde (BRASIL, 1967). No mesmo ano, foi criada a Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), com o intuito de administrar a política de desenvolvimento da Amazônia, em especial na ZFM (BRASIL, 1967).

Já nos anos 2000 (BRASIL, 2002), o CBA foi criado como fruto do Programa Nacional de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia (Probem), no início dos anos 90 do século passado, entrando em funcionamento três anos depois. Entre os objetivos do programa destacam-se: o estímulo ao aumento de competitividade das empresas regionais de biotecnologia e de bioprodutos para os mercados nacional e internacional, bem como da capacitação tecnológica das em- presas regionais em biotecnologia e desenvolvimento de bioprodutos e do avanço tecnológico dos centros de excelência em pesquisa e desenvolvi- mento de biotecnologia instalados na região amazônica. Ademais, busca implantar e assegurar o funcionamento de estruturas laboratoriais e a ca- pacitação técnica e científica nas áreas de bioprospecção, biotecnologia e constituição de bioindústrias.

Em 2008, foi criado o Comitê Interministerial para coordenar a im- plementação do projeto “Centro de Biotecnologia da Amazônia – CBA”

(BRASIL, 2008). O Comitê objetivava propor modelo de gestão para o CBA, deliberar sobre o plano estratégico do CBA, estabelecendo dire- trizes e prioridades e monitorar a execução das ações desenvolvidas pelo CBA, constantes de seu plano de trabalho, determinando as eventuais correções necessárias. Porém, em 2019 (BRASIL, 2019), o referido De-

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creto foi revogado. Desde sua implantação, o CBA tem atuado mais como um órgão da SUFRAMA/MDIC, pelo qual tem sido mantido financeira- mente para suas atividades administrativas e operacionais.

ATUAL NATUREZA JURÍDICA DO CBA

O Centro de Biotecnologia da Amazônia é órgão vinculado à autar- quia federal SUFRAMA. Não possui inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Desde sua criação até o ano de 2015, foi por ela gerido. Porém, em 2015, a responsabilidade de administrá-lo passou a ser feita conjuntamente pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Co- mércio e Serviços (MDIC), Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecno- logia (Inmetro). A gestão compartilhada foi formalizada através do Termo de Execução Descentralizada (MDIC-SUFRAMA-INMETRO, 2015), por meio do qual ocorreu a transferência de créditos da SUFRAMA para o INMETRO.

Em 2018, a Aliança para a Bioecnonomia da Amazônia (Abio) ven- ceu o edital de chamamento público nº 2/2018, do Ministério da Indús- tria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) para gerenciar o CBA (GOV, 2018a). A entidade era formada pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Univerisade do Es- tado do Amazonas (UEA), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tec- nologia do Amazonas (IFAM), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre outros. O objetivo seria transformar o CBA em Organização Social.

Objetivava destinar os recursos orçamentários necessários ao cum- primento do contrato de gestão, estimados em R$ 55.281.242,00 para os cinco anos de vigência do instrumento, bem como destinar bens públicos à organização social celebrante do contrato de gestão, mediante termo de permissão de uso (GOV, 2018b). Porém, no ano posterior, tal edital foi revogado. Havia expressa previsão normativainformando que, a qualquer tempo, o referido Edital poderia ser anulado, no todo ou em parte, por decisão unilateral da Administração Pública.

Por meio de Portaria (SUFRAMA, 2019), foi delegado ao Coorde- nador-Geral de Planejamento e Programação Orçamentária (CGPRO) da Superintendência a competência para planejar, coordenar e supervi-

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sionar a execução de atividades relativas ao apoio à gestão do CBA. Con- siderou-se a necessidade de maior flexibilidade e eficiência na execução dos procedimentos e atividades de apoio à gestão do Centro, bem como na articulação e apoio às iniciativas do setor público, privado e da comu- nidade científica, voltadas para a exploração sustentável da biodiversidade amazônica.

Já em 2020, foi solicitado ao secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia (ME) (CA- MARA, 2021), que o Centro fosse transformado na Fundação Centro de Bionegócios da Amazônia. Embora houvesse parecer favorável da Procu- radoria Federal (CIEAM, 2020), o pedido não prosperou. Tal fundação seria de natureza publica de direito privado – também conhecida como fundação governamental, prevista na Constituição Federal, art. 37, inciso XIX, segunda parte, e no Decreto-Lei nº 200 (BRASIL, 1967). Carvalho Filho (2014) explica que, pelo Princípio da Simetria das Formas Jurídicas, as fundações de direito privado são apenas autorizadas por lei. Quanto à natureza da atividade, são adequadas para a execução de atividades não exclusivas do Estado, como saúde, educação, pesquisa, assistência social, proteção ao meio ambiente, cultura, desporto, turismo, comunicação e previdência complementar de servidor público.

Independentemente da natureza jurídica que assuma, pode-seafirmar que o CBA é fruto de uma política pública. Políticas públicas são aqui entendidas como o "Estado em ação" (GOBERT; MULLER, 1987); é o Estado implantando um projeto de governo, através de programas, de ações voltadas para setores específicos da sociedade (HÖFLING, 2001).

No caso concreto, o CBA é uma consequência de políticas públicas liga- das ao direito à ciência, tecnologia e inovação, ao meio ambiente ecologi- camente equilibrado e à ordem econômica.

PANORAMA ECONÔMICO-ORÇAMENTÁRIO DO CBA

No ano de 2002, para a construção do Centro de Biotecnologia da Amazônia foram gastos R$ 16.823.840,00. A SUFRAMA participou com aproximadamente 71%dos recursos e o Ministério do Meio Am- bente (MMA) arcou com 29%, da obra (MDIC, 2014). Por não possuir personalidade jurídica própria, o CBA sujeita-se a contingenciamento

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dos recursos por parte da SUFRAMA. Como exemplo da dificuldade de acesso a recursos financeiros, até 11/07/2006 (EBC, 2006) o CBA ainda não havia recebido nenhuma parcela dos R$ 10,6 milhões do orçamento previsto para 2006. O Centro estava utilizando os R$ 5,2 milhões do or- çamento de 2005, que foram liberados na segunda semana de dezembro do ano. O montante não representava nem a metade do orçamento total, da ordem de R$ 13,6 milhões.

Já no ano de 2008, o Centro recebeu R$ 1 milhão de repasse, en- quanto a Superintendência possuía R$ 192,2 milhões destinados a inves- timentos na ZFM. Dez anos mais tarde, o edital de chamamento para gestão do CBA (GOV, 2018) previu uma verba de mais de 55 milhões de reais distribuíveis por 5 anos, o que daria uma média de R$ 11 milhões por ano. Mesmo que haja uma década de distância entre as duas épocas, é possível observar que o valor de R$ 1 milhão era insuficiente para a gestão do CBA.

Além da limitação orçamentária, o centro carece de servidores e equipamentos (PELLEGRINO, 2015). Na tentativa de mitigar os entra- ves econômicos, foi proposta a trasnformação do CBA em Empresa Pú- blica (GOV, 2010). Porém esta não prosperou, permancendo como órgão vinculado à SUFRAMA. Tal ausência de autonomia gera, entre outros problemas, entraves econômicos ao CBA. Um exemplo é a impossibilida- de de receber créditos financeiros, destinado a pessoas jurídicas que exer- çam atividades de desenvolvimento ou produção de bens de tecnologias da informação e comunicação que investirem em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (BRASIL, 1991).

De acordo com o gestor do CBA (CIEAM, 2020), Fábio Calderaro, o orçamento anual previsto do CBA é de pouco mais de R$ 2 milhões para custear instalações de 12 mil metros quadrados, 26 laboratórios, núcleo de produção de extratos, uma planta piloto industrial, equipamentos de alto valor que demandam constante manutenção, profissionais especializados, além de custos fixos. A equipe do CBA é composta por 28 integrantes, sendo 23 pesquisadores e 5 administrativos. Seriam necessários, no míni- mo, R$ 14 milhões por ano para que o centro desenvolva suas atividades.

A vinculação do CBA na estrutura regimental da Suframa inviabiliza a operação e o desenvolvimento de suas atividades, cobrar pela execução de serviços tecnológicos, apoiar o empreendedorismo biotecnológico,

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celebrar parcerias, patentear produtos, transferir tecnologia para o setor privado e captar importantes fontes de recursos privados e internacionais.

O CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA E O BIONEGÓCIO AMAZONENSE

O capítulo apresenta vantagens e desvantagens para a transformação do CBA em organização social. Após traçar um panorama do bionegócio amazonense, encerra, entretanto, com destaques das Organizações Sociais bem-sucedidas no Brasil.

O CBA COMO ORGANIZAÇÃO SCIAL

Para melhor compreensão das organizações sociais, é preciso com- preender primeiro o que é Terceiro Setor: entidades da sociedade civil de fins públicos e não lucrativo, instituídas por iniciativa de particulares, para desempenhar serviços sociais não exclusivos do Estado, com incentivo e fis- calização pelo poder público, mediante vínculo jurídico instituído por meio de contrato de gestão (DI PIETRO, 2002). O Terceiro Setor divide-se em Organizações Sociais e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Pú- blico. Estas se caracterizam por serem entes que desempenham atividades de importância social, tais como combate à pobreza, assistência social, pro- moção da saúde, da cultura e da cidadania. E as organizações sociais são definidas como entidades sem fins lucrativos que desenvolvem atividades relacionadas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológi- co, ao meio ambiente, à cultura e à saúde (COUTINHO, 2006).

A transformação do CBA em organização social traria os seguintes benefícios –entre outros – ao Centro, ao Estado e à sociedade e ao bione- gócio amazonense, consoante a Lei nº 9.637/98 (BRASIL, 1998):

• autonomia: ao deixar de vincular-se à SUFRAMA, o CBA pas- saria a ser, em primeiro lugar, uma pessoa jurídica de direito pri- vado, com inscrição própria no Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas (CNPJ) (art. 1º);

• publicidade e transparência: é obrigatória a publicação anual, no Diário Oficial da União, dos relatórios financeiros e do relató-

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rio de execução do contrato de gestão das organizações sociais (art. 2º, inciso I, alínea f). Ademais a seleção da organização da sociedade civil para celebrar parceria deverá ser realizada pela ad- ministração pública federal por meio de chamamento público e deverá apresentar relatório de execução do objeto, na plataforma eletrônica, para fins de prestação de contas anual e final (BRA- SIL, 2016);

• segurança jurídica: há previsão de incorporação integral do patri- mônio, dos legados ou das doações que lhe foram destinados, bem como dos excedentes financeiros decorrentes de suas atividades, em caso de extinção ou desqualificação, ao patrimônio de ou- tra organização social qualificada no âmbito da União, da mesma área de atuação, ou ao patrimônio da União, dos Estados, do Dis- trito Federal ou dos Municípios, na proporção dos recursos e bens por estes alocados ( art. 2º, inciso I, alínea i);

• discricionaridade: há aprovação, quanto à conveniência e oportu- nidade da qualificação da entidade como organização social, do Ministro ou titular de órgão supervisor ou regulador da área de atividade correspondente ao seu objeto socialbem como da des- qualificação da entidade como organização social, procedida pelo Poder Executivo (art. 2º, inciso II c/c art. 16);

• fiscalização: o contrato de gestão (instrumento firmado entre o Poder Público e a entidade qualificada como organização social, com vistas à formação de parceria entre as partes para fomento e execução de atividades) terá sua execução fiscalizada pelo órgão ou entidade supervisora da área de atuação correspondente à ati- vidade fomentada (art. 8º);

• recursos mistos: Além de recursos orinudos da iniciativa privada, são assegurados às organizações sociais os créditos previstos no orçamento e as respectivas liberações financeiras, de acordo com o cronograma de desembolso previsto no contrato de gestão (art.

12, § 1º);

• dispensa de licitação: mediante permissão de uso, aos bens públi- cos necessários ao cumprimento do contrato de gestão (art. 12, § 3º);

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Referências